Metablogue (II): da escrita

 

No Diário de Susan Sontag leio uma passagem que me faz retomar a breve reflexão do post sobre o método deste blogue: «Por que é importante escrever? Sobretudo por egoísmo, suponho. Porque quero ser essa personagem, um[a] escritor[a], e não porque haja algo que deva dizer. Mas por que não também por isso? Com um pouco de construção do ego – como mostra o “fait accompli” destes [blogues] – emergirei lá mais para a frente com a confiança de que tenho algo a dizer, algo que deve ser dito».

Descontando qualquer veleidade literária, pois não pretendo confundir-me com essa personagem, esse escritor, talvez, apenas, com o escrevente de que falava Rooland Barthes, se adoptar esta anotação de Susan Sontag, estarei, afinal, a dizer que, apesar de só querer mostrar, também desejo ter algo a dizer. Mas um dizer que é feito do que cai dos livros, perseguindo, como escreveu W. G.  Sebald, «um rasto já há muito extinto no ar ou na água [mas que continua] visível, aqui, no papel». Portanto, montagem literária, como construção do ego, mas que só valerá a pena se for reconhecida a sua pertinência, em termos de aproximação aos que me poderão ler, sobretudo os amigos, e como marcação quase diarística de um leitor sem qualidades.

[foto ao alto: John Chillingworth [ Second Hand Bookshop ] 1951]
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Metablogue (I): do método

 
 
 
Haverá um método para a escrita de um blogue que se pretende metaliterário? Não um método entendido na sua acepção positivista, isto é, sujeito a uma qualquer tentação hermenêutica e a uma vontade de tudo explicar, mas sim como expressão de uma errância através dos labirintos benjaminianos embebidos na tinta dos livros. Esta, portanto, a natureza do método que persigo, enquanto formulação mais ou menos ficcional da minha forma pessoal de me adentrar nos livros que vou lendo e de partilhar com aqueles que por aqui passarem uma certa volúpia que toda a leitura encerra.

Talvez, por isso, o método que Walter Benjamin propõe no seu Livro das passagens seja, também para mim, uma boa escolha para me aventurar blog adentro: «O método deste trabalho: montagem literária. Não tenho nada para dizer. Apenas para mostrar. Não escamotearei nada de valioso nem me apropriarei de formulações espirituosas. Mas os farrapos, o que cai dos dias: esses não vou inventá-los. Vou deixar que afirmem os seus direitos da única forma possível: dando-lhes uso» (W. Benjamin, Das Passagenwerk, fragmento N1a,8).

Formulação ficcional, portanto, porque controlada por uma certa diegese, mas sem pretensões de literatura. Tão só comentários, representações, citações, histórias, imaginários inscritos em anotações, apontamentos ancorados, sobretudo, nos livros que ando a ler e na vida que neles se espelha. Autoficções, portanto.

[Ao alto, fotografia de Roland Barthes]
  • O ESCREVENTE

    Um blogue de João Ventura® (joaobventura@yahoo.com) «fora das coisas civis e na mais pura região da arte» [Joseph Joubert]
  • Dezembro 2017
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