Desditosas pontes

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Há alguns anos atravessei de comboio o território que corresponde hoje ao mosaico de novos países que resultaram da desagregação da antiga Jugoslávia e a imagem que ainda guardo dessas terras corresponde à lenda que agora leio relatada por Ali-hodza Mutevelic´ no romance de Ivo Andric´, A ponte sobre o Drina [Cavalo de Ferro], um território cuja superfície foi arranhada pelas garras do demónio, formando «profundos rios e ravinas, dividindo umas terras de outras e separando os homens, impedindo-os de viajar por essa terra que Alá lhes tinha dado para seu governo e sustento». Por isso, conta-nos, ainda, o hodza, «o maior e mais abençoado bem-fazer é construir uma ponte (…) e o maior pecado é mexer nelas».

E, por estes dias em que as pontes de Mitrovic que separam as secções sérvia e albanesa da cidade se encontram encerradas pelos soldados da KFOR para prevenir males maiores na sequência da proclamação unilateral da independência do Kosovo – festejada bizarramente nas ruas de Pristina com bandeiras de países estrangeiros -, vou entrando no Hotel zur Brücke, sobranceiro ao Drina, onde, no romance de Andric´, converge o universo multi-étnico de Visegrad, e pergunto-me quais os demónios que vieram arranhar com as suas garras esta terra, cavando os abismos de medo e ódio que aí estão à espera que os anjos estendam de novo as suas asas para que os homens os possam franquear, como na lenda contada pelo hodja.

As histórias d´A ponte sobre o Drina passam-se na pequena cidade bósnia de Višegrad, e têm por palco a desditosa ponte fronteiriça que a partir de 1992 foi lugar de execução pública de muçulmanos que eram lançados à corrente tumultuosa do Drina por extremistas sérvios [como se retrata no filme homónimo de Xavier Lukomski que passou, creio, num DocLisboa recente], numa encenação trágica da mesma limpeza étnica que os cetnici de Milosevic e Karadzic iam multiplicando por toda a Bósnia transformada num teatro da crueldade cujo palco principal foi a cidade dilacerada de Sarajevo. Aquela Sarajevo cuja paisagem entre ruínas atravessámos no filme de Theo Angelopoulos, O olhar de Ulisses, onde Harvey Keitel empreende uma espécie de jornada épico-catártica de um Ulisses contemporâneo em busca do passado e do sentido para a própria existência desolada: «Quando eu voltar será nas vestes de outro homem. O meu regresso será inesperado…»

Destes episódios não conta o romance, nem poderia contar porque Ivo Andric´ já não os testemunhou. Nesse magnífico fresco que é A ponte sobre o Drina, Andric´ conta-nos sim do bulício humano na cidade de Visegrad – sérvios ortodoxos, croatas católicos, judeus sefarditas, turcos, muçulmanos e, no último escalão social, uma chusma de ciganos utilizados como carrascos em matanças incendiadas pelos ventos dissonantes da história – cujo destino se traça em torno da «eterna ponte, eternamente igual a si mesma, [sobre] as águas verdes, espumosas e agitadas do Drina». E conta-nos, também, episódios tormentosos conduzidos, então, pelos muçulmanos contra os sérvios durante o longo período de ocupação otomana – de que a cruel cena do empalamento do hajduk sérvio relatado no romance constitui metáfora absoluta -, mas que a manipulação mediática actual tem silenciado por considerar  politicamente incorrecta a divulgação dessa outra face da história.

«Croata por origem e católico por fé, sérvio por adopção, bósnio por nascimento e pelos matizes da sua própria obra, jugoslavo por determinação e identidade» – como o retrata escritor croata Predag Matvejevic, em Le monde “ex” [Fayard] -, há quem critique em Andric´uma visão que tende a apresentar a época otomana retratada na sua obra, em coerência com a historiografia nacional sérvia, como um período de singular sofrimento sérvio, extigmatizando assim os muçulmanos da Bósnia como «renegados» por terem adoptado a cultura do invasor, comparando-o com Emir Kusturika cuja posição relativamente à questão bósnia sempre foi muito apreciada em Belgrado. Talvez por isso, os nacionalistas croatas o tenham acusado de ter traído a sua própria nação; e os nacionalistas sérvios dele se tenham apropriado, ignorando a sua visão comospolita; e os nacionalistas bósnios muçulmanos lhe tenham reprovado ter descrito o sofrimento da população cristã sob o domínio turco.

Mas estas, sim, todas elas, visões parciais e desfocadas de um escritor que, acima de tudo, foi sempre «balcânico e integrador» como o definiu o escritor triestino Claudio Magris: «Sérvio pareceu-lhe ser a expressão que melhor equivaleria a jugoslavo e esta, por sua vez, não é mais que a ambição de bósnio, essa forja de história e vida, essa unidade captada nas diferença e construída, também, através do conflito, que ele aprendeu na sua terra natal» [Utopia y desencanto, Anagrama]. Isto é, na Bósnia, que sempre foi para ele a dolorosa metáfora da existência e da convivência atraiçoadas, para a qual se exigia, como ele dizia, «quatro vezes mais de amor e de compreensão mútua» que para o resto dos países. Porque a Bósnia era – ainda será? – um mundo baseado na fragmentação e na rejeição de qualquer programa de inclusão globalizadora, que haveria de degenerar na homogeneidade étnica agrilhoada dentro da rigidez das fronteiras cavadas após a última guerra balcânica que «apenas o ódio consegue transpor», estilhaçando a utopia cosmopolita de Sarajevo.

O que verdadeiramente nos conta Andric´é a vida dos homens e mulheres que construíram a ponte de Visegrad e a vida daqueles que ao longo de cinco séculos foram protagonistas, ou apenas vítimas, dos muitos conflitos que assolaram aquela região dos Balcãs: «tais acontecimentos foram recordados e contados juntamente com as histórias sobre a construção da ponte durante muito tempo (…) por fim, passaram a lenda, como a das fadas, Stoja e Ostoja e outras maravilhas semelhantes» – que se revelam ao longo de séculos nessa desditosa ponte transformada em lugar de passagem, de encontros, de conversas, de conspirações, de suicídios, de execuções; de trânsito de exércitos em debandadas, uma vezes, de desfilada de exércitos vitoriosos, outras vezes, testemunhando o desmoronar de Impérios e o surgir de novas nações, enquanto «a ponte sacudia de si, como quem sacode o pó, todos os traços que nela deixavam os caprichos humanos ou os acontecimentos efémeros e permanecia, depois de tudo passar, inalterada e inalterável».

E nesse contar Ivo Andric´ lembra o grão-vizir Mehemed-Paxá que mandou construir aquela ponte sobre o Drina. É que o vizir era ele próprio bósnio de nascença, de uma cidade da montanha; e era um menino de dez anos de idade, cristão, quando os turcos o levaram para Istambul como tributo de sangue; mais tarde tornou-se almirante e genro do sultão. Mas «aquela estranha dor que trouxera da infância na Bósnia, na barca de Višegrad, o punhal negro, lancinante, que de tempos a tempos lhe cortava o peito em dois» nunca o abandonaria. Tal como a sua identidade bósnia que de vez em quando lhe fazia sentir que nele próprio vivia também um outro, constituindo a ponte que mandara construir aquilo que ligava as duas metades de si. Ora, Andric´ foi, também ele, um construtor de pontes, como ele próprio confessa numa crónica intitulada, precisamente, As pontes: «De cada vez que evoco as pontes vêm-me à memória não aquelas que eu atravessei, mas aquelas (…)  onde o homem se confronta com obstáculos. (…) Grandes pontes de pedra, testemunhos de épocas esgotadas nas quais, se nelas tivesse vivido, penso, tê-las-ia construído de outro modo» [cit. por Predag Matvejevic, op. cit.]. Talvez, por isso, por não se rever nas pontes desditosas erguidas entre o Oriente e o Ocidente que, parece, já só o ódio consegue franquear, Ivo Andric´tenha nos últimos anos da sua vida preferido dar-se como desaparecido numa terra cavada pelos abismos negros de todos os nacionalismos.

O homem sem qualidades

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«… pensei, larga a técnica de uma vez por todas. Torna-te escritor, engraxador, criado, qualquer dessas coisas americanas, e afirma-te literariamente», anotara Robert Musil logo em 1905, num dos seus cadernos dos Diários. E aos poucos irá esvaziando a sua vida de qualidades, transformando-se, sobretudo a partir da segunda metade da década de vinte, num autor sem biografia, mergulhando na escrita do que viria a ser o romance O homem sem qualidades, como escreverá, em 1948, o seu compatriota Hermann Broch: «Partilho alguma coisa com Kafka e Musil: nenhum de nós tem propriamente uma biografia; vivemos e escrevemos, e é tudo».

Como fazer, então, um retrato de momento de um escritor que se deu como desaparecido da vida, exaltando a ideia de um «homem sem qualidades» a quem a escrita usurpou a biografia, sem escamotear, no entanto, os traços de carácter plasmados na sua obra independentemente da sua vontade? Um homem com uma personalidade simultaneamente neurótica e metódica que só encontrará vazão na sua obra. Um espírito livre de quem não sabe para onde vai, mas que sabe que não seguirá pelos caminhos por onde o querem empurrar. Uma existência nas margens do mundo que ali estava, tão cheio de «qualidades» num tempo apresado por efeito do choque entre a latência adiada e um porvir ameaçador, povoado de máscaras, simulacros e perplexidades que espreitavam na moderna Viena. Mas também um espírito perturbado pelas fantasmagorias do progresso que assolavam a «Cacânia» musiliana e que os dias que viriam se encarregariam de desconstruir como a desintegração da sociedade hierárquica austríaca e da chamada cultura de fim de século que Broch descreveria como um «apocalipse alegre», uma espécie de nihilismo austríaco com estilo. Eis a Viena descrente de Musil, e de Canetti, de Broch, de Hoffmannsthal, de Kraus, de Wittgentein, de Freud, com os seus cafés – Herrenhof, Central, Giensteidl, Museum -, onde o «progresso» carrega já consigo o estigma do transitório, numa espécie de borbulhar de superfície e de vivência não reflectida que, obstinadamente, os seus escritores e filósofos, procuram contrariar com – eles sim – uma aguda consciência nihilista de um tempo terminal admiravelmente retratado por Karl Kraus na sua peça Os últimos dias da humanidade [Antígona].

Talvez partir, primeiro, de As perturbações do pupilo Törless (1906), uma quase autobiografia da sua juventude, uma espécie de Werther pessoal e uma «necrologia profética», segundo Hermann Broch, em que o jovem Törless fala da «segunda vida das coisas, secreta e esquiva […], uma vida que não se exprime em palavras e que, ainda assim, é a minha vida». Por isso, a belíssima epígrafe de Maeterlinck. E depois, perseguir as mais de duas mil páginas de O homem sem qualidades (1930-1942), uma obra que extravasa o realismo crítico da narrativa histórica sobre o destino austro-húngaro, que o próprio autor rejeita afirmando «[não] tentar a sério pintar um quadro histórico e entrar em competição com a realidade». Antes, uma portentosa descida à profundidade da sua alma «pós-moderna», um livro obsessivamente radical em termos literários e humanos, e que será ele próprio, também, fonte de perturbação do autor que sente que «não o domina» [Maurice Blanchot, «Musil», O livro por vir, Relógio d´Água, 1984], até porque esse livro não tem, não terá, as «qualidades» dos cânones literários da época. Um livro insuportável devido à sua «monstruosidade» literária que estilhaçará as fronteiras do género para desagrilhoar o humano na tentativa utópica de alcançar a totalidade do mundo. Um mundo que às vezes se nos apresenta ali como um deserto narrativo, exigindo um árduo caminhar, mas que atravessamos conscientes da imponderabilidade deste romance-ensaio, perscrutando passagens, possibilidades, iluminados pelo «fogo frio» da linguagem onde se aconchega a alma musiliana.

E «o que é a alma [para Musil]? É fácil defini-la pela negativa: é simplesmente aquilo que se esgueira à simples menção das séries algébricas! E pela afirmativa? Parece que é aquilo que nos consegue sempre escapar de cada vez que a tentamos apanhar» [O homem sem qualidades]. E é neste paradoxo de alcançar o inefável que reside toda a pulsão nihilista que afecta Musil e a sua obra, mas contra a qual, no limite, ele se rebela afrontando o vazio do seu tempo, desprendendo-se de todas as qualidades e atributos para melhor perseguir os mundos que existem no mundo. 

Daqui decorre, como sustenta João Barrento na sua concisa e esclarecedora introdução às obras de Musil, em publicação na Dom Quixote, o aparente paradoxo das tensões polarizadas que alimentam a sua obra: «entre ética e estética, experiência e conhecimento, intuição e razão […] que desencadeiam um processo intelectivo, reflexivo, em que o pensamento se debruça sobre «a experiência estética da alma» [Maria Gabriela Llansol]. Experiência estética cuja inefabilidade, ao invés de fechar, abre para uma nova consciência histórica na tentativa da reconstituição fragmentária e contingente da realidade, de que O homem sem qualidades constitui a mais radical aproximação narrativa, como o confirma Herbert Kraft quando escreve que «todos escrevem a partir da própria vida, mas raramente alguém o fez de forma tão alargada como Robert Musil. A forma literária mal consegue encobrir os bastidores da sua própria vida» [Herbert Kraft, Musil, Viena, Paul Zsonay, cit. por João Barrento]. 

Este o retrato de Musil que me ocorre de momento. E com ele, talvez, fazer «dançar sobre os pés do acaso» [Nietszche] os caminhantes sem qualidades deste mundo.

Desolação

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No post anterior dizia que se tratava de encontrar passagens nesta paisagem de desolação que aí está povoada de luzes ofuscantes que os trapezistas do marketing não se cansam de, diariamente, nos ir acendendo. Mas hoje sinto-me na obrigação de abandonar a metáfora, ainda que apenas pelo tempo de escrita deste post, para repetir a mesma expressão de paisagem de desolação, só que, desta vez, atribuindo-lhe o mais sebaldiano dos sentidos. Porque outro sentido não seria possível face às imagens de habitações escancaradas diante do olhar de espectadores obscenos, móveis humildes amontoados sobre um espelho de lama, intransponíveis sedimentos de esperança perdida sob o demónio cinzento da desgraça. Paisagem de infelicidade, afinal, que vem perturbar, agora, a retórica antes aqui deixada a propósito das novas patologias do nihilismo. É que as imagens que, ontem e hoje, as televisões vão passando não são de divertimento, mas de estremecimento. É que, às vezes, as televisões também são capazes de dar conta da «consternação do mundo». E a consternação é, ainda, a mesma de sempre. Todos seguindo «o mesmo caminho de antemão traçado pela nossa origem e pelas nossas aspirações», diria o passeante melancólico W. G. Sebald, «impotente para afastar os fantasmas da repetição», se mergulhasse agora os passos naquela torrente adormecida de lama povoada de reminiscências de outras desolações. E nessa procissão entre ruínas húmidas, a dolorosa coincidência daquele jovem casal que tudo perdeu num torvelinho de lama e que já não reivindica felicidade, apenas a esperança perdida na vertigem do vazio. Resta-nos, então, encontrar passagens, fendas, na continuidade do mundo e procurar aí, depois, um sentido de possibilidade. Até porque, como disse Walter Benjamin «é apenas pelos sem esperança, os desesperados, que a esperança nos foi dada».

De um outro uso do nihilismo

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Numa carta enviada a Louise Collet, em 1850, Flaubert escrevia: «O mundo vai tornar-se tremendamente imbecil. Nos próximos anos, a coisa vai ficar muito aborrecida. É uma sorte vivermos agora e não mais tarde» [Gallimard, 1998]. Flaubert antecipava, então, o apogeu da banalidade num mundo em que a gente dita ilustrada começava já a mover-se sem ética nem estética, prenunciando «um tempo – acrescentava ainda – em que toda a gente se terá convertido em homens de negócios ». Flaubert que se dava como desaparecido nos distintos cenários da sua obra narrativa elegia a sua correspondência privada para comentar com contundência a vida cultural, política e social do seu tempo. 

Ora, mais de um século e meio depois, a sua visão de um tempo marcado, não tanto pelo tédio mas sobretudo, agora, pelo vazio e pela mundaneidade frívola, em que quase todos parecem ter-se convertido em homens de negócios, a contundente opinião de Flaubert adquire uma particular actualidade quando o que mais encontramos por aí são analfabetos altivos desprovidos de ética e estética, mas não de ambição económica, fetichistas gulosos dos bons lugares na sociedade, hedonistas indiferentes aos males do mundo, despudorados trapezistas do marketing. E uma massa de gente vivendo com a implacável consciência de uma quotidianeidade penitenciária sem outros sobressaltos que não os das notícias sobre a violência urbana, sobre os acidentes de trânsito, as explosões domésticas de gás, os fumos de corrupção e prevaricação e a crescente insegurança do emprego que nos transmitem uma profunda sensação de tédio que se vai derramando horizontalmente, homogeneizando tudo à sua volta, devorando as possibilidades alternativas de vida, reais ou imaginárias, como se nada mais houvesse fora da experiência de vida asséptica e anódina que aí está.

A banalidade quotidiana é-nos cada vez mais imposta – escreve Bruce Bégout em Lieu commun- Le motel américain [Allia] – como uma «fatalidade absoluta» em que a vida deixou de ser aquela experiência singular tão exaltada no advento da primeira modernidade para se tornar num processo de «produção seriada» ou, utilizando uma imagem mais contemporânea, no produto de implacáveis máquinas de marketing que visam distribuir por todos milagrosas doses de divertimento. Eis onde Flaubert não acertou. É que, se bem antecipou o triunfo do aborrecimento no apogeu do primeira modernidade, não poderia imaginar que o hedonismo indiferente que se vai espalhando por aí é determinado pela natureza pulverizadora do nihilismo pós-moderno, incoincidente com a noção de tédio geradora de opções transgressoras de vida ou de revolta social que marcou a experiência de vida no século passado. E neste torvelinho do divertimento – mas não da festa -, entregues sem remissão a licenciados em economia e a trapezistas do marketing, vai-se diluindo também a vontade de escaparmos à «colonização do quotidiano» e de nos concedermos outras possibilidades que não sejam as das qualidades homogeneizadas que nos são incitadas e excitadas. Entretanto, marcados pelas novas patologias do nihilismo, vamos caminhando para a uma espécie «apocalipse alegre» [Hermann Broch], como que procurando divertirmo-nos até à morte [Neil Postman, Amusing ourselves to death, Penguin].

«Homens de negócios», portanto, como antecipou Flaubert, aparentemente sem atributos, mas que na realidade possuem todos os atributos. Ou na formulação de Jean-François Peyret dizer, então, que vamos vivendo num «mundo de qualidades sem homem» [«Musil ou les contradictions de la modernité», in Critique, 1975]. O que ilumina o sentido da enigmática frase de Musil sobre «as experiências vividas sem que ninguém as viva». É que as qualidades em nós incitadas, e excitadas, vão-se cristalizando nas figuras aborrecidas que vamos habitando ou nas ideias de todo o género que adoptamos sem nos apercebermos do que a vida pode ter de dissonante, de criativo e de espontâneo.

Talvez, então, pensar, ainda, como Musil, esse homem sem qualidades, que em Die Schwärmer (Trad. francesa Les Éxaltés, Seuil,] dizia que se entre os homens há um sentido da realidade, deve haver também um sentido da possibilidade. E é nessa possibilidade que, embora vagamente nihilista à maneira da primeira modernidade, me reconheço.

O cinema outra vez

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Não vou muito ao cinema. Sobretudo porque a maioria dos filmes que passam por aí, nas salas periféricas da minha cidade, pouco ou nada me dizem. Prefiro, por isso, ficar em casa vendo os clássicos possíveis da minha colecção pessoal de DVDs. Porque o cinema, lá fora, mais do que a chamada sétima arte, tornou-se um negócio nas mãos de produtores altivos, de distribuidores analfabetos e de exibidores coincidentes que vão perfilando nos ecrãs do mundo a mesma sucessão de imagens cujo sedução reside já não naquilo que seria suposto retratarem mas no aluvião de efeitos passageiros que essas imagens provocam em nós, espectadores passivos, até ao próximo sucesso de bilheteira.

Reconheço que nesse aluvião de imagens passam, umas quantas vezes por ano, uns tantos filmes que, embora sujeitos à mesma engrenagem mercantil de todos os outros, não participam da mesma esterilidade estética e da conjura holywoodesca contra o cinema. Esses filmes, quando passam (e em 2007, para mim, apenas passaram Paranoid Park, de Gus van Sant, Falkenberg Farväl, de Jasper Ganslandt, Letters from Iwo Jima, de Clint Eastwood, Death Proof, de Quentin Tarantino e, sobretudo Empire Inland, de David Lynch), desafiam-me a sair de casa abandonando a geografia interior dos meus livros – e a acender, por uma noite, a luz esquecida de um tempo em que ir às soirées de sábado e às matinées de domingo no antigo Cine-Teatro de Portimão, há muito demolido, era um acontecimento esperado durante toda a semana – e a adentrar-me na realidade distinta criada no ecrã a partir da realidade empobrecida do mundo de hoje.

Do tempo em que entrevia o mundo a partir do alto dos bancos corridos do segundo balcão de um cinema de província, ficou-me uma colecção de cromos que reproduzia as mesmas fotografias dos actores de momento -Alain Delon, Romy Schneider, Sophia Loren, David Niven, Ingrid Bergman… -, emolduradas junto ao bar do Cine-Esplanada, onde numa noite de Verão vi a Ponte do Rio Kwai enquanto o céu era riscado por uma chuva de metoritos que se confundiam com o fogo das baterias japonesas sobre os intrépidos prisioneiros de guerra britânicos. Ficou-me, sobretudo, a memória de um tempo em que ir ao cinema era um acontecimento preparado com uma semana de antecedência: primeiro, tratava-se de ir num grupo de amigos ver os cartazes afixados nas vitrinas, na expectativa de haver um filme para maiores de doze anos; chegavam depois as tardes domingo com os seus filmes para maiores de doze: o Ben-Hur, de William Wyler, O Tesouro da Sierra Madre e outros filmes de cowboys, Sangue no deserto, de Anthony Mann, A pousada da sexta felicidade, de Mark Robson, uns policiais alemães com o Peter van Eyck, as comédias da série Com jeito vai e tantos outros filmes que me fizeram rir, chorar, revoltar. Mas o que era bom mesmo era ir ao cinema: comprar o bilhete com as economias da semana, receber o programa, ouvir o going e ali ficar na penumbra, entre amigos, vivendo as aventuras daqueles heróis tão próximos de mim que até os guardava numa caderneta de cromos na gaveta da minha mesa-de-cabeceira.

Ia muito ao cinema nesse tempo. E continuei a ir quando vi alargadas as minhas possibilidade de escolha aos filmes para maiores de dezassete. Veio, a seguir, a actividade cine-clubista, na Sala do Boa-Esperança, e com ela o cinema de autor cujas reposições me deram outra consciência de mim e do mundo: Orson Welles, Billy Wilder, Elia Kasan, Jean Luc-Godard, Michelangelo Antonioni, Ingmar Bergman…

Depois, apesar das novas salas que entretanto abriram na cidade, a matéria das suas telas foi ficando puída. Mas há dias, depois de me ter decidido ir ver A vida dos outros, de Florian Henckel von Donnersmarck, no âmbito de um curto ciclo de novo cinema alemão promovido pela Art&fictio, uma recém criada associação  cultural da minha cidade, enquanto esperava o going que anunciava o apagar das luzes e o início do filme, não pude deixar de pensar que, afinal, um certo cinema cintilante ainda é possível nas mesmas telas puídas e que, entrevistas as coisas com o optimismo necessário para afrontarmos o mundo que aí está, talvez possamos ainda ver passar alguns filmes que vão dando conta da consternação do mundo e que, além disso, bom mesmo, outra vez, é ir ao cinema assim e ficar por ali rodeado de cumplices à espera que o filme comece. É que, embora a sala de cinema fosse outra, no meio daqueles jovens voluntariosos que ali estavam passando filmes para pôr o pensamento a pensar, estava também eu como se não tivesse saído nunca do alto do segundo balcão donde há muito tempo comecei a entrever o mundo.

Desemalando uma biblioteca

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Vou, então, desemalando os livros que trouxe comigo de Paris e arrumando-os nas prateleiras da minha biblioteca, isto é, subtraindo-os à desordem da mala escancarada para lhes ir dando uma ordem próxima da do coleccionador que é a do catálogo de leituras que carrego comigo e que, daqui a pouco, quando já estiverem os livros recém-chegados dispostos na prateleira, será também a do sentido que cada um deles irá convocar na sua relação de vizinhança com os que já ali se encontram, como se a pequena biblioteconomia das minhas estantes fosse, ela também, geradora de novos sentidos.

Ponho de lado o livro de bolso de Walter Benjamin sobre o desembrulhar de livros e sobre a arte de coleccionar  Je déballe ma bibliothèque – que me deu matéria para o post anterior e que poderei, ainda, ter de consultar caso necessite de aconselhamento autorizado nesta tarefa, ligeiramente aborrecida, de disposição de livros na estante, a qual, se agora alguém de fora aqui chegasse, julgaria tratar-se mais de uma tarefa de arrumação doméstica do que um procedimento biblioteconómico. E, como Benjamin, à medida que vou retirando os livros da mala, recordo não só as livrarias onde os comprei, La Hune et L´Arbre à Livres, como também as circunstâncias da sua compra, a flânerie que página a página, rua a rua, me conduziu até eles, como se «Paris [fosse uma] grande sala de leitura de uma biblioteca que atravessa o Sena», evocação que, agora, vai também alimentando este fetichismo bibliotecário que, seguramente, já descortinaram nesta auto-ficção.

É, então, sob o signo benjaminiano que retiro da mala, primeiro, a tradução francesa desse iluminante e inacabado projecto que é o Livro das Passagens e não posso deixar de pensar que esse livro fulgurante resulta do trabalho de um autor espoliado não só da sua biblioteca, mas também da sua assinatura, pois o seu nome consta nas listas de autores cujas obras foram queimadas na noite de 10 de Maio de 1933, na Praça da Ópera, em Berlim. E para melhor conhecer Benjamin retiro, em seguida, da mala, a biografia que Hannah Arendt escreveu sobre este escritor saturnino como o proprio se julgava: «Vim ao mundo sob o signo de Saturno: o astro da revolução mais lenta, o planeta dos desvios e demoras…» E depois, os dois livros iluminantes dos labirintos parisienses de Benjamin, Nadja, de André Breton e Le paysan de Paris, de Aragon que li e depois perdi nos meus tempos de faculdade.

Como se marcado pelo signo melancólico de Benjamin tudo o que vai tomando, depois, o seu lugar nas prateleiras, parece participar da mesma «amargura saturnina». Mais do que qualquer outro, Robert Walser que nas palavras de Benjamin tinha «horror ao triunfo da vida» e cujo livro dos microgramas, a que deram o mais walseriano dos títulos, Territoire du crayon, vem, finalmente, habitar a minha biblioteca. São 77 textos escolhidos entre os cerca de dois mil microgramas escritos a lápis com uma caligrafia minúscula sobre 526 folhas de papel de todo o tipo: envelopes, margens de jornais, formulários oficiais, etc. e, como se não me chegasse, ainda, um «romance», Le brigand, encontrado no meio desses manuscritos. Arrumo os livros de Walser junto das traduções portuguesas que já se encontram por ali e não posso deixar de pensar que o escritor suíço era, mais do que Benjamin – que era, sobretudo, um flâneur contemplativo, intelectual -, um «amigo declarado de vagabundear e percorrer léguas e léguas durante dias inteiros» e, por isso, não obstante a sua longa passagem por Herisau, menos saturnino que o autor das Passages. E que dizer do extravagante Raymond Roussel que vivia apartado de si próprio numa roulotte com as persianas descidas, e de quem André Breton disse ser «conjuntamente com Lautréamont, o maior magnetizador dos tempos modernos»? Arrumo, por isso, o seu Locus Solus ao lado dos meus  escritores franceses obscuros, onde também vai parar Armand, escrito por aquele Walser de Paris que é Emmanuel Bove, o escritor crespuscular que me foi apresentado por Enrique Vila-Matas. Talvez, então, também, arrumar por ali as Lettres choisies: 1911-1939, de Joseph Roth, enviadas desde o seu exílio de Paris, sobretudo, para Stefan Zweig, enquanto, à semelhança do seu santo bebedor, se ia «afundando no álcool como num abismo, um abismo macio forrado a algodão». E, logo ao lado – porque também como Roth era oriundo desse mundo de fronteira que era a Galícia polaca -, talvez colocar Le sanatorium au croque-mort, o livro que me faltava de Bruno Schulz , esse «escorraçado da vida (…) que desliza, furtivo, pelas margens», como o retratou Witold Gombrowicz que, também, ficará por ali, com Ferdidurke e, sobretudo, com os dois volumes do seu Journal – escrito durante os vinte e quatro anos que passou na Argentina -, onde o escritor polaco nos oferece aqueles instantes de deslumbramento que ele próprio designou por retratos de momento. Reparo, entretanto, que neste dispor de livros nas prateleiras venho caminhando desde Paris, sempre cada vez mais para leste, até à terrível realidade de Odessa descrita por Isaac Babel nestas Chroniques de l´an 18 – que arrumo junto aos meus escritores russos -, atravessando antes uma Mitteleuropa em desagregação que Robert Musil – esse escritor a quem a escrita usurpou a biografia – nos dá a conhecer nas duas mil páginas de L´homme sans qualités que trouxe comigo de Paris por duvidar que a anunciada tradução portuguesa esteja para breve. Resta Le métier de vivre, o diário desesperado de Cesare Pavese, diário perigoso porque, segundo Italo Calvino, um dos primeiros a lê-lo, capaz de contagiar o desespero a quem o leia. Onde arrumá-lo se não na minha colecção de diários que me vem sendo proposta por Enrique Vila-Matas desde O mal de montano?

Qual a medida e o peso desta biblioteca transportada numa mala desde Paris? Seguramente que nenhuma metrologia será capaz de o dizer. Porque só o último leitor conhece quanto valem os seus livros, agora, ali, na estante, olhando lá do alto, desafiando o abismo que os separa do chão, à espera, talvez, que eu, como um expedicionário deste território de papéis embebidos em tinta, subitamente, me decida e vá por ali acima, de lombada em lombada, à procura, por exemplo, de Musil e o encontre a conversar com Walser numa clareira do bosque de Herisau antes daquele Natal de 1956.