Diário chileno (V). Entardecer nervoso

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Todas as cidades têm o seu aleph, isto é, um lugar secreto capaz de albergar todas as representações que fomos construindo sobre cada uma delas. Em Santiago, procuro-o ao entardecer nervoso, desde a Plaza de Armas, ocupada por pintores que reivindincam aquele espaço para expor o seu trabalho, jogadores de xadrez e damas, desempregados e passeantes fortuitos como eu. Sigo por Ahumada onde, encostados a anónimos edifícios novos, sobrevivem restos da velha cidade fundada por Pedro de Valdivia, em 1541. Atravesso várias ruas pedonais, Huerfanos, Monjitas, Santo Domingo, depois pelo barrio Paris-Londres, espécie de mosaico sereno de estilos variados, neo-clássico, gótico e mourisco, povoado de pequenos hotéis elegantes para amantes secretos, e depois pela Merced até à livraria Metales Pesados onde compro um Bolaño, Entre parénteses, que me acompanha agora pela rua Lastarria. Ali está, ainda, o Biógrafo, célebre cinema e cafetaria de culto para onde confluem jovens cineastas, actrizes da moda, punks, yuppies, numa invulgar justaposição de estilos de vida nem sempre coincidentes.  E já naPlaza Mulato Gil de Castro, enquadrada por antiquários, alfarrabistas e galerias de arte, cafés e esplanadas, onde, dizem-me, nasceu em boa medida a nova literatura chilena, entre rodadas de pisco sour bebido aqui com um rigor profissional, disponho a escrever este diário. Adentro-me a seguir por um labirinto de ruelas secretas, ladeadas de pequenas habitações de cores vivas a que o crespúsculo confere múltiplas tonalidades. Estou em Santiago e ainda não encontrei o seu aleph.

Diário chileno (IV). Santiago do Chile

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Chego a Santiago do Chile 26 horas depois de ter saído de casa. A combi que me transporta desde o aeroporto Toribio Merino acompanhando a corrente poluída do rio Mapoche, atravessa agora uma cidade radiante, com incandescentes torres de vidro pós-modernas e gigantescos centros comerciais coabitando com veneráveis habitações coloniais, alguns edifícios Art Deco e outros sem estilo nenhum, numa acumulação espalhafatosa de formas que compoem o mixt arquitectónico de Santiago do Chile. A interminável Alameda Bernardo O’Higgins, enquadrada pela cordilheira nevada, abre-se diante dos meus olhos como uma corrente de luz, vinda da histórica Estação Central, construída pelo mesmo Gustavo Eiffel que fez a torre de Paris. Na calçada, burocratas apressados de fato e gravata, grupos de jovens estudantes uniformizados, carabineros, compoem um quadro aparentemente conservador, militarizado, que parece constituir a imagem de Santiago. À direita, ergue-se o Cerro de Santa Lúcia, “tão culpado de noite, tão inocente de dia”, como escreveu o poeta Nicolás Guillén e onde o fundador de Santiago, Pedro de Valdivia, sediou em 1541, o seu acampamento. Na esquina Ahumada vislumbro uma cidade mercantil, confusa, uma corrente humana cruzando-se indiferente. E de repente, surge o Palácio de La Moneda, e recordo Salvador Allende, ali assassinado em 11 de Setembro de 1973 pelos militares golpistas, seguindo-se 16 anos de chumbo. Depois de deixar por ali os últimos passageiros que comigo vieram do aeroporto, retornamos ainda pela Alameda, e já na Providência, adentrando-nos numa Santiago de casas térreas, rectilínea, arborizada, provinciana, até ao bairro de Ñuñoa onde Daniel Barraco me espera.

Diário chileno (III). Fazer a mala com Bolaño

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E que levar na mala? Roupas frescas, porque agora começa o Verão austral; também uns agasalhos porque, à noite, a sopra uma aragem fresca  vinda da cordilheira, adverte-me o Daniel Barraco. Algumas prendas, claro. Marisa ao vivo em Lisboa, a incontornável garrafa de Porto e um queijo e estrelas de figo que comprei hoje no mercado. Pequenos sabores de um tempo em desagregação. Câmara fotográfica, telefone, cartões de crédito. Um moleskine para ir corrigindo o plano de evasão. E para ler durante a viagem? Tinha pensado no livro de Joseph Roth, Fuga sem fim, o mesmo que Pasavento levou na sua mala vermelha quando viajou de Madrid para Sevilha; mas é muito curto para as longas horas de viagem que me esperam amanhã.  E depois, o meu plano de evasão tem regresso. Fazia-me jeito um livro escrito em castelhano, para assim mergulhar na língua que vou usar durante mais de uma semana. De um escritor chileno, preferencialmente. Será, então, Los Detectives Salvajes, de Roberto Bolaño, que comprei há dias em Madrid, e cujas extravagantes 609 páginas chegarão seguramente para aguentar as 16 horas de avião desde Zurique até Santiago do Chile, mais as três de Lisboa a Zurique, e regresso.

E porquê Bolaño? Porque depois dos abismos de Vila-Matas que acabo de explorar, este livro é um precipício azul que abre para a nova literatura latino-americana depois do boom do realismo mágico, contrariado pela Rayuela, de Cortázar, de que este romance é, ironicamente, o mais perfeito «contrário». E porque Los Detectives Salvajes é, escreve Vila-Matas, «uma brecha que abre para o mundo infernal de uma geração agrilhoada», a nossa. E porque Bolaño, que já cá não está, ocupa agora a minha «biblioteca do quarto escuro», ao lado de Bioy Casares, um autor do seu universo literário, também aqui hoje chamado para a elaboração deste plano de evasão. E porque quando estiver em Santiago do Chile, irei eu próprio, como um detective selvagem, procurá-lo «na rua Banderas, esquina Ahumada» onde Vila-Matas diz que «parece tê-lo visto observando esse mendigo que ali está sempre e se diz neto de Léon Tolstoi», embora isso seja inverosímil porque àquela data já Bolaño teria ido «embora deste mundo em silêncio».

Diário chileno (II). Plano de evasão

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«Perder-se numa cidade, tal como é possível acontecer num bosque requer instrução», diz Walter Benjamin. Por isso, quando partimos, não como turistas fortuitos, mas como viajantes intrépidos adentrando-nos por mapas por fazer, é útil prevenirmo-nos com um plano de evasão, recolhendo antecipadamente informação sob os territórios de fuga, mapeando percursos, inventariando paisagens e lugares a visitar, registando intenções, construindo ficções a habitar. Nesse plano – que no meu caso é quase sempre urbano – assinalo as «cidades nervosas» com os seus monumentos, as avenidas da moda cheias de gente convergindo em direcção ao centro. Museus, teatros, exposições e outras iluminações. E também os tugúrios míticos onde depois procurarei o aleph que todas as cidades escondem. A rua artúrica que apenas ao expedicionário é oferecida, mas que só será revelada quando ultrapassar o seu limiar perdido na floresta de banalidades urbanas circundante. Prodígios e raridades, portanto, levemente suspeitadas, para explorar mais tarde. Passagens. Lentidões. Cafés com mesas de mármore onde se sentaram escritores, licores fortes como o metal fundido, livrarias de livros estranhos, pequenos jardins de amantes sem dinheiro. E labirintos subterrâneos. Estações de metro, quando as há, porque o metro é sempre uma aventura na noite infinita donde nem todos os que nele penetram regressam à superfície. E também estradas espalhando em muitas direcções. E, ainda, advertências e obrigações. Fusos horários, a natureza do clima, câmbios, transacções, roamings.

Daqui resulta, às vezes, que a viagem começa por ser uma ficção com lugares, tempos, personagens e acções mesmo antes de se iniciar, com a intenção expressa de, uma vez o viajante no território a explorar, habitar a ficção previamente construída durante os dias que antecederam a partida, como um expedicionário que, ao mesmo tempo que vai confirmando no terreno os sinais previamente assinalados, procura nas dobras do novo mapa sobre o qual caminha as linhas de passagem que permitem perceber a cidade. Isto porque uma cidade que não se compreende caminhando é indecifrável. 

E é nessa perdição procurada com instrução que reside todo o segredo da evasão. Mesmo que a cidade seja Santiago do Chile, poluída, híbrida, anárquica, com os restos da sua arquitectura colonial perdidos no meio de uma Litlle Manhattan austral de torres pós-modernas desafiando a cordilheira nevada. Como encontrar ali as linhas de passagem para o mapa por vir? Este o desafio que Santiago coloca ao expedicionário que talvez ali tenha de ser um detective selvagem à maneira de Arturo Belano e Ulises Lima, espécie de «poetas desesperados» e errantes do livro de Roberto Bolaño [Los detectives salvajes, Anagrama], bifurcando-se através de cenários contraditórios em busca do que lhes escapa.

Mais fácil será o expedicionário perder-se no «insólito porto sem portas» que é Valparaíso, hipnotizado pelo brilho nocturno da baía, ou num funicular louco galgando uma qualquer colina sobranceira ao Pacífico, ou nos labirintos de ruelas e becos ziguezagueantes perseguindo os passos de marinheiros antigos que ali naufragaram embalados por milongas tristes. Talvez ali baste ser como Cayetano Brulé, o detective do livro de Roberto Ampuero [Encontro no azul profundo, Temas & DEbates, 2004], que mora no cerro Concepción e não precisa de metafísica nenhuma, pois «Valparaíso [já] é um lugar metafísico, um centro mágico da existência», como escreveu Sergio Vuskovic Rojo na última Atlântica.

Levo comigo um plano de evasão que esconde dunas movediças, abismos inesperados cujos umbrais luminosos cruzarei à procura do aleph borgesiano que encerra tanto os segredos da cidade da cordilheira como os da cidade do paraíso e, talvez, ainda aqueles que se escondem nas estradas que se espalham desde Santiago em direcção aos Andes, ao Aconcágua e a Mendoza, na Argentina. 

Entretanto, para lá chegar, primeiro um estranho roteiro que passará sobre a montanha mágica de Thomas Mann e de Robert Walser perto da qual, em Zurique, tomarei o avião que me levará até ao outro lado do mar e, depois, até ao outro lado do continente, banhado aí pelo Pacífico.

Diário chileno (I). Lonjuras

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Do Chile, contou-me Neruda das soberbas paisagens e dos aromas, das madrugadas e dos crepúsculos, do estoicismo e da hospitalidade das suas gentes. E também dos «exílios que mordem e [de] outros [que] são como fogo que consome». E do «medo como um sabor metálico na boca», ouvi contar Isabel Allende. E Roberto Bolaño, o escritor que se exilou no México, sem dinheiro para as chamadas telefónicas. Roberto Ampuero, com quem vou trocando mails entre Portimão e o Ohio, contou-me também que, quando era criança, no pátio alemão do colégio alemão de Valparaíso, meninos e meninas costumavam cantar com uma fé cega uma cantiga de roda que dizia: «arroz con leche, me quiero casar con una señorita de Portugal». Eram os anos sessenta e Portugal vivia no tempo da «cobra e do abutre». Mais tarde, em vésperas de Abril de 1974, em Estocolmo, juntei o meu desterro ao desterro de muitos chilenos. E depois, enquanto a chuva cinzenta caía sobre Santiago, os cravos vermelhos floriam em Lisboa. Entretanto, perdi o rasto aos chilenos de Estocolmo, mas em Gijón, no Salon de Libro, fui conhecendo outros, o Luís Sepúlveda e a Carmen Yañez, a Virgínia Vidal, a Regina Rodriguez, o Hernán Neira, todos cúmplices da Atlântica. E o Daniel Barraco, que sendo argentino, mora em Santiago, e que só conheço dos mails que vamos trocando e das belíssimas fotografias de Valparaíso e das ilustrações de Frida Khalo e de Witold Gombrowicz que me mandou para a Atlântica. Por isso, o Chile sempre foi para mim um país inventado. Do Chile, contaram-me também da sua geografia longitudinal. Um país austral de lonjuras sem fim, espreguiçado nos seus quatro mil e trezentos quilómetros de montanhas, vulcões, vales, estepes, desertos, lagos, estuários, fiordes, arquipélagos, onde, contar-me-ia, depois, Neruda, «noite, neve e areia fazem a forma /da minha fina pátria, / há todo o silêncio na sua longa linha, /toda a espuma sai da sua barba marinha, / todo o carvão a enche de misteriosos beijos». Ao norte, a paisagem lunar do perfeito deserto de Atacama, sol, pedras calcinadas, uma paisagem imóvel de transparência cortante, emoldurada por um cenário de vulcões, uma solidão espectral, mas que, na Primavera, se veste momentaneamente de «vermelho, intensamente vermelho, coberto de pequenas flores cor de sangue», como escreve Luís Sepúlveda em As Rosas de Atacama: «– Ali as tens. As rosas do deserto, as rosas de Atacama. (…) As plantas continuam ali, debaixo da terra salgada. Viram-nas os atacamenses, os incas, os conquistadores espanhóis, os soldados da guerra do Pacífico, os operários do salitre. Continuam lá e florescem uma vez por ano. Ao meio-dia já estarão calcinadas pelo sol». A leste, a cordilheira dos Andes, formidável maciço de rocha e neves eternas sobrevoadas por condores. E a sul, a Patagónia, «terra de ar puro e de grandes espaços», como a definiu Bruce Chatwin, salpicada de parques nacionais com árvores milenárias, hoje ameaçadas pela destruição humana, atravessada pela Carretera Austral, uma pista pedregosa de 1200 km que vai de Puerto Montt até Villa O´Higgins, interrompida pela muralha dos glaciares para depois se transformar na pampa magalhânica; e também a costa patagónica, terras de Dezembro – como assinalou Fernão de Magalhães no mapa ainda por fazer quando avistou este rude e selvagem, em 1520 -, labirinto de ilhotas e fiordes, focas e pinguins, «cenário de catástrofes telúricas e de atrozes iniquidades humanas», onde viveu e escreveu Francisco Coloane, «o mais anfíbio dos escritores», como o classificou Volodia Teitelboim; e a última cidade continental, Punta Arenas, fustigada pelos ventos gelados do Estreito de Magalhães, orgulhosa da sua profunda australidade, enfrentando páramos e nevadas; e a última fronteira, a Terra do Fogo, antes dos gelos da Antárctica e dos icebergues à deriva que dão conta doutras iniquidades humanas. E a oeste, sempre o mesmo mar que Pedro de Valdivia baptizou de Pacífico. E que me contaram das cidades aonde irei? De Santiago do Chile, cujo aleph se esconde por detrás de uma pequena Manhattan orgulhosa das suas torres de vidro, ouvi Carlos Fuentes elogiar as suas «mulheres formosas com olhares de uva»; e que é uma cidade «melancólica e arrogante» e «confusa e secreta», segundo Antonio Skármeta; e que a sua boémia acontece à volta do cinema Biógrafo, da rua Lastarria, do Cerro de Santa Lucía, dédalo de escadarias, jardins e fontes; e que a praça Mulato Gil de Castro, enquadrada por antiquários e alfarrabistas, cafés e esplanadas, é o ponto de encontro da movida cultural santiaguina. E que La Piojera, «una de las picadas más famosas de Santiago», é imperdível. E de Valparaíso, «luminosa, ruidosa, espumosa e prostituta», que sei eu? Que Neruda e todos os viajantes e poetas a têm cantado como porto de nostalgia, aventura e perdição de marinheiros. E que também eu quero atravessar a obscuridade das suas escadarias, ruelas e praças sempre irrigadas pelo sopro salgado do Pacífico que sobe, ao crepúsculo, as suas quarenta e duas colinas, antes de me perder no Siete Machos ouvindo numa juke-box um tango Carlos Gardel. Mas contaram-me também que a vida no Chile é dura e brava, mas não igualmente para todos. Que há uma Santiago pintada com cores vivas e outra a preto e branco. Que nos bairros populares de «los de abajo», como Victoria, ou nos bairros de lata como Villa Francia, tudo parece cinzento, as pessoas exaustas, e que até os cães que erram entre caixotes de lixo são famélicos. E que nos bairros dos que vivem acima, nas colinas arborizadas, ao abrigo do smog no Inverno e da fornalha no Verão, como em Las Condas, os ricos escondem-se em luxuosas mansões atrás de altos muros rigorosamente vigiados. Que «los de abajo» descarregam as suas tensões, aos domingos, no Estádio Nacional de triste memória, insultando a polícia – «Pacos, hijos de puta» – e incentivando o clube do seu coração, Universidad de Chile. Que outros, vagueiam por infernos como o Cerro Navia, prisioneiros da «pasta base», a cocaína dos pobres que provoca razias. E que, alheios ao drama, outros há que cultivam a insustentável leveza da sua juventude, escapando-se no Verão para Viña de Mar, no Inverno para as estações de ski andinas e aos fins de semana para a movida dos bares de Bellavista e da rua Suécia. Hoje, o Chile é governado por uma mulher, Michelle Bachelet, filha de uma vítima da ditadura, em quem os chilenos depositam confiança para fazer esquecer as cicatrizes do passado, ultrapassar as dificuldades do presente e cruzar novos horizontes de esperança. Entretanto, as contas com o passado vão sendo saldadas, mandando para a prisão a viúva, filhos e acólitos de Pinochet, acusados de roubo de milhões de dólares durante a ditadura. [Eis o Chile antecipado que confrontarei na próxima semana, pois é para esse «território de essências longitudinais», cantado por Pablo Neruda e por Gabriela Mistral – que também tinha Portugal no coração – que viajo na segunda-feira. // Motivo: a participação num Encuentro Internacional de Escritores em Santiago e a apresentação da revista Atlântica. // Plano de evasão: 1. Santiago do Chile, das «mulheres formosas com olhar uva»; 2. A nostálgica Valparaíso, luminosa e obscura, debruçada sobre o Pacífico; 3. … E, como Pepe Carvalho e Biscuter, intrépidos detectivos selvagens do derradeiro livro de Vázquez Montalbán, talvez «atravessar a fronteira pelo túnel do Aconcágua, que liga directamente a Mendoza, já na Argentina». // E para que o plano de evasão possa servir a outros, quando por perto houver um computador ligado à rede, irei dando conta do que me cair dos dias em terras austrais].

A página assinalada

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Na corrente proposta pela Maria do Rosário/Divas & Contrabaixos, poderia ser outro livro qualquer e outra página qualquer a assinalar, mas o acaso surpreendeu-me regressando do mapa obscuro onde Canetti acharia que me perderia enquanto expedicionário, tantas são as bifurcações que irrompem nesse abismo que ousei explorar em noites recentes sem outra orientação que não o desejo de habitar momentaneamente esse território onde a realidade supera a ficção acolhida na escrita luminosa e equívoca de Enrique Vila-Matas. O livro, já se percebeu, é Exploradores del Abismo [Anagrama, 2007] que comprei há dias em Madrid e que li sofregamente como sempre leio os livros desafiantes, as entrevistas espasmódicas, as crónicas gombrowiczianas em forma de retratos de momento do escritor catalão que habita a minha «biblioteca do quarto escuro», juntamente com outros que com ele atravessam a região shandy da literatura.

E a página 161 proposta como brecha de entrada no abismo é última página conto “El día señalado”, assim como a quinta frase completa dessa página não é outra senão a última frase de um relato muito vilamatiasiano sobre o acaso objectivo que comanda as nossas vidas, do qual, muitas vezes, só conseguimos escapar no derradeiro instante enquanto «el mundo [parece] seguir su curso habitual, del mismo modo que, incluso en los casos extremos en los que todo está en juego, se sigue viviendo como si no pasar nada» [esta a frase assinalada na pág. 161].

Não sou muito dado a correntes, mas reconheço que não devemos pará-las para não interferirmos no curso habitual das coisas, por isso e também por voyeurismo que nõ escondo relativamente à página 161 de outros livros, passo o convite a cinco outros expedicionários cujos caminhos muitas vezes se bifurcam no meu próprio caminho. Ao Rui Bebiano/A Terceira Noite, ao Luís Jorge/Vida Breve, ao Sérgio Lavos/Auto-retrato, à Isabel Victor/Caderno de Campo e à Sandra Costa/ Tubo de Ensaio para nos revelarem uma passagem dos seus mapas literários.

[E lembrem-se: escolher o livro mais próximo, literalmente; assinalar a página 161; transcrever a 5ª frase completa] e continuar a corrente].

Um lugar no atlas

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Ainda o descentramento do olhar na exposição Atlas Group que pode ser visitada como mais uma estação do atlas dos acontecimentos da Gulbenkian – um projecto de Walid Raad sobre a história contemporânea do Líbano visando a desmontagem dos dispositivos mediáticos responsáveis pela coisificação da memória recente dos acontecimentos nesse lugar do atlas. Uma espécie de arquivo visitável – constituído por fotografias, documentos assinados, anónimos, originais, forjados – que documenta o desfasamento entre o acontecimento e a sua refabricação mediática, como se fosse um jogo de espelhos onde realidade e ficção se misturam num exercício de condensação, e de condenação, da forma como os media respondem aos acontecimentos em nome de uma comunicabilidade insustentável, porque sem tonalidade política.

Dois exemplos. 1. Notebook Volume 8: Already been in a lake of fire é um caderno onde se coleccionam fotografias recortadas de revistas de carros semelhantes aos que entre 1975 e 1991 foram usados como carros-bomba legendadas com os «factos» dos acontecimentos, numa crítica à pretensa «objectividade» jornalística que despreza a forma que daria a tonalidade política ao acontecimento mediatizado. 2. E a série Let´s be honest, the weather helped constituída por fotografias de edifícios com inscrições de círculos de cor que assinalam os buracos provocados pelo impacto de munições que o artista diz coleccionar desde criança. Porque no Líbano «tudo é perigoso mas não igualmente ao mesmo tempo», como diria Benjamin. 

Lisboa entre o azul e o negro

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«Outra vez te revejo – Lisboa e Tejo e tudo», escreveu Álvaro de Campos, que dizia viver em Lisboa como um fósforo sem chama enquanto pelas paredes das casas escorriam lágrimas amargas que humedeciam o seu sonho. «Outra vez te revejo, / cidade da minha infância pavorosamente perdida / cidade triste e alegre, outra vez te sonho aqui». Eis Lisboa, ainda, apesar de tudo, apesar das avenidas transfiguradas e do vazio da baixa, à noite; apesar do Tejo estar agora mais distante no Cais das Colunas e de Bernardo Soares, se ali regressasse, já não poder passar «horas, às vezes, no Terreiro do Paço, na margem do rio, meditando em vão». Eis Lisboa onde no fim de semana passado tracei uma certa cartografia da felicidade, adentrando-me colinas adentro, subindo ao Alto da Graça, olhando o Tejo lá em baixo com os seus grandes navios atravessando a paisagem; descendo depois à bolina até ao Rossio, para logo voltar a subir ao Bairro Alto, perseguindo a rota dos alfarrabistas. E, a seguir, rumar até ao Museu de Arte Antiga onde se mostram uns proféticos painéis de Nuno Gonçalves que anteciparam a gesta dos descobrimentos. Lisboa tão diferente de Madrid, por onde deambulei no fim de semana passado, imersa umas vezes na mais profunda tristeza, outras na mais radical felicidade.

E felicidade que pode ser encontrada naquela pequena livraria de novos e usados, na Calçada do Combro – Letra Livre – onde finalmente consegui encontrar o Fogo Pálido, a obra mais engenhosa de Nabokov. Ou um pouco mais à frente, num alfarrabista que tinha na montra a versão brasileira de O Homem sem Qualidades, de Musil. E também na FNAC, do Chiado, onde comprei o livro da Alexandra Lucas Coelho, Oriente próximo [Relógio d´Água, 2007], uma cartografia estremecedora dos territórios palestinianos ocupados, um jornalismo que não devora, antes alimenta o pensamento;  e, ainda outro livro que ali encontrei, Debaixo do Vulcão, de Malcolm Lowry [Relógio d´Água, 2007], que nos devolve uma espécie de insurrecta nostalgia de um México que já não existe, mas cuja alma profunda José Agostinho Baptista captou num pequeno livro que generosamente me ofereceu há dias, intitulado Debaixo do Azul Sobre o Vulcão [E.A., 1995] e que, definitivamente, colocou o México na rota da próxima Atlântica. Lugar de felicidade, embora mais prosaica, também o pequeno restaurante da rua Rua da Atalaia, onde o empregado, respeituoso, me pergunta num português que cada vez menos gente usa: «Ides beber um vinho? E, no final da refeição: «Haveis terminado?».

E depois, felicidade nalguns lugares da modernidade lisboeta por onde errei, guiado pela  Time Out Lisboa que já cá fazia falta. Desde logo, a exposição um Atlas de Acontecimentos [Gulbenkian, 07 Out a 30 de Dez], onde vários artistas oriundos de diferentes lugares do mundo, mas com uma mesma visão nihilista dos acontecimentos – «no nevoeiro da guerra, nada podia estar a salvo», lê-se na legenda de uma réplica em papel de um artefacto pilhado do Museu Nacional Iraquiano -, perseguem uma resposta oblíqua ao estado do mundo actual, enquanto esperamos a catarse libertadora. Também as duas exposições, na Culturgest, Atlas Group (1984-2004) que pode ser lida como um enfoque particular da exposição Gulbenkian, uma investigação de Walid Raad sobre a história contemporânea do Líbano -, e Jean-Luc Moulène, sobretudo aqueles trinta e nove objectos de greve de um tempo onde a greve ainda não fazia greve. Três exposições que, dentro do nihilismo cinzento circundante, constituem outras tantas brechas contra «o súbito aparecer do informe», contra o apagamento da História, contra, enfim, a desmobilização geral num mundo moldado pela impotência. E o mesmo se poderá dizer da tela gigante contra a «banalidade do mal», do pintor surrealista chileno Roberto Matta que integra a Colecção Berardo, no CCB. E de reacção contra a impotência foi também a proposta de Les Ballets C. de la B. / Koen Augustijnen, com a Import Export [Culturgest, 12 e 13 de Outubro]. E o belíssimo espectáculo A Trilogia dos Dragões, de Robert Lepage, uma saga de uma China imaginada por imigrantes dos bairros chineses de Quebeque, Toronto e Vancôver numa viagem que passa ainda por Hong Kong, Tóquio, Hiroxima e pela China maoísta, entre 1910 e 1985.

Lisboa, às vezes, tem destas coisas. As suas calçadas conduzem-nos a lugares de felicidade, que acrescentam «azul de muitas cores / ao outro azul que os vossos olhos vêem» [Pedro Tamen], mesmo quando nesse azul se espelha a negro a devastação do mundo, como é o caso das exposições visitadas. E que melhor lugar para encontrar o negro no azul e o azul no negro que Lisboa, a «cidade […] pavorosamente perdida / [a] cidade triste e alegre» de Pessoa?

Madrid é uma festa

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Num conto breve de Kafka, intitulado A partida, alguém pergunta: – «Conheces, então, a tua meta?». -«Sim [foi a resposta]. Já disse. Sair daqui: esta é minha meta». No meu plano de evasão constantemente renovado, Madrid foi a minha meta no último fim de semana prolongado. Deixo aqui uma espécie de cartografia espiritual de um fim de semana que nunca se acaba, pois já se estende por outros que hão-de vir.

 Vivamerica. Madrid nunca se acaba, sobretudo num fim de semana carregado de palavras, sons, imagens e sabores vindos do outro lado do mar para celebrar a alma ibero-americana partilhada por mais de 400.000 milhões de falantes de espanhol e português em todo o mundo. Trata-se do Vivamerica que como uma enorme corrente atlântica se derrama por vários lugares da capital espanhola, deixando escutar a maresia do sul e, às vezes, olhar os abismos onde há muito tempo nos perdemos. Numa carta escrita a Pessoa falava Borges da «vaga gente sem geografia cumprindo em sua carne, obscuramente, seus hábitos». Hoje, outra vaga gente faz o caminho inverso e procura na Europa cumprir a sua carne, os seus hábitos que também já foram os nossos. Outras travessias, portanto, entre a saudade e a esperança de corações emigrantes navegando num mar em cujas águas verdes, azuis e negras se espelha a nossa alma antiga. Por isso, um emigrante equatoriano me dizia, enquanto esperávamos na Casa das Américas por Álvaro Mutis: «estamos aquí, por que vosotros estuvieran allá». E foi à procura dessa América inventada, imaginada, feita de encantos e desencantos que estive há uma semana em Madrid, escutando as palavras de Mutis, Juan Villoro, Pedro Juan Gutiérrez, Mario Delgado Aparain, Luis Sepúlveda, Inês Pedrosa, Fernando Pinto Amaral, entre outros; partilhando a experiência política de Rubén Blades como ministro do Panamá; ouvindo as sonoridades do gótico tropical de San Pascualito Rey. // Álvaro Mutis. A primeira vez que o encontrei, na Rue Vaneau, em Paris, pensei tratar-se de um seu duplo. Sempre a Rue Vaneau. Ou seria na página 293 de Doutor Pasavento [Teorema, 2007]? «Então pude ver que o homem não era parecido com Álvaro Mutis, mas sim o próprio Álvaro Mutis, o escritor colombiano». E agora ali estava ele de novo, com Juan Villoro ao lado, a abrir o festival Vivamerica. «O inventor da melancolia moderna», alguém disse já não sei se se referindo a Chateaubriand ou se a Mutis. O certo é que a conferência inaugural deste «maestro del descalabro» não andou longe do que pensaria o escritor francês se ali estivesse na Casa da América, transformada por instantes numa espécie de nau à deriva conduzida por um navegador do desassossego. «Jamás en su vida sobre la Tierra el hombre ha vivido más solo, más aislado de sus semejantes, más vejado por sus propios inventos, destinados a borrar en él hasta último rasgo de humanidad», afirmou o escritor de Los Elementos del Desastre [1953] perante a plateia que enchia a sala Gabriela Mistral. Lembro-me então da pergunta de Elias Canetti: «Regressará Deus quando a sua criação estiver destruída?». E como se escutasse o murmúrio do meu pensamento, Mutis responde que, haja o que houver, a poesia estará aí para contar o último suspiro do mundo. // Juan Villoro. Converso com Juan Villoro sobre a cidade do México, transformada agora na região menos transparente e no «único lugar donde he tenido miedo de perderme para siempre», como afirmou o escritor Claudio Magris. Digo-lhe que com a minha alma de passeante já lá estive uma vez, anónimo entre os seus quinze milhões de habitantes, perdendo-me num lugar para me reencontrar sempre noutro. Ofereço-lhe a revista Atlântica e peço-lhe cumplicidade na forma da escrita de texto a publicar no próximo número em preparação. Evoca Jaime Torres Bordet que já em 1957 escrevia: «Fuiste, ciudad. No eres. Te aplastaran/ tranvías, autos, noches al magnesio./ Para verter el paisaje/ ahora necessito un aparato/ preciso, lento, de radiografia./ Que enfermedad, tus árboles! Qué ruina/ tu cielo!». Ficou de me enviar uma crónica mexicana escrita sob un cielo artificial. // Rubén Blades. Pergunto a Rubén Blades como pode o cantor de Pablo pueblo passar de denunciante das injustiças a ministro do governo do Panamá. «Es pasar de escribir la denuncia, a una propuesta en la que vas a tratar de ayudar a mejorar las cosas a través de un proceso político», responde-me numa conversa que durou quase uma hora e que será publicada num próximo número da Atlântica. // San Pascualito Rey. Rock, rancheras, balada setentera, huapangos, música de congal e muita experimentação no terceiro disco deste grupo que veio do México.

Círculo de Belas Artes 1. Bruno Schulz. El pais tenebroso. Quem ousar entrar na sala Goya, no Círculo de Belas Artes, em Madrid, poderá precipitar-se num País tenebroso, exposição retrospectiva da obra plástica de Bruno Schulz. A memória da infância asfixiante na sua Drohobycz natal: cenografias de lojas sombrias, manequins de cera, mulheres anónimas, judeus errantes, fiacres nocturnos, seres deformados com feições caninas povoam a geografia de pesadelo de um Schulz que até ao fim de semana eu conhecia apenas desse extraordinário livro de contos que é As Lojas de Canela [Assírio & Alvim]. Trouxe comigo um belíssimo catálogo organizado por Monika Poliwka, comissária da exposição, com reproduções da sua obra plástica, postais antigos de Drohobycz, fotografias de família, alguns originais de correspondência trocada com Witold Gombrowicz. Restos de um pais tenebroso. // Ramón María del Valle-Inclán. Las Galas del Difunto. Ainda no Círculo de Belas Artes, o Teatro del Común, sob a direcção de Celia León, apresentou um texto pouco conhecido de Valle-Inclán, aquele «que se queixava de não lhe permitirem subir para um eléctrico com dois leões».

Museu Reina Sofia. Paula Rego, Retrospectiva. Uma trajectória artística que mostra a experiência do mundo de uma pintora indomável, inspirada nas recordações da sua solitária e mágica infância, como se Portugal inteiro, no seu melhor e no seu pior, estivesse agora ali diante de nós. Um Portugal que parece pintado por um Goya contemporâneo ou por Hogarth cuja influência Paula Rego reivindica. Momentos inebriados, festivos, violentos, lúdicos, teatrais, patéticos. E também os livros dentro dos quadros: As Criadas, inspirado na obra de Genet; Os Crimes do Padre Amaro, de Eça; Jane Eyre, de Charlotte Brontë; A Metamorfose, de Kafka; O Homem Almofada, inspirado em Martin McDonagh. Alegorias. Exposição visitadíssima, a mostrar que ainda há muitos portugueses que fazem quilómetros para ver arte. //Guernica. Picasso. «Escrever poesia depois de Auchswitz é bárbaro», afirmou Adorno diante da experiência do extermínio. E outros houve que emudeceram perante a «banalidade do mal». Mas Picasso, pelo contrário, pintou como ninguém essa banalidade, deixando-nos, isso sim, emudecidos diante da barbárie pintada do bombardeamento de Guernica. Uma pequena multidão olha o quadro em silêncio, como se ali qualquer outra semântica fosse redundante contra a banalidade do mal. 

Museo del Prado. Demoro-me na pintura flamenga. Sobretudo Rubens, excessivo, apolíneo. A exuberância do nu feminino n´ As três Graças. O retorno à festa da vida n´ O jardim do amor e na Dança dos aldeões. Depois, detenho-me n´As Meninas, de Velásquez. E n´O jardim das delícias, de El Bosco. E depois, Goya, de quem Ortega y Gasset disse ser «um monstro… e o mais decidido monstro dos seus monstros». Talvez não, apesar de todos os seus fantasmas, vividos e pintados, e de oscilar sempre entre a luz da corte e a escuridão da alma. E de novo a «banalidade do mal», agora n´Os fusilamentos de três de Maio. // Patinir e a invenção da paisagem. A paisagem antes da destruição descrita por W. G. Sebald muito tempo depois. Um remador que lembra Erza Pound nos seus dias mais obscuros. Uma aragem lambendo a superfície líquida de um lago. A barca de Coronte transportando uma alma numa viagem sem retorno sob um céu azul, místico, nórdico, assim se anunciou num enorme painel colocado à entrada do Museu, a exposição do pintor flamengo que eu ainda não conhecia. Depois, lá dentro, 24 paisagens quase microcópicas, onde, ainda assim, cabemos todos, como se o próprio Patinir nos tivesse colocado aí como personagens secundários de outras tantas micro-narrativas enquadradas num fundo de paisagens submersas de azul, rochedos, bosques, torres, casarios, moinhos, uma fogueira, um bando de pássaros levantando voo e, no último plano, sempre um horizonte luminoso onde pairam densas e opressivas nuvens sobre imagens surreais de figurantes montados em bestas, monstros, matanças, calamidades.

Casa del Libro. Enrique Vila-Matas. Exploradores del Abismo [Anagrama, 2008]. Entro na livraria para comprar Exploradores del Abismo, o último Vila-Matas, de que já lera o conto «La modéstia». Abro-o ao acaso e leio em «La letra gorda», aquilo que me parece ser uma virtual declaração de princípios do livro: «La tensión más fuerte la provocaba el duro esfuerzo de contar historias de personas normales y tener a la vez quereprimir mi tendencia a divertirme con textos metaliterarios». Veremos se é outro ou o mesmo Vila-Matas que agora se dá a ler.// Vila-Matas portátil [Candaya, 2007]. Já se percebeu que sou um aficcionado do escritor catalão. « Tal vez en unos años la acumulación de ideas sobre el trabajo de Vila-Matasos permita descobrir con claridad las razones por las que nos commueve», escreveu o crítico mexicano Álvaro Enrique, em 1997. E dez anos e cinco livros depois? Compro o livro que reproduz o itinerário crítico e cronológico dos livros de Vila-Matas e que inclui testemunhos de Pitol, Bolaño, Villoro, Fresán, Cercas, Tabucchi e Loriga, entre outros que partilham a sua aventura shandy. // Joseph Roth. Fuga sin Fin. [Acantilado, 2003]. É o romance que Pasavento/Vila-Matas transportava na maleta vermelha que herdara da sua avó e que «leu de um só folgo», em Nápoles. Prometo a mim mesmo lê-lo também de um só folgo numa próxima viagem de ocultação. // Roberto Bolaño. Los detectives salvages [Anagrama, 1998]. O escritor chileno que se exilou no México, durante a ditadura, e que nas extravagantes 447 páginas de Los detectives salvages deixa fluir a sua alma nómada, misturando-a com todos os seres errantes que vivem à deriva nos arredores de si mesmos, instaurando uma espécie de «literatura por vir». // Sergio Pitol. El arte de la fuga [Anagrama, 1996]. Um livro que foge a qualquer classificação, que remove as fronteiras do género, parecendo, primeiro, um ensaio, mas logo depois uma narrativa, e depois uma crónica de uma vida, um testemunho de um viajante, ou anotações de um leitor hedonista, sempre como se o autor fosse uma criança deslumbrada diante da variedade do mundo.

Babelia. Tenho por hábito ler o suplemento do El Pais todos os sábados. Sento-me por isso na esplanada do Círculo de Artes, na Gran Via, e empreendo uma viagem através da literatura catalã que constitui o tema desta Babélia, transformando momentaneamente a Gran Via no Passeig de Gràcia. Um inquérito junto de mais de cem especialistas elege as 50 melhores obras catalães de sempre: Ramon Lull [1232-1316] («Implacável defensor de la lógica cristiana. Escribió en latin, catalán y árabe. Consciente de que existiria un Pierre Ménard reescribió de memoria algunos de sus libros perdidos en un naufragio»); Josep Pla [1897-1981] («incómodo y bellíssimo. Desconfiado, viajero, diletante, comodón, trabajador… es el paradigma de la literatura catalana»; Salvador Espriu [1914-1945] («Le compararon a Pablo Neruda, Rafael Alberti o Valle-Inclán. No se les parece en nada. Autor precoz, le tocó vivir con estoicismonlo peor de la história del siglo XX». Dos cinquenta títulos citados não li nenhum! Mas recordo o fundo cabalístico de Lull perseguido por Luisa Costa Gomes, em Vida de Ramón [Dom Quixote, 1991]. E li outros mais recentes, como Juan Marsé, Eduardo Mendoza, Javier Cercas, Carlos Ruiz Zafón e, claro, Enrique Vila-Matas. Nesta Babélia há ainda páginas sobre agentes literários, editores e livreiros de Barcelona que já não tive tempo de ler, pois alguém muito parecido com Che Guevara sentou-se na mesa ao lado. Pouso o jornal e regresso à Gran Via. Mais tarde, na Plaza del Sol, confirmaria tratar-se, efectivamente, de Che.

El tapeo. A idea é caminhar ao acaso desde a Puerta del Sol até à Plaza Mayor, passando pela Plaza de Santa Ana, ir descobrindo os rincones mais saborosos da cidade através do labirinto faustoso das mil tabernitas que há por ali e que nos convidam a entrar, fervilhando de gente que se pierde noche adentro, entre vinitos, cañas y bocadillos, la oreja, los torreznos, las anchoas, lo ibérico… y sobre todo con muchas ganas de vivir. Tapear es una arte y a Madrid la conocen como puede comprobar, tanto que ahora mismo se me huida la lengua para el castellano. Aqui fica a porta de entrada para a Venta El Buscón, um dos muitos abismos faustosos por onde me adentrei.  

Retrato breve

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Conheço pouco da obra de Doris Lessing, a laureada deste ano, mas gosto do seu olhar tranquilo, luminoso e, simultaneamente, distante. E mais do que a sua obra, desperta-me curiosidade a sua biografia. Uma mulher que nasce em Kermanshah, na Pérsia, e vai viver para África aos seis anos, que trabalha como telefonista em Salisbury, que é capaz de andar de país em país, deixando marido e filhos, escolhendo ser escritora, alguém sem formação académica e que mesmo assim constrói uma obra com a amplitude da sua, é com certeza mais interessante do que o cortejo de escreventes que publicam livros só porque ganharam um nome fora da escrita. Dela sei, ainda, que é uma escritora comprometida. Uma testemunha do seu tempo. «Uma contadora épica da experiência feminina [que] perscruta uma civilização dividida», como ouvi dizer a Lídia Jorge. Sei ainda que na sua autobiografia incompleta, a propósito de um saco que um dia uma portuguesa lhe ofereceu, escreveu que Portugal era «uma dessas regiões do mundo onde reina a graça do coração». E, há instantes, quando a vi noticiário, não pude deixar de pensar que também Agustina Bessa Luis merecia um prémio assim. 

Danças com Che

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No passado sábado enquanto lia o suplemento literário do El Pais na esplanada do Círculo de Artes, em plena Gran Via, em Madrid, alguém, que me pareceu de imediato muito familiar, se sentou na mesa ao lado e pediu que lhe trouxessem um Habana Club com gelo. Durante algum tempo procurei recordar de onde conheceria eu aquele rosto. Ainda pensei tratar-se de Gael García Bernal ou Benicio del Toro ou, embora menos, de Antonio Banderas. Como não achava forma de me lembrar, entre um gole de rum e outro, ganhei coragem e acabei por lhe perguntar: – «Perdone? No nos conocemos?»Seguro que sí. Yo soy el Che Guevara», respondeu.

Pensei tratar-se de uma piada e esqueci-o. Contudo, à noite, enquanto caminhava pela Plaza del Sol, lá estava ele, agora plantado sobre um  caixote de plástico, vestido com camuflado militar e com a bóina do Che Guevara na cabeça. Com um livro aberto na mão, recitava um inflamado discurso contra o imperialismo, enquanto se deixava fotografar por grupos de turistas japoneses que lhe concediam, depois, alguns euros que atiravam para uma pequena caixa colocada aos seus pés. Não havia dúvida, era mesmo o Che que ali estava, competindo com um homem de mala de viagem, gabardina e chapéu de chuva revirados pela ventania imaginária que de repente se levantara naquela praça de Madrid mas que, estranhamente, parecia não afectar o revolucionário argentino. Contudo, não obstante a paixão que Che imprimia ao seu discurso, o homem da mala e gabardine ao vento atraía mais público e arrecadava mais moedas, retardando, assim, o financiamento da revolução por vir.  

Na Calle de los Preciados, muito perto, portanto, do epicentro revolucionário da Plaza del Sol, na vitrina de uma loja de artigos de beleza de categoria duvidosa, expunha-se um kit completo de higiene revolucionária: um jogo de toalhas vermelhas com a efígie do Che e uma caixa de sabonetes, gel de banho e shampô, tudo com o selo do Che. E na vitrina da relojoaria, uns metros adiante, alguns relógios Swatch com a fotografia de Che no mostrador esperavam pulsos revolucionários. E na loja da FNAC havia um escaparate de novidades sobre o Che: Ernesto Guevara, también conocido como el Che, Paco Ignacio Taibo II, Booket; Os últimos dias de Che, Juan Ignacio Siles, Debate; Diarios de motocicleta, Ernesto Che Guevara, Ediciones B; El diablo cojuelo, Luis Veléz de Guevara, Cátedra; Che Guevara. Una vida revolucionaria, Jon Lee Anderson, Anagrama; El hombre que mató al Che Guevara, Magnus, Nuevas Fronteras del Arte. Perante tamanha profusão de comandantes, pensei que a revolução estaria iminente e que, talvez, fosse melhor deixar os sapatos Camper para outra ocasião, não fosse ser confundido com um simpatizante da globalização.

Regressei de Madrid sem que tenha notado qualquer mudança revolucionária. Talvez porque os turistas tivessem preferido o homem da mala e gabardina ao vento ao inflamado Che da Plaza del Sol. Mas hoje, por ocasião do quadragésimo aniversário da sua morte, ao procurá-lo no Google voltei a encontrá-lo nos lugares mais insólitos: tatuado no braço de Maradona, desenhado em t-shirts, impresso em posters para quartos de adolescentes, bordado em roupa interior feminina, pintado em bolas de futebol, gravado em caixas de chocolates, inscrito em notas de um dólar, difundido através de pins, de gadgets. Che para todos os gostos e idades, como estratégia de marketing, trabalhada a partir da velha fotografia de Alberto Korda como denuncia Trisha Ziff em Che: Market and Revolution: para estudantes e para a terceira idade, para enfermeiras e empresários, para intelectuais nihilistas e alienados consumistas. Adorado como um santo na Bolívia e odiado como um assassino em Miami.

Como explicar esta espécie síndrome guevariano?.Talvez porque Che morreu jovem, guapissimo, como me disse uma amiga argentina, mais ainda do que os seus duplos  actuais, Gael García Bernal ou Benicio del Toro. Talvez para nos fazer esquecer a imagem patética de Fidel calçando uns chinelos Adidas num hospital cubano. Ou os discursos bolivarianos de Chávez. Talvez porque vivemos num mundo sem redenção.

Talvez por isso, também, a única imagem que gostaria de evocar agora, não é a mítica fotografia de Alberto Korda, tirada em 1960, e que o Instituto Maryland de Arte viria considerar «a mais famosa fotografia no mundo e símbolo do século XX», mas aquela outra, muito menos conhecida, que mostra duas mulhers dançando por ocasião do seu aniversário, em Santa Coloma de Gramanet. Não porque haja ali qualquer pulsão revolucionária, e muito menos o sentimento nihilista contemporâneo que o transformou, nas décadas de sessenta e setenta num ícone de uma juventude rebelde com causa, depois na ténue bandeira de nostálgicos guerrilheiros urbanos, e mais recentemente num símbolo do movimento anti-globalização, mas porque essa é uma imagem sem rosto, a única que lhe pertence desde que lhe atribuiram uma biografia romântica, mitificando-o como um justiceiro solitário e um revolucionário generoso, abatido traiçoeiramente no final da história.

A questão a saber é se poderá ainda atribuir-se algum significado político à sobrevivência mercantilizada de Che. Em artigo publicado no El Pais [Che “versus” fetiche], Iván de la Nuez, um ensaísta cubano que vive em Barcelona, considerava a propósito que «para la izquierda radical, el fetiche del Che significa una victoria cultural después de una derrota política. Para la derecha radical, el fetiche del Che significa una derrota cultural después de una victoria política». Será? E será que «a sua auréola de idealista e de herói, a capacidade de sedução de alguns dos valores que orientaram a sua intervenção, a própria noção da violência revolucionária como necessidade», ligadas à utopia guevarista ainda fazem sentido, como questiona Rui Bebiano em O capitão Wiesler e o doutor Guevara?

[Obrigatório passar por www.personalche.com e ver o trailer de dois jovens cineastas Douglas Duarte (Brasil) e Adriana Mariño (Colômbia) também em: www.youtube.com/watch?v=1nyBxg32Wd0

Espião casual

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Diz António Trabucchi que todos os escritores são um pouco voyeurs, todos olham para lá das portas que abrem para os abismos de todos os dias, procurando roubar a experiência de outras vidas. Enrique Vila-Matas confessa esse pecado dizendo que tem por hábito fazer de espião casual no autocarro nº 24 que percorre «la calle Mayor de Gracia», em Barcelona, retirando dessa observação disfarçada a matéria impura dos seus livros: «Tenho em casa um arquivo de gestos, frases e conversas escutadas através do tempo nesse trajecto de autocarro, e até creio que poderia escrever um romance tão infinito como aquele que queria fazer Joe Gould sobre Nova Iorque, pois roubei e registei todo o tipo de frases soltas, conversas estranhas, disparatadas situações». Ficamos, então, a saber que o conto La Modestia [in Exploradores del abismo, Anagrama, 2007] é um produto de uma espionagem literária da realidade de todos os dias, feita de mundos ficcionais paralelos que às vezes se confundem, sem que os seus protagonistas o saibam, como aconteceu com «aquela mulher toda vestida de cinzento como a mãe de Nerval», saída, talvez, de um quadro de Fragonard para entrar no autocarro da carreira nº 24. É que numa carreira diária de um qualquer autocarro, se observarmos bem à nossa volta, talvez encontremos a porta que se abre para o abismo da dura realidade daqueles que, incógnitos, viajam connosco. O problema é que, depois, como diria Canetti, quando a porta se fecha já não sabemos como regressar desse mapa onde, entre uma paragem e outra, nos perdemos.

Os dias calcinados

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Durante o Verão, surgiu uma tromba de fogo no crepúsculo do Árctico, sobre o mar de Barens, derramando sobre as nuvens baixas que encobriam o céu de Hammerfest uma luminosidade laranja espectral, anunciando a extensão à cena árctica da nova versão patética da tetralogia de Wagner, agora reposta sob a forma da maldição do gás adormecido durante milhões de anos sob as calotes de gelo em fusão. O que sobrará para o mundo quando se apagar a última réstia do fogo que concorre agora com as auroras boreais ninguém ainda sabe. Ou talvez saibam apenas os visionários.

«Mas quanto mais me aproximava das ruínas, mais se afastava a imagem de uma secreta ilha dos mortos e mais me julgava no meio dos vestígios da nossa própria civilização aniquilada por uma catástrofe futura», escreveu Sebald em Os Anéis de Saturno [Teorema, 2006] descrente da capacidade da razão para dominar a natureza enlouquecida pelos homens e de novo diagnosticada na Conferência sobre as Alterações Climáticas realizada há duas semanas, em Nova Iorque. Temperaturas em alta, concentrações de dióxido de carbono a subir, degelo das calotes polares, subida dos oceanos, chuvas torrenciais, secas mortíferas, o rol que afinal já todos conhecíamos, sem que isso, no entanto, produza uma reacção global à altura da tragédia eminente. Por isso, reconhecemos nas palavras de Sebald uma espécie de lucidez trágica relativamente ao devir do mundo, caso não sejam as tomadas medidas que reconduzam o rio turvo da destruição ambiental às suas margens, impondo urgentemente a redução das emissões poluentes que afectam o aquecimento global. Mas estarão os governantes do mundo motivados para isso? Ou, pelo contrário, indiferentes ao roçar o abismo, falharão a derradeira ocasião de salvar o planeta, deixando as «coisas continuarem como antes» [Walter Benjamin, Passagens, frag. N9a, 1], isto é, resvalando para a «catástrofe futura». Haverá aqui uma visão demasiado catastrofista?

Para Ban Ki-moon, Secretário-Geral das Nações Unidas, nem tanto: «O aquecimento global é uma realidade e, se não intervirmos, as suas consequências poderão ser devastadoras, senão catastróficas, nas próximas décadas […] peço aos dirigentes mundiais que exerçam a sua liderança. Que ajam. [Já] não podemos fazer como se nada se passasse à nossa volta».

Como abrandar então esta imensa fornalha vertical cheia de brasas que ameaça transformar a paisagem do mundo num campo de sedimentos intransponíveis, rios pedregosos, árvores calcinadas, despojos de máquinas destruídas, espirais fantasmagóricas de pooeira, cidades costeiras alagadas, corpos à deriva sob um céu acinzentado? Seguramente não ficar acocorado a um canto à espera da combustão final como prisioneiros numa casa em chamas. Talvez falar. Talvez escrever, porque só as palavras poderão ainda evitar a catástrofe de falhar a ocasião de abrandar o braseiro. Agir.

Madame Bovary e os seus duplos

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«E como eram as ligas de Madame Bovary?», interroga-se Francisco Umbral no retrato que traça da personagem de Flaubert num pequeno livro que toma por título precisamente essa interrogação [Campo das Letras, 2005]. É que apesar da miniaturização estética do romance esse pormenor nunca nos é revelado, muito menos  no final daquele passeio de fiacre, ao ritmo ofegante do cavalo e à deriva através das ruas de Rouen, vedado aos ollhares indiscretos dos transeuntes e, sobretudo, ao voyeurismo dos leitores, pelas cortinas descidas: «E no cais, no meio de carroças e de barricas, e pelas ruas, sobre os bancos de pedra, os burgueses arregalavam os olhos perante aquela coisa extraordinária na província: uma carruagem com os estores descidos aparecendo assim constantemente, mais fechada que um túmulo e sacudida como um navio». Mas as ligas literárias, se é que Emma as usava, ficarão para sempre no segredo daquele fiacre, deixando ao leitor apenas a possibilidade de as imaginar descaídas sobre as carnes brancas de Emma enquanto esta se entregava ao amante. Mesmo sem ter mostrado as ligas, Flaubert não se livraria de ir a tribunal, em 1957 – já depois da edição de Michel Lévy -, acusado de ofensa à moral e à religião por causa de Madame de Bovary publicado, primeiro, em fascículos quinzenais na Revue de Paris [1956-1957], donde fora eliminada a pedido de Maxime du Camp, editor da Revue, a cena do fiacre: «A tua cena do fiacre é impossivel, não para nós que nos estamos nas tintas, não para mim que sou responsável pela edição, mas para a polícia de costumes que nos condenaria sem apelo». Contudo, embora publicando a cena do fiacre em 1857, Flaubert sucumbiria à moral burguesa «assassinando» Emma em 1857, tal como Eça «assassinaria» Luísa duas décadas mais tarde. 

E como eram as ligas de Luísa? «Ajoelhou-se, tomou-lhe os pezinhos entre as mãos e beijou-lhos; depois, dizendo mal das ligas tão feias, com fechos de metal, beijou-lhe respeitosamente os joelhos» [O Primo Basílio]. Aqui não haveria processo, talvez por tudo se passar num quarto de hotel e não num fiacre de «estores descidos«, «aos solavancos», mas a revelação das ligas seria apenas o primeiro mostrar de um detalhe da roupa interior de Luísa, num romance que persegue o modelo de adultério de Flaubert (ou, mais exactamente, dos romances de adultério do século XIX, de Ana Karenina de Tolstoi a Effi Brist de Fontane), mas que mostra detalhes que Flaubert preferiu esconder atrás dos estores descidos de um fiacre. Talvez por isso Borges tenha afirmado: «Eça de Queirós li e reli. Parece-me que só agora está a ser reconhecido. Mas Zola já havia dito que O Primo Basílio era muito superior a Madame Bovary». Contudo, a ruptura de Eça com o seu modelo flaubertiano só surgiria em Alves & Cª, ao poupar à morte, numa história de adultério feminino, a protagonista. Menos sorte tiveram Emma e Luísa, vítimas do fatalismo flaubertiano.

E que dizer da Ema de Vale Abraão, de Manoel de Oliveira? A atracção pelo luxo, as ilusões, o desejo que inspira aos homens, valem-lhe a epíteto de Bovarinha. Conhecerá três amantes, mas esses amores sucessivos não conseguem suster um crescente sentimento de desilusão, que a leva a dizer que vive num «estado de alma em balouço». Também Ema morrerá – acidentalmente? – num dia de sol luminoso, depois de se ter vestido, com ligas, como se fosse para ir a um baile… Talvez, no filme de Manoel de Oliveira, baseado no romance homónimo de Agustina Bessa-Luís, a morte não seja uma expiação da culpa, porque tudo o que aí acontece é colocado, do princípio ao fim, sob o signo do feminino, de um olhar feminino pousado sobre o mundo, ao contrário da outra Emma que a androgenia de Flaubert proíbe de olhar à sua volta. Não, até porque Vale Abraão, mais do que uma adaptação, é uma reescrita do romance de Flaubert, questionando a sua própria matéria romanesca, preferindo a possibilidade de emancipação face à fatalidade da condição feminina. Talvez um outro mostrar de ligas, diferente, também, daquele de Luísa, do Primo Basílio. «Eu não Madame Bovary», diz Ema no filme.

E vem tudo isto a propósito de Madame de Bovary, de Flaubert, que releio não tanto para apreciá-lo enquanto modelo do romance de época, mas sobretudo para confrontá-lo – o que penso fazer a seguir – com essa espécie de «enciclopédia da estupidez humana», segundo o próprio Flaubert, que é Bouvard e Pecuchet (admirado por Borges que não se cansou de o elogiar: «É um dos livros mais fortes que conheço.») -, publicado em 1881,  precisamente para dinamitar, despedaçar (Enrique Vila-Matas) aquela perfeição naturalista.