Doutor Pasavento (III): as regiões inferiores

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Chego ao final de Doutor Pasavento de Enrique Vila-Matas e o que me cai é um meta-romance-ensaio onde se respira a mesma ironia shandiana dos livros anteriores do autor, agora utilizando um estilo mais sóbrio, menos impertinente, mas sempre com uma escrita culta, lúdica, provocatória quanto baste, que propõe uma desconstrução da figura do autor, concluindo, assim, a sua trilogia metaliterária (O mal de Montano, Bartlebly & Companhia e Doutor Pasavento). Ao mesmo tempo, trata-se de uma viagem às regiões inferiores de Robert Walser, que escrevia a lápis para estar mais perto do desaparecimento, do eclipse; de Emmanuel Bove, que parecia estar sempre à espera que o esquecessem; de Thomas Pynchon, que se esconde em Nova Iorque; de Kafka, que queria era continuar a existir sem ser incomodado; de Salinger, o escritor que vive em paz , oculto; de W. G. Sebald, para quem o desaparecimento sempre existiu; de Joseph Roth, que narra a viagem errática de um desaparecido. Uma poética da extinção.

O rapto da Europa

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Na manhã seguinte, nevava em Zurique. Saí do hotel com o chapéu de feltro e o meu guarda-chuva, e fui tomar o pequeno almoço ao velho e famoso Café Odeon, de que sempre se disse que Lenine, assíduo cliente daquele estabelecimento, pôde trocar mais de uma palavra com James Joyce, outro cliente habitual. Ah, o Odeon! Lembrei-me que Mata-Hari tinha ali debutado como bailarina. E a seguir imaginei uma cena impossível, imaginei Lenine a beber um café, enquanto lançava olhares furtivos a um exemplar de “Gente de Dublin”. Quem imagina a cena é Enrique Vila-Matas que reaparece aqui para nos evocar um certa ideia da Europa. Fim de tarde em Zurique, neva lá fora, Lenine, à mesa do café, imaginando uma revolução. James Joyce escrevendo a história moral da Irlanda. Mata-Hari ensaiando os primeiros passos na intriga internacional. A presença invisível, ainda, de Goethe, Hermann Hesse, Thomas Mann. A Europa é feita de cafetarias, de cafés. Estes vão da cafetaria preferida de Pessoa, em Lisboa, aos cafés de Odessa frequentados pelos gangsters de Isaac Babel. Vão dos cafés de Copenhaga, onde Kirkegaard passava nos seus passeios concentrados, aos balcões de Palermo. (…) Desenhe-se o mapa das cafetarias e obter-se-á um dos marcadores essenciais da ideia de Europa, escreve George Steiner no ensaio A ideia da Europa, incontornável para percebermos  para onde caminhamos, quando se comemoram os cinquenta anos do Tratado de Roma. A Europa dos cafés, lugar de encontro de poetas, escritores, artistas, filósofos, revolucionários, “flâneurs”. Na Milão de Stendhal, na Veneza de Casanova, na Paris de Baudelaire, o café albergava o que existia de oposição política, de liberalismo clandestino. Odessa: num café do guetto judeu, Isaac Babel põe em movimento os seus gangsters de papel. Copenhaga: Kierkegaard troca a universidade pelos cafés da cidade e lança as bases do existencialismo. Lisboa: no Martinho da Arcada, Pessoa inventa a mais profunda genealogia da literatura portuguesa. Fim de tarde em Paris: através dos vidros molhados por uma chuva oblíqua Walter Benjamin observa a coreografia de guarda-chuvas correndo apressados no Boulevard Saint Germain: a modernidade a ser pensada no espaço interior de um café para onde se transporta o mundo exterior. Budapeste, café Sirius, Deszó Kosztolányi em vez de pedir ao empregado um café: «- Garçon – dizia – tinta, síl vous plaît!». Este o primeiro axioma que Steiner convoca para pensar uma Europa, hoje, em perda de identidade. Desapareceram, entretanto, os cafés. Os que sobrevivem já não são habitados pela ideia de infinito, mas antes por uma espécie de melancolia generalizada dos europeus, servindo apenas de espelho retro-reflector de um esplendor apropriado à admiração de turistas nostálgicos, refinados ou fetichistas. Bruxelas é a capital do vazio, escreve Peter Sloterdijk no livro Se a Europa se levanta. A Europa como laboratório para a experiência do fim do mundo, conforme uma visão completamente apolítica da existência. Em vez dos cafés, os não-lugares sem alma dos centros comerciais. Em vez da conversa mobilizadora à mesa do café, a delegação política em expertocratas que gerem as coisas por nós, de modo a realizar o projecto de nos tornarmos os últimos homens, como afirmou Sloterdijk, em entrevista à Actual, publicada no Sábado passado. Permanece válida a pergunta de Czeslaw Milosz: Estes homens de negócios de olhares nulos e sorrisos atrofiados… É a esta vérmina que chegou uma civilização tão delicada, tão complexa? Em vez do infinito, o consumismo, como se a Europa tivesse perdido para sempre a sua alma faustiana habitada pela ideia de infinito. Assim como se eclipsaram os cafés da “velha” Europa, também a paixão metafísica se evaporou da nova cartografia espiritual europeia. A literatura já não é a grande máquina da modernidade. Quem são, hoje, os herdeiros da Mitteleurope? Quem transporta o fogo de Mann e Musil? Na Inglaterra, os grandes escritores são indianos, sul-africanos, ou emigraram para a América. Sebald já cá não está. A literatura encontra-se numa encruzilhada. Ou é uma literatura ensimesmada, sobre o nada. Ou reporta-se a inutilidades pós-modernas, a representações de consumo enjoado. Para onde vai a Europa herdeira das duas cidades, Atenas e Jerusalém? Com a queda do marxismo na tirania bárbara e na nulidade económica, perdeu-se um grande sonho de – como Trotsky proclamou – o homem comum seguir as pisadas de Aristóteles e Goethe. Nesta espécie de laboratório do consumismo em que se transformou a Europa, ainda guardamos algumas referências – a santidade do pormenor diminuto, dizia William Blake  de que é feita a nossa diversidade. Mas cada vez mais somos turistas de nós próprios, consumidores do efémero, perdidos no labirinto do novo Minotauro. Como olhar, então, o touro sem sucumbir ao fascínio do seu olhar que como um espelho restitui à Europa o seu feitiço, levando-a à perdição? Acredita, apesar de tudo, Steiner que o sonho pode, e deve ser, sonhado novamente. É, porventura, apenas na Europa que as fundações necessárias de literacia e o sentido da vulnerabilidade trágica da “condition humaine” poderiam constituir-se como base. É entre os filhos frequentemente cansados, divididos e confundidos de Atenas e de Jerusalém que poderíamos regressar à convicção de que ainda é possível enganar o Minotauro e inverter o ardil a favor da Europa. Talvez começar por aqui.

Combateremos a sombra (II): os arredores do livro

Surpreende-se Lídia Jorge porque Manuel Maria Carrilho ficou surpreendido quando a escritora o convidou para apresentar o seu novo romance, Combateremos a sombra. Ele, também, nas palavras da escritora, um homem de causas. Como ela, digo eu. Depois, evoca Lilith, esse filme perturbante, esquecido, de Robert Rossen que, fica-se a saber, ambos viram. Um filme, desde logo, a aproximar a escritora e o apresentador. Ou melhor, o excelente leitor, como disse Lídia. E porquê este filme? Talvez porque, também em Lilith, as personagens interpretadas por Warren Beatty e Jean Seberg procurem viver contra o seu tempo. Talvez porque, também aí, os territórios do onírico nos sejam abertos por um decrifrador de histórias, um enfermeiro psiquiátrico. Ou talvez, sobretudo, porque também Rossen era um homem de causas. Esta evocação, enigmática, seria o primeiro assombro da noite de ontem, na Casa Fernando Pessoa, onde perante numerosos amigos, como Lídia Jorge fez questão de sublinhar, foi apresentado o romance Combateremos a sombra. Antes, já Carrilho tinha dito que por detrás da escrita enigmática da escritora, do outro lado da sombra era um país inteiro que se escondia. Um país fantasmal enredado numa teia pantanosa de mesquinhez, de mentira, de toda a espécie de tráficos que ninguém quer ver. Uma teia que não mostra os fios, apenas os nós, diz Carrilho que nos oferece uma leitura política do livro. Um livro político? Nem tanto. Lídia Jorge prefere-o como uma ficção com um assomo político. Mas esta é uma noite de confissões. Primeiro, as do livro – de Maria London – decifradas por Carrilho. Agora, as de Lídia que escolhe falar naquilo que ela chama os arredores dos livros. Como se escreve um romance? Como escreveu este romance ao longo de três anos? Mais um, o tempo que demorou o complexo namoro com Osvaldo Campos, o personagem que lhe vai entrando pela casa, sem que, primeiro, a escritora o deseje, mas que, depois, fica e não mais sai da casa do romance. Escrever é fácil, dífícil é encontrar um personagem com inteireza, explica Lídia. Ao longo de um ano Osvaldo foi povoando o seu sono e a sua vigília. Os sonhos são a literatura do sono, disse-lhe Carlos Albino durante esses dias. Agora o romance já podia ser posto em andamento. Depois vieram outras cumplicidades. Uma passagem pelos arredores do livro, com nomes próprios. Confissões. António Mendes Pedro, psicanalista na vida, que ajudou a moldar o psicanalista na ficção Osvaldo Campos, a controlar este funâmbulo, este trapezista sem fato e sem rede. Questão de verosimilhança. Outro cúmplice, Orlando Soares, que aferiu tudo o que havia para aferir sobre barcos. Os paquetes navegando na sombra. O porto de Lisboa onde mora a beleza, mas também espreita a ameaça. Até a atmosfera de Stavanger é mesma que Lídia descreve. Quando a gente se põe a escrever até imagina a geografia, diz. Outra geografia, ainda, a dos subterrâneos da criminalidade, por onde Lídia se aventurou guiada pelo jornalista Rui Araújo. A primeira leitora, Vera Monteiro Torres. O Duarte, também leitor, sempre. Três, quatro anos de vida de Lídia. 71 dias completamente isolada na casa da minha mãe, no Algarve. E, finalmente, a capa para cobrir tudo isto. Lídia telefonando a Manuel Tomás, pedindo-lhe as suas costas. Um ramo de rosas a incendiar a sombra Assombros: Osvaldo Campos, o meu Dom Quixote de estimação, as três mulheres, Maria London, a paciente magnífica, Rossiana, Ana Fausto, vidas de papel que se assemelham à vida de pessoas, um consultório de um psicanalista, um onirismo revelador, um país fantasmal, uma ficção com um assomo político. Um livro para combater a sombra. Hoje.

Ouvir a maresia do mundo

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Se o poema é, diz António Ramos Rosa, como um búzio em que ressoa a maresia do mundo, ouvir na noite de ontem, em Portimão, o recital de Sandro Junqueira(voz) e de Luis Conceição (piano) foi sentir o desejo de pertencer à terra como uma árvore que se inclina sobre as ondas. As palavras de Ramos Rosa, Mário Cesariny, Eugénio de Andrade, Rui Belo, Herberto Helder e Pessoa ressoaram na noite através da voz, magnífica, do Sandro, posta a navegar sobre a ondulação das notas musicais do piano do Luis. Nada foi excessivo. A voz, perseguindo o ritmo das ondas que rebentam na praia soltando o poema. As palavras ressoando como num búzio, umas vezes numa mansidão em que o poema mais parece uma jangada onde as palavras se recolhem, indefesas, outras vezes, uma tempestade abatendo-se sobre a embarcação do poema, fazendo-a roçar o abismo. Mas sempre um disfarçado diálogo por onde emergem os sentidos da palavra e as modulações da voz, através de um sereno cromatismo musical criado pelos autores. Às vezes, silenciando ou subalternizando a música, deixando ressoar na calmaria da noite a maresia do mundo. Outras vezes, num sopro de raiva, atirando as palavras de encontro à areia da grande praia do poema.

Trata-se de um projecto de criação local, através do qual o poema reencontra a sua musicalidade interior. O Sandro e o Luis vão estar, de novo, na próxima 4ª feira, em Faro, no belíssimo Teatro Lethes, para nos fazer ouvir na noite a maresia e ver o arco inteiro dos astros. Será numa criação dos próprios, a que deram o nome de Metrópolis, a partir do clássico homónimo de Fritz Lang. A produção é d` A Gaveta, um grupo de Portimão composto por jovens que acreditam que é possível um teatro que surpreenda a cidade.

As coisas mais simples

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Dizem que o poeta tem seis sentidos: os sentidos, com os seus traços lineares,/ são cinco como os quatro elementos mais/ o éter dos alquimistas. À volta deles anda o sexto/ que nasce da ideia do homem/ de que falta sempre qualquer coisa para atingir/ a perfeição.  O poeta habita uma casa na Mexilhoeira Grande. No quintal do poeta há uma figueira onde ele colhe, ao amanhecer, os figos de S. João, os primeiros, que se colhem/ com um gesto só, ficando inteiros na mão. Na biblioteca do poeta há um livro de D. H. Lawrence onde este aconselhou que se partisse um figo/ em quatro pedaços, para o comer, depois de deitar fora/ a casca. Mas o poeta que conhece múltiplas formas de comer um figo vai mais longe do que Lawrence e pensa também na figueira. Primeiro, os figos – mas poderia ser a mulher da fotografia avançando até ao fim do molhe, ou um homem encostado à porta do palheiro, ou ainda,  e sempre, a presença obsessiva do mar, do litoral, ou mesmo a visão das ruas cheias de gente de uma cidade qualquer – as coisas mais simples, portanto, como matéria impura que o poeta recolhe dos dias que passam. Depois, a árvore que lhe agarra a alma com os seus ramos ásperos que o poeta afasta, a mão transformada num prolongamento da figueira. A mesma mão com que o poeta traça o ângulo da frase, que mostra as coisas mais simples, assim como o seu avesso, ou a sua transcendência, porque o que é simples também pode ser o/ seu contrário. A mesma matéria impura que se estilhaça em mil pedaços pelo chão como um espelho quebrado da realidade que irrompe no poema, literal e figurativamente, inscrevendo um paradigma narrativo através do qual o prosaico invade o poético.  Agora a mão do poeta afasta os ramos da figueira e atravessa a fronteira de vida rasgada pelas coisas. Dos mil pedaços em que o espelho partido reflecte as coisas mais simples, solta-se um sopro metafísico que empurra o poema ao encontro da sua substância mais profunda e o impede de ganhar a ferrugem do tempo. Na casa do poeta cresce o deslumbramento diante de coisas tão simples como os figos do quintal ou a mulher da fotografia – o quotidiano irrompendo furtivamente no poema para logo ser desfocado, transfigurado, através da alegoria, do devaneio. O tronco da figueira/ (é agora um) corpo de mulher nua; (…) e o figo que o poeta tem na mão (fá-lo) sentir os seus seios macios; há também a intertextualidade que o poeta convoca desde a sua biblioteca numa busca da essencialidade poética – D. H. Lawrence, Shelley, os poetas gregos -. Há um trabalho sobre a história; há navegações errantes, partidas e chegadas, regressos, há um conceito de paisagem e uma imagem da cidade por entre as ruas cheias de gente; na casa da Mexilhoeira Grande, Nuno Júdice escreve um livro à luz do apocalipse,/ as primeiras linhas do ocaso: descrições, narrações, personagens, memórias, odes, uma carta. O livro chama-se As coisas mais simples e foi escrito com os cinco sentidos mais um, aquele que só os verdadeiros poetas têm.

Na curva da noite, arrumo as páginas do livro que o poeta escreveu. Limito-me a deixar tudo no seu lugar/ – a figueira, a fotografia, a biblioteca do poeta – como se nunca aqui tivesse entrado, e volto a sair,/ pela abertura redonda, para a grande praia do poema onde tudo recomeça.

Combateremos a sombra (I): Portugal no divã

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Comecei a escrever para poder responder a alguma coisa longínqua que me chamava. A realidade era mesquinha, não chegava, escrevia e no final da página conseguia esse percurso, confessa Lídia Jorge em entrevista publicada no Jornal de Letras. Três décadas depois do seu romance inaugural, O dia dos prodígios, a realidade continua a ser mesquinha e, por isso, Lídia Jorge continua a responder ao apelo do longínquo, agora com a maturidade literária que fez dela uma das escritores portuguesas mais premiadas. Esse percurso singular levou-a, quase cinco anos depois de ter publicado O vento assobiando nas gruas, a publicar um novo romance contra a mesquinhez e a mentira. Combateremos a sombra, que será apresentado na próxima 5º feira, na Casa Fernando Pessoa, é, como a autora sublinha noutra entrevista ao Ípsilon, um livro muito, muito português, espécie de divã onde Portugal se deita e nos revela o resultado de anos de recalcamento, de frustrações, de sujidade atirada para debaixo do tapete. São duas entrevistas que se complementam, antecipando o novo livro que vem aí. Com a lucidez que a caracteriza, Lídia Jorge diz que anos e anos de esmagamento conduziram o país a uma postura depressiva, por isso, no romance poderá ler-se, a certa altura, que calmantes e sedativos tinham-se esgotado nas farmácias. Sabia-se, via-se, lia-se nos jornais. Mais do que o desmoronar de uma ponte em Entre-os-Rios, são as próprias fundações de um país que roçam o abismo correndo o risco de, também ele se afundar nas águas escuras dos dias que correm. O ruir da ponte como metáfora de um país com medo de existir, anestesiado por sedativos e calmantes que escondem a verdadeira dimensão da nossa tragédia colectiva. Os autocarros puxados pelas gruas do fundo dos lodos ficavam a balouçar na imaginação ao longo dos dias revoltos. (…) Bastava amanhecer um dia mais claro e já tudo passava. Psicanálise de um país à procura de uma pele nova. Que está perdendo uma e ainda não encontrou a outra. Onde está tudo a descoberto. Há zonas em carne viva e zonas em carne morta. Por isso, é preciso agir, como escreve na sua agenda a personagem central do romance: a mentira é parente da morte, a análise é inimiga dos mitos, agir é preciso. Lídia Jorge age através da escrita deste romance, uma ficção com um assomo político, obedecendo a um impulso de melancolia, mas também de raiva contra este processo de revisão cíclica de marcar passo. A literatura como ética da responsabilidade e da convicção, que vale como denúncia, sobretudo, se tiver imaginação suficiente para responder a essa ética. Lídia Jorge acredita na possibilidade da mudança, por isso, assume-se como testemunha, com vontade de ser cronista do tempo que passa, recolhendo a matéria impura de que se veste a sua escrita. Eu prefiro que a escrita seja um vestido, diz. Um vestido que veste a realidade tanto com o que as suas páginas contém – isto é, as suas metáforas, as figuras, as vozes, os diálogos – como nas páginas que faltam, (…) o espaço em branco que se segue à última página, que continuamos a ler cem anos depois. E também com o que está nas linhas invisíveis que atravessam essas páginas. Lídia Jorge é uma escritora e uma mulher de acção. Neste romance age através do herói romanesco, o psicanalista Osvaldo Campos, colocando-se atrás do seu ombro, acompanhando-o num longo travelling, pedindo emprestada a voz que ele, por razões deontológicas, tem de silenciar. Apaixonei-me por este funâmbulo, este trapezista sem fato e sem rede. Osvaldo Campos é um homem justo (…), o meu Dom Quixote de estimação, com quem ando há muito tempo a conviver. Na vida age intervindo civicamente, empenhando-se em causas, como a do referendo ao aborto, perseguindo novas linhas de fuga para atravessar a sombra. Dando-se como aparecida.

A história do amor

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A revista Granta, uma referência na literatura americana, acaba de anunciar a lista dos 21 Best of Young American Novelists 2, onde se encontram três autores traduzidos em Portugal: Jonathan Safran Foer (Está tudo iluminado), Gabe Hudson (Estimado Sr. Bush) e Nicole Kraus (A história do amor). Segundo a Granta trata-se de uma nova geração de escritores que inspira o imaginário contemporâneo nos EUA. Constata ainda a Granta que quase todos os escritores escolhidos frequentaram cursos de escrita criativa, o que significa que, hoje, nos EUA, a escrita ficcionista é cada vez mais uma opção de carreira para os jovens.

Dos escritores escolhidos, li este Verão o romance de Nicole Kraus que vinha rotulado de best-seller internacional, o que dava para desconfiar. Além disso, o título A história do amor parecia anunciar um romance tipo anestesiante, desses que enchem, hoje, os escaparates das nossas livrarias. Ainda assim, confiando na unanimidade crítica que precedeu a sua publicação em Portugal, arrisquei a leitura e, no final, não me arrependi. Trata-se de uma estranha peripécia em torno de um périplo de um livro escrito na Polónia cujo manuscrito atravessa o mar, é publicado no Chile por um amigo do autor e, finalmente, chega às mãos de quem o escrevera muitos anos antes. Com uma estrutura fragmentária, talvez demasiado evidente, constituída por quatro eixos narrativos que alternam  entre si, Nicole Kraus constrói uma história inteligente e comovente que contem todos os requisitos capazes de agradar a um público vasto. Uma  leitura descontraída, mas não anestesiante, que explora os temas do exílio, da saudade e do amor.