No Bairro portátil do senhor Tavares (VI): no café com Calvino

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O Senhor Calvino é uma personagem que gosta de dar longos passeios e coloca constantemente desafios existenciais a si próprio, tais como transportar pelo bairro uma barra metálica paralela ao solo, ou levar 10 kg de terra de um local para outro, utilizando uma colher de chá –  para treinar a paciência. O Senhor Calvino esteve no Café do TEMPO, no Sábado passado – onde a Gaveta – e o Sandro Junqueira, um jovem talentoso de Portimão, fantasiado de Karl Kraus, esse escritor severo que viveu numa Viena à beira do apocalipse alegre  – montou um radioso Bairro portátil para os curiosos que se escaparam no final da cruel versão teatral de Jerusalém, recriado por João Brites no auditório situado na cave do teatro -, e vimo-lo atirar-se do alto de mais de trinta andares em perseguição dos seus sapatos e gravata que alguém atirara pela janela: «Ainda no ar alcança os sapatos. Primeiro, o direito: calça-o; depois, o esquerdo. No ar enquanto cai, tenta encontrar a melhor posição para apertar os atacadores. Com o sapato esquerdo falha uma vez, mas volta a repetir, e consegue. Olha para baixo, já se vê o chão. Antes, porém, a gravata; Calvino está de cabeça para baixo e com um puxão brusco a sua mão direita apanha-a no ar e, depois, com os seus dedos apressados, mas certeiros, dá as voltas necessários para o nó: a gravata está posta. Os sapatos, olha de novo para eles: os atacadores bem apertados; dá o último jeito no nó da gravata, bem a tempo, é o momento: chega ao chão, impecável».

O Senhor Calvino sentou-se, depois, tranquilamente,  à minha mesa e, à falta de absinto – essa bebida esverdeada e opiácea que parece também ela ter sido desenhada por Gonçalo Tavares, ele próprio uma espécie de escritor-funâmbulo, umas vezes, em equilíbrio sobre os abismos da realidade dos seus livros negros, e outras vezes, planando em permanente «voo imaginativo» sobre um bairro portátil» para onde se escapa como se fosse, também ele, um senhor desenhado posto ali em andamento para nos fazer esquecer a realidade (e que, por certo, o volúvel Senhor Henri -, talvez o mais shandiano de todos os habitantes do bairro, bastante afeiçoado ao absinto e muito entendido nestas coisas de estímulos, fontes de inspiração e coisas assim – se por ali andasse, não deixaria de nos servir, ) – bebemos um whisky.

E, por um tempo breve, mesmo sem absinto para misturar com realidade, mas com os deliciosos livrinhos gráfico-literários inventados por Gonçalo M. Tavares ao fundo, numa biblioteca transportável, obtivemos uma realidade melhor depois de, momentos antes, termos andado à deriva entre cachos esbogoados de uma vindima longínqua, esqueletos de uvas amassadas lembrando ossaturas humanas, à semelhança de uma história normalizada do horror. Bipolaridades. Ou não fosse Gonçalo M. Tavares, «um autor que – como diz Enrique Vila-Matas – à segunda-feira se confunde com Michaux, à quinta com Thomas Mann, assemelhando-se todos os domingos a Fernando Pessoa.

[para uma descida aos malstroms tavarianos ler: Ensaio sobre a loucura e Da banalidade do mal]

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Teatro da crueldade

 

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Talvez a única escrita possível depois de Auschwitz seja aquela cujas palavras se projectam naqueles montes de engaço que cobram o palco, soltando um cheiro acre, intenso, que se vai adensando sobre as primeiras filas do auditório – e que, logo à noite, mais do que embriagar os espectadores, assaltará consciências -, numa encenação que toma como ponto de partida o espaço frio, concentracionário, do hospício Georg Rosenberg, recriado na encenação de João Brites do romance-ensaio de Gonçalo M. Tavares, Jerusalém. Matéria orgânica em fermentação, destroços de uvas amassadas, cachos esbagoados de uma vindima longínqua. Esqueletos de uvas amontoados lembrando ossaturas humanas à semelhança de uma história do horror do século XX cujos cenários de extermínio, como Buchenwald, um protagonista desta narrativa haverá de lembrar. «É como se a obra fosse uma escultura. Nós andámos à volta da escultura e escolhemos um ângulo: a questão do horror que está por detrás da normalidade deste tempo», diz-me João Brites.

Assisto ao ensaio antes do espectáculo de logo à noite no TEMPO. Sete personagens errando pelas das ruas de uma cidade sem nome, habitada por actores e espectadores – que entram pela mesma porta, encontrando-se parte da plateia no palco, virada para uma parede de tijolo -, em que a noção de presente é o que une a ficção à realidade. Uma história de deportação e enclausuramento. Deportação para um hospício. Enclausuramento no medo. Por força da encenação, actores e espectadores prisioneiros da crueldade ou da misericódia do mundo. Antecipação das aparições que povoarão a mente e o corpo da esquizofrénica Mylia em busca alucinada da existência de Deus, enquanto um médico, Theodor Busbeck, procura desenhar um gráfico sobre a regularidade do horror na História, na tentativa de diagnosticar a sanidade dos homens ou a sua insanidade definitiva. Personagens amarradas a diferentes registos, confrontando consciências, evocações. Um cão atravessando o palco não sei se para nos fazer sentir mais humanos ou loucos.

Uma versão experimentalista e socialmente empenhada da parábola expressionista de Gonçalo M. Tavares sobre a loucura da normalidade de todos os dias, na esteira de um teatro que está ali não para nos confortar, muito menos para nos divertir, mas para abanar as nossas conciências arrastadas sem remissão pelo vórtice da História que, de vez em quando, parece enlouquecer, como aconteceu com o nazismo, e que, às vezes, nos atrai para um teatro da crueldade. É que – como disse Walter Benjamin – «a história é uma constelação de perigos» e «diante do inimigo, se ele vence, mesmos os mortos não estarão em segurança. E esse inimigo não tem feito mais do que vencer». Esta a lição essencial de Gonçalo M. Tavares aqui remontada por João Brites.

No Bairro portátil do senhor Tavares (V): literatura volúvel

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Diz Enrique Vila-Matas que Gonçalo M. Tavares «vai criando como se estivesse sempre num permanente voo imaginativo: um bairro portátil, uma espécie de Chiado literário onde compram pão e tomam o aperativo uma série de senhores muito curiosos, cada um habitante de um livro breve e próprio: o senhor Juarroz, o senhor Calvino, o senhor Valéry, o senhor Brecht, o senhor Kraus». São todos eles inquilinos de pequenos mundos ficcionais, lúdicos, irónicos, engenhosos e bem-humorados, em cujas ruas e pracetas se entrelaçam o real e o imaginário, sem que possamos distinguir entre o fora e o dentro, o direito e o seu anverso, desfiados, livrinho a livrinho, como historietas avulsas a qualquer enredo, através das quais se vai tecendo paulatinamente a genealogia literária do autor.   Apesar da pluralidade de propostas e visões que fazem a excentricidade do Bairro, existe nele uma harmonia que deve mais à possibilidade de excitar o leitor com múltiplas visões do mundo do que à hipotética partilha das preocupações e dos programas de escrita dos seus inquilinos. Um bairro em crescimento acelerado  «que cada vez mais me parece ser a personagem principal […]. Uma espécie de história da literatura em ficção […]. Um projecto interminável», admite Gonçalo M. Tavares.

Desses inquilinos, o mais recente, acabado de chegar a esse Bairro ficcional que poderia integrar a geografia improvável de uma qualquer cidade invisível de Italo Calvino, «feita só de excepções, impedimentos, contradições, incongruências, contra-sensos», mas ao mesmo tempo «contendo tudo o que corresponde à norma», é O Senhor Breton que mimetiza – numa auto-entrevista formulada em 10 perguntas que «complicam a realidade» – o escritor surrealista André Breton, trazido, talvez, ao Bairro por um qualquer «acaso objectivo» através do qual o arquitecto invisível Gonçalo M. Tavares vai manipulando a realidade inventada para melhor a observar.

Munido de um gravador, frente a «um enorme espelho na sala: a janela com a velocidade ideal», O Senhor Breton auto-entrevista-se, procurando respostas para algumas questões caras aos enunciados surrealistas, sobretudo aquelas que se apresentaram nos manifestos que André Breton assinou. Questionando os modos de expressão da realidade, as relações entre a estética e a filosofia ou os limites representacionais da linguagem,  O Senhor Breton percorre as mesmas passages que Breton, com o distanciamento ficcional a permitir ao duplo uma consciência aguda dos limites que o seu homónimo pretendia estilhaçar.  

Este livrinho portátil, não só pela sua leveza mas porque nele se descortinam «certos traços que eram considerados tipicamente shandys: [i. é, volúveis] … ausência de propósitos […] tensa convivência com a figura do duplo […] e o culto da arte da insolência», logo capaz de figurar numa qualquer História Abreviada da Literatura Portátil, revista por Enrique Vila-Matas – porque passaria no teste concebido por Walter Benjamin, esse escritor-filósofo, estranho de passagem, cuja tendência para miniaturiziar a realidade o levou a inventar «essa máquina risonha de pesar livros que permitia detectar, com precisão absoluta, quais as obras literárias insuportáveis e, por isso, embora tentem dissimulá-lo, intransportáveis» -, é mais um singular exercício de estilo que se alimenta de poéticas concretas e prévias à sua construção e que escapa a qualquer tentativa de interpretação. De momento, são nove os livrinhos portáteis do Senhor Gonçalo, mas os que aí vêm já têm a mala, seguramente duchampeana, preparada.

Metapolítica da avaliação

 

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O meu post anterior sobre a natureza instrumental da avaliação dos professores suscita-me, entretanto, outra breve reflexão, ainda decorrente das posições postas em confronto no aludido debate televisivo. É que através desse sofisticado sistema de medições, regras e tabelas que querem impor aos professores e à escola, utilizadas não tanto como processo mas como caução científica visando a denegação da dimensão ideológica da avaliação, o que se verifica mais não é do que a denegação da política, entendida, como defende Jacques Rancière, como o embate entre aqueles que querem ser ouvidos e reconhecidos como uma parte legítima na discussão e as nomenklaturas do governo, dos tecnocratas da educação e dos sindicatos. 

E de que embate se trata, então, aqui? Desde logo, do embate entre a visão instrumental e manipuladora partilhada pelo governo e tecnocratas da educação e os sindicatos, cujas ressonâncias retóricas se fizeram escutar agudamente no início do referido debate televisivo. Uns procurando neutralizar a dimensão política da revolta da classe inteira dos professores. E os outros procurando apropriar-se dessa revolta, apresentando-a – como autorizaria o filósofo esloveno Slavoj Zizek (Elogio da intolerância, Relógio d´Água) – como uma «condensação metafórica da oposição global contra aqueles que detêm o poder», de tal maneira que o processo reivindicativo em desenvolvimento já não se refere simplesmente à reclamação de um outro modelo de avaliação, mas envolve a dimensão da exigência da demissão dos responsáveis pela política educativa do governo e a revogação de todo o quadro legal que enquadra a avaliação. Daí que os sindicatos, para não perderem o controle dos professores – que, talvez, comecem a partir de agora a sentir-se um tanto ou quanto desenganados, porque, entretanto, o governo satisfez algumas das suas reclamações na tentativa de os privar dos objectivos do seu protesto – avancem, agora, com novas reivindicações que não estavam na agenda que conduziu à revolta.

E, depois, o outro embate, menos ressonante em termos mediáticos mas mais sentido no interior das escolas, entre o aparelho dos especialistas educacionais do governo cujo objectivo último é a transformação da administração da educação centrada nas pessoas numa administração das coisas da educação no interior de uma ordem racional apoiada num modelo procedimental instrumental economicista e os professores desalinhados que reclamam que as suas vozes sejam reconhecidas como fazendo parte de uma esfera pública aberta a outras narrativas – que não as mesmas de sempre, isto é, as dos governantes versus partidos da oposição e sindicatos – onde se faça ouvir o discurso dos professores excluídos e se possa, finalmente, processar a negociação e o compromisso estratégico entre as partes. 

De que falamos quando falamos de avaliação

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O debate televisivo sobre a avaliação dos professores a que assistimos ontem no programa Prós e Contras suscita-me a seguinte reflexão. Do lado dos Prós, na circunstância, o representante do Estado e a uma dita especialista, a defesa da avaliação é sustentada do ponto de vista da necessidade de estabelecer a diferenciação entre os avaliados, premiando o mérito e, em consequência, conduzir à melhoria dos níveis de sucesso educativo nas escolas portuguesas. Aparentemente, trata-se de um objectivo meritório.

Contudo, aquilo que realmente ali se tratou foi de um embate entre aqueles que procuram impôr um modelo de avaliação que convoca um sofisticado sistema de medições, regras e tabelas visando a caução científica para fins mais ou inconfessados, mas que procuram denegar a sua dimensão ideológica e aqueles que, embora movidos por diferentes motivações, recusam expôr-se a um novo «dispositivo de vigilância» que mais não é do que o resultado da expansão do paradigma da medição nas sociedades modernas.

E o que é, então, denegado sob a roupagem pseudo-científica da avaliação? A emergência daquilo a que Giles Deleuze designou, apropropriando-se do conceito de  William Burroughs, como «sociedade de controle» e que Michel Foucault aponta como substituto das «sociedades disciplinares». E cuja formulação através da avaliação, mais não é, do ponto de vista técnico (objecto, método, resultados), do que uma consequência da expansão do paradigma da medição, corroborando o uso social da matemática nas sociedades modernas; e do ponto de vista do poder, um modo de funcionamento do Estado que institui uma maneira de governar que se exerce através da matematização da experiência. 

O que é, então, a avaliação? E quem são os avaliadores? Conforme escreve o filósofo e psicanalista francês Jean-Claude Milner em Voulez-vous être évalué?, «a avaliação é essencialmente uma retórica. Os avaliadores são os sofistas de hoje». Sendo que a sofística da avaliação procura resolver sumariamente a questão dos critérios e da legitimidade dos próprios avaliadores, evitando, acima de tudo, que se coloque a incómoda questão: quem avalia os avaliadores, isto é, aqueles especialistas hiperactivos, fetichistas das medições, das classificações, dos escalonamentos, das comparações em cujos paradoxos inextrincáveis procuram enredar os avaliados? 

Dar outras possibilidades ao mundo

 

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No rescaldo da vitória de Barack Obama, ponho-me a pensar se, talvez, amanhã, tudo não será, outra vez, a mesma baixa política – que legitimou gente como Bush e Berlusconi ou continua a entronizar gente como Tony Blair, cada um à sua maneira, aspirantes a Maquiavel -, e que este homem sem qualidades (Musil) que veio do futuro para dar outras possibilidades ao mundo se deixe, também ele, contaminar pela infâmia dos interesses inconfessados, pela interiorização do cinismo e pela amoralidade e demais patologias da experiência política contemporânea que fizeram deslizar o mundo, não apenas para a crise económica profunda de que todos falam, mas, sobretudo, parece ter instalado uma crise sem precedentes da experiência, colocando a humanidade – na expressão de Zygmunt Bauman – «frente ao inafrontável», isto é, sem pontos de referência que nos tranquilizem e nos guiem pelas estradas perdidas que nós próprios vamos fazendo.

Mas hoje ainda não é amanhã, e o que vi na madrugada das eleições – e continuo a ver em vídeos noYouTube  – é, entretanto, a imagem de um homem sereno e determinado a ajudar a encontrar o mapa que o mundo precisa para atravessar este deserto do mundo em que se tornou a modernidade fracassada, trazendo a uma parte da humanidade a esperança para enfrentar a crise – a económica e a existencial – e à outra parte da humanidade a esperança de vencer o terrível desafio da sobrevivência. Vi – vejo ainda – «um Presidente que tem uma cara em vez de um esgar e que usa a fala em lugar do balbucio», como escrevia José Manuel dos Santos, na sua crónica semanal na revista Actual . Alguém, talvez, ainda, capaz de usar o mandato político que lhe foi oferecido nas urnas para desenterrar do pântano a ética para ali atirada pela iniquidade que transformou a América dos pobres num deserto sem mapa. Talvez – quem sabe? – capaz, ainda, de evitar a catástrofe de «as coisas continuarem como antes», tanto na América como no resto do mundo.

Por isso, recuso o pensamento mesquinho que me assaltou por instantes. E o desconforto nihilista de pensar que à arrebatadora ilusão deste triunfo que anuncia outras possibilidades para mundo, poderá suceder a rápida e melancólica desilusão da sua impotência diante da política de bastidores e de alianças de conveniência. Escolho, então, definitivamente, a audácia de pensar que, mesmo que as contradições do tempo por vir venham a arrefecer o fogo sereno das palavras que cobriram o mundo na noite da vitória, uma coisa que Obama deu à América e que, nos tempos mais próximos, ninguém poderá retirar, foi a de pôr o pensamento a pensar, isto é, de ter incitado, e excitado, o pensamento de que, talvez, possa haver, ainda, outras possibilidades para o mundo.

E a melhor prova disso, dessa rebelião contra a vertigem do vazio da política pós-moderna – mais ainda do que a sua oratória, simultaneamente, emotiva e serena, arrebatadora e racional, disciplinada e inteligente – foi a possibilidade consumada de um militante afro-americano, um advogado dos destituídos, um agitador social e político ter decidido ser Presidente da América para dar outras possibilidades ao mundo, fazendo do seu próprio itinerário vital, da sua vida transformada em narrativa, o seu principal trunfo.

Posto isto, o que poderá «um mundo de qualidades sem homem» (Jean-François Peyret) pedir ao homem sem qualidades musilianas que é Obama? Talvez não aquilo que nem ele nem ninguém jamais poderá devolver ao mundo, isto é, a remissão da nossa vida fragmentada, e muito menos qualquer «promesse de bonheur» (Stendhal). Talvez exigir-lhe, apenas, não falhar a ocasião de nos salvar da catástorphe (Walter Benjamin). E isso já será um programa absoluto contra a inabitabilidade do mundo e o desesperante nihilismo reinante.

No outro lado do poema absoluto

 

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Regresso a Herberto Helder, iluminado, ainda, pelos rastos do fogo lento da combustão das palavras da derradeira – ou talvez não – súmula da sua obra poética, alargada, agora, com uma secção inédita de 70 páginas, a cujo todo deu o nome de A faca não corta o fogo. E dizer que regresso, é apenas um modo de dar conta da temporalidade deste blogue, para a qual o próprio título, de referência temporal, imediatamente remete, porque no que se refere à obra de Herberto Helder, essa é aversa a qualquer tentativa de arrumação diacrónica, na medida em que a sua temporalidade é apenas sincrónica, logo sem possibilidade de regressos, antes caminhando para o poema do «abrupto sentido, o poema absoluto», onde habita o caos.

E vou, de novo, percorrendo como um funâmbulo da leitura «a sensível cadeia das coisas que transitaram, correntes da terra para as correntes do poema». Como ler Helberto Helder, se não como um funâmbulo roçando o abismo onde habita o espírito do fogo? E dali, daqui, sobre o precipício do «poema absoluto» donde se abarcam as regiões do «terror» – a que só se acede através do idioma orgânico, escatológico, mineral e vegetal do poeta -, deixar-me, então, como agora, sucumbir diante o «extremo exercício da beleza» deste livro final que persegue o cosmos platónico, tão próximo já do programa de Mallarmé do livro por vir ou da parábola da biblioteca borgeseana que lhe é homóloga.

«Poema absoluto», mas cuja totalidade e perfeição, incessantemente procurada pelo demiourgos Herberto Helder, se revelará, se me revela agora, já no outro lado do abismo, inacessível. Porque apesar da proposição nietzschiana perseguida por Herberto Helder, Deus é indestrutível até mesmo ante o «extremo exercício da beleza» que habita nas profundidades deste poema quase absoluto que foi deixando para trás as falhas, o desperdício, o redundante.

  • O ESCREVENTE

    Um blogue de João Ventura® (joaobventura@yahoo.com) «fora das coisas civis e na mais pura região da arte» [Joseph Joubert]
  • Outubro 2017
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