Ensaio sobre a loucura

manicomio.jpg 

Há dias, contava-me Gonçalo M. Tavares que num encontro com leitores alguém teria dito que ele era louco, pois só um louco escreveria histórias como as dos seus livros negros. Com a lucidez que se lhe conhece, Gonçalo esclareceu que ele era um e quem escreve-narra nos seus romances é um outro que não se confunde com o autor. Ora se isto é verdade no campo da construção romanesca em que narrador e personagens são, como dizia Barthes, pessoas de papel, já não o será no campo das ideias que atravessam os seus livros sempre escritos num registo teórico, ora reflexivo, como acontece nos livros negros que vão povoando O Reino, ora lúdico, como na série o Bairro

Gonçalo M. Tavares não constrói uma biografia de ocultação do sujeito atrás da sua obra, nem pratica o desaparecimento do autor como, por exemplo, Enrique Vila-Matas, um dos seus escritores preferidos, mas isso não o impede de ir construindo a mais profícua genealogia literária contemporânea que vai povoando de inquilinos literários o seu Bairro (os senhores Valéry, Brecht, Henri, Juarroz, Kraus, Calvino, Walser… numa clara evocação, sobretudo, dos ambientes desses escritores, que tanto podem ser lidos pelo mais cerebral dos leitores como por crianças), nem de nos arrastar pelas paisagens mais sombrias da natureza humana, pelo Reino negro da violência, da crueldade, da guerra [Um homem Klaus Klump (2003); A máquina de Joseph Walser (2004); Jerusalém (2005).

Confesso que cheguei tarde a Gonçalo M. Tavares de quem comecei por ler alguns senhores, (tendo há dias tido o privilégio de assistir, com o escritor, a um ensaio de uma peça de teatro que uma companhia de Portimão [A Gaveta] está a preparar a partir de Valéry e Kraus, com apresentação marcada para Maio, no Teatro da Trindade). E não será fácil seguir a passada editorial de um autor que escreve mais depressa do que os leitores serão capazes de ler (mais de duas dezenas de livros publicados em cinco anos). Para mais, um autor que não se oculta, mas antes se dá a ver através de uma construção que poderíamos classificar como heteronímica, mas que rejeita a retórica metaliterária associada que, noutro sentido, tão bem foi representada por Pessoa.

Desses heterónimos, conheci a semana passada aquele que narra Jerusalém e foi como se ele me tivesse dado um murro no estômago, tal a intensidade dramática de uma escrita que oscila entre o romance, o ensaio e o teatro, que dá forma a uma espécie de catálogo do sofrimento humano, feito de doenças, violências, medos e loucuras. No hospício Georg Rosenberg, ao contrário de Herisau já aqui evocado, onde viveu Robert Walser durante 23 anos, não há redenção possível, mesmo que um dia os pacientes sejam dados como curados. Rosenberg é uma espécie de teatro da crueldade, concentrionário, onde enlouquecem quer os que estão dentro do hospício quer os que se julgam no mundo exterior: Theodor, médico e investigador; Mylia, sua esposa, esquisofrénica; Ernst, outro louco; Hanna, prostituta; Hinnerk, ex-combatente, alucinado; Kass, filho de Mylia e Ernst, doente, inadaptada… sucedem-se a um ritmo cortante, áspero, no palco macabro deste teatro grotesco. 

Não há, portanto, aqui, qualquer visão romântica do manicómio como refúgio, nem da loucura como estádio de criatividade, como, num certo sentido, interpretou Elias Canetti. Ao contrário, o hospício Georg Rosenberg é um simulacro foucaultiano do mundo exterior, vigiado, controlado e punido, onde aqueles que ousam contrariar a ordem estabelecida não têm qualquer escapatória. Para onde deve o homem dirigir o seu pensamento para não ser considerado louco?, eis o problema colocado pelo doutor Gomperz e sobre o qual agora Theodor Busbeck tenta reflectir: «Estava ali, não apenas um problema terapêutico, dirigido a loucos, mas um problema moral, básico, que dizia respeito a todos os homens. Um homem moral em que assuntos deve pensar? E em que assuntos não deve pensar? Claro que a Igreja já tentara responder a esta pergunta e muito antes dos médicos que vigiam os loucos, já os padres dirigiam a sua vigilância e o seu juízo aos pensamentos, e não apenas às acções humanas. Não bastava responder moralmente à pergunta: que actos devo fazer? Faltava responder com a mesma consistência: que pensamentos devo ter? O doutor Gomperz possuía, assim, da loucura – embora não se atravesse a expressá-lo – uma imagem associada à imoralidade: louco é o que age imoralmente e louco ainda é o que agindo moralmente pensa de modo imoral. A loucura seria, assim, uma pura falta de ética, momentânea, porventura, e portanto curável, ou definitiva, eterna, e portanto: incurável» (págs. 106-107). 

À disciplina imposta, corresponderia, então, a normalidade, tornando-se moral a restante imoralidade praticada em nome da moralidade, lembrando a tese de Arno Gruen: «Faço uma reflexão sobre o que quer dizer responsabilidade e confronto-a com o que normalmente é considerado a sua medida: o dever e a obediência […] só que impede, assim, a aproximação a uma patologia menos evidente e mais perigosa, de cujo método próprio a dissimulação faz parte: a loucura que se encobre a si própria e se mascara de saúde mental. Essa não tem dificuldade em ocultar-se num mundo em que o engano e o ardil são comportamentos adequados à realidade» [Arno Gruen, A loucura da normalidade, Assírio & Alvim, 1995]. Esta, parece-me ser a primeira tese deste romance-ensaio.

A segunda tese será a da «história do horror como substância determinante da História» (pág. 53), defendida por Theodor Busbeck nos cinco grossos volumes em que materializou a sua investigação, no que se aproxima, por sua vez, da tese defendida por Anthony Giddens, antes do seu manequísmo pós-setembrista, sobre o lado sombrio da modernidade: «Na esteira da ascensão do fascismo, do holocausto, do estalinismo e de outros episódios da história do século XX, podemos ver que a possibilidade do totalitarismo está contida dentro dos parâmetros institucioinais da modernidade e não excluída por eles» [As consequências da modernidade, Anthony Giddens, Celta, 1992].

Uma e outra tese – que se complementam – reforçam, então, a tentação ensaística, e por isso mesmo, subjectiva e implicativa, do autor na construção da trama deste livro de difícil classificação, espécie de romance-ensaio que interroga o nosso devir individual e social.

Anúncios

A escrita dos livros

bookart6.jpg

Como escrevem os escritores? Por que territórios da escrita se aventuram para deixar visíveis os rastos no papel? E a que instrumentos recorrem para gravar a consternação do  mundo? Primeiro, há a página em branco que é a praia onde se derrama a escrita. E que pode ser, também, a figura atrás da qual se escondem os rostos dos escritores. Muitos escrevem na banal folha A4 espécie de praia comum e sem surpresas, pronta a ser apagada pela subida da maré que é como quem diz, a ser jogada no cesto dos papéis sempre que o fluxo da escrita segue um caminho diferente daquele que o escritor procura. Mas a praia, qualquer praia de papel, nunca é virgem, a areia da página já foi percorrida de uma ou outra maneira e a sua geografia condiciona a inscrição da escrita. A lápis, com caneta de tinta permanente, com esferográfica ou, mecanicamente, utilizando a máquina de escrever, ou a tecnologia do computador, o suporte da escrita condiciona a sua inscrição. Heidegger desconfiava da técnica, da máquina de escrever: «A máquina de escrever arrranca a escrita ao domínio essencial da mão, ou seja, da palavra». Outros evocam a máquina de escrever como instrumento de escrita a contra-relógio. «Veio-me à memória um [filme] onde um escritor que não tinha dinheiro encontrava o lugar ideal para escrever, a sala de dactilografia da cave biblioteca da Universidade de Austin. Ali, em filas ordenadas, havia uma dúzia de velhas Remington ou Underwood que se alugavam por dez centavos a meia hora. O escritor metia a moeda, o relógio começava o seu tiquetaque enlouquecido, e o escritor punha-se a escrever como um selvagem para acabar o seu conto antes que o tempo se esgotasse» (in Doutor Pasavento, Enrique Vila-Matas). Nesse tempo havia ainda alguma intimidade entre os escritores e as máquinas de escrever, que até tinham nomes de gente: Remington, Olivetti ou de deuses, como Hermes, o deus das mensagens. Eram nomeáveis e fiáveis, à medida do nosso desejo.  Delas, disse Clarice Lispector que «O ruído baixo do teclado acompanha directamente a solidão de quem escreve». Talvez por isso, Álvaro Mutis continue, ainda, a escrever na mesma Smith Corona onde inventou Maqrol. 

Hoje, os computadores, que têm nomes metálicos, baniram as máquinas de escrever, instaurando uma modalidade de escrita sujeita a margens, barras, menus, ferramentas, conexões, links… que tolhem errância na praia deserta da página, deixando-nos mais sós. Ou talvez não. Para Bragança de Miranda, o seu computador «é uma selva de heterónimos, um drama em máquinas», por isso, estima-o como se fosse a «última máquina». Mas se é verdade que por culpa do computador as máquinas de escrever já quase desapareceram, as ferramentas que são uma espécie de extensão da mão – o lápis e a caneta – resistem, deixando os seus rastos em qualquer folha de papel. Como fazia Hermann Hesse que escrevia nas costas de folhas de calendário, em facturas, em provas tipográficas, anúncios, sem fazer esboços ou correcções; ou Novalis que em folhas limpas desenhava belas iniciais como se pretendesse imitar as iluminuras medievais, aventurando-se num romance fragmentário; ou Hemingway ou Bruce Chatwin que escreviam em cadernos Moleskine; ou Robert Walser que escreveu a lápis 526 «microgramas» em folhas separadas:  envelopes, margens das folhas dos jornais, formulários oficiais, etc., autênticos labirintos de escrita que levaram vinte anos a ser decifrados e foram recentemente editados em duas mil páginas, com o título Território do lápis (para quando a sua edição em Portugal?); ou Proust ou Musil cujo fogo da escrita só verdadeiramente incendiava o papel no momento da correcção das provas tipográficas; ou Alexander Kluge que escreve, primeiro, num caderno escolar e só depois trancreve para o computador onde redistribui capítulos; ou António Lobo Antunes que continua a escrever em folhas de prescrição médica do hospital Miguel Bombarda; ou, numa situação extrema, Vila-Matas que numa viagem de avião, tendo esquecido o diário em casa, transformou o saco higiénico da Ibéria num rascunho de ideias destinadas a uma crónica espasmódica. Eis como sempre se escreveram os livros, sujeitos às várias modalidades de deambulação pelos territórios do papel, por geografias secretas cujo itinerário o escritor persegue e onde grava com ferramentas pessoais a memória do mundo. Sim, porque para isso servem os livros que hoje, Dia Mundial do Livro, celebramos.

Janela indiscreta

hitchrearwindow03.jpg 

Há filmes que eu veria dia sim dia não se tivesse tempo: Fellini, “Oito e Meio”, a “Lolita” de Kubrick, “O Crepúsculo dos Deuses”, “A Hora do Lobo”, de Bergman, “Janela Indiscreta”, de Hitchcock, “As Férias do Senhor Hulot” ou “O Meu Tio” de Jacques Tati, ou “O Padrinho”…, confessa David Lynch, e eu que tenho andado muito “lynchiano” nas últimas noites, revisitando quase toda a sua filmografia – O homem elefante [1980], Dune [1984], Veludo azul [1986], Um coração selvagem[1990] , Estrada perdida [1997], Uma história simples [1999] e Mulholland Drive [2001], enquanto a minha condição periférica não me permite ver Inland Empire, acabado de chegar- (como poderei rever Os últimos sete dias de Laura Palmer e Eraserhead que nunca vi e não encontro nos meus videoclubes?) – disponho-me a rever os filmes da vida de Lynch.

Ontem à noite vi Janela indiscreta que Lynch considera a obra-prima de Hitchcock.  O cinema na sua perfeição, despojado, muito próximo do “cinema puro” – recorrendo a um único movimento da câmara, ao desenrolar de toda a história a partir de um só lugar (o quarto de Jeff/James Stewart que é, afinal, a sala onde nós próprios vemos o filme), à projecção simultânea de vários écrans (as outras janelas) dentro daquele único que está em nossa casa (hoje, quase só é possível ver o filme em DVD). O voyeurismo como natureza humana, ou uma extraordinária lição de arte, e não apenas de cinema. Os dois travellings de abertura mostram toda a dialéctica do filme: num, com uma virtuosidade surpreendente, é-nos mostrado tudo o que relacionou com o acidente de Jeff, um fotógrafo “errático”, a câmara fotográfica, as fotografias de corridas de automóvel, o gesso na perna, a personagem imobilizada, dormindo numa cadeira de rodas; no outro, observamos o mesmo que Jeff pode ver através da sua janela traseira, um casal feliz, uma jovem bailarina, um pianista sem inspiração, uma senhora solitária, um casal que discute muito… O elemento que vai ligar Jeff ao outro prédio é Lisa Fremont (Grace Kelly), uma estilista “sedentária” da classe alta que deseja casar com o desajeitado fotógrafo, que prefere ir ficando solteiro, namorando com Lisa e fazendo fotografias pelo mundo. Contraditoriamente, o que Jeff observa através da sua janela é o casamento dos outros que não quer para si, revelando a fobia social hitchcockiana. Mas como noutros filmes, o realizador segue aqui o seu procedimento habitual, passando da observação estática à acção, através de Lisa que actua como um operador simbólico – ao agir para desvendar um crime que constitui apenas o pretexto necessário para o realizador desenvolver o tema – entre os dois prédios, e entre a quase infantilidade da atitude inicial de Jeff e a sua maturidadade final. Hitchcock não só nos faz ver tudo isso como mostra ainda o que parece não estar lá, dando um prazer total ao espectador – que tal como Jeff e Lisa também deseja o crime. Finalmente, através de Lisa é, afinal, Jeff quem se introduz no universo do outro, numa dialéctica do desejo que não é mais sedentário e que sucumbe à intuição feminina na última cena do filme: a  revista de moda trocada pela dos Himalaias.

O passageiro Walter Benjamin

wbfoto.jpg 

Port Bou 1940. Em 25 de Setembro, após sete anos de exílio, Walter Benjamin atravessa os Pirenéus num esforço desesperado para escapar à ocupação da França pelos nazis. Pretende atravessar clandestinamente a fronteira e, através da Espanha franquista, chegar a Lisboa – por onde passaram também outros artistas e intelectuais em fuga, como Franz Werfel, Heirich Mann ou Alma Mahler -, com um visto para os Estados Unidos no bolso. Porém, uma trágica combinação de circunstâncias, entre as quais a conversão simbólica dos Pirinéus em muralha cultural e política, impede a sua entrada em Espanha. Benjamin vê-se, então, obrigado a pernoitar numa pensão de Port Bou, sob apertada vigilância de três polícias que têm ordens para deportá-lo para França na manhã seguinte. Nessa mesma noite, Benjamin inicia uma agonia que o levará à morte vinte e quatro horas mais tarde. A tese oficial é a de que se tratou de suicídio com uma overdose de morfina. Mas o relatório médico refere o caso como morte natural. O que terá acontecido realmente? Quién mató a Walter Benjamin? é um título de um documentário do realizador argentino David Mauas que passou na Culturgest em Fevereiro. A minha condição periférica não me permitiu na altura ver o filme. Tão pouco assistir ao debate que se seguiu, moderado por João Barrento, entre o realizador e o compositor José Júlio Lopes, cuja ópera W, com libretto sobre a morte de Benjamin, estreará, em Dezembro, na Culturgest.  Essa não a irei perder.

Mas, há dias, numa livraria de Portimão, encontrei um livro que narra as últimas horas do escritor e filósofo.  Sobre O Passageiro Walter Benjamin, de Ricardo Gaviria, escreve Enrique Vila-Matas, na contra-capa, que se trata de uma subtil e mui elegante recriação das últimas horas que precederam a morte do escritor… Cada vez gosto mais dos bons romances e menos de palavreado. Vou a meio do romance, que sem pretender ultrapassar  a biografia- o que seria muito pouco benjaminiano -, e convocando factos verídicos e outros recriados com afectação literária, faz-me entrar na derradeira morada de Benjamin, onde me vou embrenhando nos caminhos afectivos e intelectuais do escritor que, apesar das sombras que descem sobre o seu quarto de hotel, permanece lúcido na desgraça final. Benjamin viveu só e morreu só, sempre como um estrangeiro, mas quero acreditar que nesse último momento trágico viu, ainda, a luz da saudade que iluminou a sua vida, porque a paixão de estar despojado de tudo, a paixão da solidão que sempre o acompanhou e procurou na última morada, terá iluminado o instante em que soltou um suspiro de alívio e fechou pacificamente os olhos atrás dos seus grossos óculos de míope.

Portugal: um retrato social

salazar.jpg 

Ontem passou na RTP1 o 4º episódio da série documental Portugal – Um retrato social, da autoria de António Barreto, com realização de Julia Pontes e pesquisa documental de Maria João Silva. Um programa que é uma raridade num serviço público que falha no essencial, apagando tudo aquilo que seria importante para ajudar a traçar rumos para o país ou, na melhor das hipóteses, atirando para horários impróprios tudo aquilo que é susceptível de informar, debater e aprofundar questões, como competiria a um verdadeiro serviço público de televisão. Mas não, o que sobra são concursos e telenovelas de fraca qualidade e telejornais que em todos os canais seguem o mesmo alinhamento, como se todos os critérios jornalísticos e editoriais fossem os mesmos. É, pois, excepção o programa de António Barreto, que não aparece, mas assina com a sua voz a locução “off”, intercalando com entrevistas recentes ou antigas as sequências de imagens de arquivo ou filmadas para este documentário.

Trata-se de uma narrativa que visa retratar a sociedade portuguesa contemporânea através do confronto entre o país actual e o das últimas décadas. Quem somos nós? Uma Nação velha e um Estado antigo. Um povo com um marcado sentimento de identidade  e uma viva consciência do seu passado e de uma grandeza pretérita. Mas, também, gente que vive com a convicção, desde finais do século XVIII e inícios do século XIX, de um atraso crónico e crescente relativamente aos outros países vizinhos.  Empobreceram-nos, escreveu um dia Jorge de Sena. Ainda assim, no final de cada programa, ficamos com a convicção de que o país mudou e, em muitos aspectos, para muito melhor. Os que viveram essa mudança sabem-no bem, embora, às vezes, pareçam esqueçê-lo. Os mais novos ignoram muitas dessas mudanças. A emigração, a guerra colonial, uma revolução política e social, a fundação do Estado democrático, a descolonização, a adesão à União Europeia e a imigração foram alguns dos acontecimentos ou fenómenos históricos que marcaram as últimas quatro décadas e que provocaram ou aceleraram mudanças sociais profundas,  revelando a sociedade uma notável plasticidade.  Diminuição da mortalidade infantil, integração das mulheres na população activa, expansão do sistema escolar, aumento dos rendimentos familiares, terciarização, declínio das actividades agrícolas, abrandamento relativo das actividades industriais, desenvolvimento do Estado de protecção social…, eis algumas das mudanças mais visíveis. E contudo, não foi fácil libertar um país de tudo aquilo que o marcara durante décadas: a ignorância e a reverência, a delação e o medo, o autoritarismo e a repressão. Mas que o país mudou, que se aproximou dos padrões de vida e de comportamento europeus é um facto.

Na última década, contudo, renasceu a incerteza, a dúvida. A um período de crescimento e desenvolvimento seguiu-se um tempo de recessão ou de estagnação com efeitos psicológicos profundos que, ainda, estamos a sentir. Quem conheceu melhores tempos, quem viveu ritmos de progresso muito marcados, sente-se, agora, ameaçado pelo abrandamento, pelo esgotamento. Tornámo-nos um país a roçar a depressão bipolar. Tão depressa somos os “maiores”, como rapidamente baixamos os braços e nos transfiguramos em incapazes, indiferentes. Por isso, contraditoriamente, no final da cada programa, ficamos, também, com um certo amargo de boca, pois continuamos a ser aquele país com medo de existir, incapaz de poder arrancar decidida e decisivamente no encalço dos nossos parceiros europeus. Não porque isso seja um destino ao qual não podemos escapar, mas, sobretudo, porque o nosso atraso é a consequência de muitos anos de políticas erradas e de uma forma de estar cada vez mais arreigada nos portugueses, que preferem atirar o lixo para debaixo do tapete, viver à margem da apreciação crítica, pactuar com a mediocridade e cultivar a inveja. Talvez um programa para ir vendo ao mesmo tempo que se lê o livro de Lídia Jorge, onde Portugal “se deita no divã”.

Contra o fanatismo

Quando deixou de odiar os pais escreveu Uma história de amor e de trevas [ASA, 2007] que sendo um livro onde resgata a memória da sua família é, sobretudo, um espelho onde todos os judeus da Europa se podem rever. Um livro sobre a criação de Israel, erguida sobre uma terra queimada, cheia de pedras, primeiro as da intifada judaica contra os britânicos, depois, as da intifada palestiniana contra os judeus ocupantes. Um livro de reconstrução da memória pessoal de Amos Oz que é, simultaneamente, um livro da redenção de um combatente da terra prometida: Eu sonhava em segredo que eles me levariam um dia com eles e me transformariam em nação combatente. Que a minha vida se tornaria um poema novo, uma vida pura, recta e simples como um copo de água frio num dia de calor tórrido. Utopia falhada de uma nação cuspida pela velha Europa, que teria sido, talvez, a verdadeira terra prometida e proibida, o lugar nostálgico dos campanários e das velhas praças empedradas, dos eléctricos, das pontes e das torres das catedrais, das aldeias isoladas, das fontes termais, das florestas e dos prados cobertos de neve. A nostalgia de lugares longínquos, como se fossem personagens de Tchekov: Em algum lugar para para lá do horizonte estava a amada cidade de Moscovo, Moscovo… Mas essa Moscovo – que podia ser Berlim, Viena, Paris ou Varsóvia, ou qualquer outra -, “Moscovo para lá do horizonte”, não amava aqueles judeus, lembrará Oz muitos anos depois.

E em Israel, em vez dos campanários, das fontes e dos prados da memória, apenas uma terra incendiada por ódios, guerras, atentados, retaliações e um fanatismo sem limites: uma desordem mental muito arreigada… uma espécie  de “síndrome de Jerusalém”: uma pessoa chega, inala o ar puro e maravilhoso da montanha e, de repente, inflama-se e pega fogo a uma mesquita, a uma sinagoga ou a uma igreja. O fanatismo sempre a incendiar os templos dos homens em nome de Deus, atirando-os uns contra os outros, apenas porque são diferentes ou querem ambos a mesma terra. Sim, porque é a questão dolorosa da posse da terra que explica o conflito israelo-palestiniano. Como sempre aconteceu no passado. De quem é a terra?, eis a pergunta sem resposta que Oz coloca, sabendo, no entanto, que a terra pode ser trocada por paz, mesmo que isso signifique um compromisso doloroso.

O futuro não é seguro e o passado está cheio de cadáveres, afirmou Oz numa entrevista recente ao Público, denunciando o devir sem futuro de Israel, mas ao tempo, o lado mais sombrio da modernidade, com os seus totalitarismos, chauvinismos, fundamentalismos religiosos e desastes ambientais. Há que denunciar não só a ocupação da Palestina que enfraquece Israel, mas também todo o fanatismo que é mais velho que o Islão, do que o Cristianismo, do que o Judaísmo. Esse o compromisso de Oz face ao tempo, ao sofrimento, ao preconceito, à tragédia, à perda e à derrota. (…) Comprometo-me, escrevo artigos, escrevo histórias e nunca misturo uma coisa com a outra, mesmo haja nos romances uma mensagem metapolítica.

Não, nem as mulheres nem os árabes têm cauda e cornos, como acreditava, Profi (que poderia ser Oz), o rapaz do romance Uma pantera na cave, eis o que se pode ler, ainda, no pequeno livro que hoje o Público oferece aos seus leitores. Originalmente publicado sob o título Help us to divorce, Contra o fanatismo é um relâmpago que ilumina as trevas onde mergulha o conflito israelo-palestianiano. Um apelo à paz feito por alguém que confessa que, também ele, quando muito jovem, era um pequeno fanático de cérebro lavado, que viu, depois, derramar-se num dia de calor tórrido o copo de água fria que poderia matar a sede aos dois povos. Para matar a sede de paz daqueles que verdadeiramente a procuram nos dois lados, talvez seja agora preciso encher de água dois copos diferentes, um compromisso doloroso, um divórcio que separe quem não consegue partilhar o mesmo copo de água fria num dia de calor tórrido, mas que uma vez consumado divórcio e a partilha, pensa Oz, Israelitas e Palestinianos poderão, então, saltarem por cima da terra repartida para beberem juntos dois copos de água fria.

Sebald: viagem entre ruínas

sebald_b.jpg 

Será possível, ainda, a grandeza literária? Ante a decadência implacável da ambição literária, a convergente ascensão de desengano, a verborreia e a crueldade insensível como assuntos normativos da ficção ?… interrogava-se Susan Sontag a propósito da obra de W. G. Sebald. Uma literatura capaz de exprimir a consternação do mundo tão cheio de falsas representações, tão fútil? Acabo de ler Os anéis de Saturno e parece-me que sim, que é possível, apesar de tudo, uma literatura sedimentada como uma paisagem cuja topografia nos sacode, nos interpela, propondo-nos uma meditação sobre as ruínas que vamos deixando para trás. Essa a paisagem, literal e metafórica, que percorremos com Sebald em Os anéis de saturno, livro inclassificável (romance, ensaio-diário de viagem, autobiografia, enciclopédia ou tudo isso ao mesmo tempo, encadeado?…) sobre a melancolia do mundo. Meditação entre ruínas, alternada com breves ensaios sobre biografias obscuras, sobre o ciclo de vida dos arenques, a criação de bichos da seda, a natureza das guerras, a destruição das grandes florestas… eis alguns acidentes topográficos de uma cartografia que oscila entre a realidade e a ficção, rejeitando a normatividade temática, moral e literária. Sebald, o narrador a quem o autor empresta o seu nome, é uma construção literária do promeneur solitaire, romântico, que empreende uma viagem como intromissão, como indagação através de uma paisagem real, com nomes, toponímias, datas, ilustrações que o narrador convoca criando um extraordinário efeito de verosimilhança: Em Agosto de 1992, quando os dias do Cão estavam a chegar ao fim, empreendi uma viagem a pé pelo condado de Suffolk, leste de Inglaterra, na esperança de pôr fim ao vazio que me invade sempre que termino um trabalho de fôlego. Reconhecemos aqui um processo narrativo semelhante ao utilizado pelo narrador-autor das Viagens na minha terra. Porém, enquanto em Almeida Garrett a viagem nos aproximava da natureza romântica, em Sebald ela não é mais do que um artifício para nos desvendar segredos de vidas obscuras: especulando se Sir Thomas Browne, na sua visita à Holanda, teria assistido à lição de anatomia pintada por Rembrandt; recordando um interlúdio romântico de Chateaubriand durante o seu exílio em Inglaterra; evocando os esforços de Roger de Casement para denunciar a infâmia do colonialiusmo belga no Congo; narrando as primeiras aventuras no mar de Joseph Conrad…  E, sobretudo, para mostrar a devastação contemporânea da natureza (desaparece um bosque atrás do outro, as valas na orla dos caminhos onde a seu tempo floresciam primaveras e violetas são lavradas e terraplenadas… ); ou os escombros da guerra (vêem-se cidades francesas reduzidas a escombros e cinzas, cadáveres a apodrecer na terra de ninguém entre trincheiras, arvoredo abatido pelo fogo de artilharia, navios de guerra afundando-se no meio de nuvens negras de petróleo, colunas militares em marcha, intermináveis torrentes de fugitivos e zepelins rachados…),  ou a desolação do mundo (nesse lugar de armazenagem não vejo uma só pessoa, só tijolos, milhões de tijolos…), na tentativa inútil de pôr fim ao vazio que o invade. Ao vazio, afinal, deixado pelo lado sombrio de uma modernidade que esqueceu as promessas para nos oferecer, somente, a paisagem em ruínas por onde o autor deambula procurando a redenção do mundo através da memória. A escrita, portanto, como única maneira de [se] defender das recordações que tantas vezes e tão inesperadamente [o] afectam e que aqui se mostram através de uma visão fatalista da História, como tragédia humana roçando o abismo, que um caminhante solitário nos  dá a ver à hora do crepúsculo…  sob um céu cor de tinta que cobre as nossas peregrinações pessoais através do litoral da própria melancolia onde se amontoam, também, recordações, sonhos, genealogias, naufrágios que Sebald faz libertar.

  • O ESCREVENTE

    Um blogue de João Ventura® (joaobventura@yahoo.com) «fora das coisas civis e na mais pura região da arte» [Joseph Joubert]
  • Abril 2007
    S T Q Q S S D
    « Mar   Maio »
     1
    2345678
    9101112131415
    16171819202122
    23242526272829
    30