O anjo da história

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Para que serve a literatura? Interroga-se W. G. Sebald no micro-ensaio Uma tentativa de restituição que integra o seu livro póstumo Campo Santo. «Talvez sirva apenas para nos lembrar, para nos ensinar a compreender que há estranhas ligações que a lógica casual é incapaz de explicar…», responde. Talvez sirva para dar conta da consternação do escritor ao ver que à sua volta tudo se desumaniza ou desaparece e que inclusive a própria História se desvanece, como observa Enrique Vila-Matas reportando-se àquilo que define em Sebald como uma poética da extinção. Talvez sirva para opor à obsessão moderna pelo esquecimento o imperativo redentor da memória, capaz, ainda, de deixar gravadas no papel um rasto, que não se extinguirá jamais, de um narrador em propulsão atravessando uma paisagem cuja topografia nos sacode, nos interpela, nos propõe uma meditação sobre um amontoado de ruínas, não para nelas sucumbirmos mas para cavar nelas a recordação, a invocação, o lamento, às vezes, a alucinação, vestígios incandescentes de instantes esquecidos que se negam a desaparecer irrompendo na paisagem devastada da nossa modernidade inacabada. 

«Escrever é a única maneira de me defender das recordações que tantas vezes e tão inesperadamente me avassalam. Ficassem elas presas na minha memória e o tempo torná-las-ia cada vez mais pesadas, acabariam por me esmagar», confessa Sebald em Os anéis de Saturno. Para isto serve, então, a literatura escavada por Sebald numa História enterrada viva, sedimentada em camadas de esquecimento, mas que palpita, ainda, sob o amontoado de ruínas que o viandante vasculha. Não para buscar qualquer hipótese de redenção que parece já não ser possível, não para se rebelar contra o nihilismo do existente, mas para afrontar com um olhar melancólico a vertigem do vazio da era moderna sem nele se despenhar. Até porque «grande é a distância entre o ponto onde hoje nos encontramos e esse final do século XVIII, quando a esperança de uma melhoria dos males da humanidade e a convicção de que esta seria capaz de aprender se inscreveram em letras bem desenhadas no nosso firmamento filosófico!» («Uma tentativa de restituição», in Campo Santo).

Talvez isso justifique o seu método de escavação do passado, «adoptando uma perspectiva histórica concreta, esculpindo pacientemente, juntando coisas aparentemente alheias umas às outras, ao jeito de uma nature morte» («Uma tentativa de restituição», in Campo Santo). «Uma espécie de metafísica da história através da qual a recordação voltava a ganhar vida» (Austerlitz (2001) nos sedimentos depositados em fortalezas, estações de comboios, colunas, manicómios, campos de concentração e extermínio paisagens, bolsas de valores. Rastos de sofrimento atestando «a sombria viragem da história». Fotografias que «surgem do passado como […] se tivessem memória e se recordassem de nós», libertando a aura benjaminiana de «um tempo que trás consigo um registo enigmático que remete para a redenção» (Walter Benjamin, Sobre o conceito de história). Correspondências, portanto, vestígios da recordação que a presença elíptica, em Austerlitz, de Proust (de La recherche), de Kafka (referência a um episódio biográfico de Kafka em Marienbad) e de Thomas Bernhardt (a natureza melancólica dos personagens) acentua.

Mas «até onde retroceder para encontrar o começo?» pergunta-se Sebald em busca da sua génese, em Nach der Nature (1988)/Sobre a natureza, o seu primeiro livro. «Quando no Dia da Ascenção/ de quarenta e quatro vim ao mundo,/ a minha mãe viu nisso um bom presságio, sem saber/ que o frio planeta Saturno regia a constelação/ do momento e que, sobre as montanhas,/ espreitava já a tempestade […] logo imaginei uma catástrofe silenciosa que ocorre/ sem que o espectador o perceba». Antes, a mãe com ele ainda no ventre tinha sobrevivido ao bombardeamento e ao incêndio de Nuremberga que Sebald haveria de contemplar cinquenta anos depois num «quadro de Altdorfer, / que representa a mulher de Lot/ e as suas filhas. No horizonte, / um terrível incêndio/ devora uma grande cidade. /O fumo sobe, /as chamas elevam-se ao céu/ e, no reflexo avermermelhado./ vêem-se obscuras/ fachadas de casas», resgatando da sua memória uterina a matéria das duas conferências que sob o título, Guerra aérea e literatura, proferiria em Zurique, em 1997, e que seriam, depois, publicadas postumamente em História natural da destruição (2003).

Quantas viagens a pé terá feito o caminhante saturnino dos seus livros nos escassos cinquenta e sete anos de uma vida prematuramente destruída numa curva de uma estrada de Norwich, em 14 de Dezembro de 2001? Sigamos os seus passos. Em Vertigem (1990): «Em outubro de 1980 viajei de Inglaterra, onde, vivia, então, havia quase 25 anos, numa região que estava quase sempre ensombrada por um céu cinzento, rumo a Viena, com a esperança de que uma mudança de lugar me ajudasse a superar uma etapa da minha vida particularmente difícil. Porém, em Viena descobri que os dias se tornavam demasiados compridos, agora que não eram ocupados pela minha rotina de escrever e tratar do jardim, e literalmente não sabia onde ir. Saía cedo todas as manhãs e caminhava sem rumo nem objectivo pelas ruas da cidade antiga…». Depois, prossegue a viagem através do norte de Itália. E ali indaga, interpela, alucina-se, escava vestígios da passagem de Kafka por aqueles lugares, convoca outras biografias de escritores, Stendhal, Casanova, Ernst Hölderlin, Robert Walser, Thomas Mann, Peter Weiss. Depois, em Os emigrantes (1992) relata uma viagem a Deauville em busca de algum «resíduo do passado» para confirmar que «essa praia outrora lendária está em pleno declínio como todos os sítios que hoje se visita, seja qual for o país ou continente, arruinados pelo tráfego automóvel, pelos estabelecimentos comerciais e por essa sanha de destruição sempre insaciável.»; e nessa viagem a pé, ainda, o pretexto para a evocação desoladora dos fugitivos e dos exilados que sob o signo da melancolia se vêem trasladados das suas terras de origem para os quatro cantos do mundo. Depois, em Os anéis de Saturno (1995) («Em agosto de 1992, quando os dias caniculares se aproximavam do fim, caminhei pelo distrito de Suffolk, com a esperança de dissipar o vazio que se apodera de mim de cada vez que concluo um trabalho») oferece-nos uma cadenciada meditação intercalada por breves ensaios tão diferentes quanto magistrais sobre Roger de Casement e as infâmias do regime de Leopoldo no Congo, as primeiras aventuras no mar de Joseph Conrad, a natureza da guerra, o ciclo de vida dos arenques, a destruição das grandes florestas do mundo. Finalmente, em Campo Santo (2003) – o trabalho que interrompeu em 1995 para escrever Austerlitz -, viaja pela Córsega reflectindo sobre a dor, o luto e a memória.

«Portanto, para que serve a literatura?» Para dar conta do que contempla, horrorizado, o anjo da história ao olhar, na curva do caminho, uma vez mais para trás. Para dar conta da consternação de Sebald contemplando, como Hölderlin, «um reino por demais abstémio onde impera o lamento enganador do lustro traiçoeiro, onde se contam as horas lentas de gelo e de seca e onde só suspiros prezam a imortalidade» («Uma tentativa de restituição», in Campo Santo).

[Ao alto Angelus Novus, de Paul Klee que inspira a tese benjaminiana da fatalidade histórica]

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A última caminhada

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«O meu primeiro passeio no dia seguinte à chegada a Piana levou-me para fora da povoação, por uma rua que começava logo a descer numas curvas, esquinas e ziguezagues medonhos, ladeando precipícios rochosos quase verticais…». Quem por ali vai caminhando é um narrador que dá pelo nome de W. G. Sebald, o passeante solitário e sensitivo que nos habituámos a seguir em peregrinações errantes através dos mapas devastados da nossa modernidade imperfeita. Na linha de Os anéis de Saturno, Sebald aproveita uma viagem à Córsega, durante uma férias de Verão, para percorrer os territórios de uma ancestralidade onírica, onde mora a melancolia, resgastando em quatro fragmentos de um trabalho inacabado – «todos eles autónomos, […] um espectro incompleto que não deverá corresponder exactamente ao que viria a ser o livro», como nos informa Sven Meyer, na introdução a Campo Santo, agora editado pela Teorema – a nostalgia de um tempo sedimentado em camadas de esquecimento ao qual ele volta a opor o imperativo da memória como condição de possibilidade redentora.

O método de Sebald é aqui, ainda, o da caminhada a pé enquanto contemplação, investigação e indagação numa paisagem devastada, com o propósito de buscar uma moral na natureza, meditar sobre estilos de vida desaparecidos, dar conta da consternação do mundo. Nesta derradeira viagem vai primeiro a Ajaccio, «o lugar onde o imperador Napoleão tinha vindo ao mundo», e na casa-museu que lhe é dedicada reflecte sobre as minudências imponderáveis que mudaram o destino da Europa. Depois, visita o cemitério de Piana onde as inscrições das lápides dos túmulos lhe inspiram uma dissertação sobre o desaparecimento do culto dos mortos, sobre a crescente insensibilidade moderna ao luto, a mal disfarçada pressa e mesquinhez com que nos despedimos dos nossos mortos, a exiguidade das suas habitações eternas, sobretudo «nas cidades que avançam inexoravelmente para um número de trinta milhões de habitantes! Para onde vão eles, os mortos de Buenos Aires e São Paulo, da Cidade do México, Lagos e Cairo, de Tóquio, Xangai e Bombaim? […] Quem se lembrará deles, quem se há-de lembrar?». Finalmente, a contemplação da paisagem fá-lo reflectir sobre a destruição dos antigos bosques alpinos da ilha transformados em reverberações nostágicas – «tempos houve em que a Córsega era toda coberta de floresta» – e a denunciar o «sanguinário desporto» da caça, comparando os caçadores às «milícias croatas e sérvias que lhes tinham destruído a pátria com o seu belicismo desvairado», oferecendo-nos a visão consternada de um mundo em vertigem, através de uma prosa meticulosa e cadenciada que oscila entre a reportagem, a crónica de viagens, o registo antropológico e a anotação de história política e social.

Completa o livro um brilhante compêndio de ensaios literários sobre Kafka, Nabokov, Bruce Chatwin e Jean Améry que constituem, a partir de agora, guias incontornáveis para a compreensão da obra de Sebald e que nos mostram a realidade que existe para lá da literatura mas a que só acedemos se nos transformarmos em caminhantes solitários e sensitivos dos livros que resgatamos da memória para neles nos adentrarmos, uma e outra vez, transfigurados em personagens de uma trama que já não sabemos se lida ou vivida, como na recreação nostálgica da viagem de Kafka e Max Brod a Paris – Via Suíça para o bordel -, que desencadeia em Sebald a recordação da viagem que em criança fizera com a mãe atravessando os mesmos cenários descritos por Kafka nos seus Diários.

Autobiografia oblíqua

 

A história já foi contada em várias ocasiões pelo próprio Sérgio Pitol que «vagamente intuiu a sua vocação para a literatura num engenho açucareiro veracruzano» durante uma infância trágica. «[…] Uma criança que aos quatro anos perdeu os pais, quase sempre doente, a cargo de uma magnífica avó» a quem deve a iniciação literária. «Comecei com Verne, Stevenson, Dickens […]. A partir de então tudo ganhou sentido: Verne converteu-se numa fonte prodigiosa de revelações. Viajei com ele ao centro da terra, à lua, ao coração de África, ao Amazonas, ao Orinoco, à Antártida e ao fundo dos oceanos. Com ele naveguei no Nautilius e contemplei o rosto da terra com olhos de albatros». E, depois, pela vida fora, não mais deixa de ler, mantendo com a literatura uma relação «visceral, excessiva e também selvagem», como ele próprio confessa.

Desde cedo, também, se torna num escritor de culto, desses que se dão conhecer de boca em boca e que não pactuam com a mundaneidade literária como o fizeram alguns escritores do boom, como Fuentes, García Marquez ou Benedetti. À escrita junta a errância pelo mundo, viaja escrevendo e escreve viajando: «soltar amarras, enfrentar sem medo o mundo grande, arriscar tudo foram decisões que, em fases sucessivas, me modificaram a vida e, portanto, o meu trabalho literário. Nesses anos de errância ganhou forma o corpo da minha obra», confessa numa entrevista recente. Admirador de Jorge Luis Borges, Juan Carlos Onetti, Alejo Carpentier e Juan Rulfo, Sergio Pitol foi, ainda, leitor obsessivo e tradutor dos escritores polacos que foi descobrindo durante os anos em que viveu em Varsóvia: Joseph Conrad, Witold Gombrowicz, especialmente o do período argentino com os seus soberbos diários e os últimos romances, e «o mais genial de todos», Bruno Schulz, autor de As lojas de canela (Assírio & Alvim), aos quais emprestou sonoridades castelhanas.

Como Tolstói, confessa que apenas sabe escrever sobre o que conheceu e viveu pessoalmente. Por isso, a sua obra alimenta-se das experiências que a sua memória guardou, constituindo uma espécie  de biografia paralela: «Um espectro das minhas preocupações, momentos felizes e desafortunados, leituras, perplexidades e trabalhos», escreve em El arte de la fuga; e, depois, em O mago de Viena: «Os meus movimentos interiores: manias, terrores, descobertas, fobias, esperanças, exaltações, necessidades, paixões constituiram a materia prima dos meus livros».

Mas como Musil e Broch, Pitol não procura iluminar o que vê, mas sim transfigurar o que o rodeia – o nevoeiro que só se enxerga sem óculos, esse ruído complexo e disperso do mundo, as palavras soltas que chegam a um ouvido débil e receptivo – e dar-lhe forma através da escrita. Por isso, El arte de la fuga começa com a descrição miope de Veneza, a cidade dos seus antepassados, depois de Pitol ter perdido os óculos, no que – como conta Enrique Vila-Matas no seu relato da viagem imaginária que juntos fizeram desde México DF para Madrid onde Pitol iria receber o Prémio Cervantes de 2005 – se tornaria reincidente, talvez mesmo fazendo dessa tendência um método particular de apreensão do real: «Via e não via, captava fragmentos de uma realidade mutável». Para poder captar o que há no mundo, é preciso esquecer os óculos do quotidiano. Ou, mais adiante, no ensaio El oscuro hermano gemelo, descreve um jantar onde as conversas mais interessantes lhe chegam através do ouvido esquerdo, precisamente aquele de que ouve mal, imaginando frases fantasiosas a partir das vozes dispersas que chegam do lado errado da mesa. Ou, ainda, em Vindicación de la hipnosis, quando recorda a morte da mãe numa sessão de hipnotismo. Como se a realidade só pudesse ser apreendida através da sua representação, criando zonas de penumbra, fendas, abismos que o leitor poderá explorar por sua conta e risco. Sem óculos, preferencialmente.

Escritor transgressor de géneros, com a exarcebação permanente de um estilo pessoal que escapa às classificações canónicas e uma enorme agilidade narrativa que convoca anotações autobiográficas, fragmentos de diários, reflexões sobre arte, crónicas da actualidade, viagens e evocações dos autores da biblioteca do seu quarto obscuro (Chekov, Nabokov, Beckett, Gombrowicz, Borges, Gadda, Mann, Musil, Canetti, Monsiváis, Kafka…), definiu o seu estilo como uma autobiografia oblíqua que atravessa a sua «trilogia autobiográfica»: El arte de la fuga (Anagrama, 1997), El viaje (Anagrama, 2001) e El mago de Viena (Pre-textos, 2005), todos eles uma mistura de ficções, sonhos, ensaios, diários, leituras de toda uma vida e outras predestinações retiradas da caixa mágica chinesa a que se assemelha a sua obra caracterizada pela mais absoluta insularidade estética.  

Longe de Coyoacán

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«A nostalgia de um lugar enriquece-se sempre desde que se guarde como nostalgia», escreve Enrique Vila-Matas no seu desassossegante romance, Longe de Veracruz, que volto a folhear à procura de espirituosas anotações mexicanas para um post a haver. Assim permanece para mim, Coyoacán, aquele bairro de México DF que revisito agora nas fotografias que guardo no meu álbum mexicano.

Lembro-me que fui de metro a Coyoacán para visitar a casa de Frida Khalo. Fui como quem vai a Comala. E fui, ainda, porque tinha lido no livro de Enrique Vila-Matas que aí, na praça La Conchita, ficara a viver Sergio Pitol, o escritor mexicano e viajante impenitente que aos vinte e oito anos partira do porto de Veracruz numa viagem de alguns meses à Europa para só regressar vinte e oito anos depois, já não ao porto de partida metafísico, mas à paisagem degradada do DF que haveria de abandonar para se instalar, por fim, na chuvosa Xalapa, muito próximo da sua terra natal e de Potrero, o lugar onde passara a sua infância e fizera a sua educação literária.

E, ao primeiro entardecer, na praça central de Coyoacán, enquanto defrontava um grupo de crianças indígenas esquálidas e andrajosas propondo-me a compra de bonecas de pano pobremente executadas, pareceu-me tê-lo visto a passear entre canteiros de orquídeas levando pela trela o seu cão Sacho. Mas equivocava-me porque nessa altura eu ainda não tinha descoberto Pitol a quem cheguei tardiamente e, por isso, se o visse também não o reconheceria. E mesmo que já o tivesse descoberto, certamente não o encontraria ali, porque à data da minha ida a Coyoacán, já Pitol se tinha escapado do céu artificial do DF, «uma cidade […] desconhecida, uma paisagem degradada, um céu inexistente», dando-se como desaparecido em Xalapa para ler e escrever e, de vez em quando, «sonhar em caminhar outra vez por algumas ruelas de Lisboa, de Praga, de Marienbad, de Veneza…»

Não o encontrei, portanto, em Coyoacán, porque cheguei tarde aos seus livros e não poderia, então, imaginar que Pitol pudesse andar por ali, naquele parque de Coyoacán, disfarçado de passeante com um cão que não dava pelo nome de Sacho como pude comprovar quando o animal se soltou e o dono o chamou de volta, o que agora me parece a prova irrefutável do meu equívoco. Mas por estes dias em que vou lendo El Arte de la fuga (Anagrama), esse compêndio de viagens, encontros, efabulações, sonhos e ensaios que comprei numa escapadela a Madrid, vou desenhando a cartografia impossível da sua errância através de uma geografia desordenada, tornando-se a sua prosa andarilha tão aditiva para mim como para ele foram durante muito tempo as suas viagens à volta do mundo.

Um tequila eloquente

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Garanto que não queria continuar a escrever sobre éteres mexicanos, para não atribuirem ao tequila, que raramente consumo, os estímulos espirituosos para os posts que aqui vou destilando. E a prová-lo, a circunstância de em cada uma das duas garrafas de Herradura que trouxe do México, restar ainda metade do seu líquido dourado; e do mezcal, apenas conhecer aquele que tomei com o «cônsul da embriaguez» em cantinas decadentes debaixo do vulcão. É que nisto das bebidas – que não na literatura -, embora não abstémio, assemelho-me a um sóbrio. 

Mas uma crónica do escritor mexicano Juan Villoro – também ele um sóbrio, mas só no que respeita a tequilas e outros álcools-, que encontro por acaso na net, convida-me, agora, para um tequila eloquente. Um tequila culto cujo nome, El Diablo, propõe o inferno sincero aos paraísos artificiais; e que, no verso do rótulo, para ser lido através da transparência dourada do líquido, como um peixe embriagado num «aquário ardente», oferece um poema de Eduardo Hurtado que nos recorda as irregulares qualidades etéreas do tequila: «El Diablo inventó los sueños/ la lujuria y el tequila,/ al fondo de esta botella/ duermen pasiones y asombros,/ mil años de amor punzante,/ las nubes en las cañadas/ y otras cosas intranquilas.»

Onde guardar, então, esta garrafa? Na garrafeira ou na livraria?

Outros abismos mexicanos

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E neste exercício de economato literário, como lhe poderia chamar Enrique Vila-Matas, à medida que vou sublinhando no livro de Lowry os nomes das setenta e sete bebidas consumidas debaixo do vulcão, imagino-me de novo em Cuernavaca, agora no Dia dos Mortos, ao crepúsculo, sentado de frente para os vulcões gémeos replandescentes de neve, na esplanada de Las Mañanitas, bebendo uma coronita gelada – essa clara cerveja mexicana que vem numa garrafa transparente e que, às vezes, no Verão, também ao crepúsculo, gosto de beber sentado no meu terraço sob um céu que se vai quebrando num esplendor vermelho.

E ali – isto é, aqui, agora, não na esplanada de solitários atravessada por um cortejo de máscaras e disparos mentais que vislumbro na dobra de uma página – imagino um país que, escreve Juan Villoro, é uma «indecifrável realidade que por convenção chamamos México». Um país cujo imaginário transforma os escritores que ousam cruzar os seus admiráveis abismos de festa, alucinação e morte em exploradores de um território literário vertiginoso donde, nem sempre, regressam incólumes. Como Lowry, o «cônsul da embriaguez e dos vulcões» [José Agostinho Baptista] engolido nos abismos do mezcal.

Abandono, entretanto, o cenário de ruínas e amargura de Cuernavaca e, na minha biblioteca, vou procurando outras bifurcações desse país onde toda a ficção é possível. Primeiro, os mexicanos. Juan Rulfo, claro. E Carlos Monsivais e Sergio Pitol e Juan Villoro. E os estrangeiros. Talvez aqueles que melhor visionaram o México. Escreve Roberto Bolaño – o escritor chileno prematuramente desaparecido – que «dos muitos romances que já se escreveram sobre o México, os melhores provavelmente serão os ingleses e um ou outro americano. D. H. Lawrence [A serpente emplumada] desata a novela agonista, Graham Green o romance moral [O poder e a glória] e Malcolm Lowry a novela total» (Entre paréntesis, Anagrama, 2004). E, acrescentaria eu, Enrique Vila-Matas que em Longe de Vera Cruz desata uma exaltada mitografia do México.

E que desata o próprio Roberto Bolaño que nos legou dois extravagantes romances «mexicanos» que guardo numa prateleira muito especial da minha biblioteca? Los detectives salvajes [Anagrama], «o melhor romance mexicano desde A região mais transparente [Carlos Fuentes, 1958], ou o melhor romance sobre o México desde Debaixo do vulcão, segundo Jorge Herralde; um delírio de labirintos crepusculares derramando-se sobre arredores estranhos de uma cidade, México D. F., território de sobrevivência de uma geração encarcerada à beira do precipício. E 2666 (Anagrama) espécie de romance pulp fiction, buraco negro do crime múltiplo sem solução cuja cratera se situa em Ciudad Juárez, lugar de todas as vertigens, de todos os pesadelos? Desata, sobretudo, uma nova ordem literária  – a do realismo visceral – que corta com o chamado realismo mágico latino-americano dos galos da Amazónia e das virgens em levitação e com as visões estrangeiras de uma Cuernavaca que só sobrevive no romance de Lowry.

[Ao alto, reprodução de mural de Diego Rivera sobre o Dia dos Mortos]

Debaixo do vulcão

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Lembro-me de há uns anos ir a caminho de Taxco pela estrada que sobe desde a cidade do México e, depois, se inclina para Cuernavaca, a cidade que em Debaixo do vulcão dá pelo nome de Quauhnahuac e onde nos habituámos a ver desesperar Malcolm Lowry. Lembro-me de errar através de um emaranhado de ruas ensolaradas; de atravessar um jardim decadente sob um céu em chamas; e de – respondendo ao chamamento dolente de uma canção de Jorge Negrete vinda de uma máquina de discos – ter cruzado o umbral sombrio de uma cantina anónima que acabara de abrir as suas portas e de ali, depois, ter experimentado o meu primeiro tequila destilado do mais puro agave mexicano. Herradura vinha escrito no rótulo da garrafa depositada sobre o balcão. 

E a cantina, tão real como a do romance, talvez fosse El Farolito, cuja fotografia descobri há dias no blogue da Fundação [onde entrei a convite d´O bibliotecário de Babel] criada em Cuernavaca para recordar o inglês perseguido pelos demónios do mezcal. E é o próprio Lowry que, agora, mo confirma: «que beleza se poderá comparar à de uma cantina, de manhã, cedinho? (…) pensa em todos os terríveis estabelecimentos, em frente dos quais as pessoas desesperam, impacientes por que se levantem os taipais! Nem as portas do céu, que para mim se abrissem de par em par, me proporcionariam uma alegria tão celestial, tão complexa e tão desesperada como aporta ondulada que se ergue com estrondo, como as gelosias que sobem, admitindo essas almas que vibram com as bebidas, levadas aos lábios com mãos vacilantes. Todo o mistério, toda a esperança, todo o desapontamento, sim, todas as misérias aqui se encontram, para lá dessas portas que se balançam num vaivém». (Debaixo do vulcão, Relógio de Água).

E agora que volto a ler o seu livro e a incandescência permanece, lembro-me de, naquele homem debruçado sobre o tampo de pedra encardida do balcão ao fundo, «afogando a dor no melhor mezcal do México», parecer-me ter visto – não sei se por ter bebido aquele álcool até ao fundo, se embriagado pela atmosfera mescalianiana de El Farolito – o próprio Malcolm Lowry. E que outra visão poderia eu ter tido ali, naquela cantina debaixo do vulcão, com a garganta incendiada pelo fogo do mesmo agave que nesta dobra da noite volto a beber enquanto vou sublinhando o nome das setenta e sete bebidas alcoólicas diferentes emborcadas pelo cônsul e seus acólitos ao longo das trezentas e quarenta e seis páginas do alucinante romance de Lowry?