No outro lado do poema absoluto

 

abismo

Regresso a Herberto Helder, iluminado, ainda, pelos rastos do fogo lento da combustão das palavras da derradeira – ou talvez não – súmula da sua obra poética, alargada, agora, com uma secção inédita de 70 páginas, a cujo todo deu o nome de A faca não corta o fogo. E dizer que regresso, é apenas um modo de dar conta da temporalidade deste blogue, para a qual o próprio título, de referência temporal, imediatamente remete, porque no que se refere à obra de Herberto Helder, essa é aversa a qualquer tentativa de arrumação diacrónica, na medida em que a sua temporalidade é apenas sincrónica, logo sem possibilidade de regressos, antes caminhando para o poema do «abrupto sentido, o poema absoluto», onde habita o caos.

E vou, de novo, percorrendo como um funâmbulo da leitura «a sensível cadeia das coisas que transitaram, correntes da terra para as correntes do poema». Como ler Helberto Helder, se não como um funâmbulo roçando o abismo onde habita o espírito do fogo? E dali, daqui, sobre o precipício do «poema absoluto» donde se abarcam as regiões do «terror» – a que só se acede através do idioma orgânico, escatológico, mineral e vegetal do poeta -, deixar-me, então, como agora, sucumbir diante o «extremo exercício da beleza» deste livro final que persegue o cosmos platónico, tão próximo já do programa de Mallarmé do livro por vir ou da parábola da biblioteca borgeseana que lhe é homóloga.

«Poema absoluto», mas cuja totalidade e perfeição, incessantemente procurada pelo demiourgos Herberto Helder, se revelará, se me revela agora, já no outro lado do abismo, inacessível. Porque apesar da proposição nietzschiana perseguida por Herberto Helder, Deus é indestrutível até mesmo ante o «extremo exercício da beleza» que habita nas profundidades deste poema quase absoluto que foi deixando para trás as falhas, o desperdício, o redundante.

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7 comentários

  1. Olá meu amigo, continua a falar do Herberto Helder e eu, por um descuido e uma viajem fiquei sem livro, o livro em Lisboa está esgotado. Por isso queria pedir-lhe um grande favor, no caso de ainda estar disponível na sua terra e arranjava um livrinho para mim, se for possível, eu ia estar-lhe muito agradecido, mas muito mesmo.
    um abraço

  2. ramonpibanez@yahoo.es

    outro abraço.

  3. Também aqui, em Portimão, o livro se esgotou rapidamente. Lamento não me ser possível ajudá-lo.

  4. Herberto é Herberto. Melhor só – mesmo – o António Franco Alexandre. ( refiro-me ao vivos …).

  5. por aqui também….para concordar com o leitor que me antecede…..

    e PARABÉNS …..pelo extremo bom gosto.

    beijo JV.

  6. …todos os dias, a caminho do liceu seguia pela mesma rua. Ao lado de uma capela, uma casinha pequenina com uma placa à entrada : aqui nasceu herberto helder…. um suspiro… e voltava todo o mundo à rotina outra vez…

  7. Adorei conhecer este bem cuidado blog, com assuntos diversos e bem estruturados.

    JU


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