Retóricas do 11-S

 

Foi há seis anos, mais os dezoito dias que passaram desde o último 11 de Setembro, que a queda das Torres Gémeas, em Nova Iorque, inaugurou de forma tragicamente espectacular o novo milénio, trazendo consigo o regresso da História depois do seu «fim» proclamado por Francis Fukuyama e de um período em que se assistiu a uma espécie de «greve dos acontecimentos» – segundo a fórmula de Baudrillard – numa Europa e América sem guerras desde 1945. O espectáculo de fogo mortal, visível em tempo real em todo o planeta, superaria todas as ficções, tornando-se na grande metáfora de um mundo com anemia moral e alimentado pela hipocrisia e pela felicidade engarrafada, mas irremediavelmente ferido a partir do 11 de Setembro de 2001. A vida nova depois do 11-S, simultaneamente maculada e redentora, tem dado origem a uma repetição dos discursos sobre o acontecimento, visando a sua «legibilidade», à luz de interesses variados e, muitas vezes, antagónicos, legitimadores da resposta ocidental à «barbárie» de um Islão desfigurado, perseguida pelo «profeta electrónico» Bin Laden, cujas aparições acontecem na única realidade do nosso tempo, a televisão. Que caminhamos agora entre os vestígios de uma catástrofe cuja onda de choque continua a repercurtir-se no mundo já o sabemos. Só não sabemos é se a catástrofe ficará por ali, sepultada junto ao ground zero nova-iorquino, agora irremediavelmente ameaçado pelo novo skiline mercantil a construir no mesmo lugar ou se continuará, como uma onda de choque imparável, a desmoronar cidades e vidas longe daquele epicentro. Haverá ainda redenção possível depois de tanta ruína? Se, num estado próximo do sonambulismo, W. G. Sebald caminhasse depois do 11-S sobre os mesmos tijolos calcinados, talvez voltasse a dizer: «Demasiados edifícios ruíram, amontoou-se demasiado entulho, são intransponíveis os sedimentos e as moreias» [Os Anéis de Saturno, Teorema, p. 172]. 

Mas será que o 11-S, nas suas causas e efeitos, constituiu uma cesura radical na narrativa moderna? Ou não terá sido antes mais um episódio de esbanjamento trágico do potencial redentor da humanidade? Foi, seguramente, um regresso ao fundamentalismo religioso incentivado pelo «choque das civilizações»[Samuel Huntington, O Choque das Civilizações e a Mudança na Ordem Mundial, Gradiva, 1999] ou «choque dos preconceitos» – como corrigiu Edward Said [Orientalismo, Cotovia, 2004] -, marcado pela tendência para a «teologização do político» e para a «instrumentalização política da religião» [Alain Badiou, Circunstances, Éditions Léo Scheer, 2004] tão presente nos discursos maniqueístas dos protagonistas desta tragédia global. Seja como for, cesura ou continuidade histórica, neste tempo de ebulição catastrófica, ganham adeptos as teorias salvícas que vão hipostasiando um «nós» ocidental contra um Islão desfigurado pela violência fundamentalista, fazendo-nos, assim, roçar um abismo cujo fundo negro desconhecemos. Multiplicam-se, por isso, os discursos que visam a «legibilidade» do 11-S à luz dessas mesmas teorias que conduzem a um perigoso resvalar para territórios de liberdade condicionada no mundo ocidental, refém, sempre, da maldição moderna do petróleo.

Eis a retórica dominante na efeméride negra do 11-S, como se o acontecimento apenas pudesse ter «legibilidade» através de um discurso legitimador da resposta americana enviesada, não tanto contra o terrorismo, mas contra um «inimigo providencial» [Carl Schmidt, Théologie politique, Gallimard, 1969] , em cujas fileiras se contam já milhares de vítimas inocentes, iraquianas sobretudo, mas também soldados das forças internacionais, enquanto deixa os sequazes de Bin Laden à solta no Afeganistão e no Paquistão. Ou, num sentido oposto, nos discursos negacionistas de uma certa esquerda, anacrónica, e também ela maniqueísta, só que invertendo os polos do bem e do mal. 

E qual retórica da literatura sobre o 11-S? Tem sido ela capaz de retraçar o acontecimento dando conta da consternação do «mundo ocidental» pós 11-S? No epicentro da catástrofe, quatro escritores americanos publicaram romances sobre a vida depois do 11-S. «Ela falou da torre […] claustrofobicamente, o fumo, os corpos desmembrados, e compreendeu que podiam falar daquelas coisas somente entre eles» – escreve Don DeLillo em Falling Man, um romance circular a várias vozes : a de um sobrevivente do atentado, a de sua mulher e de um terrorista. E Claire Messud, em The Emperor’s Children: «aquele imenso buraco parecia una extensão da sua própria dor». E Jay McInerney, em Good Life. E Jonathan Safran Foer, em Extremely Loud & Incredibly Close/Extremamente alto & incrivelmente perto [Quetzal, 2007].

Claro que mesmo nesta literatura estamos ainda diante de visões hipostasiadas de um «nós» que exclui os outros, enraízadas na experiência ocidental do acontecimento, visões parciais, portanto, mas que nem por isso deixam de constituir outras formas de retraçar o acontecimento, preferindo a ficção à interpretação, a experiência individual do acontecimento à sua explicação alegórica, a sua subjectivação discursiva à sua «legibilidade» compulsiva, sem cair na tentação didáctica, mas, como cabe à literatura, expondo-nos destinos tiritantes que poderiam ser os nossos, num mundo caminhando alegremente para um «pôr-do-mundo» cada vez mais desvanecido e alheado [Peter Sloterdijk, Weltfremdheit/Alheamento do mundo, a publicar pela Relógio d´Água ainda este ano].

Interrogo-me sobre o que escreveria Kafka no seu diário se tivesse presenciado todo o espectáculo da derrocada das Torres Gémeas. É que no dia 1 de Setembro de 1911, precisamente noventa anos antes, a propósito de uma colisão entre um triciclo e um automóvel ele referira-se, premonitoriamente, a um «pedalar totalmente despreocupado» que me me faz pensar na despreocupação dos nova-iorquinos antes da dupla colisão dos aviões com as torres. O mundo pedalando despreocupadamente para o abismo. E depois o espectáculo do fogo mortal.

Amor sólido

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Poderá o pensamento continuar a pensar até ao fim da vida? Ou, à medida que um pensador original avança na idade, mais não faz do que produzir variações do seu tema fundador? Proust dizia que há apenas um único grande livro que cada escritor escreve ao longo da sua vida. Talvez isso se aplique ao grande livro do amor escrito por André Gorz e sua mulher Corinne. Talvez o suicídio que ambos, ontem, cometeram seja a variação final e esmagadora do grande livro do amor que escreveram durante os cinquenta e oito anos que estiveram juntos, coisa rara num tempo em que a instantaneidade das coisas se tornou no novo modo de vida de uma sociedade onde até o «amor [é] líquido» [Zygmunt Bauman]. Não o amor de André e D. :«Tu vas avoir vingt-quatre-deux ans. […] et tu es toujours belle, gracieuse et désirable. Cela fait cinquante-huit ans que nous vivons ensemble et je t’aime plus que jamais. Je porte de nouveau au creux de ma poitrine un vide dévorant que seule comble la chaleur de ton corps contre le mien», escreveu André Gorz no seu último livro dedicado a Dorine [Lettre à D. Galilée, 2006], cuja presença «fut décisive dans la construction d´une oeuvre dont la visibilité ne porte qu´un nom alors qu´elle fut celle d´un couple, le fruit d´un long dialogue

Mas uma obra que, ao contrário da ideia proustiana do livro único, sempre perseguiu a inovação epistemológica, adaptando um pensamento com raízes na Escola de Frankfurt à experiência da actualidade, como mostra o seu derradeiro livro filosófico [L´Immatériel, Galilée, 2003], onde explora o potencial de liberdade, de subversão e de emancipação que existe na «economia do imaterial», a despeito das desesperadas tentativas de controlo do novo mundo virtual. Deixa, implícita, uma interrogação. Poderá, ainda, a sociedade recuperar o domínio sobre a economia? Como tentativa de resposta antecipa o surgimento de uma «dissidência numérica» no seio do «capitalismo cognitivo» emergente a partir da crise de um capitalismo que já não pode sobreviver sem a linkagem interactiva entre pessoas, empresas, serviços, consagrando a irredutibilidade das ligações, das conexões. 

Daí a possibilidade potencial da crise que provém sempre do acidente, da desligação. É que – permitam-me o pensamento – se o desligar constituiu a marca da modernidade, nomeadamente na ruptura com a tradição medieval, o carácter compulsivo do ligar/desligar parece encerrar, hoje, todo o «poder constituinte» da experiência «pós-moderna». E, logo, toda a possibilidade de gerar tensionalmente a dissidência, mesmo que o visível seja, ainda, a requisição da experiência pelo continum controlador da técnica [Martin Heidegger, «Construir, Habitar, Pensar», in Conferências y Artículos, Barcelona, Serbal, 1994].

A arca de Joseph Joubert

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Poderá um nome de um escritor sem livro continuar a cintilar muitos anos depois da sua morte, como uma espécie de Bartebly que renunciou não à escrita mas à publicação de um livro que ele não poderia nunca escrever sem encontrar a nascente de todos os livros?  «Atormentado pela maldita ambição de colocar um livro inteiro numa página, uma página inteira numa frase e essa frase numa palavra», esse escritor foi, seguramente, Joseph Joubert (1754-1824), escritor sem livro, arquétipo de todos os autores dos livros por vir. E, actualizando a sua atitude moderna, contra-ponto radical daqueles que, hoje, ousam publicar sem nunca terem escrito um livro, uma página, uma frase, mas que, ainda assim, encontram sempre uma editor da moda onde depositam a vaidade e a verborreia «literária» perante a histeria tranquila do novo povo do códice [de Da Vinci].Joubert escrevia muito, apesar daquela espécie de maldição. Anotações em pequenos cadernos, em papéis soltos, fragmentos de um livro por vir a cuja preparação dedicou toda a sua vida. Mas seria um projecto nunca cumprido, porque – dizia – não reuniu as condições para escrever esse livro ideal. Um dia Chateaubriand perguntou-lhe para quando esse livro: «Ainda não o posso fazer – respondeu -, ainda não encontrei a fonte que procuro. Mas se encontrar essa fonte, ainda terei mais motivos para não escrever esse livro que gostarias que eu escrevesse». Parece que Joubert nunca encontrou essa da fonte da escrita que lhe permitiria escrever a «belíssima obra» que segundo os seus amigos lhe estava destinada,  e que na sua busca se tornou incapaz de perseguir a vulgaridade literária que outros alimentavam, sacrificando o seu livro para procurar a fonte secreta donde brotavam todos os livros por escrever.  «Foi, por isso [segundo Blanchot] um dos primeiros escritores inteiramente modernos, preferindo o centro à esfera sacrificando os resultados à descoberta das suas condições e escrevendo, não para acrescentar um livro a outro livro, mas mas se tornar senhor do ponto de onde lhe parecia que saíam todos os livros e que, uma vez encontrado, o dispensaria de os escrever».  Mas embora sem a pretensão de publicar,  Joubert escrevia ao sabor do que lhe caía dos dias, pensamentos dispersos, anotações de um caminhar seguro em direcção a um grau zero da literatura, «fora das coisas civis e na pura região da Arte», como se fosse já – disse Blanchot – «um autor sem livro, um escritor sem escrito».Joubert nunca encontrou o espaço adequado para as suas ideias: «As minhas ideias! Custa-me construir a casa onde alojá-las». Outros, porém, encarregar-se-iam disso depois da sua morte. Chateaubriand que publicaria, numa edição ainda privada, reservada aos amigos, os seus «papiers de la malle», com o título Recueil des Pensées de M. Joubert, mais tarde revisto e aumentado por um sobrinho de Joubert e reeditado como Pensées, Essais, Maximes et Correspondanee de J. Joubert. Também Paul Auster responsável pela versão inglesa, com o título The Notebooks of Joseph Joubert.

 

O livro por vir

 

Foi comentador de Kafka, Musil, Proust, Herman Broch, Henri James. E, talvez, tenha influenciado discretamente Derrida e Deleuze. Dele se disse, ainda, ser mais levinassiano que o seu amigo Emmanuel Levinas. E que «procura[va] pensar judaico como Hölderlin procura[va] pensar grego». Daí o seu salto judaico como tentativa de esquecimento e de desaparecimento, de expiação e de purificação diante da catástrofe da razão moderna. Depois de Theodor Adorno escreveu: «Pensa e age para que Auschwitz nunca mais se repita». E acusou: «No silêncio de Heidegger sobre o Holocausto reside o seu erro irreparável». Eis Maurice Blanchot que me fez descobrir o escritor Joseph Joubert, aquele que nunca escreveu um livro e que se perderia, precisamente, na busca secreta e lúcida do seu livro por vir.

Conta Enrique Vila-Matas em Doctor Pasavento que um dia lhe perguntaram: «Para onde vai a literatura?». «Dirige-se para si mesmo, para a sua essência, que é o desaparecimento», respondeu imperturbável, Blanchot. Talvez, por isso, escutar, ainda, o enigmático canto das sereias «tão semelhante ao dos homens que faz suspeitar da inumanidade de todo o canto humano», e deixarmo-nos arrastar para a escrita desse fabuloso livro por vir incessantemente procurado por Joubert. Blanchot nasceu faz hoje cem anos.

Políticas da literatura

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Nalguns textos anteriores aqui inscritos (Da literatura Sebald: viagem entre ruínas), tenho procurado interrogar o papel da literatura enquanto expressão necessária da consternação de um mundo «tão cheio de falsas representações, tão fútil, onde tudo se desumaniza ou desaparece e que inclusive a própria História se desvanece», como escreveu W. G. Sebald, em Os Anéis de Saturno.  Mas que literatura «ante a decadência implacável da ambição literária, a convergente ascensão de desengano, a verborreia e a crueldade insensível como assuntos normativos da ficção»? questionava Susan Sontag. Que literatura perante este mal endémico que corrói, hoje, as estantes das livrarias?

Demasiadas interrogações que vêm alimentar um debate em múltiplas direcções, actualizando a questão da definição do papel da literatura, questionamento que poderá constituir não apenas um sinal de indecisão acentuada, mas também uma aproximação à complexidade processual da literatura. Ante o espectro da síndrome do código […de Da Vinci] e das suas múltiplas reprises, poderá a literatura, ainda, continuar a produzir uma interrogação sobre o mundo, revelando os territórios da dominação que se escondem atrás da vida de todos os dias e, assim, cumprir o seu papel na sobrevivência da memória? Ou será cada vez mais a literatura uma mercadoria que se expõe nas livrarias à espera de um leitor passivo e pouco exigente, uma raça de «analfabetos altivos» que «em vez de ler o melhor que se produziu nas diferentes épocas, se resume a ler as novidades, afundando-se cada vez mais no próprio lodo», como antecipou Schopenhauer?  Na verdade, o que cada vez há mais nas livrarias são apenas livros e pouca literatura, contribuindo para o simulacro de uma cultura que se esvanece perante a histeria tranquila que invade os escaparates livreiros, transformando o leitor num consumidor passivo, marcado pela fraqueza e pela impotência face à mercadoria exposta ali por «todos esses homens de negócios que editam livros, directores de departamento, líderes de mercado, trapezistas do marketing e licenciados em economia», como denuncia Enrique Vila-Matas nesse desassossegante libelo contra os inimigos do literário que é O Mal de Montano.

«A rasura total da literatura» ou «o horror do estilo», segundo João Barrento ou o «realismo urbano total», como classificou Miguel Real esta literatura achatada, e quase sempre vazia, que espelha o mundo que aí está e que muitos chamam de pós-moderno, correspondendo à «historicidade imanente» de que falava Theodoro W. Adorno.  Uma literatura que não é mais do que a manifestação epifânica de um mundo carregado de sombras ocultas sob a fogueira da técnica e do mercado que nos atrai como borboletas de asas trémulas. A literatura perdida no meio dos livros e nós doentes da literatura como mariposas errantes no meio deles. Estará a «arte de contar em vias de se perder», como afirmou Walter Benjamin? E não será isso uma consequência da crise da experiência moderna, onde o fragor da técnica emudeceu a fala dos homens e dos escritores apanhados pela mesma teia da contingência? Paul Auster afirma na sua Trilogia de Nova Iorque que «o caso é que as nossas palavras já não correspondem ao que se passa no mundo. […]  Pouco a pouco [as] coisas fragmentaram-se, espalharam-se, caíram num caos. E, contudo, as palavras permaneceram as mesmas», tornando-se incapazes de dar lógica à trama da vida.

Que outra via, então, para a literatura? Isto é, entre a mercadorização, a alienação e o engagement será possível ainda uma literatura capaz de, para além dos propósitos do autor, perturbar o universo do sensível, os modos como percepcionamos o mundo, autonomizada, mas sem cair no vazio ou no ensimesmamento.  Como contrariar a profecia hegeliana sobre o devir da «prosa do mundo» que ao perder o seu sentido teológico perdeu também a sua literariedade, tornando-se num «objecto verbal laborioso e inútil», como já a sentia Jorge Luís Borges? Trata-se, agora, de resolver a oposição radical entre a passividade e a actividade do leitor, como propõe Jacques Rancière, em Politique de la littérature. Que novas figuras de esperança, sem cair na tentação panfletária, poderá ainda a literatura convocar neste crepúsculo das ideologias? Diz Rancière que «a força da arte é, precisamente, sair das figuras, das formas esperadas, para lhes dar um outro modo de presença». Não estamos diante de indivíduos, mas de personagens de papel – como escreveu Roland Barthes – através de cuja figuração estética o mundo impõe uma presença que apenas a distância nos permite abarcar. Mas «personagens com inteireza», segundo Lídia Jorge, capazes de dar à trama da vida uma outra lógica que lhe escapa e que só a literatura pode inventar, agitando éticas e estéticas conformistas. Uma literatura como simulação da vida, como escreveu Bernardo Soares no Livro do Desassossego: «Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa». Ir por aí, portanto, ultrapassando o velho paradigma modernista da distinção entre uma literatura engagée e uma literatura indiferente, mas recusando «uma espécie de pedagogia política voluntarista da arte» que não poderá constituir o contraponto ao vazio ou ensimesmamento literários.

Coloca-se, então, o problema da relação da política com a literatura, com a arte em geral. Qual o compromisso actual da literatura? Caberá à literatura e à arte produzir conhecimentos ou representações para a política, falhando a sua natureza ociosa? Ou, pelo contrário, não residirá o seu potencial emancipador, o seu fogo, precisamente, na sua aparente ociosidade? «Um romance não é significativo por ser, por exemplo, instrutivo, e expor-nos um destino estranho, mas porque esse destino estranho, com o fogo que lhe é atribuído, nos dá um calor que nunca somos capazes de conservar para o nosso próprio destino. O que empurra o leitor para a novela é a esperança de poder abrigar a sua própria vida tiritante face a uma morte sobre a qual se lê», e «não é por comunicar conteúdos, mas por trazer à luz da maneira mais límpida a sua dignidade e a sua essência que a a literatura se mostra eficaz», escreveu Walter Benjamin em momentos distintos.  Esta a essência da literatura, isto é, a sua capacidade de escapar a toda a determinação essencial, a toda a acção estabilizadora, diz Blanchot. Também Rancière afirma que a literatura  «produz ficções ou dissenções, agenciamentos de relações de regimes heterogéneos, mas não os produz para a acção política, mas sim no seio da sua própria política, criando um duplo movimento que por um lado conduz à sua própria supressão, e por outro, aprisiona a política da arte na sua solidão, recortando o espaço do sensível e da redistribuição das relações entre a actividade e a passividade, o singular e o comum, a aparência e a realidade, que são os espaços-tempos do teatro ou da projecção, do museu ou da página lida».

Ora, é nesta reconfiguração da experiência que a literatura poderá, então, suscitar novas formas de subjectivação política e nesse sentido levar à superação do binómio política/literatura a cuja indistinção Rancière dá o nome de ética. Ou como dizia Lídia Jorge a propósito do seu último livro, uma literatura «com um assomo político», capaz de dar trama à vida de todos os dias. E de «corrigir a fortuna que é cega, com a alegria da natureza que é previdente», acrescentaria Agustina Bessa-Luís. Porque toda a ética da literatura reside no modo como ela se dá a ler. Ou, nas palavras de Giorgio Agamben, «como tu falas, isso é a ética».   

A cada um o seu lugar?

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Argumentando ainda a favor da criação de uma chinatown, em Lisboa, Maria José Nogueira Pinto demarcava-se, na semana passada, no Diário de Notícias  daqueles que acham que o mercado tudo regulará, mesmo que isso conduza ao desaparecimento do comércio tradicional. Escrevia, então, que «na sua lógica pura, um defensor acérrimo do mercado apostará na progressiva substituição de todo este comércio por simpáticas e prestáveis lojas chinesas»; e que, obviamente, não era isso que defendia. Mas e a criação de uma chinatown, «opção, relativamente à imigração chinesa de forte vocação para o comércio, em várias cidades do mundo, cidades dignas desse nome, todas com a sua chinatown»? Que pensar desta proposta, aparentemente, segregacionista, da qual o próprio António Costa parece desconfiar? Representará isto o desejo de pôr cada um no seu lugar, conforme a um multiculturalismo que atribui a cada homem, a cada grupo, um posicionamento fixo em função dos seus atributos? Ou estaremos perante uma tentativa enviezada de recentramentro de actividades comerciais, marcada apenas pela necessidade de salvaguardar a identidade cultural de uma zona histórica? É que, não sejamos hipócritas, o problema da «lojas chinesas» não está na nacionalidade dos proprietários, tão pouco na sua actividade comercial, mas sim na qualidade dessa actividade, e na própria qualidade dessas lojas que praticam um tipo de comércio anacrónico, feito para cidades feias, sujas e degradadas. Ora, se queremos revalorizar e revitalizar a Baixa, é óbvio que essas lojas terão de ir para outro lado. Tratar-se-á, então, de um problema que deve ser pensado no âmbito de uma política de valorização do património cultural e do seu uso social numa zona histórica, onde não cabem, parece-me, as «lojas chinesas» ou quaisquer outros enxertos estranhos e desqualificados. Tratar-se-á de aplicar os mesmos princípios que deveriam excluir da Baixa as esplanadas de plástico e outras manifestações de mau gosto comercial. Nunca, porém, como tentativa de descentramento artificial, em nome de um falso multiculturalismo, de uma comunidade e de uma actividade exercida por essa comunidade, como forma de criar um novo bairro etnográfico visitável por turistas, como parece defender a responsável pelo gabinete Baixa-Chiado. Tanto mais que a criação de uma chinatown pode ser perigosa porque susceptível da sua guettização. Não será difícil imaginar que as mesmas  famílias que já trabalham sem horários nem direitos sociais, e vendendo a preços baixíssimos produtos fabricados na China em regime de «dumping social», logo se mudariam para esse bairro, fragilizando as relações entre os de dentro e os de fora. Lembra o socióliogo polaco Zygmunt Bauman [em Confiança e Medo na Cidade, Relógio d´Água, 2006] que homogeneizar «os bairros, e reduzir depois ao mínimo inevitável todo o comércio e comunicação entre eles, é uma receita infalível para avivar e intensificar o desejo de segregar e de excluir» (p. 46), originando novas patalogias de posição provocadas por recentramentos artificiais que podem fazer deslizar para a guettização. Daí, a necessidade desta questão ser pensada sem a hipocrisia do politicamente correcto, exercendo a autarquia de Lisboa o seu dever de regulação política, requalificando a Baixa sem cedências a interesses instalados, chineses ou outros, mas sem que daí resulte uma qualquer deriva segregacionista.

Sob suspeita (III)

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Será que, no caso Madeleine, a aproximação mediática à verdade está condenada a formas de processamento do acontecimento acomodadas a uma tipologia narrativa à maneira de um thriller melodramático servido diariamente a espectadores frívolos, contempladores obscenos de um drama alheio em cena num teatro da crueldade? E poderiam as duas hipóteses de investigação perseguidas ter tido outra abordagem mediática, que a não a da sua serialização narrativa assente na incerteza e na fragmentação da notícia, de forma a manter o público sitiado face ao desenrolar deste thriller melodramático? Mais do que responder ao acontecimento representando-o nas suas várias possibilidades, visando a formação de uma opinião pública informada, os media vêm respondendo a este caso através da construção de uma espécie de micro-narrativas fragmentárias e, muitas vezes, contraditórias, de um acontecimento encoberto tanto pelo segredo de justiça como pelo ruído mediático que foi crescendo à sua volta.

Escutámos, primeiro, uma narrativa que visava a deslocalização do acontecimento, afastando-o da Praia da Luz, no rasto da tese de rapto promovida por uma campanha mediática sem precedentes. E, depois, escutámos a narrativa da morte de Madeleine às mãos dos McCann, ainda que acidentalmente. Mas ambas as narrativas, nos seus múltiplos segmentos processados mediaticamente como um thriller melodramático, respondem ao acontecimento de forma semelhante, isto é, promovendo a incerteza, o improviso, a imprevisibilidade, a expectativa que é preciso alimentar diariamente.

Mas, e poderia o jornalismo responder de forma diferente a este acontecimento. É que faltando informação, o thriller só poderá ser alimentado através do tentativo, do improviso, do provisório, sob pena dos media ficarem silenciados. E isso é contrário à sua vocação. Daí o arriscar agora na tese da morte de Madeleine, cuja coreografia da crueldade, venham os pais a revelar-se responsáveis ou vítimas, não nos deixará indiferentes.