Hotéis de passagem

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Todos hotéis são por natureza lugares transitórios. Alguns são hotéis de passe para amantes ocasionais. Outros são hotéis passagem para transeuntes nocturnos roçando abismos por cruzar. E outros há, ainda, que são protagonistas de histórias em que a realidade supera a ficção, como um tal hotel Cervantes, situado numa rua do centro de Montevideu que aparece em dois contos de Julio Cortázar e Adolfo Bioy Casares, e que serve de pretexto para a crónica que Vila-Matas me envia para publicação no próximo número da Atlântica.

Lembro-me de há cerca de três anos me ter escapado por um dia desde Colónia do Sacramento, onde acompanhava a minha mulher num seminário de história, até Montevideu, e de ter errado pelo centro à procura de um velho cinema que por ali havia numa rua arruinada nas imediações da despovoada Plaza Independencia – a Soriano, entre Convención e Andes – e de ter ladeado a fachada espectral, sombria, discreta, banal de um hotel perdido no meio de edifícios feios e de despojos depositados na calçada pela vizinhança, que ostentava um grande letreiro onde se podia ler o nome de Hotel Cervantes. Ignorava ainda o desejo de Vila-Matas de, transitoriamente, aí se hospedar um dia quando for a Montevideu e, sobretudo, o mistério de la puerta condenada do quarto 205, protagonista do conto homónimo de Cortázar e do outro escrito por Adolfo Bioy Casares, Un viaje ou El mago inmortal, que me chegam agora ligados pela misteriosa porta. Ou não fosse, afinal, para isso que servem as portas dos quartos de hotéis transitórios.

Se minimamente suspeitasse dos mistérios que se escondiam naquele segundo andar onde, parece, também Jorge Luís Borges se hospedou, uma noite, com a sua mãe, teria certamente cruzado o balcão da recepção e, quem sabe, subido ao quarto 205 e, noite adentro, escutado as vozes dos passageiros da noite que pernoitavam no quarto ao lado. Mas não. Distraído dos abismos que uma qualquer rua banal pode oferecer ao transeunte ocasional, passei pelo umbral do hotel sem entrar.

Procuro no google e confirmo que o hotel Cervantes ainda lá está e que, por isso, é de admitir que um dia possamos ler ainda um conto vilamatisiano em que se escutarão, seguramente, os gemidos de amantes ocasionais vindos do outro lado do misteriosa porta, ou não fosse Vila-Matas um coleccionador nato das existências alheias, sobretudo quando essas existências roçam um qualquer abismo que se abre numa noite de insónias no outro lado de um umbral obscuro, ao mesmo tempo que no piso de baixo ressoa uma milonga de Gardel, também ele, tantas vezes, um passageiro da noite montevidiana.

Nas minhas andanças através de uma cartografia pessoal onde se bifurcam livros, filmes e discos, tenho cruzado outros hotéis de passagem onde numa qualquer dobra da página, de faixa ou de fibra digital ousei subir a um qualquer quarto 205 e aí pernoitar, escutando, depois, noite adentro, o murmúrio de personagens desaparecidas por horas do mundo lá fora, talvez à procura, também elas, de uma qualquer porta de passagem camuflada atrás de um velho armário com espelho que dê para outras vidas. Lembro-me de alguns dos 342 motéis de estrada onde Nabokov (e depois Kubrick) faz pernoitar Lolita e o seu velho amante Humbert, cenários transitórios de cerimónias secretas e rituais privados oferecidos ao voyeurismo do leitor. E no armário onde guardo os velhos LPs e os recentes CDs e DVDs lá está ainda o Hotel California, dos Eagles, onde o viajante se deita sob «mirrors in the ceiling, pink champagne on ice»; e o Desert Song Hotel, onde Nicholas Cage se encerra para se embebedar até à morte, em Adeus Las Vegas; e o quarto de banho do Bates Motel, onde Hitchcock engendra o assassinato brutal de uma jovem secretária, em Psico. E em dobras de páginas, que de repente me vêm à memória, aquele hotel de Michigan que surge no conto de Borges, As metamorfoses de Shakespeare, onde um homem sem rosto oferece ao escritor argentino a memória de Shakespeare. E o Costa Verde Motel Tulán, de A noite da iguana, de Tennessee Williams, cenário de amores depressivos; o obscuro quarto de Los adioses, de Juan Carlos Onetti, onde tuberculosos se encontram para desdenhar da morte; a «pensão de má morte», em Budapeste, onde se hospedou o protagonista de O Mal de Montano, de Vila Matas; e os hotéis baratos de Ciudad Juárez, cenários dos crimes horrendos de 2666, de Roberto Bolaño.

E como a realidade supera quase sempre a ficção, também o hotel El Molino, em Buenos Aires, evocado por Laura Restrepo, numa recente edição de Babelia, onde a escritora colombiana recorda as noites clandestinas de sexta-feira ou sábado que aí passou, depois de esperar numa longa fila de casais muito jovens, de estudantes sem dinheiro, abraçados ou de mão dada, conversando em voz baixa como se estivessem numa bicha para o cinema, à espera de um quarto para desaparecer do mundo lá fora, por horas, suspendendo o tempo num território transitório no meio da obscuridade da ditadura. Conta Laura Restrepo que quis saber desse hotel transitório, se ainda lá estava na rua Salguero, e por isso, pediu a uma amiga que lá fosse. E resultou que sim, que ainda lá estva, embora também tenha sido vítima de um daqueles upgrades desconcertantes que procuram modernizar-nos as recordações.

E do lado de cá do mar, hotéis de passagem de escritores desesperados, atravessando como sombras os abismos deste mundo. O hotel Suède, na rue Vaneau, em Paris, e o hotel Troisi, em Nápoles, onde Pasavento procura dar-se como desaparecido, no romance de Vila-Matas. E outros hotéis parisienses já desaparecidos, vítimas de upgrades, de reconversões ou de demolições, como os hotéis habitados por Joseph Roth, cuja obra ando a ler: o Foyot, na rue Tournon, junto ao Jardin du Luxembourg, onde já tinha morado Rainer Maria Rilke, e que Roth abandonou quando os escombros da demolição já se amontoavam por detrás da porta condenada do seu quarto; o tétrico hotel Florida, no Boulevard Malesherbes; e o miserável hotel de la Poste. E o albergue Principautés Unies onde morou Hannah Arendt. E em Zurique, o hotel onde às vezes Robert Walser se ocultava num quarto a que chamava a Câmara de Escrita para Desocupados e aí, sob a luz crepuscular de um candeeiro de petróleo, deixava que a sua mão indecisa o conduzisse pelos territórios do lápis, cujo traço o empurrava lentamente para o desaparecimento, para o eclipse, mimetizando-se para não ser descoberto.

Mas talvez o mais absoluto hotel de passagem de que ouvi falar seja aquele em Port Bou, onde se abrigou Walter Benjamin em fuga para Lisboa, onde não chegaria nunca porque as suas asas incertas de borboleta nocturna falhariam no último momento, incapazes de o levarem para fora do pequeno quarto onde se hospedara na última etapa da sua fuga para Lisboa. Também aí havia uma porta condenada por cujas frestas adivinhava a lenta irrupção da manhã, que já não chegaria a tempo de iluminar a sua solidão irredutível de ter sido sempre estrangeiro em todos os hotéis de passagem da sua vida e de não ter tido nunca nada, a não ser a pasta preta pousada em cima da mesa de cabeceira, onde guardava os últimos «labirintos de tinta embebidos nos seus cadernos». E também aquele quarto, não de um hotel mas de um edifício de dois andares, em Kierling, Viena – outrora um sanatório –  derradeira passagem de Kafka.

E já agora o meu hotel pessoal de passagem, o Excelsior, na rua de Cujas, em Paris, onde havia também um quarto misteriosamente parecido com o do conto de Cortázar, com uma porta condenada tapada por um armário que deixava ouvir não os gemidos de amantes de passagem, mas o murmúrio de um casal de exilados chilenos que ali estavam também de passagem. Quando vou a Paris, subo sempre a rue de Cujas que liga o Boulevard Saint Michel à rue d´Ulm e, ao passar em frente da porta de entrada, espreito dissimuladamente para o hall onde se encontra o balcão da recepção, agora modernizado, depois de um upgrade remodelador que o dotou de um pequeno salão com amplas vitrinas que dão para a rua. Contudo, não se modernizam as recordações cegas da minha vida suspensa naquele pequeno hotel de abrigo para transeuntes sem pátria nem dinheiro. E recordo, então, o quarto, pequeno, no terceiro andar, com uma pequena janela de guilhotina que dava à esquerda para uma açoteia e para mais nada, porque se abria para um muro sobre o qual espreitava um inútil pedaço de céu quase sempre cinzento; havia uma pequena estante de madeira onde coleccionava livros que falavam de revoluções por fazer, um armário onde guardava parcos haveres, uma colcha escura de textura áspera sobre uma cama estreita onde deitava em noites de vigília a saudade, uma lâmpada florescente no tecto, uma cortina azul escura no cubículo de banho, uma chávena onde derramava água apenas tépida colorida pelas saquetas de chá verde. Com um golpe de google fico a saber que também o quarto foi vítima de um upgrade e a porta condenada substituída por uma parede de alvenaria que já não deixa escutar os murmúrios do quarto vizinho. E concluo, então, que aquele Excelsior que ali está já não é o mesmo onde transitoriamente me encerrei nas minhas paredes interiores, mas que nem por isso deixarei de continuar a olhar dissimuladamente através da sua porta sempre que suba a rue de Cujas.

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A região mais tenebrosa

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Olho o auto-retrato de Bruno Schulz e o que vejo é uma figura kafkiana, simultaneamente assustada e feliz , fugindo à claridade do dia para se refugiar nas «regiões do destino onde reina a solidão». Witold Gombrowicz descreveu-o como um «gnomo, minúsculo, com uma cabeça enorme, quase demasiado apavorado para ter coragem de existir, era um ser escorraçado da vida, um daqueles que desliza, furtivo, pelas margens». Alguém que se escondia nas sombras, fechado na prisão de loucos que era a sua casa, na «Praça do Mercado, «uma destas casas sombrias com fachada cega e vazia», em Drohobycz, nos confins da Galícia que ele descreve como uma «cidade dada a mergulhar na cinza crónica do crepúsculo, a enfeitar os seus contornos com uma lepra escura, um bolor felpudo, um musgo cor de ferro»

Aí nasceu, em 1892, e viveu, num estado de depressão profunda, entre «polacos ucranianos e judeus [como ele], lado a lado ou misturados, ou talvez nem uma coisa nem outra», até ser assassinado com uma bala na nuca pelos nazis, numa manhã fria de Novembro, em 1942. Mas nos seus contos, perturbadores e hipnóticos, reunidos em As Lojas de Canela [Assírio & Alvim, (1933), 1987] e em O Sanatório Debaixo da Clépsidra [1937], este território das trevas desaparece dando lugar ao fogo intenso da fantasia, a metamorfoses absolutas, a emanações coloridas por detrás das lojas nocturnas: «Nunca me há-de esquecer esta corrida luminosa na mais clara noite de um Inverno. O mapa colorido do firmamento transformara-se numa cúpula enorme onde se acumulavam continentes e oceanos fantásticos cortados pelas linhas dos turbilhões e das correntes estelares, riscos brilhantes da geografia celeste» [As Lojas de Canela, Assírio & Alvim, (1933), 1987, pág. 72]  

Mas havia, há outro Schulz, o da pintura, uma vocação anterior à escrita, habitante do um país mais tenebroso que aquele que atravessamos nos contos. «Ocupava os ócios a desenhar: numa paisagem de província, para lá da praça vazia do Município, um fiacre a trote levava mulheres nuas com meias e chapéus de palha; machos franzinos de cabeça imensa e olhos febris arrastavam-se aos pés de raparigas sentadas com indolência numa poltrona», conta um amigo, Arthur Sandauer, que uma vez lhe apareceu em casa. Eis o que pude ver na exposição do Círculo de Bellas Artes, em Madrid, onde se mostram meia centena de trabalhos dos duzentos que escaparam à devastação nazi. Uma sequência que abre com dois auto-retratos, espécie de umbral da sua paixão pela própria efígie que aflora em múltiplas composições. E que percorre toda a trajectória do artista desde a gestação das ilustrações de O Livro Idólatra, num ritual fetichista que sobreviverá nos seus contos. E, sempre, as «cortesãs apocalípticas», colegiais perversas, mulheres maduras, indiferentes e dominantes, nuas ou semi-nuas, de chicote, anões e velhos rastejando, gatinhando, fetichistas idolatrando-se, lambendo o próprio corpo, eis a tribo de párias que, em procissão ou solitariamente, habita a região obscura reflectida na sua obra plástica. Particularmente interessante é, ainda, o Encontro [numa ruela da sua cidade natal, um judeu cumprimentando cerimoniosamente duas tentadoras, provocadoras prostitutas], óleo sobre cartão, de 1920, único exemplo sobrevivente da sua pintura, exceptuando os dois fragmentários e deteriorados vestígios recuperados daquilo que foi o seu testamento plástico, o mural com cenas de contos que realizou para o quarto do filho do Hauptscharführer Félix Landau, membro da Gestapo e seu protector durante o aziago tempo emprestado que precedeu o seu assassinato.  Significativo é, também, o núcleo documental da exposição com as edições originais dos dois conjuntos de contos e das colaborações em revistas, assim como uma selecção da correspondência – donde se destaca uma carta trocada com Gombrowicz , fotografias de família e postais de Drohobycz. Num exemplar do Hebdomadário Ilustrado, de Varsóvia, que escapou à voragem destruidora do seu espólio literário  [sabe-se da existência de um romance, O Messias, que estaria quase pronto e que desapareceu], e numa carta dirida a Witkiewicz, outro escritor-pintor, Schulz explica a génese da sua obra plástica: «Ainda eu não sabia falar e já enchia quantos papéis encontrava, e as margens dos jornais, com garatujas que despertavam a atenção de quem vivia comigo. Comecei por fazer sempre carros atrelados. O percurso de uma viagem de fiacre parecia-me cheio de importância e simbologia oculta. Com seis, sete anos, nos meus desenhos aparecia sempre a imagem de um fiacre de capota abaixada e lanternas acesas, a sair de uma floresta nocturna».

E donde emana a filiação artística de Schulz? Para Mónica Poliwka, comissária da exposição, há dois círculos concêntricos na sua obra. Um que estabelece a confluência com a pintura polaca da época: Wojtkiewicz e Weiss e, logo, a coincidência geracional com Witkiewicz. E outro, mais amplo que remonta essa filiação até uma bem precisa deriva negra da arte europeia, onde encontramos a presença seminal de Goya e de Klinger e Grosz, como sombras tutelares.

[ao alto, reprodução de Dedykacja, auto-retrato de Schulz]

Rio Congo acima

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«Tudo me é antipático aqui» – escreve Jósep Teodor Konrad Korzenlowski numa carta enviada à sua tia Marguerite Paradowska, referindo-se à viagem que realizou em 1890, rio Congo acima até ao coração das trevas  – «os homens e as coisas, mas sobretudo os homens. Todos estes […] mercadores de marfim de instintos sórdidos. Lamento ter vindo aqui. Lamento-o mesmo amargamente». Dessa subida iniciática do rio que lhe deixaria no corpo um sopro maligno, mas que também mudaria a sua alma – «Navegando pelo rio Congo, deixei de ser um animal para converter-me num escritor» – , contará, mais tarde, Conrad,  pela boca do expedicionário Marlow, seu alter ego no romance Coração das trevas, que publicará em 1902, depois de se ter feito escritor, precisamente, por causa dessa assombrosa viagem ao coração do mal, que nos legou como uma crónica daquela perversão levada a cabo no Congo, entre 1890 e 1900, pelo rei genocida Leopoldo II da Bélgica, originando a morte de quinhentas mil vítimas anónimas que não figuram nos relatórios oficiais. Uma experiência real que, escreveu Conrad, supera a ficção «com o propósito perfeitamente legítimo, creio eu, de trazê-la às mentes e ao coração dos leitores» e dar a «este tema sombrio uma sinistra ressonância, uma tonalidade própria, uma contínua vibração que ficará, essa a intenção, suspensa no ar e permanecerá gravada no ouvido depois de ter soado a última nota». 

Por essa mesma altura, Roger de Casement, cônsul britânico em Boma, denunciava também a natureza e o volume desses crimes: «Quem viajar até ao curso superior do Congo e não tiver cegado de cobiça do dinheiro, verá desfilar diante dos seus olhos a agonia de um povo inteiro com todos os seus pormenores de rasgar o coração….». Denúncia que W. G. Sebald se encarregará de fazer ressoar nas páginas desse portentoso livro onde dá conta da consternação do mundo que é Os Anéis de Saturno, onde faz a contabilidade macabra desse reinado de terror: «Em muitas regiões do Congo, a população indígena foi totalmente dizimada pelo regime de trabalho forçado e os nativos que foram trazidos de outras partes de África ou de além-mar morreram em massa de disenteria, paludismo, varíola, beribéri, icterícia, fome, exaustão física e tuberculose».

 Esta a sinistra ressonância que ecoa no monólogo de Marlow que tem lugar num outro rio, o Tamisa, onde se pode pressentir «o lugar da cidade monstruosa, sinistramente marcado no céu, treva a germinar na luz do Sol, sinistro olhar debaixo das estrelas», como se aí residisse, ironicamente, a origem das trevas que o mundo civilizado derramou no coração de África «- E isto tudo, aqui [nas margens do Tamisa] – disse Marlow, de repente – foi um dos lugares selvagens do mundo», donde partiram «caçadores de ouro ou caçadores de glória», como Kurtz, o anjo exterminador que enlouquece absorvido pelos abismos da selva tropical, com um coração donde brota a mais primitiva crueldade, cujo drama se reflecte nas palavras pronunciadas pelo próprio antes de morrrer: «O horror! O horror!», e que constitui um dos gritos mais imponentes da literatura do século XX. Conta Marlow que, rio Congo acima, se vai arrastando o seu pequeno e decrépito vapor, numa atmosfera riscada pela morte e crueldade que ora se eleva da selva obscura, ora da rapacidade colonialista que ali se instalou para contaminar todos aqueles que atravessam a neblina cinzenta que esconde «a torrente deserta, um grande silêncio, a floresta impenetrável». Conta Marlow que o vapor vai percorrendo «um negro e incompreensível frémito», penetrando «mais e mais profundamente no coração das trevas», através de «intermináveis milhas de silêncio – que o arrastavam em direcção a Kurtz», com uma «inexplicável sensação de dor desesperada do clamor selvagem que [os] atingia da margem, atrás da cega brancura daquelas névoas». 

A existência humana tomada como navegação encoberta, rio acima, capaz de naufragar a qualquer instante nas correntes súbitas do mal civilizacional, provocando uma hecatombe de cadáveres negros amontoados na história. O monólogo de Marlow, então, como uma relato em que o sombrio está tanto na orla do desconhecido como na alma dos que como «flibusteiros reles [apenas] querem arrancar tesouros às entranhas da terra» e se perdem na espessura do coração da trevas. Mas um coração que, embora remeta para um lugar geográfico e físico, o Congo, ou o continente negro que no mapa tem a forma de um coração gigante, constitui no romance de Conrad a metáfora das trevas que transportamos dentro de nós e que podemos derramar à nossa volta a qualquer momento sucumbindo ao «fascínio do abominável». Não sucumbiu Conrad a esse terrível fascínio, regressando da obscura corrente com a rapidez do coração das trevas, rio abaixo, à velocidade dupla da subida, numa espécie de refluxo do seu coração no mar inexorável do tempo, fazendo-se, depois, escritor na «cidade sepulcral», para que a contínua vibração da sua experiência permaneça gravada no ouvido depois de ter soado a última nota como um libelo desconstrucionista de um dos males do século passado, o colonialismo brutal cuja denuncia este livro actualiza, sempre que escutarmos Marlow.

Ontem voltei a adentrar-me no coração das trevas, para encontrar Kurtz, essa figura fantasmática que antecipa outras de Kafka ou de Beckett. Em duas horas de leitura subi e desci, rapidamente, o rio da infâmia colonial e na dobra da última página deste monólogo de assombrosa modernidade, deixei para trás definitivamente «caminho das águas, que leva aos confins da terra, corria escuro sob um céu sombrio – dir-se-ia que a levar-nos ao coração de infinitas trevas», as mesmas que foram pintadas da cor do sangue, no inquietante filme de Francis Ford Coppola, Apocalipse Now, inspirado na segunda parte do livro de Conrad que Agustina Bessa Luís elegeu como o livro da sua vida.

Por estes dias em que se evocam os cento e cinquenta anos do nascimento do escritor, em  1857, em Berdichev, uma pequena cidade polaca que integra hoje a Ucrânia – e se meteu, órfão, adolescente e marinheiro, num barco francês explorando os mares e, mais tarde, aos 23 anos, se fixar em Inglaterra e na sua marinha e atravessar águas exóticas -, reler talvez Lord Jim, esse romance marítimo que trata de outras iniquidades humanas.

Bolaño no seu labirinto

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Às vezes tenho a sensação de que a invenção de Morel, de Bioy Casares, continua funcionando nalguma dobra recôndita do mapa bolañiano onde a realidade e a ficção se bifurcam. E que Ulises Lima perdido, sem mapa, em Cauquenes, segue no encalço de Arturo Belano… e que um e outro são, afinal, o fantasma de Mário Santiago e o alter ego de Bolaño que já cá não estão, porque foram, talvez, reunir-se com Cesárea Tinajero nos desertos de Sonora, continuando a epopeia realista visceral de Los detectives salvajes… e que eu -, que descobri Roberto Bolaño no avião que que me levou recentemente ao Chile e o procurei, primeiro, em Santiago, como um detective salvaje, seguindo as indicações de Vila-Matas, «na rua Banderas, esquina Ahumada», onde o escritor catalão disse que lhe pareceu «tê-lo visto observando esse mendigo que ali está sempre e se diz neto de Léon Tolstoi», e depois nas suas palavras testamentárias, reunidas em pequenos ensaios, apontamentos, entrevistas que trouxe na minha mala de viagem, – me vou transformando num expedicionário do mapa bolañiano me foi estendido por Vila-Matas. São livros póstumos, El secreto del mal, La Universidad desconocida, Entre paréntesis, Bolaño por el mismo, que me chegam, não por acaso, porque, diz Bolaño, «a la literatura nunca se llega por azar. Nunca, nunca. Que te quede bien claro. Es, digamos, el destino, ¿sí? Un destino oscuro, una serie de circunstancias que te hacen escoger. Y tú siempre has sabido que ese es tu camino». 

Um destino obscuro de leitura, eis para onde me conduzem os caminhos bifurcados desta estranha cartografia literária que, a avaliar pelo que circula na net, no Youtube, na blogosfera, em sites sobre o autor chileno (ou mexicano?), vem secundado por um efeito Bolaño que vai transformando os leitores ocasionais em seguidores fiéis de uma obra tragicamente inconclusa, fragmentária, testamentária –  a cujos segredos vão acedendo postumamente, como se escutassem na caixa negra de um avião acidentado uma voz derradeira atravessando com inteireza as turbulências da viagem final. Vão em busca, talvez, de um Bolaño que não existiu, mas cuja existência seria ironicamente refundada após a sua morte prematura, aos 50 anos, num hospital de Barcelona, através de um processo de reconstrução de uma biografia que começa a roçar a lenda, como diz Enrique Vila-Matas. Não tanto aquela lenda, duradoura, que durante o frenesi monástico dos últimos anos de vida o próprio Bolaño foi tenazmente escrevendo contra a morte, e para a qual o próprio sentido etimológico da palavra lenda remete ao significar o que deve ser lido. Mas a outra, seguramente efémera, forjada na propensão mitómana dos meios literários, somada ainda à propensão hiprócrita de falar bem dos que já não estão e que, por isso, não incomodam.

E quanto a isso não restam dúvidas, pois sucedem-se por todo o lado as reedições dos seus livros que conquistam, sobretudo, uma juventude leitora que se revê na errância desesperada das suas personagens, através dos abismos de um tempo em desagregação, cujo umbral atravessamos através de uma estranha efabulação simultaneamente realista e lírica, fundadora de um estilo que já conquistou um nome próprio, o de modernismo visceral. Sobretudo quando esse umbral dá para o quotidiano nocturno das ruas do México DF em cujo mapa nos adentramos em Los detectives salvajes e nesse tremendo romance – estruturado em cinco partes que constituem uma pentalogia – de mais de mil páginas que é 2666 e que parece responder definitivamente à questão levantada por Julio Cortázar no conto Apocalipsis en Solentiname relativamente ao devir da literatura latino-americana: continuar a explorar o filão do realismo mágico, transmitindo uma visão ingénua, etnográfica da realidade, ou testemunhar o horror de um continente, de um mundo, resvalando para o abismo?

Bolaño escolheu a segunda possibilidade, rompendo, como afirma Vila-Matas, «com a literatura latino-americana dos galos da Amazónia e das virgens em levitação», preferindo explorar o imaginário apocalíptico da América Latina, dos anos setenta, em Estrella distante, em Nocturno de Chile – considerado por Susan Sontag, à data da sua publicação, como «o mais autêntico e singular romance contemporâneo destinado a ocupar um lugar permanente na literatura mundial» -, e nos contos mercenários de Llamadas telefónicas, antes de empreender a viagem sem retorno através dos territórios assombrosos de Los detectives salvajes ou de ser arrastado para o último abismo, 2666, espécie de buraco negro do crime múltiplo sem solução cuja cratera se situa em Ciudad Juárez e que nos legou não para nos confortar, mas nos confrontar com os maelstroms do mundo que nos arrastam para o mal.

«Cuidado, tudo é perigoso, mas não igualmente ao mesmo tempo», eis a frase de Foucault que poderia resumir os livros de Bolaño, espécie de poeta desesperado, traficante ocasional em busca absoluta da origem do mal, e por ele irremediavelmente «condenado desde el principio», porque sabe que en el fondo a felicidad es inexistente, mas que, como Borges, não desiste de  procurar no labirinto de palavras embebidas na tinta obscura dos seus livros, única forma de atravessar o mal do mundo como testemunha de um tempo em desagregação e, depois, ir-se embora do mundo, em silêncio, deixando-nos a todos um pouco mais à mercê dos labirintos reais, lá fora, no mundo.

[Em Portugal, onde ainda não chegou o efeito Bolaño, existem, tanto quanto julgo saber, apenas dois livros editados: Nocturno de Chile (Gótica) e Estrela distante (Teorema).

Diário chileno (X). Voo nocturno

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1. Viagem ao fim da noite. Junto à porta de embarque número 60 do aeroporto Toribio Merino, em Santiago do Chile, vejo passar em formação cerrada a tripulação do voo Suiss 97 que daqui a pouco se fará aos céus por cima da cordilheira branca. Com passada rápida e decidida, cruzam o umbral que leva ao grande pássaro metálico que descansa na pista, ignorando os passageiros, quietos e silenciosos, que esperam o embarque. E neste derradeiro território a roçar os abismos duvidosos por vir, inspecciono à minha volta aqueles que comigo sobrevoarão, a doze mil metros de altura, montanhas crepusculares, cidades invisíveis, mares nocturnos. Alguns conversam em alemão, outros em castelhano, muitos em português do Brasil, porque o avião fará escala em São Paulo. Ninguém ousa falar do tributo inconfessável que, às vezes, é pedido a quem ousa desafiar os céus. Nem ninguém estaria disposto a pagá-lo. Eu não. Por isso, entre os passageiros suspensos no espelho deste aeroporto austral, procuro aquela criança que viaja sempre comigo em todos os aviões que cruzam os altos mapas em que me adentro e quando a encontro sei, então, que o avião que me aguarda do outro lado do espelho não cairá.

Subo para aquela espécie de cápsula intercontinental que, veloz, roncando, atravessa obliquamente as nuvens até estabilizar nos céus deixando para trás a cidade nervosa. Comunicam que devemos manter os cintos apertados. Turbulências nos Andes. Estremecimentos. Voamos. Não sei como fazem para manter toda esta massa no ar. Seguramente é aquela criança que no seu sonho colorido vai sustendo as enormes asas metálicas que nem precisam de bater para avançar na insustentável leveza do caminho que o avião vai desenhando atrás de si. Regresso do Chile, de outro continente, de outro hemisfério sobrevoando a cordilheira branca ao segundo entardecer. Nos corredores laterais passam hospedeiras suíças empurrando carrinhos com refeições empacotadas, perguntando o que desejamos beber com reiterados sorrisos plásticos. A noite real, lá fora, envolve o avião. E cá dentro apagam-se as luzes. Há passageiros que lêem e se eu fosse Vila-Matas, levantar-me-ia e, dissimuladamente, como um voyeur aéreo, atravessaria, agora, de ponta a ponta, a penumbra do corredor e, sob a luz oblíqua que desce do tecto nalguns assentos, num acto do mais puro voyeurismo, procuraria saber o que lêem estes passageiros da noite. 

Mas não me atrevo a tanto e abro Los detectives salvajes, de Bolaño. Vou na página duzentas e noventa, faltam, portanto, trezentas e dezasseis páginas que devem chegar aguentar as três horas de viagem até São Paulo, mais as doze, depois, até Zurique, mais quase três até Lisboa. Vou no rasto de Cesárea Tinajero, a misteriosa escritora desaparecida no México após a Revolución, e as dezoito horas de voo correspondem ao tempo canónico da busca errante que retomo nesta cápsula voadora que vai rasgando a penumbra rumo ao norte. Leio furiosamente este tremendo romance infra-realista na companhia dos poetas desesperados e traficantes ocasionais que Bolaño me vai apresentando, bifurcando-me através das ruas selvagens do México DF, do «espacio oscuro que es la ciudad de Managua […], una ciudad que sólo conocen sus carteros», das ramblas nervosas de Barcelona, mendigando em Tel-Aviv, escapulindo-se da morte em Monróvia…

Há passageiros adormecidos, alguns com pesadelos recorrentes a preto e branco. Eu não. Iluminado pela minha lâmpada pessoal, numa dobra da página, adormeço por momentos e tenho «sueños, no pesadillas, sueños musicales, sueños de preguntas transparentes, sueños de aviones esbeltos y seguros que cruzaban Latinoamerica de punta a punta por brillante y frío cielo azul». Indiferente aos sonhos e aos pesadelos alheios dos restantes passageiros e ao meu thriller bolañiano, a jovem engenheira chilena sentada ao meu lado que vai para Barcelona à procura de trabalho prefere o zapping pelos programas oferecidos pelo vídeo do avião. Lá fora, as turbinas ferem já um céu de muitos azuis verticais sobre o primeiro amanhecer de uma Lisboa que o avião ignora. Antes, ainda, a montanha mágica, bifurcação estranha antes experimentada por Montano, a personagem que Vila-Matas encontrou no Chile e que «después, directamente desde la orilla del batallador Pacífico, viajó con él a la cumbre de una montaña suiza». Este também o destino incerto para onde me vão conduzindo as asas metálicas deste avião, agora menos perdido, menos adormecido, atento já ao lento mover de asas do outro avião que, daqui a pouco, me há-de levar para Lisboa.

2. Cidades invisíveis. Regresso de Santiago do Chile aonde fui convidado para participar no Encuentro Internacional de Escritores. Foi a primeira vez que fui ao Chile. Antes já tinha estado noutros países da América Latina. Nunca no Chile. Queria ir ao sul profundo, mas os dias não chegaram. Fiquei-me por Santiago, confusa, nervosa, híbrida, às vezes secreta, invisível. E escapei-me para Valparaíso, luminosa, nostálgica, arruinada, caótica. Santiago estava igual à cidade anterior que Bolaño deixou para trás – disse-me -apesar de «los nuevos edificios, las nuevas avenidas que no significan nada», […] aún se comen empanadas chilenas y uno puede ir a saborear al Nacional o al Rápido. Aún se comen barros-luco o barros-jarpa o charcareros». Mas Bolaño, que se foi tornando num mexicano salvaje, já cá não está e se estivesse, depois do que vi e ouvi na Villa Grimaldi, dir-lhe-ia que se equivocara, pois o mal já não anda à solta em Santiago, o umbral do medo foi encerrado e a chave atirada para o fundo de um abismo. E isso significa tudo. Ou quase tudo.

3. Chilenos que pareciam chilenos. Mas onde viu Carlos Fuentes «as mulheres formosas de olhar cor de uva» que eu não as encontrei nem em Ahumada, nem em Lastarria, nem em Bellavista? Nem nos cerros porteños, ao entardecer? Apenas vi rostos de chilenos que pareciam chilenos cruzando as ruas nervosas de Santiago, chilenos entrando e saindo das lojas da moda nas ruas Moneda, Huerfanos, Merced, chilenos deambulando na Plaza de Armas, chilenos bebendo  pacificamente pisco sour na Plaza Mulato Gil de Castro, chilenos em amplexos amorosos cerro de Santa Lucia acima, chilenos rindo nas esplanadas de Bellavista, chilenos observando os livros caros na Feria del Libro, chilenos subindo o funicular do cerro San Cristóbal num domingo à tarde azul, chilenos perdendo-se nos labirintos subterrâneos do metro de Santiago, chilenos quietos e silenciosos em salas de espera de estações rodoviárias, chilenos partindo em autocarros lotados para viagens longitudinais, chilenos circulando em automóveis japoneses na Avenida O´Higgins, chilenos fardados de carabineros, de colegiais, de bombeiros, chilenos apregoando mariscos e peixes estranhos nos mercados, chilenos com feições tristes de índios mapuche, chilenos festejando a vitória do Universidad de Santiago no último jogo do campeonato nacional, chilenos nem demasiadamente tristes nem demasiadamente alegres, chilenos, às vezes, melancólicos, outras vezes arrogantes, chilenos que querem ser europeus e não latino-americanos, chilenos demasiadamente parecidos com portugueses. Chilenos num país passillo, «al este limitado con la cordillera de los Andes, al norte con el desierto de Atacama, al sur con la Antártida y al oeste con el oceáno Pacífico […] chilenos mirando perplexos hacia los cuatro puntos cardinales».

4. Escritores chilenos. Não digo que não fossem escritores toda a chusma que se reuniu no dia da inauguração do Encuentro Internacional de Escritores, no Museu de Bellas Artes. Mas que não estavam ali para transgredir, isso soube-o logo mal começaram a dedicar-se mutuamente os seus livros, porque, talvez para eles – leio em Bolaño – o «ejercicio más usual de la escritura es una forma de escalar posiciones en la pirámide social […] y no reniegan de lo que se puede renegar y se cuidan mucho de no crearse enemigos o de escoger a éstos entre los más inermes. No se suicidan por una idea sino por locura o rabia».

E o mesmo observo na Feria del Libro de Santiago, na Estación Mapoche. Deambulo pela feira, vasculhando nos expositores as novidades chilenas, buscando entre a rasura existencial ali amontoada, algum rasgo capaz de dar conta, ainda, da consternação do mundo. E constato que também no Chile, há um efeito Bolaño. Ali, na Anagrama, encontram-se preferencialmente expostos todos os bolaños que os leitores vão folheando, como se, postumamente, também para ele, las puertas, implacablemente, se le [abrieran] de par en par.

5. «E outra vez te revejo – Lisboa e Tejo e tudo / cidade pavorosamente perdida, outra vez te sonho aqui», diria Álvaro de Campos se agora se fizesse comigo a terra neste avião que não cobrou tributo. Não a Lisboa obscura, «con gente vestida de negro, con casas hechas de caoba o de mármol negro o de piedra negra», imaginada num sonho febril por Bolaño, mas a Lisboa que acrescenta «azul de muitas cores / ao outro azul que os vossos olhos vêem», como viu Pedro Tamen.

Diário chileno (IX). Crónica porteña

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É no porto onde acostam embarcações adormecidas, sobrevoadas por bandos esfomeados de gaivotas e pelicanos, que se deve procurar o carácter porteño de Valparaíso onde marinheiros de todas as épocas viram a sua imagem abandonada no espelho quebrado da baía que reflecte o anfiteatro de casario colorido descendo num dédalo de ruelas, becos e escadarias ziguezagueantes os quarenta e dois cerros «secretos, sinuosos, recoderos», sobranceiros ao Pacífico. Mas é nos cerros, sob o azul-lavanda de um céu cristalino, ou encobertos nas sombras do segundo crepúsculo, que sobrevive, ainda, a sua verdadeira alma. Talvez, por isso, aquilo que melhor define ainda hoje Valparaíso é a convivência entre a luminosidade diurna que cobre o casario desalinhado e a obscuridade nocturna dos seus becos de pesadelo onde marinheiros de passos incertos, às vezes, ainda se perdem.

Como um funâmbulo, persigo os passos desses marinheiros que, desertando por uma noite dos navios baleeiros, depois de terem sobrevivido à travessia do Cabo Horn, aqui vinham naufragar, escadarias acima, nos cerros, em tempestuosos leitos. E dos outros que, rumando à Califórnia em busca de ouro, aqui ficariam para sempre, paralizados pelo canto das sereias numa qualquer pista de tango perdida na dobra secreta das suas ruas e praças irrigadas pelo sopro salgado do mar.  No Paseo Veintiuno de Mayo, donde antes habia grandes carnavales, subo ao assalto das colinas por um dos quinze funiculares ainda em actividade, o Artilleria, de 1893, verdadeira peça de museu habitado pela nostalgia de um tempo em que Valparaíso conheceu a prosperidade, antes de se transformar, primeiro, num porto fantasma, arruinado pelas novas rotas de navegação após a construção do canal do Panamá e, depois, na selva de contentores nervosos que observarei desde o mirador Diego Portales. Primero, cruzo um obscuro corredor e passo pelo torno de bronze que contabiliza os passageiros que sobem; entro num velho carro de madeira que depois de um súbito solavanco começa a subir guinchando, deslizando sobre carris oleados, puxado por roldanas e correntes; e, uma vez em cima,  recebe-me «un hombre palido, um misterioso angel de sombra». E no mirador Diego Portales é a cidade inteira que resplandece debruçada sobre o Pacífico através de um labirinto de ruelas com velhas casas desequilibradas, imbricadas umas nas outras, amparando-se mutuamente, enlouquecidas. E a mesma baía que viu Gabriela Mistral: «Bahia mayor de Valparaiso! Anda en novelas y poemas ingleses y noruegos. Quien navega la conoce y la cuenta al contar sus mares».

Desço pela Escalera de la Muerte até à rua Prat, onde Jorge Luis Borges se assomou, em 1977, depois da apresentação de um livro de Maria Luisa Bombal, e sigo, depois, pela rua Esmeralda, onde ainda sobrevive o velho letreiro do Café Vienés já desaparecido, frequentado nos tempos luminosos de Valparaíso pelas senhoras do cerro Alegre que ali vinham ouvir valsas interpretadas por uma orquestra vivo. Por breves instantes, consigo imaginar o esplendor perdido de um tempo efémero em que, a seguir a São Francisco, Valparaíso era a principal cidade do Pacífico, quando as suas lojas exibiam as novidades europeias e os seus teatros as mesmas peças da moda que faziam o gáudio dos espectadores em Paris e Londres. E já na Plaza Anibal Pinto, em frente da fonte de Neptuno, entro no Café Riquet para comer o famoso manjar con nueces, servido por velhos empregados que parecem saídos de um tempo que já não existe.

E novamente um funicular, o mesmo em que o alfandegário Rubén Darío subiu, em 1888, para no cerro Concepción contemplar «ondeantes cortinas de enredadera» e assomar por janelas de guilhotina, como escreveu em Azul, e perder-se depois por escadarias que não conduzem a parte nenhuma. E ao entardecer, perco-me em  deambulações pelo cerro Alegre: Pasaje Cambridge, subida Templeton, paseo Atkinson e, sobretudo, paseo Loti, território mágico que evoca o escritor francês que por aqui também errou. E depois de um carmenere crepuscular fico na pensão Carrasco, em Concepción, sonhando breves sonhos a preto e branco que antecipam o dia por vir. 

Sigo os passos de Neruda que no cerro Bellavista mandou erigir uma das suas residências na terra, vou depois por Florida e por Mariposa, cruzo recantos surgidos do nada, casas penduradas no vazio, umbrais escuros cujo limiar não ouso atravessar, descendo «escaleras [que] parten […] de arriba y se retuercen trepando. Se adelgazan como cabellos, dan un ligero reposo, se tornan verticales. Se marean. Se precipitan. Se alargan. Retroceden. No terminan jamás», povoadas de bares, onde ao som de uma milonga qualquer se servem bebidas centenárias a bebedores sonolentos».

E, de novo na baixa ruidosa, confusa, caótica, agora como um detective salvaje – única maneira de avançar incólume na manhã apocalíptica que se estende ao longo da nervosa avenida Pedro Montt, enxameada por um povo de vendedores ambulantes e cães errando nos passeios – apanho o último trolley que me levará ao terminal de autocarros para Santiago.

Diário chileno (VIII). A cultura na cidade

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1. A julgar pelo que não se lê no metro de Santiago, pode inferir-se que por aqui se lê pouco. E que os livros são caros, porque na maioria importados – Anagrama, Alfaguara, Ediciones B, Seix Barral. Resta, então, a quem precisa de livros para viver, comprá-los em livrarias de saldos ou de usados que encontro no centro. O que não encontro é a minha livraria artúrica, pois todas me parecem indistintas, e as da rede Feria Chilena de Libro ainda mais. Talvez uma pequena livraria, Metales Pesados, quase no final da rua Merced, perto do Museu de Bellas Artes, onde finalmente compro a Rayuela de Cortázar, sem ser em edição de bolso, e converso com o livreiro sobre o efeito Bolaño.

2. Vou à inauguração do Encuentro Internacional de Escritores que me trouxe aqui e deparo-me com muita vanidade e presunção. A literatura, ali, não como ficção mas como falsa sociabilidade. Escritores chilenos dedicando-se mutuamente os seus livros, trocando laudatórias palavras de circunstância. E evoco Ulisses Lima, o detective selvaje de Bolaño que se evaporou da comitiva de escritores mexicanos de visita à Nicarágua para se perder no «espacio oscuro que era a cidade de Manágua […] que sólo conocen sus carteros». Mas Santiago não é Manágua e não corro o risco de me perder. Por isso, logo que posso, escapo-me dali, fugindo daquela chusma de escritores que se desejam comentados, premiados, homenageados, becados. E recordo as palavras de Nicanor Parra a propósito dos escritores chilenos: “tal vez sería conveniente leer un poco más. E vou pela noite santiaguina jantar tranquilamente na rua Lastarria.

3. Passou-se melhor o debate em que participei, no Encuentro, sobretudo porque a chusma estava noutro local, talvez dando entrevistas a jornais da moda. Falei da literatura rasurada que, sob a hegemonia do mercado, se vende por aí. Mas também das linhas de fuga possíveis para uma outra literatura que pode ainda expressar a consternação do mundo.

4. Como costumo sentar-me só nos restaurantes santiaguinos – Bolaño nem sempre está comigo –  gosto de observar as mesas à minha volta e, às vezes, escutar as conversas. Há um grupo de brasileiros pretensiosos que falam de compras, um casal colombiano que fala, depois, com os brasileiros de auto-estrada que uma empresa brasileira está construindo na Colômbia, chilenos que se referem a uma seita maradoniana que faz casamentos. Mas, na mesa mesmo ao lado, há um chileno distinto que, a pretexto do suplemento literário do El País que vou folheando para me alhear daquela América que ali está, me incita a ler o livro de Jonathan Littel, Las Benevolas, que faz a capa de Babelia. Trata-se de Camilo Marks que tem uma coluna de crítica de livros no suplemento cultural do El Mercurio, e que me diz que “en Chile, hoy, no hay narradores, solo poetas y que nadie lee.

5. No Centro Cultural Matucana 100, visito a exposição El Manifiesto de Santiago que propõe «una mensaje desde la periferia hasta el centro». Saio sem perceber qual era a mensagem. No Museu de Bellas Artes elejo a exposição de Gracia Barros sobre el dolor y la perdida. Figurações de mulheres desaparecidas em Villa Grimaldi: se llas llevaran vivas y llevavan vida. Da colecção permanente do museu, retenho Roberto Matta. Vejo, depois, La Remolienda, numa encenação do Teatro Nacional Chileno, dirigido por Raul Osorio e antes por Victor Jara. Um gozo iluminado.