Quanto pesa uma mala cheia de livros?

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«Há episódios na vida ditados por uma discreta lei que nos escapa», eis a frase com que Pasavento/Vila-Matas pensava começar uma conferência em Sevilha sobre a relação da realidade com a ficção e que, se este post fosse um ensaio sobre as estranhas coincidências da vida, utilizaria como epígrafe, pois dessas pequenas coincidências que irrompem no nosso quotidiano se alimentam as ficções que cada um constrói para si. Auto-ficções, portanto. Mas não, trata-se apenas de um post de momento sobre a arte de desemalar livros comprados em viagem, na circunstância em Paris, e que trouxe comigo numa mala cheia que lentamente fui desemalando e arrumando nas prateleiras da minha biblioteca, isto é, subtraindo-os à desordem da mala escancarada para lhes ir dando uma ordem próxima da do coleccionador que é a do sentido que cada um daqueles livros convoca na sua relação de vizinhança com os que já se encontram dispostos e no catálogo de leituras  que carrego comigo.

Sim, Walter Benjamin escreveu um artigo sobre isso, onde evoca, entre considerações sobre a arte de coleccionar livros,  o momento que antecede o arrumar dos livros que, continuamente, em pesadas caixas,  transportava consigo para os lugares para onde o conduziam as suas errâncias, voluntárias umas vezes, por motivos de estudos – Berlim, Friburgo, Munique, Marselha, Bergen, Ibiza -, forçadas outras, como a que o levaria a viver em Paris – um «lugar de trânsito» –  até à dramática fuga para Lisboa onde nunca chegaria porque as suas asas de borboleta nocturna falhariam o último voo, incapazes de o levarem para fora daquele quarto de hotel, na pequena localidade de Port Bou, onde deixaria, pousada no chão, ao lado da mesa de cabeceira, a mala preta em que transportava os últimos «labirintos de tinta embebidos nos seus cadernos». Onde deixara ele os seus livros, dos quais, com mágoa, tantas se vira apartado,  para, depois, experimentar nos lugares da sua errância, a felicidade de novas aquisições, como aquele Enfer de la Bibliothèque National, organizado por Guillaume Apollinaire que encontrou num alfarrabista, em Paris? Que destino para os seus livros guardados por amigos, em Svendborg, e enviados, em 1938,  para Paris, onde viriam, em 1940, a ser confiscados pela Gestapo e enviados para a Alemanha, onde, em 1945, seriam encontrados pelo Exército Vermelho que os enviaria para Moscovo, donde seriam, depois, transferidos, para a RDA? O que se terá perdido desta biblioteca que, sabe-se, pesava «469 quilos», mas cujo peso subjectivo atribuído pelo coleccionador ficará para sempre indeterminado?

Mas onde, até aqui neste post, essa coincidência de que falava no início cuja lei nos escapa? É que, sem o saber, trouxe comigo de Paris,  na minha mala de viagem, Je déballe ma bibliothèque – esse o título da tradução francesa do artigo de Walter Benjamin sobre o desencaixotar de livros e a arte de coleccionar -,  sem, contudo, saber que o trazia, pois, alguém, na circunstância a minha mulher, o arrumou junto dos outros que, esses sim, comprara nas minhas deambulações pelas livrarias parisienses, em busca de outro livro de Benjamin, o das Passages, que acabaria por comprar na Arbre à Livres, da rue Moufettard. Tal como Benjamin, e como tantos de nós, enfermos do mal de Montano, também eu errara por Paris em busca de livros não editados por cá para preencher vazio na minha biblioteca e, no final, me encontrara diante do balcão de check-in temendo que a pesada mala ultrapassasse os vinte quilos permitidos para a bagagem de porão, não contando com o que já levava na bagagem de mão. É que – como desabafou Margarete Steffin, em 1934,  em casa de Brecht, em Svendborg, na Dinamarca, quando recebeu, cinco ou seis caixas de livros postas em trânsito por Benjamin que pesavam «469 quilos», –  «os livros são terrivelmente pesados». Os meus nem tanto, embora só tenha ficado descansado quando o mostrador da balança assinalou 17 quilos e 50, sendo que mais ou menos dois quilos seriam para atribuir às duas garrafas de Château Pavie, colheita de 1989,  o excelente Saint-Émilion que me fora dado beber na dobra do ano, o que me colocaria perante um dilema de difícil solução caso tivesse de optar entre levar, por exemplo, os volumes de L´homme sans qualités, de Robert Musil que, finalmente, comprara, cansado de esperar pela anunciada edição portuguesa, que começo a duvidar se algum dia sairá face às novas qualidades, mais mercantilistas, da editora que se propôs editar a obra completa do escritor austríaco.

Este, então, um post, sugerido por um livro que pesa não mais do que umas duzentas gramas – trata-se de uma edição de bolso -, mas cujo peso subjectivo já é imenso, pois trouxe-me a esta divagação sobre um Benjamin bibliófilo menos conhecido. Daí, porque não, a pertinência desta espécie de metrologia da leitura que venho esboçando aqui, cujo alcance só nos apercebemos diante no derradeiro momento quando diante balcão de check-in somos confrontados com o peso a mais na mala cheia de livros. É que para além do peso subjectivo que atribuímos a cada livro e que determina as nossas escolhas, há, ainda, outro peso, o peso físico, que influencia a quantidade de livros a transportar na mala de viagem e, logo, as nossas opções de compra no estrangeiro. Ajudaria aqui, talvez, a existência de uma espécie de crítica quântica para enfrentar os livros a comprar para levar na mala de viagem, «no sentido de uma endossocio-metrologia, associada à economia (porque o peso a mais no momento do check-in traduz-se no aumento do custo efectivo livros adquiridos), capaz de influenciar as nossas decisões no momento da compra.  A mesma crítica teria ainda de ser capaz de,  no caso de extravio da mala cheia de livros, determinar qual o valor da indemnização a conceder ao viajante-leitor,  juntando elementos de cálculo que tivessem em conta a perturbação causada por tal perda. Disparatado. Claro. Mas que dizer, então, também, da crítica económico-literária, surgida na Universidade de Bolonha, na Cátedra de Semiótica, dirigida por Umberto Eco, que visa enfrentar, por exemplo,  um livro,  através do cálculo dos custos associados à sua escrita, o que nos levaria a avaliar, por exemplo, o romance Debaixo do vulcão, de Malcolm Lowry, pela quantidade bebidas alcoólicas – setenta e sete bebidas diferentes – consumidas ao longo da alucinante narrativa. De acordo com uma equivalente lógica metrológica quanto me teria custado L´homme sans qualités, se tivesse que deixar o Château Pavie, o que não aconteceria porque pagaria o excesso de peso das duas garrafas,  ficando-me, assim,  a bom preço quer o romance quer o vinho.

Posto este post, trata-se, agora, então, de começar a arrumar os livros nas prateleiras, sem constrangimentos metrológicos porque a madeira de que é feita a estante aguenta qualquer peso e medida física; veremos se, também, a restante substância de que são feitos os livros.

Próxima estação

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«As estações de comboios deixam-me entrever um mundo que não conheço. A atmosfera que as envolve é mais subtil. (…) Gosto de estações de comboios porque elas vivem dia e noite», confessa Emmanuel Bove em Les Amis, o romance que comecei a ler, não numa estação de comboios, porque já não se viaja de comboio para Paris, mas num aeroporto que pouco tem a ver com as estações de comboios que povoaram o mapa inter-rail da minha adolescência. Santa Apolónia, Atocha, Austerlitz, Termini… Por isso, também eu gosto de estações de comboios; e, por isso, ainda hoje, quando visito uma qualquer grande cidade, gosto de entrar nelas, olhar os painéis das partidas e chegadas, deambular nos cais, observar os que chegam e os que partem.

Há uns anos viajei de avião para Leipzig onde devia apanhar um combóio para Weimar. Mas como cheguei à estação já noite alta, quase madrugada, e só havia comboios para dali a algumas horas, deixei-me ficar por ali naquela estação onde todos os comboios já tinham partido, mas onde, misteriosamente, permanecia ainda o cheiro do último comboio a vapor que, por certo, já tinha partido há muitos anos, pois as linhas há muito que eram electrificadas. Esse o segredo mineral das estações de comboios que me lembram o pequeno mundo organizado de partidas e chegadas da minha infância que misturava a mecânica das velhas locomotivas com a do diesel das novas automotoras manobrando com um rumor metálico sob o olhar ocioso dos Boves que, entre passageiros apressados e grandes sacos de correio, erravam na pequena estação de província para onde me esgueirava depois da escola. 

Lembram-me ainda que muitos anos depois encontraria a mesma estação de comboios rigorosamente vigiados da minha infância no romance de noventa páginas Bohumil Hrabal, cuja acção se passa na Checoslováquia, no final da Segunda Guerra Mundial, e que repete o mesmo pequeno mundo de chefes-de-estação, factores, agulheiros, maquinistas, carregadores, cobradores de bilhetes e passageiros de segunda classe onde cresci. A mesma estação de comboios que voltaria a encontrar naquele romance de Italo Calvino, Se numa noite de Inverno um viajante, onde, numa noite de chuva, um passageiro desembarca numa estação ferroviária que me deu «a impressão de recuar no tempo, de uma reocupação dos tempos e dos lugares perdidos, ou então um faiscar de luzes e de sons» que eu julgava perdidos na estação embaciada da minha infância onde já não há comboios a manobrar pelos carris brilhantes a perder de vista. Por isso, como Bove, gosto da atmosfera subtil das estações ferroviárias, talvez, agora, à espera de um breve encontro como no filme de David Lean que revi há dias.

Uma vida crepuscular

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Ainda a minha semana parisiense. O que me foi caindo no avião em forma de anotações sem texto e que agora se transformam neste post de momento.

A duração das minhas viagens de avião mede-se pelo número de páginas dos livros que escolho para ler durante o trajecto. Umas vezes, uma viagem nocturna – de ida e volta – pode durar as 609 páginas de Los detectives salvajes, de Roberto Bolaño [Anagrama, 2006] que me levaram desde Lisboa via Zurique até Santiago do Chile e regresso, descontando os «sueños, no pesadillas, sueños musicales, sueños de preguntas transparentes, sueños de aviones esbeltos y seguros que [cruzam] Latinoamerica de punta a punta por brillante y frío cielo azul». Outras vezes, apenas as 172 páginas da edição de bolso de Mes amis, de Emmanuel Bove [Éditions Note bene, 2002], que dura a viagem entre Lisboa a Paris e volta, sem contar com o sono matinal, em ambos os trajectos, sobre os Pirinéus, interrompido pelas hospedeiras da Aigle Azur a perguntarem-me se queria café ou chá. 

Vou a Paris, então, numa viagem de 172 páginas, para dobrar o ano em boa companhia, levando comigo Les amis que Emmanuel Bove [1898-1945] escreveu em 1924 e a antecipação de errâncias por uma cidade que já não existe, embora a deambulação solitária do protagonista aconteça num mapa que me é sempre familiar: «J´aime errer au bord de la Seine. Les docks, les bassins, les écluses me font songer à quelque port lointain où  je voudrais habiter». Também eu, em Paris, gosto de errar ao longo dos cais do Sena e para lá me leva este voo de 172 páginas. Vou, acompanhado, ao encontro de amigos que vão estar à minha espera no aeroporto, ao contrário do que sucede a Victor Bâton, o alter-ego de Bove que, igual a um vagabundo solitário, se passeia pelas ruas cinzentas de Paris com uma obsessão boviana pela amizade que vai falhando como se tal sortilégio lhe fosse para sempre vedado: «La solitude me pèse. J´aimerais à avoir un ami, un véritable ami, ou bien une maîtresse à qui je confierais mes peines».

E à medida que o avião avança, este Bove crepuscular, passeante sem escapatória de ruelas becos e parisienses que leio pela primeira vez – e que me foi oferecido por Enrique Vila-Matas que mo apresentou logo na capa de Doutor Pasavento, numa fotografia tirada no Jardin du Luxembourg onde aparece com a sua filha Nora, de sobretudo escuro e chapéu  , vai-se parecendo cada vez mais com o passeante Robert Walser, só que Bove mais solitário que aquele, porque – ao contrário do escritor suíço que aos domingos dava longas caminhadas pelos arredores do sanatório de Herisau na companhia do seu amigo Carl Seeling – falhou sempre a sua busca obsessiva de amizade.

Bove, o Walser de Paris, portanto, sem «point d´amis», perdido no meio da chusma humana dos boulevards que passa sem o ver, mas que lhe dá a verdadeira medida da sua solidão. Emmanuel Bobovnikoff, Bove, o inventor da auto-ficção naturalista, descendo a rue Saint-Jacques desde o seu hotel no número 298 – que já não existe -, metendo depois pela rue Soufflot, para ser detido mais adiante pela polícia de Clemenceau. Bove, ocioso, sob a máscara de Bâton: «Un homme comme moi, qui ne travaille pas, que ne veut pas travailler, sera toujours détesté. J´étais dans cette maison d´ouvrier, le fou, qu´au fond, tous auraient voulu être. J´étais celui qui se privait de viande, de cinéma, de laine, pour être libre. J´étais celui qui, sans le savoir, rappelait chaque jour aux gens leur condition misérable. On ne m´a pas pardonné d´être libre et de ne point redouter la misère». Bove, pelos passos de Bâton, errando livremente pela rue de Seine, pela rue Gît le Coeur, que levam ao parapeito do Sena.

Ou Bove, «o Walser da rue Vaneau», como pensou Vila-Matas, por aquele ali ter vivido – teria? – na mais estrita solidão, durante o ano de 1928, no rez de chaussé do mesmo prédio onde vivia também André Gide. Sempre la bonne rumeur – diria Bove – da rue Vaneau, que cabe na minha estante dentro de um livro de Vila-Matas, nela cabendo também o mundo inteiro. E por isso, enquanto vou folheando este relógio de páginas que escolhi para medir o tempo deste voo, decido que num qualquer dia desta semana parisiense terei de ir à rue Vaneau, onde para além de Gide e Bove viveram ainda Marx e Saint- Éxupéry e se alojam, hoje, no Hotel de Suède, os escritores do editor Christian Bourgois, logo Lobo Antunes incluído, nas suas passagens por Paris, o que faz dessa rua um estranho tecido de destinos e de obras, a cujo significado só poderá aceder quem «viva já nas costuras do ruído mundano». As mesmas costuras que depois de ler Doutor Pasavento haveriam de me levar à estrada de Damasco. Mas isso são outras imbricações que apenas os que vêem neste blogue uma modesta tentativa de auto-ficção poderão, talvez, descortinar. Já a comparação de Bove com Walser que aqui se foi intrometendo me parece mais verosímil. Se não, digam-me lá se esta possibilidade de apagamento do sujeito na rua não faz lembrar Walser? «J´errai dans les rues, l´âme joyeuse et vivant seule, sans les yeux».

E sobre Bove, escreveu Peter Handke, num dia de chuva, em Petit-Clamart, nos arredores de Paris, uma carta-prefácio que seria enviada, depois, desde os correios de Bièvre para Jean-Luc Bitton, co-autor (com Raymond Cousse) da biografia [La vie comme une ombre, Le Castor Astral], «[qu´il] devrait devenir le patron-saint des écrivains (purs), plus que  Kafka, et de la même façon que Anton Tchecov et Francis Scott Fitzgerald». E aqui a imbricação entre a realidade de estar agora num avião que avança para Paris, a ficção do livro que vou lendo e um prefácio à biografia do autor, escrito e enviado, precisamente, da mesma localidade onde irei ficar nesta semana parisiense, Bièvre, o que mais uma vez vem mostrar que as coincidências nunca são acidentais, e que até numa crónica se podem «plasmar as estranhas combinações estranhas da vida», como disse Gerard de Nerval que não me consta que tenha andado por Bièvre, mas que também era dado a errâncias parisienses. Assim, terei escolhido Bove para ler no avião porque vinha para ficar em Bièvre ou ficarei em Bièvre porque trouxe comigo Bove que me levou a Jean-Luc Bitton que me levou a Peter Handke que escreveu um prefácio bièvrois para a biografia de Bove? O que sei, no final deste livro  é que voltarei a errar por aí com este Emmanuel Bove crepuscular.

Da banalidade do mal

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Gonçalo M. Tavares é, talvez, o mais anti-bartlebiano dos escritores portugueses contemporâneos. E por isso, incapaz de figurar na genealogia da negação da escrita elaborada por Enrique Vila-Matas, em Bartleby & Companhia. Pelo contrário, os vinte e três títulos de poesia, romance, contos, ensaio e teatro publicados em apenas seis anos, levam o escritor catalão a afirmar estarmos em presença de «um bairro portátil, uma espécie de Chiado literário que jamais arderá». Pessoalmente não estaria tão seguro assim no que respeita à combustão ficcional, pois numa esquina desse «bairro» há um umbral que dá para quatro abismos negros para onde inapelavelmente somos arrastados pelo mesmo vórtice de uma História que parece ter enlouquecido sem ter sido capaz, antes, de cumprir a «promesse de bonheur» anunciada pela modernidade precoce.

Como exploradores de abismos descemos às profundidades sombrias das quatro estações  [Um homem Klaus Klump (2003), A máquina de Joseph Walser (2004), Jerusalém (2005) e Aprender a rezar na era da técnica (2007)] onde impera a violência, a guerra e a crueldade e que no seu conjunto formam a tetralogia O Reino onde a História é reduzida a uma constelação de perigos e donde desapareceu toda a confiança no humanismo primitivo e na racionalidade iluminista presente nos romances filosóficos dos século XVIII. Neste reino do mal, que existe no lado de lá da literatura, Gonçalo M. Tavares descrê da racionalidade iluminista e da bondade humana e atravessando os mesmos abismos de Nietzsche, Robert Walser, Kafka ou Musil mostra-nos o lado sombrio da modernidade. De facto, «na esteira da ascensão do fascismo, do holocausto, do estalinismo e de outros episódios da história do século XX, podemos ver que a possibilidade do totalitarismo está contida dentro dos parâmetros institucionais da modernidade e não excluída por eles», escreve Anthony Giddens em As consequências da modernidade (Celta, 1992). Por isso, não há neste Reino a necessidade de qualquer tipo de explicação casual que possa conduzir-nos à interpretação do mal totalitário como rejeição dos limites morais tradicionais ou como patologia pessoal, antes a emanação do génio demoníaco das personagens. E nisto reside todo o desassossego que provoca esta descida ao Maelstrom do mal para onde os livros negros de Gonçalo M. Tavares  inapelavelmente nos arrastam, já que o ponto de vista do autor é o da superação humanista que rejeita a visão niilista moderna da oposição entre o bem e o mal, entre a natureza e a técnica, deixando-nos tiritantes sobre a corda faustiana estendida sobre os abismos da história contemporânea e sem possibilidade de redenção.

O romance Aprender a rezar na era da técnica [Caminho, 2007], que encerra a tetralogia O Reino, narra a história de Lenz Buchmann, um cirurgião prestigiado que, em obediência à sua educação militar, encara a doença como um inimigo a combater com recurso a uma estratégia guerreira; simultaneamente, considera o corpo uma máquina sujeita a um funcionamento específico e a doença como uma disfuncionalidade de células que apenas a competência técnica poderá combater: «Os sentimentos não devem enferrujar o bisturi». Percebe, então, que a política se faz segundo a mesma lógica, mas que o seu poder sobre a humanidade é bastante maior. Por isso, Lenz troca o poder da medicina pelo poder da lei para impôr a sua ordem cortante a toda uma cidade que manipula com o bisturi da política, gerindo sem quaisquer escrúpulos as patologias da submissão que o medo real e fabricado desenvolve nos cidadãos. Lenz, o protagonista faustiano deste romance cortante – no sentido em que corta para observar primeiro a doença e, depois, a sociedade -, apercebe-se que o domínio que a instrumentalidade lhe faculta sobre o corpo doente pode ser alargado à sociedade através da política concebida como um instrumento de imposição totalitária. O subtítulo do romance, Posição no mundo de Lenz Buchmann, reforça a ideia da submissão da narrativa às patologias de posição que Lenz assume – cirurgião e político -, mas também à natureza do próprio poder repressivo exercido sobre os cidadãos, girando o romance à volta das noções nietzschianas de força e fraqueza que alimentam a crueldade de Lenz.

Mas há uma ambiguidade na excessiva tese heideggeriana de Gonçalo M. Tavares, quando Lenz é vitimado por um cancro, o mal supremo interior que nenhum bisturi pode curar, como se, no final, a natureza, numa derradeira irrupção destruidora, viesse vingar-se da técnica, recordando o verso de Hölderlin que diz «onde está o perigo está o que salva», com que Heiddeger termina o seu ensaio La question de la téchnique, publicado em 1953 e que acaba por mostrar, afinal, a fragilidade da instrumentalidade face à mortalidade. «Aquele que vai morrer despede-se daquele que já está morto», diz Lenz quando visita o túmulo do pai que se suicidara, antecipando a sua derradeira patologia de posição no mundo – a da fraqueza diante da doença e da morte -, o que parece fazer deslizar a narrativa, contraditoriamente, para um certo religioso, sempre brutalmente negado pela omnisciência da técnica, mas também, ambiguamente, sempre afirmado através do título do livro.

A questão da técnica é, então, central neste romance cujo título evoca o ensaio de Walter Benjamin A obra de arte na época da sua possibilidade de reprodução técnica [Assírio & Alvim] e nele podemos, ainda, encontrar alusões a Arnold Gehlen e a Heidegger. E Gonçalo M. Tavares analisa a questão da técnica do ponto de vista da sua indeterminação antropológica e da sua violência contra a natureza e contra as figuras históricas de que dependiam a ética e a moral: «Lenz não tinha ilusões acerca da terra que pisava: havia entre a natureza e o homem um ponto de ruptura que há muito fora ultrapassado. Existia uma luz nova nas cidades, a luz da técnica, luz que dava saltos materiais que antes nenhum animal conseguiria dar; e essa nova claridade aumentava o ódio que os elementos mais antigos do mundo pareciam ter guardado, desde sempre, em relação ao homem. […] a impermeabilidade à história, à mudança de condições era agrande arma da natureza e, nesse sentido, aí residia o seu perigo[…]. Existiam, ao contrário do que dizia a frase bíblica, coisas novas sob o sol, o que não existia era algo de novo sob a pele» (pág. 42-43). Este o novo paradigma que fragiliza a experiência humana contemporânea expondo os homens ao corte certeiro do bisturi quando se detectam disfuncionalidades orgânicas – e sociais -, capazes de fazer perigar a harmonia das células do corpo – e da sociedade. 

Que fazer, então, quando tudo arde na fogueira da técnica e nós, borboletas de asas trémulas, somos atraídos nesse vórtice de fogo donde não poderemos mais escapar? E para quê aprender a rezar numa era em que «se os crentes, ou os próprios padres, fizessem greve isso seria bem menos significativo e visível numa cidade do que uma greve de canalizadores ou electricistas. A boa circulação da água ou da electricidade torna-se, para o dia-a-dia, bem mais indispensável do que a boa circulação do sopro divino» (p. 217). Esta a ambiguidade do romance que ao mesmo tempo que parece negar toda a possibilidade redentora da espiritualidade e da religião, deixa no ar a tese heideggeriana de que «só um Deus nos pode salvar» que já reencontráramos na trilogia Matrix, dos irmãos Wachofsky.

Quanto ao estilo tavariano, é o que já conhecemos dos outros romances da tetralogia. Capítulos breves com títulos que evocam Musil, jogo de episódios onde entram personagens recorrentes com nomes alemães e centro-europeus, uma escrita límpida, quase clínica, que parece ela própria rasgada a bisturi como convém a um romance cortante, cirúrgico, o uso do itálico como marcação enfática nas frases mais cerebrais e, sobretudo, uma extrema economia de recursos – donde a ironia é convocada, não tanto a nível sintáctico, mas como procedimento de composição -, tudo conjugado para criar uma atmosfera de vertigem atravessada pela corda faustiana estendida sobre o abismo da técnica.

O passeante libertino

«Não há mais filosofia do que esta: deixar andar, tanto faz, hoje ou amanhã morremos todos, daqui a cem anos que importância tem isto, quem se lembrará de nós? quem se lembrará de mim?», escreveu Luiz Pacheco [1925-2008] em Carta a Fátima. Por isso, passeava-se, apressado, passo largo, pelos becos da vida, transportando na mão um saco plástico cheio de livros e as bombas para a asma, sem enganar ninguém quanto à sua condição de escritor indigente e leitor truculento, sempre com a grosseria e o insulto na ponta da língua, afiadíssima, lançando maldições a torto e a direito. 

Colaram-lhe o rótulo de escritor maldito, que ele rejeitava com ruído: «Raios afundem [os que], por ternura de simpatia, escárnio maldoso ou parvoíce me chamam escritor maldito» [Literatura Comestível, 1972]. Seria antes um escritor mal-dizente, sempre pronto a lançar petardos aos grandes e pequenos escritores do momento e, às vezes, mesmo aos amigos mais próximos – que o diga o Saramago cuja literatura disse estar «abaixo de cão» – que tinham de se precaver contra as suas hipotéticas maldições, como bem avisou Baptista Bastos: «Sei que, um dia destes, se lhe der na mona, ele dirá pessimamente de mim soltando casquinadas intermitentes, a sua forma de escárnio e mal-dizer». Segundo rezam as crónicas era um sátiro de meia tijela, libertinário – que é como quem diz, simultaneamente, libertário e libertino -, funâmbulo incongruente sobre todas as cordas da vida, incontinente verbal, provocador nato, aldrabão assumido, preguiçoso de vão de escada, vadio, pedinte, iconoclasta. Segundo o próprio seria uma espécie de «neo-abjeccionista», expressão que encontrou para atiçar a prolixidade taxonómica dos rotuladores de ocasião.

Morreu há dias, com 82 anos, num lar no Montijo, sem ruído, sem prémios, sem idolatrias, deixando atrás de si um rasto de livros, entretanto, esquecidos, muitas cartas inéditas e cáusticas entrevistas que João Pedro George organizou sob o título O crocodilo que voa, com publicação anunciada para breve pela Tinta da China. Como editor contrapontista, abriu o caminho para autores desalinhados no momento como Raul Leal, António Maria Lisboa, Mário Cesariny, Natália Correia e Herberto Helder.

Luiz Pacheco não fazia, não faz o meu género, nem na pele da provocatória personagem que construiu para si nem no estilo que cultivou, mas aqui e acolá dele li fragmentos admiráveis em Textos malditos [Afrodite, 1977], esses despojos da banalidade quotidiana que sob os efeitos de uma «euforia vínica» nos atirou à cara, embrulhados numa prosa aguda, escorreita, sem adornos. Ou então nessa descida dilacerada, mas sem pieguice, aos abismos da vida que constitui o conto Comunidade [Contraponto, 1964]: «Não sei nada. Duvido de tudo. Desci ao fundo dos fundos, lá onde se confunde a lama com o sangue, as fezes, o pus, o vómito; fui até às entranhas da Besta e não me arrependo. Nada sei do futuro, e o passado quase esqueci. Li muito e foi pior. Conheci gente estranha nesta viagem. Pobre gente: estupidos de medo, doidos espertalhões, toscos patarecos, foliões e parasitas da vida, parasitas (os mais criminosos, estes) chulos do próprio talento, desperdiçando tudo: as horas do relógio deles e dos outros e as virtudes deles e dos outros, e os defeitos de todos, que tudo tem seu calor e seu exemplo; ou frustrados falhados tentado arrastar os mais para o poço onde se deixaram cair por lazeira ou cobardia, impotência de criar (mas o coveiro nada perdoa!). Cadáveres adiados fedorentos viciosos de manhas e muito mal mascarados».

Numa das suas últimas entrevistas, à revista Visão, a propósito de um documentário para televisão sobre a sua vida, Luiz Pacheco disse: «Houve agora um filme aí … Eu recusei-me a ver, porque não vou agora desmentir o que eles lá dizem. Chamei àquilo filme-cangalheiro: morte minha e aquilo ia logo nessa noite para a televisão!». Não se enganou, na noite da sua morte, a RTP2 – quem mais poderia ser? – voltou a passar o excelente documentário Mais Um Dia de Noite, de António José Almeida que tomei como fonte para este post. No final, não pude deixar de recordar um aforismo do filósofo alemão Lichtenberg: «De entre todas as curiosidades que tinha acumulado na sua casa, ele mesmo acabava por ser a maior de todas».

Despedir-se à francesa

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Passei uma semana em Paris aproveitando o privilégio supremo que me foi oferecido enquanto forasteiro, que foi o de participar da banalidade quotidiana desta cidade que nunca se acaba sem lhe sentir o peso, e muito menos sem remorsos por me ter ausentado da outra banalidade quotidiana que vou habitando – essa sim, muitas vezes pesada – e que deixei suspensa na dobra do ano.

Gosto de Paris. Gosto de, ao entardecer, sob o zinco da esplanada do Café de Flore, enquanto vou observando a chuva oblíqua através das vitrines, folhear um livro acabado de comprar ali mesmo ao lado, na livraria La Hune; gosto de caminhar sem rumo preciso, por Germain-des Près, guiado apenas pela intuição do flâneur que me leva, depois, através da rue de Seine a cruzar o arco que dá para o Quai de Conti e para a Pont des Arts; gosto das bancas de livros ao longo dos cais; gosto da Île de Saint-Louis com as suas boutiques elegantes; gosto de deambular pelo Marais até à Place de Vosges, de tomar um chá na rue Vieille du Temple; gosto do mercado da rue Mouffetard e das suas bancas onde se vendem ostras com um forte sabor a mar, gosto do aroma forte dos queijos expostos naquela crémerie onde sempre entro, da livraria Arbre à Lettres onde, finalmente, encontrei o Livre des Passages, de Walter Benjamin; gosto, ainda, de errar por essas passages secretas, donde Benjamin via Paris como a cidade dos espelhos; gosto de me imaginar Le Paysan de Paris e, como Aragon, adentrar-me na cartografia de Paris e escutar a formidável ressonância das pequenas coisas que se mostram dissimuladas ao passeante.

Mas agora que estou de volta, reparo que, tal como confessava há dias Enrique Vila-Matas na sua crónica no El País, a propósito de lhe ocorrer, às vezes, despedir-se à francesa, também eu assim me despedi do ano findo, isto é, imitando o costume evocado pelo escritor catalão – costume considerado elegante, diga-se – da burguesia francesa do século XVIII que abandonava os salões sem saudar os anfitriões, o que seria uma maneira de afirmar que partiam a contra-gosto e que, por isso, tinham o propósito de regressar quanto antes a tão boa companhia. Fica esclarecido, então, que se me fui daqui sem avisar, não deixando os votos de Ano Novo àqueles que aqui costumam visitar-me, não foi por indiferença relativamente ao ano por vir, muito menos por má educação para com a companhia deste salão contemporâneo que é a blogosfera, mas sim uma maneira de dizer que também eu ia ali – na circunstância, a Paris – e já voltava e que não prescindia da boa companhia daqueles que aqui costumam vir ler o que me cai dos dias.

E, já agora, acrescente-se que esta escapadela à francesa evitou-me deixar aqui aqueles balanços de fim de ano a que sou avesso e que no caso deste blogue corresponderia a uma espécie de haver contabilístico dos livros lidos durante o ano ou, o que seria mais entediante, a um catálogo do tipo best of  dos livros publicados, aliás desnecessário, porque, entretanto, confeccionado até à exaustão em vários jornais, numa infrutífera tentativa de prolongar o ano mental para além das páginas dos calendários. É que esses catálogos de fim de ano recordam-me a passagem inexorável dos dias que não sabem que passam mas que passam sempre, com ou sem balanços, com ou sem celebrações, com ou sem despedidas de fim de ano.

Por mim, prefiro recordar os dias por vir, o mais além do tempo. O próximo encontro, portanto. E que melhor lugar para ter dobrado o ano, sem despedidas, mas com elegância, do que tê-lo feito nessa Paris que nunca se acaba, divagando sobre a luminosidade do champagne, não seguramente para me despedir do ano findo ou festejar o novo com abraços mais ou  menos efusivos, mas para ir entrando de mansinho nesse mais além do tempo como um expedicionário dos dias que aí vêm. Em Paris donde, dobrado o ano, regresso agora à vossa boa companhia, despedindo-me à francesa da boa companhia que também ali encontrei – com elegância portanto -, porque como escreveu Hemingway em Paris é uma festa, «Paris nunca se acaba, e a memória de cada pessoa que ali viveu é diferente da memória de qualquer outra».