A moeda do tempo

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O poeta derrama o corpo e as emoções na praia do poema onde se espraiam «as coisas contemporâneas» e se escuta o «som do mundo» que ecoa nos versos que escreve e na recordação dos versos de outros poetas. A infância, a memória, os amigos, a perda, a eternidade da morte. A experiência do tempo como experiência do mundo e da linguagem sujeita a um tratamento reflexivo que reconstrói «o passado no presente». O mar, os barcos, as aves como fulgurações de instantes do passado irrompendo no presente, «coisas contemporâneas de uma vida que excede a minha vida» e se confronta com as ameaças de um mundo que «um dia irá apagar [os versos] e a incerta esperança que o próprio mundo original» seja a casa da escrita e «dos poetas que emudecem». Um livro de ondulações verbais onde se renovam as sonoridades do correr da água «anterior à água das palavras» [A moeda do tempo, Assírio & Alvim].

 

Urbano Tavares Rodrigues, o anti-bartleby

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É, talvez, o mais profícuo dos escritores portugueses. O mais anti-bartlebyano de todos, contra exemplo do escrevente Bartleby, aquele empregado de escritório de um conto de Herman Melville, que inspirou Enrique Vila-Matas a escrever Bartleby & Companhia, espécie de diário-ensaio sobre os escritores que renunciaram à escrita para melhor poderem se afirmar. A ele se deve, ainda, a recuperação de Manuel Teixeira Gomes, esse escritor do sul, que foi também Presidente da República, hoje injustamente pouco conhecido, que se deu, ele também, como desaparecido em Bejaia, Argélia. A ele se deve uma obra ficcional de enorme folgo – com mais de quarenta títulos publicados desde 1952, e que agora a Dom Quixote está a reeditar -, indispensável para se compreender um certo universo social do Portugal contemporâneo. Em Ao contrário das ondas tudo se passa numa Lisboa, entre a Lapa e as Avenidas Novas, num quadro mental que convoca referências culturais de uma burguesia de esquerda aí retratada com a agilidade e o desembaraço narrativo que se conhece em Urbano Tavares Rodrigues. Um olhar lúcido sobre as representações urbanas do país, com um misto de perplexidade e desilusão face ao paradigma político actual. Uma crónica realista do tempo que passa.

  

Realismo mágico alentejano

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No post anterior, a propósito de Mértola e da sua excentricidade, evoquei de passagem o romance O perfumista, de Joaquim Mestre [Oficina do Livro]. Na 6ª feira, em conversa com a Lídia Jorge, falou-se do seu primeiro livro O dia dos prodígios, do seu ambiente onírico, telúrico, e não pude deixar de pensar que o livro de Joaquim Mestre pertencia ao mesmo universo. Por isso, embora os meus universos romanescos, por agora, sejam outros, aqui deixo uma breve nota. Romance atravessado por uma espécie de realismo mágico alentejano, cuja acção decorre no primeiro quartel do século XX, num território particularmente pobre das margens do Guadiana, conta-nos a história de Manuel Gasparim, um perfumista apaixonado que cria aromas, faz misturas, inventa olores que levam as mulheres à perdição, chegando mesmo, nas últimas páginas, a soltar-se um sopro de loucura inebriante quando o intenso cheiro a benjoim percorre a vila inteira perante a perplexidade de todos. É um Alentejo profundo, atravessado pelas várias dimensões da vida, aquele que se derrama na planície e no silêncio deste livro, que retoma a melhor tradição dos escritores alentejanos, de que Manuel da Fonseca é o expoente máximo. Excentricidades.

A excentricidade de Mértola

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Ainda hoje a paisagem à volta de Mértola é «árida, coberta de lousas tristes e nua de arvoredo». Mas para a alcançar já não é preciso subir o Guadiana a favor das marés, ou bolinando contra ventos traiçoeiros em frágeis embarcações que traziam brocados e especiarias desde Tunis, Siracusa ou Alexandria e regressavam, depois, com cargas de carne fresca, couros e pelicas, frutos secos e lingotes de prata e chumbo. Mértola era, nesse tempo, o último porto do Mediterrâneo. Depois, com o correr do tempo, a importância do rio foi esmorecendo até ao último estertor já no século XX, quando a campanha do trigo secou as encostas desbravadas e os vapores, sem carga, morreram nas margens.

Hoje, há boas estradas que subtraem Mértola ao isolamento. E há, sobretudo, o Campo Arqueológico de Mértola que desde há trinta anos vem fazendo um trabalho notável, arrancando a terra às memórias de uma vila esquecida. Durante décadas o CAM escavou, investigou, recuperou, publicou, abriu museus, transformando radicalmente Mértola num oásis de património cultural devolvido à comunidade e aos visitantes, com fortíssimo impacto no desenvolvimento económico local. Ontem estive em Mértola, com a Graça, a convite do Cláudio Torres, que abriu mais um espaço de investigação, o Centro de Cultura Islâmica e do Mediterrâneo, que visa a aproximação, o diálogo intercultural entre as margens mediterrânicas. Belíssimo espaço, a Casa Amarela, no coração histórico da vila, com centro de documentação, um pequeno auditório, sala de exposições, pátios interiores para tertúlias… e, sobretudo, um projecto de investigação que, num tempo de medo e desconfiança relativamente ao que vem do sul, visa construir pontes culturais num exercício de respeito pelas diferenças religiosas, com efeitos políticos a prazo. O que poderá Mértola contra a «democracia da bomba», perguntava o Cláudio? Muito, achamos todos os que estivemos lá, ontem. Desde logo, pelo que Mértola representa como memória cosmopolita, último porto do Mediterrâneo, onde se falava grego, hebraico, latim, árabe ou romance, lugar de passagem e de encontro de comerciantes, aventureiros, mercenários e religiosos vindos de muitos lugares. Depois, porque, hoje, quando nos encontramos entregues, perdidos na imanência do mundo, sem remissão, Mértola mostra que há outras possibilidades de retraçar o passado, desarquivar a história, actualizando a sua lição de forma a recriarmos a nossa experiência no mundo. Hoje somos coagidos de muitas maneiras, arrebatados no torvelinho dos media, do simulacro, da mesquinhez, da desistência. O próprio pensamento está em crise, porque ameaçado sempre pela provisoriedade. Por isso, Mértola é tão mais importante nestes dias, porque nos incita e excita com o que nos oferece: o campo Arqueológico, com o Bairro Almóada do séc. XII, a mesquita, hoje igreja matriz, o museu islâmico, a oficina de tecelagem e, todo o centro histórico desenhado sobre  o pequeno promontório rochoso que desce sobre o Guadiana num labirinto de ruelas, escadas, onde neste fim de semana se realiza o 4º Festival Islâmico.

Ontem, no primeiro dia, ainda se faziam os derradeiros preparativos com uma inquietação saudável, cheia de sorrisos e boa disposição para receber os primeiros visitantes que a partir do meio da tarde, indiferentes ao calor, se perdiam já entre o branco das casas e a paleta de cores fortes do Norte de África, entre os odores intensos de especiarias e os primeiros acordes de música árabe-andaluz, num ambiente onírico que me evocou um livro [O perfumista, de Joaquim Mestre, Oficina do Livro) que li há pouco tempo, e cuja acção decorre em Almorim, uma vila imaginária nas margens do Guadiana, que não é outra senão a Mértola dos primeiros anos do século passado, povoada de profetas e malteses, visionários e contadores de histórias.

Esta a nova Mértola, cosmopolita por quatro dias, ressuscitada ao longo de décadas pelos jovens espanhóis e franceses que trabalham com o Cláudio e que retraçam novas figuras de esperança numa comunidade envelhecida. Esta a Mértola que não recusa a modernidade exposta na Galeria de Arte Empório Metal através das peças de ourivesaria de Nádia Torres. A Mértola onde por estes dias, no primeiro andar desta galeria, surgiu um belíssimo salão de chá, decorado com motivos de origem muçulmana, onde não falta o chá de menta e petiscos das mil e uma noites, como o estifado (carne com passas e canela) que comi à noite com um grupo de amigos onde para além do Cláudio também estava o Borges Coelho que fora homenageado pela manhã, na Casa Amarela. Eis Mértola, marcada pela excentricidade, no sentido literal e metafórico do conceito, isto é, a que está fora do centro, e que procura escapar à vontade de coacção e à estabilização institucional, agindo, criando novas figuras num país que parece com medo de existir. Mértola, o Cláudio e todos aqueles que aí retraçam diariamente novas figuras de esperança, esses não têm medo, seja ao ritmo islâmico durante os quatro dias que dura o festival, seja na investigação histórica acolhida no novo centro de estudos, seja através das peças desenhadas pela Nádia que junta tradição e modernidade. O caminho para Mértola todos conhecem. Façam-se, por isso, à estrada. Sejam malteses. Prefiram a acção à coacção.

A nova serialidade televisiva

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Hoje, um post num registo diferente dos que têm caído aqui. Atrevo-me a dizer que sobre outro tipo de literatura, a literatura audio-visual «pós-moderna» da qual não sou propriamente um aficcionado, até porque as minhas horas diante do pequeno ecrã, tenho-as ocupado ultimamente a rever em DVD os clássicos de cinema que vão chegando. E não só, revi em dois fins de semana consecutivos a filmografia de David Lynch. E a série Twin Peaks, onde se repete até à exaustão a pergunta «quem matou Laura Palmer». 

A pergunta da série de culto de David Lynch que inspirou a maioria dos actuais criadores de séries de televisão é,  hoje, reescrita para «o que se passa naquela ilha?, onde sobrevivem os náufragos de Perdidos, o novo ícone da pop culture que milhões de jovens vêem, compram, pirateiam, discutem em todo o mundo. Uma espécie de «suspension of disbelief», suspensão do real, eis o que nos acontece, às vezes, quando durante horas a fio nos encontramos Perdidos numa ilha deserta; ou quando durante 24 horas somos parceiros de Jack Bauer em contra o terrorismo (ainda que muitas vezes os métodos utilizados escondam interesses propagandísticos inconfessáveis e repudiáveis); ou quando amamos e odiamos Gregory House, o médico mais politicamente incorrecto da televisão; ou quando estremecemos de emoção quase bergmaniana diante de mais um episódio de Os Sopranos; ou quando nos confrontamos com as neuroses americanas em Sete Palmos de Terra; ou quando descobrimos os mais podres e ardilosos segredos da vida dos subúrbios de uma cidade americana em Donas de Casa Desesperadas; ou quando penetramos no mundo virtual que nos evoca Matrix em Heroes; ou quando apanhamos um crimionoso em CSI. Trata-se de histórias com sequências narrativas  desdobradas até ao limite, percorridas por personagens onde projectamos umm certo inconsciente, novas cosmogonias de um mundo ficcional que julgávamos irremediavelmente perdido numa televisão afundada em telenovelas e na vulgaridade de um quotidiano maculado transferido para o ecrã. Será esta a resposta contra a alienação dos públicos, contra os reality shows, contra a encenação bacoca de episódios triviais do quotidiano de indivíduos anónimos temporariamente promovidos ao estrelato de ficção? Desde 2006 temos vindo a assistir à emergência de um novo conceito de serialidade televisiva com uma estrutura narrativa idêntica às dos romances do século XIX que também eram publicados em fascículos semanais antes de sair o livro completo; hoje, a caixa de DVD. Estará o futuro a trazer do passado aquilo que tem potencial para criar audiências, mas sem iludir a realidade? Isto é, a televisão como entretenimento inteligente? O paradigma de Perdidos não é o mesmo da Ilha do Tesouro, de Stevenson, agora acrescido da inquietação moderna da ausência do herói? E os múltiplos enredos e intrigas secundárias, os infindáveis elencos, a construção das personagens não era algo que até agora estava apenas reservado ao cinema e à literatura? É verdade que antes já o DVD tinha revolucionado a nossa forma de ver cinema, transferindo os clássicos da tela ampla para a televisão. Agora são as séries com as suas possibilidades de horas infinitas, com desvios, retrocessos e avanços narrativos que criam a ilusão da suspensão da realidade, e não o seu simulacro. Talvez se esteja a assistir, então, à emergência de uma nova forma de literatura audiovisual de massas com capacidade de propor algo diferente da ilusão trivial da realidade, mas antes, talvez, a sua suspensão ficcional, pelo menos enquanto durar o episódio da série ou a caixa de DVD que visionamos.

No bairro de Gonçalo M. Tavares

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O Senhor Walser é o mais recente inquilino do Bairro que Gonçalves M. Tavares vem povoando, correspondendo a um programa de «alojamento» ficcional de contornos lúdicos com avatares filosóficos de escritores famosos. Trata-se agora da saga doméstica do Senhor Walser, numa clara evocação do escritor suiço Roberto Walser que cultivou um estilo de vida e uma escrita que visava a ocultação. Tal como Robert Walser, que passou os últimos vinte e oito anos da sua vida no manicómio de Herisau, junto à floresta de Appenzel, também o senhor desta história procura ocultar-se numa casa no meio da floresta, onde espera criar um espaço de «conquista da racionalidade absoluta» contra o caos circundante. Contudo, ironicamente, o caos acabará por se inflitrar no interior da habitação levado pelos trabalhaores que no dia da inauguração da casa, supostamente, viriam pôr tudo em ordem.

Entretanto, há dois outros senhores, Calvino e Kraus, que vão estar por estes dias (de 16 a 19 de Maio) no Teatro das Trindade, com dramaturgia e encenação de Sandro William Teixeira, numa «espécie de inteligência filosófica feita acção». Quem puder que passe por lá. Deixo-vos o cartaz.

 

Cemitérios de pianos

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No ventre de uma oficina de carpintaria há um cemitério de pianos cujo mecanismo, à semelhança dos seres que procuram esse refúgio, não está morto, mas apenas suspenso no tempo. Lugar recatado de iniciação sexual, gritos de amor e esconderijo de adúlteros; exílio voluntário de leituras clandestinas onde se soltam pensamentos; confessionário de mortos; pátio de brincadeiras infantis. Espaço de passagem de testemunho entre gerações onde passado e presente se confundem através de um processo narrativo fragmentário que ludibria o leitor que procura acompanhar as passadas de dois narradores cuja voz, às vezes, lhe escapa. O mesmo fundo negro de sempre dos livros de José Luis Peixoto,  mas agora com fulgurações de claridade irrompendo na sombra. Uma escrita intercalada de sombras e luz, de silêncio e riso, de medo e de esperança, de culpa e perdão. A morte de novo convocada, não para indicar o fim, mas a renovação, o elo entre gerações, a continuidade.

No território do lápis

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Herisau, dia de Natal de 1956. Entre faias e abetos, na ladeira que desce do Schochenberg, um homem jaz no chão, confundindo-se com o deserto branco que o rodeia. A neve é o mais perfeito esconderijo. Antes, depois de ter almoçado no sanatório, errara durante horas até ao coração do bosque, perdido. Ao longe, talvez, o toque lamentoso de um sino. A cabeça está apoiada sobre a raiz de um abeto que emerge da neve. Não há tristeza no seu rosto. Apenas uma réstia de um olhar eternamente extasiado perante a neve pura, com o espanto de quem descobre, finalmente, o mais secreto dos desejos. Daqui a pouco, um grupo de crianças encontrará um corpo num bosque gelado e saberemos tratar-se de Robert Walser, o «poeta mais escondido que alguma vez existiu», como escreveu Elias Canetti. E que num nos dos seus romances, Os irmãos Tanner, pusera premonitoriamente na boca de um personagem uma elegia a Sebastião, o poeta encontrado morto na neve: «Com que nobreza escolheu a sua tumba! Jaz no meio de esplêndidos abetos verdes, cobertos pela neve. Não quero avisar ninguém. A natureza inclina-se a contemplar o seu morto, as estrelas cantam suavemente à volta da sua cabeça e as aves nocturnas grasnam: é a melhor música para alguém que não tem ouvido nem sensações.»

Conta Max Brod que um dia Kafka apareceu em sua casa para dar conta do seu entusiasmo pelo livro Jakob von Gunten, de Robert Walser. E conta, ainda, como Kafka leu, depois, em voz alta, fragmentos desse livro, rindo às gargalhadas, com o mesmo riso de quando leu O processo aos seus amigos.  A irmandade entre Kafka e Walser seria comentada por Robert Musil como «um caso particular do modelo de Walser». Em Jakob von Gunten [tal como A rosa, O salteador e O ajudante, editados em Portugal pela Relógio d´Água], o protagonista é aluno do Instituto Benjamenta, inventado Walser, uma escola para formar criados. Em vez de formar a personalidade dos alunos, o instituto apaga-a. O principal obstáculo a ultrapassar é o da própria consciência. Por isso, praticam a repetição, em obediência mimética. Obedecem a toda e qualquer ordem para não pensar. O seu objectivo é apagar-se. Jakob pensa: «Se me afundo e me desmorono, o que é que se perderá? Um zero». Li de um só folgo este romance-diário com uma prosa despojada de clímax narrativo e densidade psicológica, uma espécie de emanação lúdica segregada pela sucessão de derivas mentais e livre associação discursiva, mas também com um lado sombrio e funesto, delicadamente omnipresente. «Uma história singularmente delicada», segundo Walter Benjamin, em que Jacob descreve os seus colegas, passeia pela cidade, observa o autoritário director e a sua irmã Lisa, penetrando no mistério das suas vidas, numa experiência, ao mesmo tempo, real e onírica que nos faz lembrar, precisamente, Kafka que provavelmente «teria sido ligeiramente diferente se não tivesse, ele próprio, lido Robert Walser», como escreveu Enrique Vila-Matas. «Um escritor verdadeiramente magnífico que nos parte o coração», segundo Susan Sontag, cuja obra desdobrada em quinze livros é «um estranho e fascinante espelho da vida». De uma vida que foi um percurso de incompreensão, de penúria, de dor, mas da qual nunca se queixa nos seus livros em que um niilismo aparente é atravessado por uma ingenuidade espontânea. «A singularidade de Robert Walser como escritor», escreveu Canetti, «consiste em nunca falar de motivações. É o mais oculto dos escritores. Está sempre bem, sempre encantado com tudo», cultivando a insignificância da qual, achava, poderia extrair algo «vivificante e purificador». Por isso entre os seus múltiplos empregos de subalterno, trabalhou como empregado bancário, escriturário, empregado numa livraria, operário numa fábrica de máquinas de costura e, finalmente, mordomo numa castelo na Silésia. Mas o seu único capital era a sua bonita caligrafia, minuciosa e precisa. Todas as noites, depois do trabalho, num pequeno quarto de pensão, Walser continuava a escrever. Em vez de ordens de compra, cartas comerciais ou registos contabilísticos, escrevia peças de teatro, poemas, contos, romances com uma micrografia que cada vez se aproximava mais da extinção. Uma escrita em que as palavras eram a corrente natural da sua imaginação, com paixão total, onírica. Às vezes, ocultava-se em Zurique, na sua «Câmara de Escrita para Desocupados», e aí sob a luz crepuscular de um candeeiro de petróleo deixava que a sua mão indecisa o conduzisse pelos territórios do lápis, cujo traço o empurrava lentamente para o desaparecimento, para o eclipse, mimetizando-se para não ser descoberto. Numa espécie de vagabundagem estilística, indecisa, associativa, feita de ligações imprevistas e ricochetes – «Caneta, se não me ajudas, não sei como avançar» -, Walser devolve a escrita à sua precariedade, enquanto ele próprio se vai consumindo escrevendo, «na sua busca de libertação da consciência de Deus, do pensamento, e de ele mesmo», como escreveu escreveu Vila-Matas, em Doutor Pasavento. À semelhança de Hölderlin que passou os últimos trinta anos da sua vida encerrado nas águas-furtadas do carpinteiro Zimmer, em Tübingen, praticando a ilegibilidade, também Walser se dá como desaparecido, passando os últimos vinte e oito anos da sua vida num «manicómio, o mosteiro da época moderna», primeiro em Waldau, depois em Herisau, escrevendo em tudo o que encontrava à mão – envelopes usados, cartões de visita, formulários oficiais, margens dos jornais, farrapos de papel – numa caligrafia microscópica, secreta, uma espécie de retratos de momento, esse género literário tão apreciado por Witold Gombrowicz, os 526 microgramas que só muitos anos depois haveriam de ser decifrados e publicados sob o mais walseriano dos títulos, Território do lápis.

Um anjo sobre Berlim

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«Dans le port d’Amsterdam / Y a des marins qui meurent/  Pleins de bière et de drames/ Aux premières lueurs/  Mais dans le port d’Amsterdam/  Y a des marins qui naissent/ Dans la chaleur épaisse/ Des langueurs océanes…», este o primeiro porto do território de nostalgia por onde errámos com Ute Lemper, no Sábado, em Faro, no Teatro das Figuras,  transfigurado durante hora e meia numa espécie de cabaret iluminado apenas por uma voz épica, cintilante, poderosa. Contos cantados em alemão, yiddish, inglês e francês que levaram o público «numa viagem no tempo e no mundo, pela minha vida em Berlim, Paris, Londres e Nova Iorque, sem esquecer as minhas dúvidas e medos», disse Ute Lemper na apresentação de Angels Over Berlim and The World, espectáculo baseado no novo álbum já gravado, mas que só teremos oportunidade de ouvir em Setembro.  Com uma singular noção de espectáculo, Ute Lemper evocou reportórios de um tempo que não sobreviveu ao século XX: Jacques Brel – «o belga mais francês que cantou os medos e as queixas do mundo», Jacques Prevert -, Edith Piaf, Léo Ferrée, Bertolt Brecht e Kurt Weil (Bilbao Song e Ópera dos Três Vinténs), Marleene Dietrich (Lilli Marleene e Lola), Van Morrison (Moondance), The Doors (Wiskey Bar) e também algumas canções em yiddish («quase como um dialecto do alemão, mas com muito mais paixão do que o alemão»)… e outras que compôs para cantar a consternação dos dias que correm, para olhar de frente este «mundo indecifável, pouco transparente» e, ainda, carregado de fantasmas. Por isso, no novo álbum haverá uma canção sobre Berlim, chamada Ghosts of Berlim, numa homenagem àqueles que tiveram de abandonar a Alemanha nazi e àqueles que ficaram para ser assassinados. Um espectáculo e um álbum «contra o lixo, contra os reality shows que estão a moldar uma geração inteira» afirmou Ute Lemper, atirando para um novo guetto o cabaret berlinense. Talvez não, pelo menos enquanto a voz de Ute Lemper não se calar.

Havana para um Infante defunto

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Há em Havana uma rua, a 23, que desce para o mar. Talvez, por isso, o troço final que desemboca no Malecón se chame La Rampa. Desci essa rua que mergulha no mar muito antes de alguma vez ter ido a Havana e de ter sentido o aroma achocolatado dos charutos cubanos. Subi-a e desci-a vezes sem conta em Três Tristes Tigres. E, depois, em Havana para um Infante Defunto, espécie de crónica pessoal de uma Havana pobre, carregada de sons, de intersecções. E, a partir daí, desde La Rampa, perdi-me na Havana dos anos cinquenta, no labirinto sonoro de rumbas e son, do rum Bacardi e dos charutos habanos. Uma Havana nocturna, insular, «com os seus cafés ao ar livre, cheios de novidade, e as suas inusitadas orquestras de mulheres que amenizavam os cafés do Paseo del Prado».

Quando alguns anos depois visitei a cidade, Havana já não era a Lost City do filme de Andy Garcia, baseado no romance Três Tristes Tigres. Ao descer La Rampa, e depois caminhar a pé ao longo do Malecón até ao Centro, num começo de uma noite quente de Verão tropical, amenizada por uma brisa refrescante vinda da vizinha corrente do Golfo, foi ainda a cidade nocturna fundada por Cabrera Infante que atravessei. Ali estava, pelo menos eu via-a assim, a mesma cidade reflectida na patine luminosa dos edifícios recuperados do Centro Histórico. Via-a, ainda, no contacto caloroso das pessoas, na sensualidade imediata dos corpos, no perfume adocicado dos charutos, na música omnipresente nos bares e cafés de Habana Vieja. Reencontrei-a, também, em algum imaginário e em alguma iconografia que moldaram a minha juventude. Paradoxalmente, Cabrera Infante já não veria, se ali estivesse, a mesma Havana que eu via, porque aqueles elementos dispersos que agora eu ia recuperando, pertenciam a uma certa mitografia de uma felicidade talvez mais sentida pelos estrangeiros do que pelos cubanos, à qual juntaria, depois, algumas imagens de uma decadência de charme.

Três Tristes Tigres, que Cabrera Infante começou a escrever ainda em Cuba, antes de se exilar, é uma homenagem a uma Havana sem tempo à qual ele não mais regressou, por culpa de um rancor quase irracional que marcou até ao final da sua vida a sua relação com o Estado cubano. Assim se compreenderá a amarga ironia que atravessa os seus livros. Trágica dissidência que o tornou ausente de uma cidade que foi sempre o centro festivo dos seus livros. E, talvez, nem ele nem Havana merecessem esse afastamento, pois cópias clandestinas de Três Tristes Tigres sempre circularam em Cuba, formando gerações de escritores, não obstante a opinião injusta e pouco amável de Cabrera Infante sobre os escritores que não abandonaram a ilha. A ausência preencheu-a Cabrera Infante regressando sempre aos mesmos temas com uma nostalgia feroz: a Havana dos anos quarenta e cinquenta, as mulheres, a música, o cinema.

O primeiro sinal de fumo de Cabrera Infante encontrei-o em Três Tristes Tigres: «O charuto […] aceso é outra fénix: quando parece apagado, morto, a vida do fogo surge entre as suas cinzas». Em Havana, quando fumei o meu primeiro charuto, no bar do Hotel Ambos Mundos, onde viveu Hemingway, juntando assim mais um elemento à tal mitografia da felicidade, ainda não tinha lido o que Cabrera Infante escrevera sobre o prazer de fumar: «Llamo felicidad a sentarme solo en el lobby de un viejo hotel después de una cena tardía, cuando se han apagado las luces de la entrada y solamente se distingue, desde mi cómoda butaca, al portero en su vigilia. Es entonces cuando fumo mi puro en paz, tranquilo en la oscuridad: lo que fue antaño una hoguera, transformado ahora en las ascuas civilizadas que relucen en la noche como el faro del alma».

Puro Humo conta a história da relação entre o cinema e o fumo. Porque para Cabrera Infante, sabemo-lo desde Havana para um Infante Defunto, os filmes são feitos de sonhos. Como os puros. Por isso, em Puro Humo viagja-se de Cuba para o cinema, reacendendo na memória do leitor-espectador um certo voyeurismo: um cigarro lânguido nos lábios de Marlene Dietrich, uma beata rude entre o indicador e o polegar de Bogart, o universo opaco de maldade nos clássicos negros como A Dama de Shanghai ou A Sede do Mal. Também outras páginas que exalam o mais puro fumo literário, com referências a Daniel Dafoe, Edgar Poe, Conrad, Stevenson, Dickens, Mallarmé, Lewis Carrol, Conan Doyle, Raymond Chandler, Hemingway, Jack London, Lorca, Lezama Lima… – e J. M. Barrie – autor, talvez, do mais belo título de todos os livros que fumam: My Lady Nicotine. Pura literatura, portanto, que se esfuma e perfuma como um puro fumado em Havana. Como «uma paixão consumida».

[Texto originalmente publicado pelo autor na revista Atlântica 2, aqui reproduzido, hoje, por um não fumador, no dia em que foi aprovada na AR a lei anti-tabaco].

A última passagem de Walter Benjamin

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Suprema ironia a de acordar, na madrugada, com o apito seco e cortante de um combóio que, afinal, partiria sem ele deixando-o com a sua solidão no cais de embarque. «O primeiro combóio para Lisboa», tinha-lhe recomendado a senhora Fittko quando se despediu dele, em França. Mas, mais uma vez as suas asas incertas de borboleta nocturna tinham falhado, incapazes de o levarem para fora daquele quarto de hotel, na pequena localidade de Port Bou. Na escuridão do quarto sem janela, um sopro de luz irrompe sob a porta, acordando nele a recordação da Vista de Delft, de Vermeer. «Nesse momento, era o seu próprio pequeno pedaço de muro amarelo que pestanejava no seu quarto … com a promessa de um descanso definitivo», como Bergotte, a personagem de Proust que depois de encontrar a luz palpitante no canto esquerdo do quadro exposto em Paris, teve uma epifania, a revelação de que aquela luz que continuava a brilhar há quatro séculos valia toda a sua obra de escritor. Como uma borboleta atraída pela luz, também Proust procurou a mesma mancha amarela. Seria a última vez que saiu de casa.

Agora era a vez de Walter Benjamin que filtrando a memória daquela luz vista por outros, «sem se deixar levar pelas asas incertas da mariposa», caminhava pelo cais do seu último embarque, escapando aos «rabos de ratazana da Europa». A mariposa de Schiller já não estava ali. Apenas um filósofo que descobrira o secreto esplendor que a sua solidão irredutível produziu nas trevas e a paixão de ter sido estrangeiro sempre e de não ter tido nunca nada, a não ser a mala preta pousada no chão ao lado da mesa de cabeceira, onde guardava os últimos «labirintos de tinta embebidos nos seus cadernos». Afinal, não chegara tarde a esta última fronteira onde já não lhe exigiriam nenhum salvo-conduto «e, com a mesma alegria de quem verifica que, apesar de todos os contratempos, não tinha chegado tarde ao encontro, soltou um suspiro de alívio e fechou pacificamente os olhos atrás dos  seus grossos óculos de míope».