Da natureza do jornalismo

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Longe vão os dias em que Karl Kraus, confrontado com um jornalismo que tendia a abafar tudo o que de novo ia surgindo, escreveu Os últimos dias da humanidade onde leva aos limites a representação do mal absoluto da guerra, apresentando-a como fantasmagoria tecnológica e discursiva e, ao mesmo tempo, denuncia as condições de inteligibilidade do presente produzidas pela imprensa como fazendo parte da ordem da morte que alegadamente descreviam. Ao tornar visível essa ignóbil função de tornar invisível o sofrimento dos seres humanos, Kraus encenava, então, o moderno mercado da violência que tornou a humanidade cúmplice dos paradoxdos terminais da modernidade. Por esses mesmos dias, o mesmo Kraus, reportando-se ao jornalismo, dizia ironicamente: «Eu quero piorá-lo, quero colocar barreiras às suas infames intenções sob capa de pretensões espirituais e considerar mais perigosa a imprensa estilisticamente melhor».

Tinha razão Kraus em criticar um jornalismo sem tonalidade política, logo incapaz de afrontar o turbilhão da história e sonhar com outro jornalismo que acabaria submergido historicamente. Um jornalismo que se revelaria incapaz de exercer um escrutínio cerrado sobre a velha ordem económico-financeiro e que foi, depois, incapaz de prever a chegada, a velocidade e a verdadeira dimensão da actual crise financeira que, segundo a catastrofista previsão de Jacques Attali, estará a arrastar o mundo para uma espécie Weimar global. Uma assustadora previsão, se nos recordarmos que o nazismo resultou, precisamente, do colapso da República de Weimar. E tanto mais assustadora, porque convergente com a opinião de prestigiados economistas que, nos últimos dias, reforçaram a percepção de que não está a ser feito tudo o que devia ser feito: Martin Wolf prevê, taxativamente, no Financial Times, que Obama «não conseguirá salvar os bancos»; e Nouriel Roubini, o único economista que previu com antecedência a crise, partindo da constatação de que «o sistema bancário norte-americano está à beira da insolvência», propõe a nacionalização temporária de todos os bancos, à semelhança do que fez a Suécia em 1992.

Antecipar, escrutinar e exibir – como fazia o jornalista Karl Kraus na revista Die Fackel – tudo o que é mau e podre nesta velha ordem financeira, eis o que se deve também exigir ao jornalismo dos dias que correm. Um jornalismo que na sua essência recorra a procedimentos de actualidade para não se confundir com a mera imanência do quotidiano.

Disso me vou dando conta, à medida em que me vou adentrando nas páginas alucinantes da trilogia Millenium (Os homens que odeiam as louras, Oceanos; A rapariga que sonhava com uma lata de gasolina e um fósforo, Oceanos; e A rainha no palácio das correntes de ar, ainda não publicado em Portugal), do malogrado escritor sueco Stieg Larsson (1954-2004) – ex-director da Expo, uma revista especializada em reportagens sobre grupúsculos de extrema direita, na denúncia do racismo escandinavo e na investigação à corrupção e traficância no mundo empresarial – e vou caminhando pela noite gelada de Estocolmo com a dupla Mikael Blomkvist e Lisbeth Salander – ele um jornalista de investigação e ela uma hacker com o dom da ubiquidade cibernética, tatuada e perfurada com piercings e atravessada por paranóias, uma criatura entre Lara Croft e a Pipi das Meias Altas -, que vai no encalço de banqueiros e empresários que especulam impunemente e que, por isso, devem  ser escrutinados com o mesmo empenho e ausência de misericórdia com que os jornalistas políticos vigiam o menor passo em falso de ministros e autarcas. Também aqui, neste thriller nórdico, a realidade parece ter imitado a ficção, como comprova a actualidade noticiosa sobre bancos e banqueiros portugueses.

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1 Comentário

  1. “Toda dor pode ser suportada se sobre ela puder ser contada uma história.”

    Hannah Arendt

    associação livre (de ideias) _____________

    iv (legente de “o que cai dos dias”)


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