Doutor Pasavento (III): as regiões inferiores

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Chego ao final de Doutor Pasavento de Enrique Vila-Matas e o que me cai é um meta-romance-ensaio onde se respira a mesma ironia shandiana dos livros anteriores do autor, agora utilizando um estilo mais sóbrio, menos impertinente, mas sempre com uma escrita culta, lúdica, provocatória quanto baste, que propõe uma desconstrução da figura do autor, concluindo, assim, a sua trilogia metaliterária (O mal de Montano, Bartlebly & Companhia e Doutor Pasavento). Ao mesmo tempo, trata-se de uma viagem às regiões inferiores de Robert Walser, que escrevia a lápis para estar mais perto do desaparecimento, do eclipse; de Emmanuel Bove, que parecia estar sempre à espera que o esquecessem; de Thomas Pynchon, que se esconde em Nova Iorque; de Kafka, que queria era continuar a existir sem ser incomodado; de Salinger, o escritor que vive em paz , oculto; de W. G. Sebald, para quem o desaparecimento sempre existiu; de Joseph Roth, que narra a viagem errática de um desaparecido. Uma poética da extinção.

O rapto da Europa

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Na manhã seguinte, nevava em Zurique. Saí do hotel com o chapéu de feltro e o meu guarda-chuva, e fui tomar o pequeno almoço ao velho e famoso Café Odeon, de que sempre se disse que Lenine, assíduo cliente daquele estabelecimento, pôde trocar mais de uma palavra com James Joyce, outro cliente habitual. Ah, o Odeon! Lembrei-me que Mata-Hari tinha ali debutado como bailarina. E a seguir imaginei uma cena impossível, imaginei Lenine a beber um café, enquanto lançava olhares furtivos a um exemplar de “Gente de Dublin”. Quem imagina a cena é Enrique Vila-Matas que reaparece aqui para nos evocar um certa ideia da Europa. Fim de tarde em Zurique, neva lá fora, Lenine, à mesa do café, imaginando uma revolução. James Joyce escrevendo a história moral da Irlanda. Mata-Hari ensaiando os primeiros passos na intriga internacional. A presença invisível, ainda, de Goethe, Hermann Hesse, Thomas Mann. A Europa é feita de cafetarias, de cafés. Estes vão da cafetaria preferida de Pessoa, em Lisboa, aos cafés de Odessa frequentados pelos gangsters de Isaac Babel. Vão dos cafés de Copenhaga, onde Kirkegaard passava nos seus passeios concentrados, aos balcões de Palermo. (…) Desenhe-se o mapa das cafetarias e obter-se-á um dos marcadores essenciais da ideia de Europa, escreve George Steiner no ensaio A ideia da Europa, incontornável para percebermos  para onde caminhamos, quando se comemoram os cinquenta anos do Tratado de Roma. A Europa dos cafés, lugar de encontro de poetas, escritores, artistas, filósofos, revolucionários, “flâneurs”. Na Milão de Stendhal, na Veneza de Casanova, na Paris de Baudelaire, o café albergava o que existia de oposição política, de liberalismo clandestino. Odessa: num café do guetto judeu, Isaac Babel põe em movimento os seus gangsters de papel. Copenhaga: Kierkegaard troca a universidade pelos cafés da cidade e lança as bases do existencialismo. Lisboa: no Martinho da Arcada, Pessoa inventa a mais profunda genealogia da literatura portuguesa. Fim de tarde em Paris: através dos vidros molhados por uma chuva oblíqua Walter Benjamin observa a coreografia de guarda-chuvas correndo apressados no Boulevard Saint Germain: a modernidade a ser pensada no espaço interior de um café para onde se transporta o mundo exterior. Budapeste, café Sirius, Deszó Kosztolányi em vez de pedir ao empregado um café: «- Garçon – dizia – tinta, síl vous plaît!». Este o primeiro axioma que Steiner convoca para pensar uma Europa, hoje, em perda de identidade. Desapareceram, entretanto, os cafés. Os que sobrevivem já não são habitados pela ideia de infinito, mas antes por uma espécie de melancolia generalizada dos europeus, servindo apenas de espelho retro-reflector de um esplendor apropriado à admiração de turistas nostálgicos, refinados ou fetichistas. Bruxelas é a capital do vazio, escreve Peter Sloterdijk no livro Se a Europa se levanta. A Europa como laboratório para a experiência do fim do mundo, conforme uma visão completamente apolítica da existência. Em vez dos cafés, os não-lugares sem alma dos centros comerciais. Em vez da conversa mobilizadora à mesa do café, a delegação política em expertocratas que gerem as coisas por nós, de modo a realizar o projecto de nos tornarmos os últimos homens, como afirmou Sloterdijk, em entrevista à Actual, publicada no Sábado passado. Permanece válida a pergunta de Czeslaw Milosz: Estes homens de negócios de olhares nulos e sorrisos atrofiados… É a esta vérmina que chegou uma civilização tão delicada, tão complexa? Em vez do infinito, o consumismo, como se a Europa tivesse perdido para sempre a sua alma faustiana habitada pela ideia de infinito. Assim como se eclipsaram os cafés da “velha” Europa, também a paixão metafísica se evaporou da nova cartografia espiritual europeia. A literatura já não é a grande máquina da modernidade. Quem são, hoje, os herdeiros da Mitteleurope? Quem transporta o fogo de Mann e Musil? Na Inglaterra, os grandes escritores são indianos, sul-africanos, ou emigraram para a América. Sebald já cá não está. A literatura encontra-se numa encruzilhada. Ou é uma literatura ensimesmada, sobre o nada. Ou reporta-se a inutilidades pós-modernas, a representações de consumo enjoado. Para onde vai a Europa herdeira das duas cidades, Atenas e Jerusalém? Com a queda do marxismo na tirania bárbara e na nulidade económica, perdeu-se um grande sonho de – como Trotsky proclamou – o homem comum seguir as pisadas de Aristóteles e Goethe. Nesta espécie de laboratório do consumismo em que se transformou a Europa, ainda guardamos algumas referências – a santidade do pormenor diminuto, dizia William Blake  de que é feita a nossa diversidade. Mas cada vez mais somos turistas de nós próprios, consumidores do efémero, perdidos no labirinto do novo Minotauro. Como olhar, então, o touro sem sucumbir ao fascínio do seu olhar que como um espelho restitui à Europa o seu feitiço, levando-a à perdição? Acredita, apesar de tudo, Steiner que o sonho pode, e deve ser, sonhado novamente. É, porventura, apenas na Europa que as fundações necessárias de literacia e o sentido da vulnerabilidade trágica da “condition humaine” poderiam constituir-se como base. É entre os filhos frequentemente cansados, divididos e confundidos de Atenas e de Jerusalém que poderíamos regressar à convicção de que ainda é possível enganar o Minotauro e inverter o ardil a favor da Europa. Talvez começar por aqui.

Combateremos a sombra (II): os arredores do livro

Surpreende-se Lídia Jorge porque Manuel Maria Carrilho ficou surpreendido quando a escritora o convidou para apresentar o seu novo romance, Combateremos a sombra. Ele, também, nas palavras da escritora, um homem de causas. Como ela, digo eu. Depois, evoca Lilith, esse filme perturbante, esquecido, de Robert Rossen que, fica-se a saber, ambos viram. Um filme, desde logo, a aproximar a escritora e o apresentador. Ou melhor, o excelente leitor, como disse Lídia. E porquê este filme? Talvez porque, também em Lilith, as personagens interpretadas por Warren Beatty e Jean Seberg procurem viver contra o seu tempo. Talvez porque, também aí, os territórios do onírico nos sejam abertos por um decrifrador de histórias, um enfermeiro psiquiátrico. Ou talvez, sobretudo, porque também Rossen era um homem de causas. Esta evocação, enigmática, seria o primeiro assombro da noite de ontem, na Casa Fernando Pessoa, onde perante numerosos amigos, como Lídia Jorge fez questão de sublinhar, foi apresentado o romance Combateremos a sombra. Antes, já Carrilho tinha dito que por detrás da escrita enigmática da escritora, do outro lado da sombra era um país inteiro que se escondia. Um país fantasmal enredado numa teia pantanosa de mesquinhez, de mentira, de toda a espécie de tráficos que ninguém quer ver. Uma teia que não mostra os fios, apenas os nós, diz Carrilho que nos oferece uma leitura política do livro. Um livro político? Nem tanto. Lídia Jorge prefere-o como uma ficção com um assomo político. Mas esta é uma noite de confissões. Primeiro, as do livro – de Maria London – decifradas por Carrilho. Agora, as de Lídia que escolhe falar naquilo que ela chama os arredores dos livros. Como se escreve um romance? Como escreveu este romance ao longo de três anos? Mais um, o tempo que demorou o complexo namoro com Osvaldo Campos, o personagem que lhe vai entrando pela casa, sem que, primeiro, a escritora o deseje, mas que, depois, fica e não mais sai da casa do romance. Escrever é fácil, dífícil é encontrar um personagem com inteireza, explica Lídia. Ao longo de um ano Osvaldo foi povoando o seu sono e a sua vigília. Os sonhos são a literatura do sono, disse-lhe Carlos Albino durante esses dias. Agora o romance já podia ser posto em andamento. Depois vieram outras cumplicidades. Uma passagem pelos arredores do livro, com nomes próprios. Confissões. António Mendes Pedro, psicanalista na vida, que ajudou a moldar o psicanalista na ficção Osvaldo Campos, a controlar este funâmbulo, este trapezista sem fato e sem rede. Questão de verosimilhança. Outro cúmplice, Orlando Soares, que aferiu tudo o que havia para aferir sobre barcos. Os paquetes navegando na sombra. O porto de Lisboa onde mora a beleza, mas também espreita a ameaça. Até a atmosfera de Stavanger é mesma que Lídia descreve. Quando a gente se põe a escrever até imagina a geografia, diz. Outra geografia, ainda, a dos subterrâneos da criminalidade, por onde Lídia se aventurou guiada pelo jornalista Rui Araújo. A primeira leitora, Vera Monteiro Torres. O Duarte, também leitor, sempre. Três, quatro anos de vida de Lídia. 71 dias completamente isolada na casa da minha mãe, no Algarve. E, finalmente, a capa para cobrir tudo isto. Lídia telefonando a Manuel Tomás, pedindo-lhe as suas costas. Um ramo de rosas a incendiar a sombra Assombros: Osvaldo Campos, o meu Dom Quixote de estimação, as três mulheres, Maria London, a paciente magnífica, Rossiana, Ana Fausto, vidas de papel que se assemelham à vida de pessoas, um consultório de um psicanalista, um onirismo revelador, um país fantasmal, uma ficção com um assomo político. Um livro para combater a sombra. Hoje.

Ouvir a maresia do mundo

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Se o poema é, diz António Ramos Rosa, como um búzio em que ressoa a maresia do mundo, ouvir na noite de ontem, em Portimão, o recital de Sandro Junqueira(voz) e de Luis Conceição (piano) foi sentir o desejo de pertencer à terra como uma árvore que se inclina sobre as ondas. As palavras de Ramos Rosa, Mário Cesariny, Eugénio de Andrade, Rui Belo, Herberto Helder e Pessoa ressoaram na noite através da voz, magnífica, do Sandro, posta a navegar sobre a ondulação das notas musicais do piano do Luis. Nada foi excessivo. A voz, perseguindo o ritmo das ondas que rebentam na praia soltando o poema. As palavras ressoando como num búzio, umas vezes numa mansidão em que o poema mais parece uma jangada onde as palavras se recolhem, indefesas, outras vezes, uma tempestade abatendo-se sobre a embarcação do poema, fazendo-a roçar o abismo. Mas sempre um disfarçado diálogo por onde emergem os sentidos da palavra e as modulações da voz, através de um sereno cromatismo musical criado pelos autores. Às vezes, silenciando ou subalternizando a música, deixando ressoar na calmaria da noite a maresia do mundo. Outras vezes, num sopro de raiva, atirando as palavras de encontro à areia da grande praia do poema.

Trata-se de um projecto de criação local, através do qual o poema reencontra a sua musicalidade interior. O Sandro e o Luis vão estar, de novo, na próxima 4ª feira, em Faro, no belíssimo Teatro Lethes, para nos fazer ouvir na noite a maresia e ver o arco inteiro dos astros. Será numa criação dos próprios, a que deram o nome de Metrópolis, a partir do clássico homónimo de Fritz Lang. A produção é d` A Gaveta, um grupo de Portimão composto por jovens que acreditam que é possível um teatro que surpreenda a cidade.

As coisas mais simples

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Dizem que o poeta tem seis sentidos: os sentidos, com os seus traços lineares,/ são cinco como os quatro elementos mais/ o éter dos alquimistas. À volta deles anda o sexto/ que nasce da ideia do homem/ de que falta sempre qualquer coisa para atingir/ a perfeição.  O poeta habita uma casa na Mexilhoeira Grande. No quintal do poeta há uma figueira onde ele colhe, ao amanhecer, os figos de S. João, os primeiros, que se colhem/ com um gesto só, ficando inteiros na mão. Na biblioteca do poeta há um livro de D. H. Lawrence onde este aconselhou que se partisse um figo/ em quatro pedaços, para o comer, depois de deitar fora/ a casca. Mas o poeta que conhece múltiplas formas de comer um figo vai mais longe do que Lawrence e pensa também na figueira. Primeiro, os figos – mas poderia ser a mulher da fotografia avançando até ao fim do molhe, ou um homem encostado à porta do palheiro, ou ainda,  e sempre, a presença obsessiva do mar, do litoral, ou mesmo a visão das ruas cheias de gente de uma cidade qualquer – as coisas mais simples, portanto, como matéria impura que o poeta recolhe dos dias que passam. Depois, a árvore que lhe agarra a alma com os seus ramos ásperos que o poeta afasta, a mão transformada num prolongamento da figueira. A mesma mão com que o poeta traça o ângulo da frase, que mostra as coisas mais simples, assim como o seu avesso, ou a sua transcendência, porque o que é simples também pode ser o/ seu contrário. A mesma matéria impura que se estilhaça em mil pedaços pelo chão como um espelho quebrado da realidade que irrompe no poema, literal e figurativamente, inscrevendo um paradigma narrativo através do qual o prosaico invade o poético.  Agora a mão do poeta afasta os ramos da figueira e atravessa a fronteira de vida rasgada pelas coisas. Dos mil pedaços em que o espelho partido reflecte as coisas mais simples, solta-se um sopro metafísico que empurra o poema ao encontro da sua substância mais profunda e o impede de ganhar a ferrugem do tempo. Na casa do poeta cresce o deslumbramento diante de coisas tão simples como os figos do quintal ou a mulher da fotografia – o quotidiano irrompendo furtivamente no poema para logo ser desfocado, transfigurado, através da alegoria, do devaneio. O tronco da figueira/ (é agora um) corpo de mulher nua; (…) e o figo que o poeta tem na mão (fá-lo) sentir os seus seios macios; há também a intertextualidade que o poeta convoca desde a sua biblioteca numa busca da essencialidade poética – D. H. Lawrence, Shelley, os poetas gregos -. Há um trabalho sobre a história; há navegações errantes, partidas e chegadas, regressos, há um conceito de paisagem e uma imagem da cidade por entre as ruas cheias de gente; na casa da Mexilhoeira Grande, Nuno Júdice escreve um livro à luz do apocalipse,/ as primeiras linhas do ocaso: descrições, narrações, personagens, memórias, odes, uma carta. O livro chama-se As coisas mais simples e foi escrito com os cinco sentidos mais um, aquele que só os verdadeiros poetas têm.

Na curva da noite, arrumo as páginas do livro que o poeta escreveu. Limito-me a deixar tudo no seu lugar/ – a figueira, a fotografia, a biblioteca do poeta – como se nunca aqui tivesse entrado, e volto a sair,/ pela abertura redonda, para a grande praia do poema onde tudo recomeça.

Combateremos a sombra (I): Portugal no divã

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Comecei a escrever para poder responder a alguma coisa longínqua que me chamava. A realidade era mesquinha, não chegava, escrevia e no final da página conseguia esse percurso, confessa Lídia Jorge em entrevista publicada no Jornal de Letras. Três décadas depois do seu romance inaugural, O dia dos prodígios, a realidade continua a ser mesquinha e, por isso, Lídia Jorge continua a responder ao apelo do longínquo, agora com a maturidade literária que fez dela uma das escritores portuguesas mais premiadas. Esse percurso singular levou-a, quase cinco anos depois de ter publicado O vento assobiando nas gruas, a publicar um novo romance contra a mesquinhez e a mentira. Combateremos a sombra, que será apresentado na próxima 5º feira, na Casa Fernando Pessoa, é, como a autora sublinha noutra entrevista ao Ípsilon, um livro muito, muito português, espécie de divã onde Portugal se deita e nos revela o resultado de anos de recalcamento, de frustrações, de sujidade atirada para debaixo do tapete. São duas entrevistas que se complementam, antecipando o novo livro que vem aí. Com a lucidez que a caracteriza, Lídia Jorge diz que anos e anos de esmagamento conduziram o país a uma postura depressiva, por isso, no romance poderá ler-se, a certa altura, que calmantes e sedativos tinham-se esgotado nas farmácias. Sabia-se, via-se, lia-se nos jornais. Mais do que o desmoronar de uma ponte em Entre-os-Rios, são as próprias fundações de um país que roçam o abismo correndo o risco de, também ele se afundar nas águas escuras dos dias que correm. O ruir da ponte como metáfora de um país com medo de existir, anestesiado por sedativos e calmantes que escondem a verdadeira dimensão da nossa tragédia colectiva. Os autocarros puxados pelas gruas do fundo dos lodos ficavam a balouçar na imaginação ao longo dos dias revoltos. (…) Bastava amanhecer um dia mais claro e já tudo passava. Psicanálise de um país à procura de uma pele nova. Que está perdendo uma e ainda não encontrou a outra. Onde está tudo a descoberto. Há zonas em carne viva e zonas em carne morta. Por isso, é preciso agir, como escreve na sua agenda a personagem central do romance: a mentira é parente da morte, a análise é inimiga dos mitos, agir é preciso. Lídia Jorge age através da escrita deste romance, uma ficção com um assomo político, obedecendo a um impulso de melancolia, mas também de raiva contra este processo de revisão cíclica de marcar passo. A literatura como ética da responsabilidade e da convicção, que vale como denúncia, sobretudo, se tiver imaginação suficiente para responder a essa ética. Lídia Jorge acredita na possibilidade da mudança, por isso, assume-se como testemunha, com vontade de ser cronista do tempo que passa, recolhendo a matéria impura de que se veste a sua escrita. Eu prefiro que a escrita seja um vestido, diz. Um vestido que veste a realidade tanto com o que as suas páginas contém – isto é, as suas metáforas, as figuras, as vozes, os diálogos – como nas páginas que faltam, (…) o espaço em branco que se segue à última página, que continuamos a ler cem anos depois. E também com o que está nas linhas invisíveis que atravessam essas páginas. Lídia Jorge é uma escritora e uma mulher de acção. Neste romance age através do herói romanesco, o psicanalista Osvaldo Campos, colocando-se atrás do seu ombro, acompanhando-o num longo travelling, pedindo emprestada a voz que ele, por razões deontológicas, tem de silenciar. Apaixonei-me por este funâmbulo, este trapezista sem fato e sem rede. Osvaldo Campos é um homem justo (…), o meu Dom Quixote de estimação, com quem ando há muito tempo a conviver. Na vida age intervindo civicamente, empenhando-se em causas, como a do referendo ao aborto, perseguindo novas linhas de fuga para atravessar a sombra. Dando-se como aparecida.

A história do amor

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A revista Granta, uma referência na literatura americana, acaba de anunciar a lista dos 21 Best of Young American Novelists 2, onde se encontram três autores traduzidos em Portugal: Jonathan Safran Foer (Está tudo iluminado), Gabe Hudson (Estimado Sr. Bush) e Nicole Kraus (A história do amor). Segundo a Granta trata-se de uma nova geração de escritores que inspira o imaginário contemporâneo nos EUA. Constata ainda a Granta que quase todos os escritores escolhidos frequentaram cursos de escrita criativa, o que significa que, hoje, nos EUA, a escrita ficcionista é cada vez mais uma opção de carreira para os jovens.

Dos escritores escolhidos, li este Verão o romance de Nicole Kraus que vinha rotulado de best-seller internacional, o que dava para desconfiar. Além disso, o título A história do amor parecia anunciar um romance tipo anestesiante, desses que enchem, hoje, os escaparates das nossas livrarias. Ainda assim, confiando na unanimidade crítica que precedeu a sua publicação em Portugal, arrisquei a leitura e, no final, não me arrependi. Trata-se de uma estranha peripécia em torno de um périplo de um livro escrito na Polónia cujo manuscrito atravessa o mar, é publicado no Chile por um amigo do autor e, finalmente, chega às mãos de quem o escrevera muitos anos antes. Com uma estrutura fragmentária, talvez demasiado evidente, constituída por quatro eixos narrativos que alternam  entre si, Nicole Kraus constrói uma história inteligente e comovente que contem todos os requisitos capazes de agradar a um público vasto. Uma  leitura descontraída, mas não anestesiante, que explora os temas do exílio, da saudade e do amor. 

Esta noite vi-te em Babilónia

Quem entrar, hoje, pela primeira vez, neste blogue e ler o post que agora ponho em andamento, talvez fique com a impressão de que entrou em algo que teve um começo anterior, pois faltará o contexto de algumas referências. O efeito poderá ser o mesmo da sequência inicial do filme Viagem a Itália, de Rosselini, evocado em Doutor Pasavento, livro que vem servindo de espelho a este blogue. Disse num post anterior que, talvez, também eu tenha algo a dizer lá mais para a frente. Mas esse lá mais para a frente é algo que decorre de uma narrativa pessoal que vai sendo construída e trilhada como um contínuo inacabado, como afirma Sandra Costa no Tubo de ensaio, composto pela sucessão fragmentária dos microtextos que pomos em andamento para aparecermos neste território inferior da blogosfera. Ora é esta afectação narrativa, e por isso literária ainda que sem literariedade, que poderá provocar no nómada da blogosfera o desejo de trilhar o itinerário que procuro gravar para memória futura. Posto em andamento este post, que já me levou por outro caminho diferente do que eu lhe imaginara – mas não será essa a natureza própria da escrita blogueira? – regresso ao que me caíu do dia, hoje, não sem advertir que de intertextualidades é feito este caminho no qual, o dizer é, sobretudo, um mostrar mais ou menos benjaminiano.

Serve este começo descontínuo não voluntário para mostrar um António Lobo Antunes (ver como ele se mostra na galeria do Público) que, hoje, ao contrário de Pasavento, se dá como aparecido ao lhe ser atribuído o Prémio Camões, ele que tantas vezes se assume como retirado ou, pelo menos, pouco dado a aparições mundanas. Não foi isso, também, que sucedeu a Vila-Matas que, por tanto querer ausentar-se de si próprio, se viu premiado  em Espanha, logo reaparecido? Vi Lobo Antunes, há dias,  nessa região interior que é o Doutor Pasavento e onde só entram alguns escritores, sentado num dos cadeirões que há ao pé da porta da entrada do Hotel Suède, na enigmática rua Vaneau, em Paris, a ler muito tranquilamente Le Figaro, enquanto Pasavento se dava como desaparecido, e logo pensei que ele seria para mim o sexto elemento da cartografia dessa rua, embora não descortinasse, ainda, o motivo. Mas tal como a Síria – outro elemento vilamatesiano da rua Vaneau -, até àquele momento um país remoto para Pasavento, intrometer-se-ia nos seus dias, também Lobo Antunes, soube-o logo, iria cair nos meus, nem que fosse, apenas, para o mostrar aqui, agora, a pretexto de um certo prémio literário, misturando ficção e realidade, como na conferência falhada de Vila-Matas, em Sevilha. Este jogo de espelhos – que se reflecte também neste blogue –  e que em Pasavento me mostra um Lobo Antunes que, fico a saber por aí, escreve em folhas de prescrição médica, no manicómio Miguel Bombarda, evoca-me a figura narrativa do acaso objectivo que André Breton utiliza em Nadja e que poderá servir de porta de entrada hermenêutica para o livro de Vila-Matas. O mesmo acaso objectivo que explica o facto de me cair no dia de hoje um Lobo Antunes, também ele um escritor-psiquiatra, como Pasavento, para além de Robert Walser que escrevia no manicómio de Waldau ou mesmo Morante, escritor de microtextos também num manicómio nos arredores de Nápoles. Ali, como aqui, a afectação literária a intrometer-se na realidade. A mesma realidade walseriana – minúscula, provisória, transitória – que Lobo Antunes utiliza como metal fundente entre ele e as palavras, para derivar numa escrita assustadoramente lúcida e emocional que nos puxa para o poço sem fundo do nosso inconsciente colectivo de portugueses, de onde, muito a custo, regressamos, depois, à superfície banal das nossas vidas, sacudidos por uma escrita caudalosa, profundamente irónica e sarcástica, mas carregada de lirismo, seja nos romances, caleidoscópicos, profundos, torrenciais, seja nas crónicas feitas da matéria mais simples para contar as coisas aqui em baixo .  “É um prazer lembrarem-se de mim”, disse, lacónico, ontem, quando lhe anunciaram o prémio. Tal como Pasavento, também, Lobo Antunes que, às vezes com uma certa arrogância, diz-se, se dá como desaparecido, procura, afinal, o reconhecimento como escritor. Mais uma vez conseguiu não passar despercebido.

Metablogue (III): microtextos

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Desde que descobri a blogosfera tenho andado por aqui num nomadismo intencional, procurando descobrir o que nos leva a inscrever itinerários pessoais num espaço de exposição pública. Muitos blogues têm claramente uma intenção diarística, como o Rui Bebiano, ontem, dizia. O meu, em certa medida, não deixa de ser também confessional. Mas não o serão todos, a partir do momento em que reconstruímos percepções, leituras, representações, visões,  enfim, o que nos cai dos dias, com afectação, muitas vezes paraliterária ou ensaística, porque queremos ser visitados? Mas seja qual for a sua natureza – diário, ficção, ensaio, crítica, opinião, informação, subversão… – aqueles cujo apelo é mais irresistível são os que se põem em andamento convidando para um passeio errático onde, em qualquer momento, se nos apetece, podemos ficar pelas ramas. Nesse sentido serão microtextos, como aqueles que Robert Walser escrevia a lápis para, desse modo, estar mais perto do desaparecimento. Só que nos blogues, ao contrário, existe uma afectação paraliterária de alguém que deseja ser lido, nem que seja, lá mais mais para a frente, apenas pelo autor, enquanto cartografia dos seus dias que passaram. São, ainda, micrototo um remextos, porque, de alguma forma, são representações parcelares, fragmentárias, intermitentes, de um texto maior onde existimos como personagnens que, pelo menos aqui, não escrevem a lápis, porque ao contrário de Robert Walser, seguramente, não procuram o desaparecimento, o eclipse. É que, quase todos, deixamos aberta a porta de entrada de uma Babel em cujos degraus procuramos os comentários dos outros.

Doutor Pasavento (II): também Pessoa

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Sou o Doutor Pasavento, assim se apresentou Enrique Vila-Matas, na Póvoa de Varzim/Correntes d´Escrita. Mas à medida que avanço na leitura do romance homónimo, pergunto-me em qual Pasavento encarnou o escritor que ao longo do texto parece metamorfosear-se em vários Pasaventos? Trata-se de um processo narrativo que evoca a construção heteronímica de Pessoa, também ele um desaparecido de si próprio que reaparece, depois, nas suas máscaras. Também, aqui, portanto, a intertextualidade com a poética da extinção. Tal como Pessoa, também o narrador-autor do Doutor Pasavento se desdobra em várias personalidades, vários lugares – Madrid, Sevilha, Nápoles…, para regressar sempre (?) à enigmática rua Vaneau, em Paris, onde se cruza com outro escritor português, António Lobo Antunes, sem nunca contudo trocar a sua profissão de psiquiatra e vago escritor, mas inventando-lhes outras genealogias. Neste projecto de desaparecimento, enquanto o escritor ortónimo se desvanece, outros Pasaventos emergem  projectando as múltiplas personalidades de Vila-Matas (ele próprio o confirma na entrevista publicada ontem no Notícias Magazine), sejam autobiográficas sejam ficcionais, reconstruídas, isto é, afectadas pelo seu labor literário. Esta afectação ficcional, mesmo que confundida com a realidade, evoca-me, então, uma outra figura pessoana, a do fingimento, o que me conduz a outra pergunta: será que este eclipse vila-mataseano não é mais do que um fingimento, para que o autor possa fechar a sua trilogia metaliterária onde reflecte sobre os mecanismos da criação literária (os outros são O mal de MontanoBartebly e companhia, publicados, também, pela Teorema). Não esteve, também, o próprio Vila-Matas quase a desaparecer por motivo de doença – o que levaria ao extremo a sua identificação enquanto autor com as suas personagens, vítimas do síndroma de Bartebly -, para renascer, diferente, noutro Vila-Matas herdeiro do Doutor Pasavento, como o próprio confessa na entrevista atrás referida?

Doutor Pasavento (I): da impossibilidade do desaparecimento

Ainda ontem escrevia aqui sobre a natureza deste blogue como construção do eu e marcação do autor, motivação que, mesmo admitindo sem qualquer presunção que outros também aqui poderão ler o que eu tenho para dizer, interessará, sobretudo, a mim mesmo, correspondendo à assunção deste espaço de anotação do que sobra dos dias, dos meus dias, como uma certa cartografia pessoal. Remete isto, desde logo, para a noção deste blogue como itinerário onde mais do que dizer, pretendo mostrar parcelas dos meus dias que passam. Haverá nessa mostra algo de montagem literária, mas entendida tão só da forma que referi no post fundador deste blogue, isto é, algo ficcional, na medida em que, embora assuma este blogue como espaço de anotação de matéria recuperável no futuro, também eu procuro emergir lá mais para a frente com a confiança de que, por acréscimo à construção de uma memória pessoal, tenho algo a dizer, algo que deve ser dito.Embora com o risco de me repetir, se retomo o metadiscurso sobre a natureza deste blogue é por me sentir confrontado com as primeiras páginas do livro de Enrique Vila-Matas, Doutor Pasavento, cuja leitura iniciei hoje. Confrontado eu, não o blogue que não tem substância para isso, nem aspira a qualquer confrontação dessa natureza com esta ou com qualquer outra matéria que aqui venha a ser mostrada como despojo de um dia qualquer. Enquanto neste blogue, onde se acumula a espuma dos dias de um sujeito que procura desse modo estar presente, dizendo o que tem para dizer, a quem aqui vier, ou, pelo menos, a esboçar uma cartografia pessoal da recepção de certos despojos desses dias, se procura deliberadamente uma certa inscrição do sujeito, nem que seja apenas no confronto consigo mesmo, no livro de Vila-Matas alguém procura insistentemente desaparecer. Donde vem essa tua paixão por desapareceres? é a pergunta repetida que institui o tema desta espécie de meta-romance-ensaio que desde o início parece rejeitar qualquer classificação canónica. Paradoxalmente, vai-se percebendo que, afinal, este discurso do despojamento encerra uma tentativa de afirmação do sujeito através da literatura, cuja essência é escapar a qualquer vontade de estabilização e de controlo. Montagem literária, portanto, em que se mostra a figura ficcional do desaparecimento, levada ao extremo de se reflectir, a partir de Blanchot, sobre o desaparecimento da própria literatura, ou sobre o grau zero do autor existindo apenas no universo da criação literária, isto é, sem biografia, nem reconhecimento. Mas tarefa impossível, parece-me, porque a literatura convoca sempre a figura do autor, sobretudo quando este utiliza a subjectividade ensaística que recusa a neutralidade aparente da terceira pessoa, como é o caso deste meta-romance-ensaio de contornos biográficos, o que, ainda, o torna mais paradoxal, face ao projecto de desaparecimento anunciado e enunciado desde as primeiras páginas e para o qual são convocadas como referências histórico-literárias, sobretudo, Robert Walser e, depois, W. G. Sebald, expoentes de uma poética da extinção que o autor parece perseguir, mas apenas como topos literário e não como projecto moral, o que, aliás, viria, ironicamente, a ser negado com a atribuição do prémio para o melhor romance publicado em Espanha em 2006, o que constitui um acontecimento, não sei se procurado ou não pelo autor, para a afirmação do sujeito que dizia querer desaparecer.Para já, primeiras páginas brilhantes de um artefacto literário experimental, carregado de ironia e excentricidade, com que se vai construindo um simulacro da biografia do autor, enredando a ficção na realidade. De outros despojos deste Doutor Pasavento, certamente, voltarei a falar. 

Metablogue (II): da escrita

 

No Diário de Susan Sontag leio uma passagem que me faz retomar a breve reflexão do post sobre o método deste blogue: «Por que é importante escrever? Sobretudo por egoísmo, suponho. Porque quero ser essa personagem, um[a] escritor[a], e não porque haja algo que deva dizer. Mas por que não também por isso? Com um pouco de construção do ego – como mostra o “fait accompli” destes [blogues] – emergirei lá mais para a frente com a confiança de que tenho algo a dizer, algo que deve ser dito».

Descontando qualquer veleidade literária, pois não pretendo confundir-me com essa personagem, esse escritor, talvez, apenas, com o escrevente de que falava Rooland Barthes, se adoptar esta anotação de Susan Sontag, estarei, afinal, a dizer que, apesar de só querer mostrar, também desejo ter algo a dizer. Mas um dizer que é feito do que cai dos livros, perseguindo, como escreveu W. G.  Sebald, «um rasto já há muito extinto no ar ou na água [mas que continua] visível, aqui, no papel». Portanto, montagem literária, como construção do ego, mas que só valerá a pena se for reconhecida a sua pertinência, em termos de aproximação aos que me poderão ler, sobretudo os amigos, e como marcação quase diarística de um leitor sem qualidades.

[foto ao alto: John Chillingworth [ Second Hand Bookshop ] 1951]

Simulacro e realidade

Pensador do quotidiano contemporâneo, mas ineficaz na sua interpelação racional porque enredado na própria teia que teceu para abordar a sociedade de consumo onde, em sua opinião, tudo se desvaneceria e tudo não passaria de um simulacro da realidade travestida numa sucessão de acontecimentos transcendentes, Jean Baudrillard morreu ontem, em Paris, com 77 anos de idade. Crítico implacável da sociedade de consumo, e figura incontornável do pensamento pós-modernista, bastante próximo do situacionismo, deixa-nos uma visão apocalítica e nihilista da sociedade contemporânea para a qual não encontra redenção possível. Embora, pessoalmente, considere as suas teses exageradas e a sua argumentação, muitas vezes, hermética, registo o seu contributo para a constituição de um imaginário do mundo contemporâneo onde a impostura, a ilusão e o simulacro ganham cada vez mais verosimilhança face à própria realidade que ele lia como um hipertexto (recorde-se, a propósito a trilogia Matrix, dos irmãos Wachowski ou eXistenZ, de David Cronenberg, que terão sido inspirados por Baudrillard, embora o filósofo tenha dito que não revia neles). A partir dele actualizo a questão: que fazer quando a velocidade dos acontecimentos mediatizados ultrapassa os próprios significados, escapando, assim, à sua interpelação racional?

Literatura pós-moderna

 

Não há kimonos, nem bonsais, nem cerimónias do chá. Em vez de sushi , as personagens cozinham spaghetti. Apenas algumas referências toponímicas ou gastronómicas dão uma cor local a histórias que se passam, sobretudo, em Tóquio, mas que se poderiam passar em qualquer cidade do Ocidente. Sobretudo, nos EUA, tal é a profusão de símbolos do capitalismo pós-moderno que atravessam os livros de Haruki Murakami, novo ícone da literatura mundial, de quem se chegou a falar para atribuição do Nobel 2007, traduzido em mais de 40 línguas e lido por milhões de leitores em todo o mundo.

De Murakami acabei há dias de ler Crónica do pássaro de corda e antes já tinha lido Kafka à beira-mar; em Portugal encontram-se, ainda, traduzidos Norvegian Wood, Sputnik, meu amor e, recentemente, Underground.

Como definir os livros de Murakami? Pelo menos os dois que li. Uma mistura híbrida entre o romance negro à maneira de Raymond Chandler, um pouco de Kafka, um cheirinho a Borges, tudo condimentado com sexo, referências literárias, comida e, sobretudo, música, clássica e muito jazz, num ambiente, simultaneamente, penetrado por luz e sombra, familiar e estranho, real e onírico, onde se movimentam personagens desenraízadas em busca de identidade. Uma espécie de realismo mágico à japonesa através de mundos subterrâneos, literal e metaforicamente, do subconsciente colectivo do Japão moderno.

De comum, os dois romances têm, ainda, um discurso que imediatamente identifica o autor, fragmentário, às vezes caótico, mas, ao mesmo tempo, eficaz nos seus propósitos de artefacto literário susceptível de agradar a uma audiência globalizada. Ambos são, contraditoriamente, atravessados por um misto de encantamento e desajustamento das personagens face a valores dominantes no mundo actual; isto é, se por um lado, existe uma certa celebração da economia e cultura globais, traduzida num fetichismo consumista, por outro, as personagens mostram-se perdidas num mundo que não reconhecem, o que faz com que Murakami possa ser considerado uma voz do seu tempo, atrevo-me a dizer, um escritor pós-moderno se é que esta classificação significa alguma coisa.

Entre fronteiras de sal

Há uma revista em Portimão que vai ligando os dois lados do mar. A Atlântica faz-se de cumplicidades entre vaga gente que reinventa uma outra America sin nombre: a do sul, para onde aponta Sagres, promontório de todas as partidas. De periferias, portanto, trata esta revista, a periferia cultural do lugar onde é lançada ao mar, e as periferias de uma América onde em cada edição reencontramos a nossa outra metade ibérica. 

A número 4 vai navegando por aí à espera de aportar em quem a queira ler. As anteriores também ainda não naufragaram. Todas podem ser vistas em pdf na web, mas não dispensam a sua leitura impressa, devendo os pedidos ser feitos ao ICIA.

Neste número 4 rumamos ao sul, mergulhando, primeiro, com os apanhadores de algas da costa vicentina, para, depois, subirmos à Serra de Monchique e, numa errância pela tradição oral, recuperarmos os vilancetes glosados dos foliões das festas do Espírito Santo, em Marmelete. Descobrimos, ainda, o Côa, correndo teimoso entre invernos e estiagens, cioso guardador de memórias. Mas será de Luanda que nos faremos de novo ao mar oceano, puxando os fios azuis dos achamentos na outra margem atlântica. Imaginamo-nos em navios armados com a madeira da Serra de Monchique, cruzando as mesmas rotas da vaga gente lusitana. Como João Fernandes, marinheiro portimonense e negociante em Acapulco. Ou como os mineiros escavando as entranhas dos Andes peruanos. Enchemos de sonhos uma embarcação a que damos nome de Eusebel e partimos de Luanda para Minas guiados pelas estrelas do sul. Navegamos sem passaporte entre fronteiras por sentinelas de sal e silêncio, até aportarmos a lugares mais remotos que Lima que apenas vislumbramos nos confins de um mundo, agora, invisível. E como uma oportunidade de recomeço, reinventamos uma América onde se projectam as utopias da vaga gente de há cinco séculos e dos revolucionários que procuram calar o silêncio dos cem anos de solidão.

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