A moeda do tempo

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O poeta derrama o corpo e as emoções na praia do poema onde se espraiam «as coisas contemporâneas» e se escuta o «som do mundo» que ecoa nos versos que escreve e na recordação dos versos de outros poetas. A infância, a memória, os amigos, a perda, a eternidade da morte. A experiência do tempo como experiência do mundo e da linguagem sujeita a um tratamento reflexivo que reconstrói «o passado no presente». O mar, os barcos, as aves como fulgurações de instantes do passado irrompendo no presente, «coisas contemporâneas de uma vida que excede a minha vida» e se confronta com as ameaças de um mundo que «um dia irá apagar [os versos] e a incerta esperança que o próprio mundo original» seja a casa da escrita e «dos poetas que emudecem». Um livro de ondulações verbais onde se renovam as sonoridades do correr da água «anterior à água das palavras» [A moeda do tempo, Assírio & Alvim].

 

Urbano Tavares Rodrigues, o anti-bartleby

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É, talvez, o mais profícuo dos escritores portugueses. O mais anti-bartlebyano de todos, contra exemplo do escrevente Bartleby, aquele empregado de escritório de um conto de Herman Melville, que inspirou Enrique Vila-Matas a escrever Bartleby & Companhia, espécie de diário-ensaio sobre os escritores que renunciaram à escrita para melhor poderem se afirmar. A ele se deve, ainda, a recuperação de Manuel Teixeira Gomes, esse escritor do sul, que foi também Presidente da República, hoje injustamente pouco conhecido, que se deu, ele também, como desaparecido em Bejaia, Argélia. A ele se deve uma obra ficcional de enorme folgo – com mais de quarenta títulos publicados desde 1952, e que agora a Dom Quixote está a reeditar -, indispensável para se compreender um certo universo social do Portugal contemporâneo. Em Ao contrário das ondas tudo se passa numa Lisboa, entre a Lapa e as Avenidas Novas, num quadro mental que convoca referências culturais de uma burguesia de esquerda aí retratada com a agilidade e o desembaraço narrativo que se conhece em Urbano Tavares Rodrigues. Um olhar lúcido sobre as representações urbanas do país, com um misto de perplexidade e desilusão face ao paradigma político actual. Uma crónica realista do tempo que passa.

  

Realismo mágico alentejano

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No post anterior, a propósito de Mértola e da sua excentricidade, evoquei de passagem o romance O perfumista, de Joaquim Mestre [Oficina do Livro]. Na 6ª feira, em conversa com a Lídia Jorge, falou-se do seu primeiro livro O dia dos prodígios, do seu ambiente onírico, telúrico, e não pude deixar de pensar que o livro de Joaquim Mestre pertencia ao mesmo universo. Por isso, embora os meus universos romanescos, por agora, sejam outros, aqui deixo uma breve nota. Romance atravessado por uma espécie de realismo mágico alentejano, cuja acção decorre no primeiro quartel do século XX, num território particularmente pobre das margens do Guadiana, conta-nos a história de Manuel Gasparim, um perfumista apaixonado que cria aromas, faz misturas, inventa olores que levam as mulheres à perdição, chegando mesmo, nas últimas páginas, a soltar-se um sopro de loucura inebriante quando o intenso cheiro a benjoim percorre a vila inteira perante a perplexidade de todos. É um Alentejo profundo, atravessado pelas várias dimensões da vida, aquele que se derrama na planície e no silêncio deste livro, que retoma a melhor tradição dos escritores alentejanos, de que Manuel da Fonseca é o expoente máximo. Excentricidades.

A excentricidade de Mértola

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Ainda hoje a paisagem à volta de Mértola é «árida, coberta de lousas tristes e nua de arvoredo». Mas para a alcançar já não é preciso subir o Guadiana a favor das marés, ou bolinando contra ventos traiçoeiros em frágeis embarcações que traziam brocados e especiarias desde Tunis, Siracusa ou Alexandria e regressavam, depois, com cargas de carne fresca, couros e pelicas, frutos secos e lingotes de prata e chumbo. Mértola era, nesse tempo, o último porto do Mediterrâneo. Depois, com o correr do tempo, a importância do rio foi esmorecendo até ao último estertor já no século XX, quando a campanha do trigo secou as encostas desbravadas e os vapores, sem carga, morreram nas margens.

Hoje, há boas estradas que subtraem Mértola ao isolamento. E há, sobretudo, o Campo Arqueológico de Mértola que desde há trinta anos vem fazendo um trabalho notável, arrancando a terra às memórias de uma vila esquecida. Durante décadas o CAM escavou, investigou, recuperou, publicou, abriu museus, transformando radicalmente Mértola num oásis de património cultural devolvido à comunidade e aos visitantes, com fortíssimo impacto no desenvolvimento económico local. Ontem estive em Mértola, com a Graça, a convite do Cláudio Torres, que abriu mais um espaço de investigação, o Centro de Cultura Islâmica e do Mediterrâneo, que visa a aproximação, o diálogo intercultural entre as margens mediterrânicas. Belíssimo espaço, a Casa Amarela, no coração histórico da vila, com centro de documentação, um pequeno auditório, sala de exposições, pátios interiores para tertúlias… e, sobretudo, um projecto de investigação que, num tempo de medo e desconfiança relativamente ao que vem do sul, visa construir pontes culturais num exercício de respeito pelas diferenças religiosas, com efeitos políticos a prazo. O que poderá Mértola contra a «democracia da bomba», perguntava o Cláudio? Muito, achamos todos os que estivemos lá, ontem. Desde logo, pelo que Mértola representa como memória cosmopolita, último porto do Mediterrâneo, onde se falava grego, hebraico, latim, árabe ou romance, lugar de passagem e de encontro de comerciantes, aventureiros, mercenários e religiosos vindos de muitos lugares. Depois, porque, hoje, quando nos encontramos entregues, perdidos na imanência do mundo, sem remissão, Mértola mostra que há outras possibilidades de retraçar o passado, desarquivar a história, actualizando a sua lição de forma a recriarmos a nossa experiência no mundo. Hoje somos coagidos de muitas maneiras, arrebatados no torvelinho dos media, do simulacro, da mesquinhez, da desistência. O próprio pensamento está em crise, porque ameaçado sempre pela provisoriedade. Por isso, Mértola é tão mais importante nestes dias, porque nos incita e excita com o que nos oferece: o campo Arqueológico, com o Bairro Almóada do séc. XII, a mesquita, hoje igreja matriz, o museu islâmico, a oficina de tecelagem e, todo o centro histórico desenhado sobre  o pequeno promontório rochoso que desce sobre o Guadiana num labirinto de ruelas, escadas, onde neste fim de semana se realiza o 4º Festival Islâmico.

Ontem, no primeiro dia, ainda se faziam os derradeiros preparativos com uma inquietação saudável, cheia de sorrisos e boa disposição para receber os primeiros visitantes que a partir do meio da tarde, indiferentes ao calor, se perdiam já entre o branco das casas e a paleta de cores fortes do Norte de África, entre os odores intensos de especiarias e os primeiros acordes de música árabe-andaluz, num ambiente onírico que me evocou um livro [O perfumista, de Joaquim Mestre, Oficina do Livro) que li há pouco tempo, e cuja acção decorre em Almorim, uma vila imaginária nas margens do Guadiana, que não é outra senão a Mértola dos primeiros anos do século passado, povoada de profetas e malteses, visionários e contadores de histórias.

Esta a nova Mértola, cosmopolita por quatro dias, ressuscitada ao longo de décadas pelos jovens espanhóis e franceses que trabalham com o Cláudio e que retraçam novas figuras de esperança numa comunidade envelhecida. Esta a Mértola que não recusa a modernidade exposta na Galeria de Arte Empório Metal através das peças de ourivesaria de Nádia Torres. A Mértola onde por estes dias, no primeiro andar desta galeria, surgiu um belíssimo salão de chá, decorado com motivos de origem muçulmana, onde não falta o chá de menta e petiscos das mil e uma noites, como o estifado (carne com passas e canela) que comi à noite com um grupo de amigos onde para além do Cláudio também estava o Borges Coelho que fora homenageado pela manhã, na Casa Amarela. Eis Mértola, marcada pela excentricidade, no sentido literal e metafórico do conceito, isto é, a que está fora do centro, e que procura escapar à vontade de coacção e à estabilização institucional, agindo, criando novas figuras num país que parece com medo de existir. Mértola, o Cláudio e todos aqueles que aí retraçam diariamente novas figuras de esperança, esses não têm medo, seja ao ritmo islâmico durante os quatro dias que dura o festival, seja na investigação histórica acolhida no novo centro de estudos, seja através das peças desenhadas pela Nádia que junta tradição e modernidade. O caminho para Mértola todos conhecem. Façam-se, por isso, à estrada. Sejam malteses. Prefiram a acção à coacção.

A nova serialidade televisiva

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Hoje, um post num registo diferente dos que têm caído aqui. Atrevo-me a dizer que sobre outro tipo de literatura, a literatura audio-visual «pós-moderna» da qual não sou propriamente um aficcionado, até porque as minhas horas diante do pequeno ecrã, tenho-as ocupado ultimamente a rever em DVD os clássicos de cinema que vão chegando. E não só, revi em dois fins de semana consecutivos a filmografia de David Lynch. E a série Twin Peaks, onde se repete até à exaustão a pergunta «quem matou Laura Palmer». 

A pergunta da série de culto de David Lynch que inspirou a maioria dos actuais criadores de séries de televisão é,  hoje, reescrita para «o que se passa naquela ilha?, onde sobrevivem os náufragos de Perdidos, o novo ícone da pop culture que milhões de jovens vêem, compram, pirateiam, discutem em todo o mundo. Uma espécie de «suspension of disbelief», suspensão do real, eis o que nos acontece, às vezes, quando durante horas a fio nos encontramos Perdidos numa ilha deserta; ou quando durante 24 horas somos parceiros de Jack Bauer em contra o terrorismo (ainda que muitas vezes os métodos utilizados escondam interesses propagandísticos inconfessáveis e repudiáveis); ou quando amamos e odiamos Gregory House, o médico mais politicamente incorrecto da televisão; ou quando estremecemos de emoção quase bergmaniana diante de mais um episódio de Os Sopranos; ou quando nos confrontamos com as neuroses americanas em Sete Palmos de Terra; ou quando descobrimos os mais podres e ardilosos segredos da vida dos subúrbios de uma cidade americana em Donas de Casa Desesperadas; ou quando penetramos no mundo virtual que nos evoca Matrix em Heroes; ou quando apanhamos um crimionoso em CSI. Trata-se de histórias com sequências narrativas  desdobradas até ao limite, percorridas por personagens onde projectamos umm certo inconsciente, novas cosmogonias de um mundo ficcional que julgávamos irremediavelmente perdido numa televisão afundada em telenovelas e na vulgaridade de um quotidiano maculado transferido para o ecrã. Será esta a resposta contra a alienação dos públicos, contra os reality shows, contra a encenação bacoca de episódios triviais do quotidiano de indivíduos anónimos temporariamente promovidos ao estrelato de ficção? Desde 2006 temos vindo a assistir à emergência de um novo conceito de serialidade televisiva com uma estrutura narrativa idêntica às dos romances do século XIX que também eram publicados em fascículos semanais antes de sair o livro completo; hoje, a caixa de DVD. Estará o futuro a trazer do passado aquilo que tem potencial para criar audiências, mas sem iludir a realidade? Isto é, a televisão como entretenimento inteligente? O paradigma de Perdidos não é o mesmo da Ilha do Tesouro, de Stevenson, agora acrescido da inquietação moderna da ausência do herói? E os múltiplos enredos e intrigas secundárias, os infindáveis elencos, a construção das personagens não era algo que até agora estava apenas reservado ao cinema e à literatura? É verdade que antes já o DVD tinha revolucionado a nossa forma de ver cinema, transferindo os clássicos da tela ampla para a televisão. Agora são as séries com as suas possibilidades de horas infinitas, com desvios, retrocessos e avanços narrativos que criam a ilusão da suspensão da realidade, e não o seu simulacro. Talvez se esteja a assistir, então, à emergência de uma nova forma de literatura audiovisual de massas com capacidade de propor algo diferente da ilusão trivial da realidade, mas antes, talvez, a sua suspensão ficcional, pelo menos enquanto durar o episódio da série ou a caixa de DVD que visionamos.

No bairro de Gonçalo M. Tavares

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O Senhor Walser é o mais recente inquilino do Bairro que Gonçalves M. Tavares vem povoando, correspondendo a um programa de «alojamento» ficcional de contornos lúdicos com avatares filosóficos de escritores famosos. Trata-se agora da saga doméstica do Senhor Walser, numa clara evocação do escritor suiço Roberto Walser que cultivou um estilo de vida e uma escrita que visava a ocultação. Tal como Robert Walser, que passou os últimos vinte e oito anos da sua vida no manicómio de Herisau, junto à floresta de Appenzel, também o senhor desta história procura ocultar-se numa casa no meio da floresta, onde espera criar um espaço de «conquista da racionalidade absoluta» contra o caos circundante. Contudo, ironicamente, o caos acabará por se inflitrar no interior da habitação levado pelos trabalhaores que no dia da inauguração da casa, supostamente, viriam pôr tudo em ordem.

Entretanto, há dois outros senhores, Calvino e Kraus, que vão estar por estes dias (de 16 a 19 de Maio) no Teatro das Trindade, com dramaturgia e encenação de Sandro William Teixeira, numa «espécie de inteligência filosófica feita acção». Quem puder que passe por lá. Deixo-vos o cartaz.

 

Cemitérios de pianos

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No ventre de uma oficina de carpintaria há um cemitério de pianos cujo mecanismo, à semelhança dos seres que procuram esse refúgio, não está morto, mas apenas suspenso no tempo. Lugar recatado de iniciação sexual, gritos de amor e esconderijo de adúlteros; exílio voluntário de leituras clandestinas onde se soltam pensamentos; confessionário de mortos; pátio de brincadeiras infantis. Espaço de passagem de testemunho entre gerações onde passado e presente se confundem através de um processo narrativo fragmentário que ludibria o leitor que procura acompanhar as passadas de dois narradores cuja voz, às vezes, lhe escapa. O mesmo fundo negro de sempre dos livros de José Luis Peixoto,  mas agora com fulgurações de claridade irrompendo na sombra. Uma escrita intercalada de sombras e luz, de silêncio e riso, de medo e de esperança, de culpa e perdão. A morte de novo convocada, não para indicar o fim, mas a renovação, o elo entre gerações, a continuidade.

  • O ESCREVENTE

    Um blogue de João Ventura® (joaobventura@yahoo.com) «fora das coisas civis e na mais pura região da arte» [Joseph Joubert]
  • Maio 2007
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