Os Doors: une saison en enfer

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Há um verso de William Blake que diz que if the doors of perception were cleansed, every thing would appear to man as it is, infinite. Talvez mais do que a inspiração para o nome da banda, os Doors tenham ido buscar a Blake a energia para atravessarem as portas para o território negro dos discos que viriam a criar, celebrando a loucura e o caos. Negar as trevas da alma é só ter metade de um ser humano… e nós tínhamos os dois lados. Os Doors eram um número de equilíbrio entre a luz e as trevas, diz o teclista Ray Manzarek. Tudo começara quatro anos antes, conforme conta Ray Manzarek:  Foi em casa de um amigo, em Venice Beach, que nos encontrámos com o Robby pela primeira vez. Começámos a tocar o «Moonlight Drive» e o Robby disse: «Tenho uma coisa que pode encaixar bem aqui». Abriu um compartimento no estojo da guitarra, onde se guardam as cordas, as palhetas e a droga, e tira de lá um gargalo de garrafa. Enfiou-o no dedo e tocou com o vidro contra as cordas de aço e o Morrison e eu arrepiámo-nos. Era um dos sons mais arrepiantes e fantasmagóricos que alguma vez ouvi. O Jim disse: «É esse o nosso som, meu! Quero isso em todas as canções». Isso e Blake, Kerouack, Ginsberg, Nietsche, Mallarmée e, sobretudo, Rimbaud que Morrison lia obsessivamente:  Caro Wallace Fowlie [à época, professor de literatura francesa, na Duke Universiy e, depois, estudioso da poesia de Morrison], simplesmente queria agradecer-lhe pela tradução de Rimbaud. Eu precisava porque não leio francês tão facilmente (…) Sou cantor de rock e seu livro acompanha-me nas tournées. Jim Morrison”. Durante os quatro anos que separaram a edição do seu primeiro album (Janeiro de1967) da de L.A. Woman, os Doors foram uma das bandas rock mais populares do mundo. E a sua ascensão não pode ser dissociada desse período turbulento de manifestações pacifistas, de consumo de drogas e todas as aspirações de contra-cultura que a sua música encarnaria fielmente. Mas esta violência reflectir-se-ia também no percurso da banda e, mais particularmente, na vida caótica do seu leader mítico. O poeta torna-se vidente através de um longo desregramento de todos os sentidos”, escrevera Rimbaud um século antes, mas poderia ter sido escrito por um Morrison fascinado pelo radicalismo e pelo exílio em África do enfant terrible do nomadismo da alma. Nesses quatro anos, enquanto a popularidade da banda crescia, Morrison iniciaria a sua saison en enfer e começaria a desintegrar-se, a roçar o abismo, até cair com um fulminante ataque de coração, enquanto tomava banho, num hotel em Paris, em 1971. Talvez Paris tenha sido a sua África, um porto distante, a ante-câmara para um salto que o faria sair da obra e cair na vida. Como Rimbaud. Não teve tempo.

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