Os livros dentro dos livros

 

Encontro sempre outros livros nos livros que leio. E leio-os procurando escapar às tentações hermenêuticas que sustentam uma certa leitura crítica, profissionalizante, controladora do sentido dos textos através de uma axiomática que procura iluminar o oculto, e que Foucault descrevia como uma «vontade de verdade». Não, não vou por aí, perseguindo a ilusória linha contínua da hybris do novo iluminismo. Prefiro os labirintos benjaminianos embebidos na tinta dos livros.

E, por isso, prefiro os livros onde se recorta a trama da vida, com as suas cesuras que remetem para outras vidas contadas noutros livros. Gosto, então, de livros onde ecoam outros livros, outros autores, outras tramas. Livros que remetem, que aludem, que citam. Livros onde um só fragmento, uma evocação pode levar a outros caminhos que neles se bifurcam. Livros que trazem consigo o estigma dos cruzamentos, da enxertia. Livros que engendram novos livros. Livros de fronteira cuja essência reside na sua travestização genóloga. Livros, ainda, que são por si só uma biblioteca inteira e que, por isso, leio para saber o que os seus autores leram. Livros- labirinto que transformam qualquer limitada biblioteca na interminável biblioteca laboriosamente construída por tradutores, exegetas, anotadores, interpretes, bibliotecários que habitam os contos de Borges. Também por escritores sem qualidades. E outros doentes da literatura obcecados pela vontade de citar, glosar, anotar, comentar textos alheios, exercitando, assim, através da apropriação das palavras alheias toda uma «poética enciclopédica».

Todas as leituras são provisórias, porque nunca relemos um livro da mesma maneira que o lemos da primeira vez. Ou porque relemos cada livro como se estivéssemos a ler um livro que nunca tivesse sido lido. Procuro, assim, escapar à imanência do texto, através de uma hipertextualidade não tecnológica, perscrutando na geografia do acaso de cada texto o ponto e a ponte de passagem para outros textos. «Perder-se numa cidade como se perde numa floresta exige toda uma educação», escreveu Walter Benjamin. Sim, perder-me num livro e reencontrar-me noutro. Não para me confortar, mas para abanar convicções. A leitura, então, como experiência do mundo, mesmo que o livro seja um clássico, até porque, por definição borgeseana «clássico é aquele livro […] que decidimos ler como se nele tudo fosse […] tão profundo como o cosmos e sujeito a todas as interpretações». Ou aquele onde, ainda, «surpreende que um rasto já há muito extinto no ar ou na água possa continuar visível, aqui, no papel». Nada está oculto nesta definição de leitura oferecida por W. G. Sebald. Nada está oculto nos livros que me são dados a ler, pois neles também se faz e desfaz, à medida que os leio, – como escreveu George Bataille – a «experiência interior que corresponde à necessidade em que me acho em cada momento».

Por isso, porque por contaminação literária também reescrevo os livros que leio, renego aquilo a que Gilles Deleuze chamava de «interpretose» e que continua a assolar a crítica universitária contemporânea. Porque é preciso nunca falhar a ocasião da leitura, o que só acontece se soubermos adentrarmo-nos nos mundos paralelos que se bifurcam nos livros. Não em todos, claro, apenas naqueles que escolhemos como quem escolhe um bem precioso. Esses são os livros que leio e sobre os quais, numa fulguração momentânea, até mesmo Kafka, contrariando todos os seus intérpretes futuros, escreveu: «atravessando as palavras há restos de luz».

Metablogue (II): da escrita

 

No Diário de Susan Sontag leio uma passagem que me faz retomar a breve reflexão do post sobre o método deste blogue: «Por que é importante escrever? Sobretudo por egoísmo, suponho. Porque quero ser essa personagem, um[a] escritor[a], e não porque haja algo que deva dizer. Mas por que não também por isso? Com um pouco de construção do ego – como mostra o “fait accompli” destes [blogues] – emergirei lá mais para a frente com a confiança de que tenho algo a dizer, algo que deve ser dito».

Descontando qualquer veleidade literária, pois não pretendo confundir-me com essa personagem, esse escritor, talvez, apenas, com o escrevente de que falava Rooland Barthes, se adoptar esta anotação de Susan Sontag, estarei, afinal, a dizer que, apesar de só querer mostrar, também desejo ter algo a dizer. Mas um dizer que é feito do que cai dos livros, perseguindo, como escreveu W. G.  Sebald, «um rasto já há muito extinto no ar ou na água [mas que continua] visível, aqui, no papel». Portanto, montagem literária, como construção do ego, mas que só valerá a pena se for reconhecida a sua pertinência, em termos de aproximação aos que me poderão ler, sobretudo os amigos, e como marcação quase diarística de um leitor sem qualidades.

[foto ao alto: John Chillingworth [ Second Hand Bookshop ] 1951]
  • O ESCREVENTE

    Um blogue de João Ventura® (joaobventura@yahoo.com) «fora das coisas civis e na mais pura região da arte» [Joseph Joubert]
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