Outras rosas mais tarde

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Se havia alguém que pudesse «ser terrível, nostálgica, desesperada e furiosamente moderno no interior da pós-modernidade em que todos vivemos», esse alguém, mais do que qualquer outro, era Eduardo Prado Coelho. Por isso, o seu percurso intelectual caracterizou-se por uma insaciável curiosidade, uma quase incontrolável necessidade de testar e desafiar convenções através de uma escrita iluminante, fosse no sentido de abrir clareiras no universo da crítica e dos autores que nos foi dando a conhecer, fosse no sentido do brilho que a suas próprias palavras irradiavam. Moderno nas convicções e na visão cosmopolita do mundo e pós-moderno na atitude arriscada e pouco ortodoxa como encarava a crítica, a ele se deve a divulgação em Portugal dos grandes debates intelectuais das últimas décadas, assim como de um conjunto de ensaios incontornáveis no estudo da literatura portuguesa. Da leitura do seus ensaios fica-nos, às vezes, uma sensação de excesso bibliográfico e de obsessão pela novidade, mas isso não diminui em nada a originalidade e, sobretudo, a espontaneidade crítica do «oficiante mais brilhante e activo» da «pequena ou grande capela da cultura portuguesa», como o via Eduardo Lourenço. A profusão bibliográfica, as citações que convocava, constituiam aberturas, fugas para outros livros, para outros autores que EPC generosamente partilhava connosco. Ora «do pecado da generosidade ninguém se deve arrepender», disse Eduardo Lourenço. Nem queixar.  Antes agradecer.

EPC foi, talvez, disse Pedro Mexia, «o último crítico», num tempo de desagregação do pensamento  jornalístico cada vez mais desprezado em nome de uma retórica exclusivamente informativa e de uma ética de insustentável «objectividade». Um crítico capaz de se adentrar por qualquer território: do cinema à poesia e à ficção, da crítica literária – que teve nele o seu cronista mais mediático e plural – à filosofia que, sob o signo de Foucault e Derrida sobretudo, enquadraria a sua utopia intelectual. E, claro, também pelos territórios movediços da política, porque a disposição do mundo sempre lhe impôs o exercício do juízo e do posicionamento cívico, recusando os lugares fixos e contemplativos de um certo nihilismo pós-moderno onde se fixam  a maioria dos nossos académicos. Daí que na política, como noutros territórios, nada lhe fosse estranho, como provam as várias patologias de posição que a afecção pela novidade intelectual lhe foram sugerindo ao longo da vida, o que lhe valeu, algumas vezes, a incompreensão e mesmo a acusação de carreirista político, facto que pouco ou nada o incomodava, pois sentia «a mais soberana indiferença por quase tudo o que pensavam ou escreviam a seu respeito».

E ele se deve, ainda, a reabilitação da perigosa e movediça crónica jornalística diária sobre temas mais ou menos «mundanos», que vinha escrevendo no Público desde 1998, sob o título O Fio do Horizonte: «cenas da vida quotidiana, memórias envolvidas na nostalgia do tempo, transformações do mundo quotidiano, polémicas, movimentos de humor, análise política, inventário cultural», tudo lá se encontra graças à sua capacidade rara de apanhar o dia de modo expedito, respondendo à urgência da «actualidade», na tentativa de «tornar mais puras as palavras da tribo», como propusera há muito tempo Mallarmé. Dos dias que passavam caía-lhe sempre um tema,  porque «a vida à nossa volta dá-nos inúmeras sugestões», que ele transfigurava depois em matéria de crónica, umas vezes provocatória outras laudatória, umas vezes impertinente outras apaziguadora, mas sempre respondendo ao acontecimento através de uma tonalidade política que dava espessura a uma escrita jornalística onde ia acumulando os farrapos que se amontoavam no fio do horizonte e que generosamente distribuía depois em forma de crónica curta.

Morreu inesperadamente no Sábado, em casa, vítima de ataque cardíaco. Tinha 63 anos. Foi seguramente o intelectual português mais espontâneo e mediático dos últimos 25 anos, uma espécie de «intelectual público». Alguém que o conhecia de perto disse que ele tinha «uma dimensão jubilatória da vida» (António Pinto Ribeiro). «Gostava de viver e de viajar. Era filho de um outro intelectual que marcou a Academia portuguesa, Jacinto do Prado Coelho, e pai de uma jornalista [que ainda é capaz de apanhar o que cai dos dias de modo expedito], Alexandra Prado Coelho. Escritor (…) e docente universitário desde 1970 (actualmente era professor associado da Universidade Nova de Lisboa), colunista do Público desde a fundação do jornal, director-geral da Acção Cultural do Ministério da Cultura (1975-76), professor de estudos ibérios na Sorbonne (1988-89), Conselheiro Cultural da Embaixada de Portugal em Paris (1989-98), cargo  que acumulou a partir de 1997 com a presidência do Instituto Camões na capital francesa); várias vezes comissário de importantes eventos culturais, em Portugal e no estrangeiro. Da sua vasta obra ensaística destacam-se O Reino Flutuante (1972), Os Universos da Crítica (1983, versão da sua tese de doutoramento), A Mecânica dos Fluídos (1984), A Noite do Mundo (1988), os dois volumes do diário Tudo o que não escrevi (1992 e 1994), O Cálculo das Sombras (1997), A Razão do Azul (2004) e Nacional e Transmissível (2006). Recebeu o Grande Prémio de Literatura Autobiográfica da Associação Portuguesa de Escritores (1996), o Grande Prémio de Crónica João Carreira Bom (2004)» [Eduardo Pitta].

EPC morreu num dia de Verão, deixando-nos não as Sete Rosas Mais Tarde, título inspirado em Paul Celan para a nova coluna literária que começaria a publicar no Ípsilon a partir de Setembro, mas muitas outras rosas que continuaremos a colher no seu jardim de palavras.

[A fotografia reproduzida ao alto é de Silvia Seova]

Os cornos da actualidade

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O que procuro nos jornais, nas televisões? Talvez uma certa forma de, expeditamente, apanhar o que cai dos dias. Ou, dito de outro modo, uma certa forma de entrar pela «janela» da actualidade que deveria permitir olhar para lá do horizonte da informação dita «objectiva». Porque no jornalismo, como na literatura também, e não apenas, a questão é política e não pode ficar refém de uma pretensa comunicabilidade teoricamente insustentável, quando o que deveria estar em causa seria responder ao acontecimento através de estratégias discursivas capazes de levar aqueles que o apreendem através das janelas mediáticas a repensarem a actualidade sem a urgência imposta pelas máquinas mediáticas contemporâneas. Ora isso é cada vez menos possível nas novas paragens do discurso jornalístico que, caído no torvelinho da imanência, «come o pensamento», ignorando o papel crítico que lhe deveria estar reservado na constituição da experiência contemporânea. Já aqui falei de como os suplementos literários foram banidos dos jornais. Mas não apenas. Que pensamento se encontra hoje no Público, no DN ou mesmo no Expresso? E nos vários telejornais? Apenas um vazio prenchido pelo lisonjeamento de uma comunicação sujeita a retóricas que pouco ou nada têm a ver com o processamento crítico da actualidade. Neste começo de século, tal como no princípio do século vinte, o «jornalismo come o pensamento», como dizia Karl Kraus. E, no entanto, é possível, ainda, um jornalismo (como uma literatura) empenhado em apanhar o que cai dos dias, isto é, empenhado em apanhar a actualidade «pelos cornos», sem nos coagir, antes levando-nos a agir contra uma certa forma de nihilismo pós-moderno que nos torna cada vez mais passivos, indiferentes, espectadores mais ou menos obscenos de um mundo sem remissão caminhando para um «apocalipse alegre», conforme a fórmula aparentemente catastrofista com que Hermann Broch descrevia o nihilismo austríaco das primeiras décadas do século passado. Trata-se de um jornalismo que, mais do que informar «objectivamente», joga a sua essencialidade na forma como mostra o acontecimento, isto é, como retraça a actualidade através de uma escrita que não rejeita, antes afirma o exercício do juízo e da tomada de posição contra a vacuidade dos «livros de estilo» e da lisonja da comunicação. Mas esse jornalismo é hoje excepção, já não define padrões, muito menos serve de modelo, como  diz Rui Bebiano em resposta a um comentário que lhe deixei no seu próprio comentário ao livro A Face da Guerra, de Martha Gellhorn que a Dom Quixote acaba de publicar, também ela uma jornalista de excepção, «que não receia a polémica, que informa mas também se emociona e toma partido – e não engana o leitor, pois assume que o faz –, [um jornalismo, portanto] que se distingue e permanece para além do instante», escreve Bebiano. E, claro, há mais excepções  contra o mercantilismo jornalístico vigente e este texto teria um tom vagamente nihilista se não convocasse para aqui uma dessas excepções que, às vezes, quando menos se espera vêm assaltar as nossas convicções. 

Por exemplo, a reportagem de Clara Ferreira Alves, publicada na Única (in Expresso, de 21 de Julho de 2007), com o título Vidas Ocupadas. O que faz, então, CFA de quem me habituei a ler,  semanalmente, com proveito, a sua Pluma Caprichoa, nessa reportagem sobre a «muralha» de ódio que vai rasgando a paisagem bíblica da Palestina, espartilhando judeus e árabes? Desde logo, a reportagem diz menos do que mostra. E ao preocupar-se com o mostrar responde expeditamente ao «acontecimento» que é a construção da «muralha» de mil quilómetros de comprimento por oito de altura que se vai fechando sobre as vidas de 300 mil palestinianos. CFA mostra-nos a mesma Jerusalém que Amos Oz descreveu como «uma desordem mental muito arreigada… uma espécie  de “síndrome de Jerusalém”: uma pessoa chega, inala o ar puro e maravilhoso da montanha e, de repente, inflama-se e pega fogo a uma mesquita, a uma sinagoga ou a uma igreja». Quando CFA lá esteve a fazer esta reportagem era Outono e uma luz morna derramava-se sobre as torres, muros e minaretes da cidade como vergando-a ao peso das religiões. CFA mostra-nos tudo rigorosamente vigiado, polícias e soldados nas ruas, grupos de judeus ordodoxos conspirando nas esquinas contra uma parada gay que iria realizar no dia seguinte, uma tensão no ar prestes a explodir a qualquer momento; mostra-nos judeus às arrecuas diante do Muro das Lamentações que parecem saídos do qualquer «shtetl» de Varsóvia; mostra-nos a Esplanada das Mesquitas onde começou a terceira Intifada depois da provocação de Sharon;  e, mostra-nos, sobretudo, uma muralha serpenteando como uma mancha na paisagem abandonada por Deus, cortando ruas e estradas, quintais, hortas, vizinhanças, mas também feridas abertas, ódios acesos. Medo. «Sou contra, mas é eficaz», diz o poeta Israel Eliraz . Uma nova forma de roubar a terra e a água palestinianas, uma humilhação, dizem os palestinianos. E as duas respostas são verdadeiras, diz-nos CFA que nos mostra, ainda, que «quando o Muro estiver terminado, a Cisjordânia será dividida em bantustões». E mostra-nos o fraticídio entre a Fatah e o Hamas, transformando Nablus num lugar assustador, balas assobiando no ar, ambulâncias a recolher feridos. E muito dinheiro sujo. CFA mostra-nos o que viu saída de Nablus, ela uma mulher europeia identificada sofrendo nas «filas de mulheres e homens debaixo de um calor tórrido, gente de todas as idades aguardando como animais a passagem da cancela, e sendo tratadas de modo displicente pelos soldados israelitas, um bando de miúdos malcriados […] rapazolas humilhando mulheres mais velhas […] tocando-lhes como se fossem gado […], crueldade e medo».

Estes os sinais da actualidade que CFA leu na sua passagem por Jerusalém e pelos territórios ocupados. Sinais, sobretudo, de vidas ocupadas. Dos dois lados. Sim, mas mais do lado dos palestinianos, porque, dizia-me há semanas Fouad, um palestiniano que mora em Hebron e que conheci em Amann, «a paz sim, claro, quando nos devolverem os territórios». Mas também Amos Oz cuja História de Amor e Trevas me mostrou o outras possibilidades de pensar o conflito, sem afecção ao que até há pouco, para mim, era o politicamente correcto.

Eis o que também procuro nos jornais, nos noticiários das televisões. Um jornalismo que tome posição sem afecção pelo politicamente correcto, como esta reportagem de CFA, cujo ponto de vista não é seguramente o da «objectividade» jornalística que muitas vezes mais não é do que uma forma nihilista de não questionamento «acontecimento». Aqui, mais do que dizer o muro, o importante é «dinamitá-lo», mostrando o drama das mulheres da Palestina que intentam atravessá-lo. E a CFA estava lá e nós, leitores de jornais,com ela. E isso é o jornalismo ainda capaz de forçar a pensar. Porque mostra, retraça sinais, posiciona-se, ajuízam sem afecção pelo politicamente correcto e, nessa forma de mostrar o acontecimento mostra-se ela própria como jornalista capaz de apanhar os «cornos» da actualidade.   

Requiem, de Amos Oz

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No bairro de Kerem Avraham, em Jerusalém, onde Amos Oz cresceu, muitos eram tolstoianos invertebrados, «barbas brancas ao vento», «tolstoischkis» caídos de um romance de Dostoievsky: «torturados, faladores […], idealistas atormentados, mas todos trabalhavam efectivamente para Checov» (pág. 9). Eram funcionários, escritores, enfermeiras, utopistas, tradutores, pequenos comerciantes, bibliotecários, empregados de escritório, ideólogos, logistas, intelectuais constrangidos a executar trabalhos ingratos e vivendo no despojamento e com a paixão do estudo, velhos solitários que sobreviviam com magras economias… Quando a noite caía, as portadas das janelas eram fechadas, as portas eram trancadas e apenas a reverberação do luar derramava uma morna luminosidade nas ruas desertas. Havia também os pioneiros que viviam para lá dos montes escuros de Jerusalém, na Galileia, no Sharon, nos desertos das margens do Mar Morto, nas planícies costeiras; e «era lá que do miserável pó se fazia uma nação combatente» (pág. 11). E havia ainda Telavive, «cidade efervescente» cheirando a maresia, «como um projecto secreto e vital do povo judeu»(pág. 13). , onde havia mesmo «judeus bronzeados que sabiam nadar. Quem em Jerusalém sabia nadar?» (pág. 11). Ninguém. Seguramente não o sabiam aqueles tolstoianos e dostoievkianos que, refugiados em habitações minúsculas, discutiam num hebraico hesitante o destino de Israel, mas sonhavam ainda num iídiche que lhes recordava os tempos sombrios de um qualquer «shtetl» na Polónia, na Rússia ou na Roménia, onde imaginaram uma terra para lá do horizonte, «no outro lado do rio e da floresta, para onde deveriam partir em breve porque o tempo dos Judeus na Europa estava contado». Vinham cuspidos de uma Europa que os tratava como cidadãos de segunda, escapando aos pogroms primeiro, a Hitler depois e a Estaline mais tarde um passado cheio de cadáveres  , à procura de uma terra prometida que «não existia e que talvez nunca tenha existido, a não ser [nos] sonhos de juventude»(pág. 332). Mas era para Odessa, para Vilnius, para Rovno que sempre viravam o olhar, como se aí se encontrasse a verdadeira «terra prometida e proibida, o lugar nostálgico dos campanários e das velhas praças empedradas, dos elécticos, das pontes e das torres das catedrais, das aldeias isoladas, das fontes termais, das florestas e dos prados cobertos de neve» (pág. 7). 

Nesse tempo, o pequeno Amos «queria ser um livro quando fosse grande. Não um escritor, mas um livro. Por medo» (pág. 365). Medo dos tanques de Rommel que ameaçavam Israel. Medo que os britânicos não quisessem partir. E medo do aconteceria depois da sua partida, entregues à sede de vingança de milhares de muçulmanos inflamados contra os judeus. Por isso, «passava a vida perdido, às voltas em florestas virtuais, florestas de palavras, cabanas de palavras, prados de palavras» (pág. 173) que haveriam de revelar-se anos mais tarde através dos muitos livros (em Portugal, na ASA, encontram-se publicados A Terceira Condição, Não Chames à Noite Noite, Uma Pantera na Cave, O Meu Michael e O Mesmo Mar) que foi escrevendo até chegar a esta História de Amor e Trevas, escrita sessenta anos depois numa pequena casa, em Arad, à beira do deserto do Neguev, onde Oz vive actualmente. Um livro «muito proustiano», carregado de «cheiros, sons, imagens que ajudaram a lembrar» – como confessou numa entrevista ao ípsilon de 9 de Março passado -,  arrancados às pedras de «uma Jerusalém estranha, silenciosa, modesta e velada, etíope, muçulmana, cidade de peregrinos, otomana, missionária, indiferente, a cidade dos cruzados, dos templários, grega, arménia, italiana, cheia de intrigas, anglicana, ortodoxa, monástica, copta, católica, luterana, escocesa, sunita, xiita, sufi, alauita, dominada pelo som dos sinos e o chamamento dos muezins, com os seus pinhais, aterradora e ao mesmo tempo fascinante com os seus feitiços sombrios, o labirinto das suas ruelas proibidas e hostis mergulhadas nas trevas, uma cidade secreta, maléfica, prenhe de catástrofe« (pág. 413), rasgada agora por um muro da vergonha que serpenteia entre ruas, quintais, vizinhos, amizades, desconfianças, medos, angústias, esperanças, como uma serpente venenosa destilando cada vez mais veneno, mais ódio entre dois povos atiçados por toda a espécie de radicalismos.

Um livro sobre a criação do estado de Israel, uma nação criada pela força: «Nesse tempo, não se preocupavam muito com o destino das centenas de milhar de deslocados e refugiados palestinianos, muitos dos quais fugiram ou foram expulsos das cidades e das aldeias conquistadas pelo exército israelita» (pág. 468). Mas, sobretudo, ainda, uma promessa não cumprida, tal como os seus pais fundadores, sionistas socialistas como David Ben Gourion a sonharam: «Agora, passados os anos da euforia, entrávamos de repente no dia seguinte: cinzento, apagado, obscuro, tacanho e mesquinho» (pág. 471). Um livro que é uma espécie de Requiem por Israel só possível de compreender quando regressamos com Oz a esse mundo de antes onde os judeus askenazitas deixaram um pedaço de si, num tempo em que os muros diziam «Judeus para a Palestina» e não se ouvia ainda o grito «Judeus fora da Palestina», inscrito no novo muro que serpenteia na paisagem bíblica, dividindo, espartilhando a «terra prometida» de árabes e judeus. Como foi possível chegar aqui, a esta muralha de ódio inútil separando judeus e palestinianos vivendo sob um mesmo céu sobre ruínas? Eis, talvez, a pergunta a que este livro procura dar resposta, na perspectiva de um israelita que defende «que acabar com a ocupação não só não enfraquece Israel como, pelo contrário, o fortalece. E que não é correcto ver em todo o lado apenas Shoah» (pág. 377). 

[ver ainda post Contra o fanatismo]

A cancela do tempo

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«… justamente naquela noite principiava para ele a irremediável fuga do tempo. […] E assim se prossegue caminho numa esfera confiante, e os dias são longos e tranquilos, o Sol brilha alto no céu e parece nunca ter vontade de chegar ao ocaso. Mas a certa altura, quase instintivamente, voltamo-nos para trás e vemos que uma cancela se fechou nas nossas costas, obstuindo-nos a via do regresso. Então sentimos que algo mudou, o Sol já não aparece imóvel, desloca-se rapidamente, ai de nós, nem temos tempo de o fixar pois já se precipita no confim do horizonte; apercebemo-nos de que as nuvens já não ficam estagnadas nos golfos azuis do céu, foram encavalitando-se umas nas outras, tal é a sua urgência; percebemos que o tempo passa e que também a estrada um dia deverá terminar.»

Por isso, qualquer gesto será inútil. A inutildade da fortaleza, a própria existência de Drogo… Esta a paisagem mental e simbólica que, como uma névoa ameaçadora vinda de longe, do deserto, nos envolve num delírio de imortalidade. Sem remissão, na visão pessimista de Dino Buzzati [1906-1972] em O Deserto dos Tártaros [Cavalo de Ferro, 2005], espécie de metáfora da nossa contemplação nihilista de um mundo carregado de uma solidão irredutível que só pela «inocência do agir» (Goethe) poderíamos, poderemos, estilhaçar. Mas não Giovanni Drogo que desistiu de agir, de perscrutar saídas na decadente fortaleza de Bastiani em que se foi encerrando, preferindo a espera angustiante do confronto com o inimigo tártaro que poderá, enfim, dar um significado à sua vida. Mas nem isso Drogo consegue, pois no último momento, quando finalmente o inimigo surge do deserto, ele falha a ocasião, vindo a morrer na rectaguarda da batalha que não chegou a travar, como se a inutilidade da sua vida estivesse traçada desde o momento em que olhando para trás viu a cancela do tempo fechada. Um livro sombrio, portanto, a cuja génese não foi certamente indiferente o ano em que foi escrito por Dino Buzzati – 1939 – que via as sombras que alastravam pela Europa perante a imobilidade do mundo. Para ser lido apenas – como apelaria Robert Walser – pelas «pessoas saudáveis [que possam e desejem] expor-se um pouco ao perigo [da] literatura dita doentia. […] Senão, com mil raios para que serve ser saudável?» Assim o li, embora sem a urgência deste tempo achatado, de um só folgo, sem olhar para trás, não fosse a cancela do tempo fechar-se nas minhas costas. Por isso, posso agora, e sempre, regressar a outros livros que até podem ser os de Buzatti que só tardiamente descobri. Talvez O Segredo do Bosque Velho ou Os Sete Mensageiros, ambos editados pela Cavalo de Ferro.

No Bairro portátil do senhor Tavares (IV): periferias

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Por analogia com o seu homónimo que procurava o desaparecimento, o eclipse, este Walser [O Senhor Walser, Gonçalo M. Tavares, Caminho, 2006] é mais dado ao recato que os primeiros povoadores do Bairro. Por isso, manda construir a sua casa «a uns bons quilómetros do bairro mais próximo», no que se assemelha ao Walser-outro, também ele instalado numa casa nos arredores de Herisau, durante vinte e oito anos, apenas saindo, aos domingos, para dar longos passeios no bosque circundante, com o seu amigo e editor Carl Seeling. Eis, agora, então, o Senhor Walser, na sua nova casa: «Mal se abre a porta de sua casa — sente ele — entra-se noutro mundo. Como se não fosse apenas um movimento físico no espaço — dois passos que se dão — mas também uma deslocação — bem mais intensa — no tempo. […] Quando fechava a porta atrás de si, Walser sentia virar as costas à inumana bestialidade (de que saíra, é certo, há biliões de anos atrás, um ser dotado de uma inteligência invulgar — esse construtor solitário que era o Homem) e entrar em cheio nos efeitos que essa ruptura entre a humanidade e a restante natureza provocara; uma casa no meio da floresta, eis uma conquista da racionalidade absoluta” (p. 13). Todo o seu mundo está agora ali dentro daquela casa, fora do mundo, onde a «racionalidade absoluta» tudo incorpora. Por isso, Walser, ao contrário dos outros senhores, não se enreda em pensamentos, em raciocínios que desembocam quase sempre no absurdo. E a sua ingenuidade não o leva a agir, mesmo quando o mundo exterior invade a sua casa contra a «racionalidade absoluta» ou por causa dela. Mesmo nessa situação, limita-se a esperar e a ter expectativas. «Não estou aqui para escrever, mas para enlouquecer», escreveu Robert Walser no mais curto micrograma de sempre. «Não estou aqui para agir, mas para ter expectativas», escreveria o Senhor Walser se fosse dado à escrita.

No Bairro portátil do senhor Tavares (III): licores fortes

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Agora a taberna. O Senhor Henri [Gonçalo M. Tavares, Caminho, 2003]. O absinto. O álcool como estímulo, fonte de inspiração literária. Pessoa bebendo um copo de aguardente no Abel Pereira da Fonseca. O vinho de Goethe. A tequilla de Malcolm Lowry. O whisky de José Cardoso Pires. «É preciso estar absolutamente bêbado», declarou Baudelaire. E Rimbaud que dizia «sobretudo, beber licores fortes como metal fundido». E Kafka que escreveu um Colóquio do Bêbado. Mas, hoje, parece, os escritores já não bebem. Já não se embriagam. Passam ao lado dos paraísos artificiais. E disso, ressente-se a literatura. Vai um copo de absinto? «Énivrez-vous!»

No Bairro portátil do senhor Tavares (II): contra a filosofia

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As historietas protagonizadas pelos inquilinos do Bairro parecem apropriadas para crianças. E são. Para as crianças que ocultamos em nós. Mas são mais do que isso se acreditarmos, como Paul Valéry, que o «infinito é bem pouca coisa; é uma questão de escrita [e que] o universo só existe no papel». Em O Senhor Valéry [Gonçalo M. Tavares, Caminho, 2002], talvez seja possível descortinar uma genealogia de escritores e filósofos lidos pelo Valéry homónimo. Talvez Diderot. Seguramente Wittgenstein (que virá ainda, segundo desvenda o autor, habitar o bairro) também lido pelo nosso Bernardo Soares de quem se aproxima através da «estética do movimento». E, no outro lado do espelho, isto é, colorindo as entrelinhas do texto, o mundo fantasioso de Lewis Carrol (também, consta, com contrato-promessa já assinado para vir morar no bairro). Ao mesmo tempo convoca o cinegrafismo de Buster Keaton e a esperteza saloia de Jacques Tati. E, claro, retraça Paul Valéry ele-mesmo que se interrogava: «como não arredondar, colorir, procurar tornar [tudo] mais nítido, mais perturbador, mais íntimo? […] Em literatura o verdadeiro não é concebível». Não é isso que também persegue o Senhor Valéry?

Em comum, estes senhores, duais na aparência e volúveis nos comportamentos, que vão sendo reagrupados no Bairro por Gonçalo M. Tavares, nutrem todos uma certa desconfiança pela filosofia e praticam a exaltação das expressões literárias expeditas. O que me faz pensar existir aqui uma conjura portátil vagamente shandiana.