Ou o poema sem poeta

Sabe-se que nasceu em 1930, no Funchal; que concluiu o 7º ano do Liceu na Escola Luís de Camões, em Lisboa; que frequentou Direito e, depois, Românicas, em Coimbra; que frequentou os cafés de Lisboa, com presença assídua no Café Gelo, onde conviveu com  Mário Cesariny, Luiz Pacheco e Hélder Macedo; que andou por fora, em França, na Bélgica, na Holanda, na Dinarmarca onde experimentou vários empregos: criado de mesa numa cervejaria, cortador de legumes numa loja de sopas, enfardador de aparas de papel, operário nas forjas de Clabeck, carregador de camiões, guia de marinheiros em bairros de prostituição de Antuérpia. E que foi durante estas andanças, entre 1958 e 1960, que escreveu grande parte dos textos de A Colher na Boca (1961) e Os Passos em Volta (1963). Vai-se apagando, depois, a sua vida civil: uma passagem pelas Bibliotecas Itinerantes da Gulbenkian; tradutor de literatura médica; jornalista, tendo nesta qualidade feito uma reportagem de um Benfica-Sporting, em 1972, intitulada Uma ida ao Campo; psicoterapias; um processo crime por causa da sua colaboração na publicação de Filosofia de Alcova, de Sade; um acidente de viação que o atira para o hospital durante três meses; algumas viagens ao estrangeiro… Este o photomathon biográfico possível quando Herberto não tinha ainda migrado para o interior da sua obra.

Depois, escreve em Photomaton & Vox (1979): «Tenho de inventar a minha vida verdadeira». E inventa-a de tal maneira que passa a viver apenas dentro dos seus livros. Torna-se num «escritor oculto»: nem aparições públicas, nem entrevistas, nem fotografias nos jornais, nem conversas com leitores. Nem prémios: em 1994 recusa o Prémio Pessoa com que fora distinguido. Ainda em Photomaton & Vox escreve: «Não me vou deixar apanhar por tentações biográficas, a memória, os mitos que as culturas, marginais ou não, parecem querer que eu adopte. Não sou um símbolo da imaginação alheia». Subtrai-se por vontade às «câmaras ecoantes: (…) as respostas caóticas, o êxito, o erro, a morte da alma». Apaga-se como figura civil, instaurando o silêncio biográfico sobre si mesmo. Sublinha Manuel Gusmão que «num gesto de predestinação furiosa e paciente, o nome de “Herberto Helder” migrou para o interior ou as margens do seu poema: [Herberto Helder] Ou o poema contínuo». Nome e título de obra passam a ser a mesma coisa, fluindo ambos na «torrente silenciosa» e alucinada que se expande até ao limite do verbo num «poema absoluto» que escapa, como autorizaria Blanchot, «a qualquer determinação essencial, a toda a afirmação que o estabilize».

Como ler esta ocultação do autor na obra? Talvez como um extremo exercício do poema para escapar à determinação hermenêutica da tutela autoral. É que, lê-se num trecho de Photomathon & Vox, «… uma noite começo a escrever. Tenho memória. Nada foi esquecido, vem adequado agora aos vindicativos sentidos da expressão e da representação. E assim caminho para o esgotamento, no centro da fecundidade. As pessoas perdem o nome, as coisas limpam-se, cessam a fuga do espaço e o movimento dispersivo do tempo. Fica um núcleo cerrado. Fico eu». Ora é este “eu” biográfico que Herberto recusa. Por isso, dissolve-se na obra passando a existir única e exclusivamente nela, o que explica a interposição de um “ou” entre o seu nome e o título da obra. Porque a sua voz de autor já só existe no interior ou nas margens da sua obra. Erradica-se o autor. E fica a «inóspita beleza» em forma de um «poema contínuo» ardendo em lenta combustão.

Longe de Coyoacán

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«A nostalgia de um lugar enriquece-se sempre desde que se guarde como nostalgia», escreve Enrique Vila-Matas no seu desassossegante romance, Longe de Veracruz, que volto a folhear à procura de espirituosas anotações mexicanas para um post a haver. Assim permanece para mim, Coyoacán, aquele bairro de México DF que revisito agora nas fotografias que guardo no meu álbum mexicano.

Lembro-me que fui de metro a Coyoacán para visitar a casa de Frida Khalo. Fui como quem vai a Comala. E fui, ainda, porque tinha lido no livro de Enrique Vila-Matas que aí, na praça La Conchita, ficara a viver Sergio Pitol, o escritor mexicano e viajante impenitente que aos vinte e oito anos partira do porto de Veracruz numa viagem de alguns meses à Europa para só regressar vinte e oito anos depois, já não ao porto de partida metafísico, mas à paisagem degradada do DF que haveria de abandonar para se instalar, por fim, na chuvosa Xalapa, muito próximo da sua terra natal e de Potrero, o lugar onde passara a sua infância e fizera a sua educação literária.

E, ao primeiro entardecer, na praça central de Coyoacán, enquanto defrontava um grupo de crianças indígenas esquálidas e andrajosas propondo-me a compra de bonecas de pano pobremente executadas, pareceu-me tê-lo visto a passear entre canteiros de orquídeas levando pela trela o seu cão Sacho. Mas equivocava-me porque nessa altura eu ainda não tinha descoberto Pitol a quem cheguei tardiamente e, por isso, se o visse também não o reconheceria. E mesmo que já o tivesse descoberto, certamente não o encontraria ali, porque à data da minha ida a Coyoacán, já Pitol se tinha escapado do céu artificial do DF, «uma cidade […] desconhecida, uma paisagem degradada, um céu inexistente», dando-se como desaparecido em Xalapa para ler e escrever e, de vez em quando, «sonhar em caminhar outra vez por algumas ruelas de Lisboa, de Praga, de Marienbad, de Veneza…»

Não o encontrei, portanto, em Coyoacán, porque cheguei tarde aos seus livros e não poderia, então, imaginar que Pitol pudesse andar por ali, naquele parque de Coyoacán, disfarçado de passeante com um cão que não dava pelo nome de Sacho como pude comprovar quando o animal se soltou e o dono o chamou de volta, o que agora me parece a prova irrefutável do meu equívoco. Mas por estes dias em que vou lendo El Arte de la fuga (Anagrama), esse compêndio de viagens, encontros, efabulações, sonhos e ensaios que comprei numa escapadela a Madrid, vou desenhando a cartografia impossível da sua errância através de uma geografia desordenada, tornando-se a sua prosa andarilha tão aditiva para mim como para ele foram durante muito tempo as suas viagens à volta do mundo.

Um tequila eloquente

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Garanto que não queria continuar a escrever sobre éteres mexicanos, para não atribuirem ao tequila, que raramente consumo, os estímulos espirituosos para os posts que aqui vou destilando. E a prová-lo, a circunstância de em cada uma das duas garrafas de Herradura que trouxe do México, restar ainda metade do seu líquido dourado; e do mezcal, apenas conhecer aquele que tomei com o «cônsul da embriaguez» em cantinas decadentes debaixo do vulcão. É que nisto das bebidas – que não na literatura -, embora não abstémio, assemelho-me a um sóbrio. 

Mas uma crónica do escritor mexicano Juan Villoro – também ele um sóbrio, mas só no que respeita a tequilas e outros álcools-, que encontro por acaso na net, convida-me, agora, para um tequila eloquente. Um tequila culto cujo nome, El Diablo, propõe o inferno sincero aos paraísos artificiais; e que, no verso do rótulo, para ser lido através da transparência dourada do líquido, como um peixe embriagado num «aquário ardente», oferece um poema de Eduardo Hurtado que nos recorda as irregulares qualidades etéreas do tequila: «El Diablo inventó los sueños/ la lujuria y el tequila,/ al fondo de esta botella/ duermen pasiones y asombros,/ mil años de amor punzante,/ las nubes en las cañadas/ y otras cosas intranquilas.»

Onde guardar, então, esta garrafa? Na garrafeira ou na livraria?

Outros abismos mexicanos

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E neste exercício de economato literário, como lhe poderia chamar Enrique Vila-Matas, à medida que vou sublinhando no livro de Lowry os nomes das setenta e sete bebidas consumidas debaixo do vulcão, imagino-me de novo em Cuernavaca, agora no Dia dos Mortos, ao crepúsculo, sentado de frente para os vulcões gémeos replandescentes de neve, na esplanada de Las Mañanitas, bebendo uma coronita gelada – essa clara cerveja mexicana que vem numa garrafa transparente e que, às vezes, no Verão, também ao crepúsculo, gosto de beber sentado no meu terraço sob um céu que se vai quebrando num esplendor vermelho.

E ali – isto é, aqui, agora, não na esplanada de solitários atravessada por um cortejo de máscaras e disparos mentais que vislumbro na dobra de uma página – imagino um país que, escreve Juan Villoro, é uma «indecifrável realidade que por convenção chamamos México». Um país cujo imaginário transforma os escritores que ousam cruzar os seus admiráveis abismos de festa, alucinação e morte em exploradores de um território literário vertiginoso donde, nem sempre, regressam incólumes. Como Lowry, o «cônsul da embriaguez e dos vulcões» [José Agostinho Baptista] engolido nos abismos do mezcal.

Abandono, entretanto, o cenário de ruínas e amargura de Cuernavaca e, na minha biblioteca, vou procurando outras bifurcações desse país onde toda a ficção é possível. Primeiro, os mexicanos. Juan Rulfo, claro. E Carlos Monsivais e Sergio Pitol e Juan Villoro. E os estrangeiros. Talvez aqueles que melhor visionaram o México. Escreve Roberto Bolaño – o escritor chileno prematuramente desaparecido – que «dos muitos romances que já se escreveram sobre o México, os melhores provavelmente serão os ingleses e um ou outro americano. D. H. Lawrence [A serpente emplumada] desata a novela agonista, Graham Green o romance moral [O poder e a glória] e Malcolm Lowry a novela total» (Entre paréntesis, Anagrama, 2004). E, acrescentaria eu, Enrique Vila-Matas que em Longe de Vera Cruz desata uma exaltada mitografia do México.

E que desata o próprio Roberto Bolaño que nos legou dois extravagantes romances «mexicanos» que guardo numa prateleira muito especial da minha biblioteca? Los detectives salvajes [Anagrama], «o melhor romance mexicano desde A região mais transparente [Carlos Fuentes, 1958], ou o melhor romance sobre o México desde Debaixo do vulcão, segundo Jorge Herralde; um delírio de labirintos crepusculares derramando-se sobre arredores estranhos de uma cidade, México D. F., território de sobrevivência de uma geração encarcerada à beira do precipício. E 2666 (Anagrama) espécie de romance pulp fiction, buraco negro do crime múltiplo sem solução cuja cratera se situa em Ciudad Juárez, lugar de todas as vertigens, de todos os pesadelos? Desata, sobretudo, uma nova ordem literária  – a do realismo visceral – que corta com o chamado realismo mágico latino-americano dos galos da Amazónia e das virgens em levitação e com as visões estrangeiras de uma Cuernavaca que só sobrevive no romance de Lowry.

[Ao alto, reprodução de mural de Diego Rivera sobre o Dia dos Mortos]

Debaixo do vulcão

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Lembro-me de há uns anos ir a caminho de Taxco pela estrada que sobe desde a cidade do México e, depois, se inclina para Cuernavaca, a cidade que em Debaixo do vulcão dá pelo nome de Quauhnahuac e onde nos habituámos a ver desesperar Malcolm Lowry. Lembro-me de errar através de um emaranhado de ruas ensolaradas; de atravessar um jardim decadente sob um céu em chamas; e de – respondendo ao chamamento dolente de uma canção de Jorge Negrete vinda de uma máquina de discos – ter cruzado o umbral sombrio de uma cantina anónima que acabara de abrir as suas portas e de ali, depois, ter experimentado o meu primeiro tequila destilado do mais puro agave mexicano. Herradura vinha escrito no rótulo da garrafa depositada sobre o balcão. 

E a cantina, tão real como a do romance, talvez fosse El Farolito, cuja fotografia descobri há dias no blogue da Fundação [onde entrei a convite d´O bibliotecário de Babel] criada em Cuernavaca para recordar o inglês perseguido pelos demónios do mezcal. E é o próprio Lowry que, agora, mo confirma: «que beleza se poderá comparar à de uma cantina, de manhã, cedinho? (…) pensa em todos os terríveis estabelecimentos, em frente dos quais as pessoas desesperam, impacientes por que se levantem os taipais! Nem as portas do céu, que para mim se abrissem de par em par, me proporcionariam uma alegria tão celestial, tão complexa e tão desesperada como aporta ondulada que se ergue com estrondo, como as gelosias que sobem, admitindo essas almas que vibram com as bebidas, levadas aos lábios com mãos vacilantes. Todo o mistério, toda a esperança, todo o desapontamento, sim, todas as misérias aqui se encontram, para lá dessas portas que se balançam num vaivém». (Debaixo do vulcão, Relógio de Água).

E agora que volto a ler o seu livro e a incandescência permanece, lembro-me de, naquele homem debruçado sobre o tampo de pedra encardida do balcão ao fundo, «afogando a dor no melhor mezcal do México», parecer-me ter visto – não sei se por ter bebido aquele álcool até ao fundo, se embriagado pela atmosfera mescalianiana de El Farolito – o próprio Malcolm Lowry. E que outra visão poderia eu ter tido ali, naquela cantina debaixo do vulcão, com a garganta incendiada pelo fogo do mesmo agave que nesta dobra da noite volto a beber enquanto vou sublinhando o nome das setenta e sete bebidas alcoólicas diferentes emborcadas pelo cônsul e seus acólitos ao longo das trezentas e quarenta e seis páginas do alucinante romance de Lowry?

O cinema outra vez

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Não vou muito ao cinema. Sobretudo porque a maioria dos filmes que passam por aí, nas salas periféricas da minha cidade, pouco ou nada me dizem. Prefiro, por isso, ficar em casa vendo os clássicos possíveis da minha colecção pessoal de DVDs. Porque o cinema, lá fora, mais do que a chamada sétima arte, tornou-se um negócio nas mãos de produtores altivos, de distribuidores analfabetos e de exibidores coincidentes que vão perfilando nos ecrãs do mundo a mesma sucessão de imagens cujo sedução reside já não naquilo que seria suposto retratarem mas no aluvião de efeitos passageiros que essas imagens provocam em nós, espectadores passivos, até ao próximo sucesso de bilheteira.

Reconheço que nesse aluvião de imagens passam, umas quantas vezes por ano, uns tantos filmes que, embora sujeitos à mesma engrenagem mercantil de todos os outros, não participam da mesma esterilidade estética e da conjura holywoodesca contra o cinema. Esses filmes, quando passam (e em 2007, para mim, apenas passaram Paranoid Park, de Gus van Sant, Falkenberg Farväl, de Jasper Ganslandt, Letters from Iwo Jima, de Clint Eastwood, Death Proof, de Quentin Tarantino e, sobretudo Empire Inland, de David Lynch), desafiam-me a sair de casa abandonando a geografia interior dos meus livros – e a acender, por uma noite, a luz esquecida de um tempo em que ir às soirées de sábado e às matinées de domingo no antigo Cine-Teatro de Portimão, há muito demolido, era um acontecimento esperado durante toda a semana – e a adentrar-me na realidade distinta criada no ecrã a partir da realidade empobrecida do mundo de hoje.

Do tempo em que entrevia o mundo a partir do alto dos bancos corridos do segundo balcão de um cinema de província, ficou-me uma colecção de cromos que reproduzia as mesmas fotografias dos actores de momento -Alain Delon, Romy Schneider, Sophia Loren, David Niven, Ingrid Bergman… -, emolduradas junto ao bar do Cine-Esplanada, onde numa noite de Verão vi a Ponte do Rio Kwai enquanto o céu era riscado por uma chuva de metoritos que se confundiam com o fogo das baterias japonesas sobre os intrépidos prisioneiros de guerra britânicos. Ficou-me, sobretudo, a memória de um tempo em que ir ao cinema era um acontecimento preparado com uma semana de antecedência: primeiro, tratava-se de ir num grupo de amigos ver os cartazes afixados nas vitrinas, na expectativa de haver um filme para maiores de doze anos; chegavam depois as tardes domingo com os seus filmes para maiores de doze: o Ben-Hur, de William Wyler, O Tesouro da Sierra Madre e outros filmes de cowboys, Sangue no deserto, de Anthony Mann, A pousada da sexta felicidade, de Mark Robson, uns policiais alemães com o Peter van Eyck, as comédias da série Com jeito vai e tantos outros filmes que me fizeram rir, chorar, revoltar. Mas o que era bom mesmo era ir ao cinema: comprar o bilhete com as economias da semana, receber o programa, ouvir o going e ali ficar na penumbra, entre amigos, vivendo as aventuras daqueles heróis tão próximos de mim que até os guardava numa caderneta de cromos na gaveta da minha mesa-de-cabeceira.

Ia muito ao cinema nesse tempo. E continuei a ir quando vi alargadas as minhas possibilidade de escolha aos filmes para maiores de dezassete. Veio, a seguir, a actividade cine-clubista, na Sala do Boa-Esperança, e com ela o cinema de autor cujas reposições me deram outra consciência de mim e do mundo: Orson Welles, Billy Wilder, Elia Kasan, Jean Luc-Godard, Michelangelo Antonioni, Ingmar Bergman…

Depois, apesar das novas salas que entretanto abriram na cidade, a matéria das suas telas foi ficando puída. Mas há dias, depois de me ter decidido ir ver A vida dos outros, de Florian Henckel von Donnersmarck, no âmbito de um curto ciclo de novo cinema alemão promovido pela Art&fictio, uma recém criada associação  cultural da minha cidade, enquanto esperava o going que anunciava o apagar das luzes e o início do filme, não pude deixar de pensar que, afinal, um certo cinema cintilante ainda é possível nas mesmas telas puídas e que, entrevistas as coisas com o optimismo necessário para afrontarmos o mundo que aí está, talvez possamos ainda ver passar alguns filmes que vão dando conta da consternação do mundo e que, além disso, bom mesmo, outra vez, é ir ao cinema assim e ficar por ali rodeado de cumplices à espera que o filme comece. É que, embora a sala de cinema fosse outra, no meio daqueles jovens voluntariosos que ali estavam passando filmes para pôr o pensamento a pensar, estava também eu como se não tivesse saído nunca do alto do segundo balcão donde há muito tempo comecei a entrever o mundo.

Desemalando uma biblioteca

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Vou, então, desemalando os livros que trouxe comigo de Paris e arrumando-os nas prateleiras da minha biblioteca, isto é, subtraindo-os à desordem da mala escancarada para lhes ir dando uma ordem próxima da do coleccionador que é a do catálogo de leituras que carrego comigo e que, daqui a pouco, quando já estiverem os livros recém-chegados dispostos na prateleira, será também a do sentido que cada um deles irá convocar na sua relação de vizinhança com os que já ali se encontram, como se a pequena biblioteconomia das minhas estantes fosse, ela também, geradora de novos sentidos.

Ponho de lado o livro de bolso de Walter Benjamin sobre o desembrulhar de livros e sobre a arte de coleccionar  Je déballe ma bibliothèque – que me deu matéria para o post anterior e que poderei, ainda, ter de consultar caso necessite de aconselhamento autorizado nesta tarefa, ligeiramente aborrecida, de disposição de livros na estante, a qual, se agora alguém de fora aqui chegasse, julgaria tratar-se mais de uma tarefa de arrumação doméstica do que um procedimento biblioteconómico. E, como Benjamin, à medida que vou retirando os livros da mala, recordo não só as livrarias onde os comprei, La Hune et L´Arbre à Livres, como também as circunstâncias da sua compra, a flânerie que página a página, rua a rua, me conduziu até eles, como se «Paris [fosse uma] grande sala de leitura de uma biblioteca que atravessa o Sena», evocação que, agora, vai também alimentando este fetichismo bibliotecário que, seguramente, já descortinaram nesta auto-ficção.

É, então, sob o signo benjaminiano que retiro da mala, primeiro, a tradução francesa desse iluminante e inacabado projecto que é o Livro das Passagens e não posso deixar de pensar que esse livro fulgurante resulta do trabalho de um autor espoliado não só da sua biblioteca, mas também da sua assinatura, pois o seu nome consta nas listas de autores cujas obras foram queimadas na noite de 10 de Maio de 1933, na Praça da Ópera, em Berlim. E para melhor conhecer Benjamin retiro, em seguida, da mala, a biografia que Hannah Arendt escreveu sobre este escritor saturnino como o proprio se julgava: «Vim ao mundo sob o signo de Saturno: o astro da revolução mais lenta, o planeta dos desvios e demoras…» E depois, os dois livros iluminantes dos labirintos parisienses de Benjamin, Nadja, de André Breton e Le paysan de Paris, de Aragon que li e depois perdi nos meus tempos de faculdade.

Como se marcado pelo signo melancólico de Benjamin tudo o que vai tomando, depois, o seu lugar nas prateleiras, parece participar da mesma «amargura saturnina». Mais do que qualquer outro, Robert Walser que nas palavras de Benjamin tinha «horror ao triunfo da vida» e cujo livro dos microgramas, a que deram o mais walseriano dos títulos, Territoire du crayon, vem, finalmente, habitar a minha biblioteca. São 77 textos escolhidos entre os cerca de dois mil microgramas escritos a lápis com uma caligrafia minúscula sobre 526 folhas de papel de todo o tipo: envelopes, margens de jornais, formulários oficiais, etc. e, como se não me chegasse, ainda, um «romance», Le brigand, encontrado no meio desses manuscritos. Arrumo os livros de Walser junto das traduções portuguesas que já se encontram por ali e não posso deixar de pensar que o escritor suíço era, mais do que Benjamin – que era, sobretudo, um flâneur contemplativo, intelectual -, um «amigo declarado de vagabundear e percorrer léguas e léguas durante dias inteiros» e, por isso, não obstante a sua longa passagem por Herisau, menos saturnino que o autor das Passages. E que dizer do extravagante Raymond Roussel que vivia apartado de si próprio numa roulotte com as persianas descidas, e de quem André Breton disse ser «conjuntamente com Lautréamont, o maior magnetizador dos tempos modernos»? Arrumo, por isso, o seu Locus Solus ao lado dos meus  escritores franceses obscuros, onde também vai parar Armand, escrito por aquele Walser de Paris que é Emmanuel Bove, o escritor crespuscular que me foi apresentado por Enrique Vila-Matas. Talvez, então, também, arrumar por ali as Lettres choisies: 1911-1939, de Joseph Roth, enviadas desde o seu exílio de Paris, sobretudo, para Stefan Zweig, enquanto, à semelhança do seu santo bebedor, se ia «afundando no álcool como num abismo, um abismo macio forrado a algodão». E, logo ao lado – porque também como Roth era oriundo desse mundo de fronteira que era a Galícia polaca -, talvez colocar Le sanatorium au croque-mort, o livro que me faltava de Bruno Schulz , esse «escorraçado da vida (…) que desliza, furtivo, pelas margens», como o retratou Witold Gombrowicz que, também, ficará por ali, com Ferdidurke e, sobretudo, com os dois volumes do seu Journal – escrito durante os vinte e quatro anos que passou na Argentina -, onde o escritor polaco nos oferece aqueles instantes de deslumbramento que ele próprio designou por retratos de momento. Reparo, entretanto, que neste dispor de livros nas prateleiras venho caminhando desde Paris, sempre cada vez mais para leste, até à terrível realidade de Odessa descrita por Isaac Babel nestas Chroniques de l´an 18 – que arrumo junto aos meus escritores russos -, atravessando antes uma Mitteleuropa em desagregação que Robert Musil – esse escritor a quem a escrita usurpou a biografia – nos dá a conhecer nas duas mil páginas de L´homme sans qualités que trouxe comigo de Paris por duvidar que a anunciada tradução portuguesa esteja para breve. Resta Le métier de vivre, o diário desesperado de Cesare Pavese, diário perigoso porque, segundo Italo Calvino, um dos primeiros a lê-lo, capaz de contagiar o desespero a quem o leia. Onde arrumá-lo se não na minha colecção de diários que me vem sendo proposta por Enrique Vila-Matas desde O mal de montano?

Qual a medida e o peso desta biblioteca transportada numa mala desde Paris? Seguramente que nenhuma metrologia será capaz de o dizer. Porque só o último leitor conhece quanto valem os seus livros, agora, ali, na estante, olhando lá do alto, desafiando o abismo que os separa do chão, à espera, talvez, que eu, como um expedicionário deste território de papéis embebidos em tinta, subitamente, me decida e vá por ali acima, de lombada em lombada, à procura, por exemplo, de Musil e o encontre a conversar com Walser numa clareira do bosque de Herisau antes daquele Natal de 1956.

Quanto pesa uma mala cheia de livros?

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«Há episódios na vida ditados por uma discreta lei que nos escapa», eis a frase com que Pasavento/Vila-Matas pensava começar uma conferência em Sevilha sobre a relação da realidade com a ficção e que, se este post fosse um ensaio sobre as estranhas coincidências da vida, utilizaria como epígrafe, pois dessas pequenas coincidências que irrompem no nosso quotidiano se alimentam as ficções que cada um constrói para si. Auto-ficções, portanto. Mas não, trata-se apenas de um post de momento sobre a arte de desemalar livros comprados em viagem, na circunstância em Paris, e que trouxe comigo numa mala cheia que lentamente fui desemalando e arrumando nas prateleiras da minha biblioteca, isto é, subtraindo-os à desordem da mala escancarada para lhes ir dando uma ordem próxima da do coleccionador que é a do sentido que cada um daqueles livros convoca na sua relação de vizinhança com os que já se encontram dispostos e no catálogo de leituras  que carrego comigo.

Sim, Walter Benjamin escreveu um artigo sobre isso, onde evoca, entre considerações sobre a arte de coleccionar livros,  o momento que antecede o arrumar dos livros que, continuamente, em pesadas caixas,  transportava consigo para os lugares para onde o conduziam as suas errâncias, voluntárias umas vezes, por motivos de estudos – Berlim, Friburgo, Munique, Marselha, Bergen, Ibiza -, forçadas outras, como a que o levaria a viver em Paris – um «lugar de trânsito» –  até à dramática fuga para Lisboa onde nunca chegaria porque as suas asas de borboleta nocturna falhariam o último voo, incapazes de o levarem para fora daquele quarto de hotel, na pequena localidade de Port Bou, onde deixaria, pousada no chão, ao lado da mesa de cabeceira, a mala preta em que transportava os últimos «labirintos de tinta embebidos nos seus cadernos». Onde deixara ele os seus livros, dos quais, com mágoa, tantas se vira apartado,  para, depois, experimentar nos lugares da sua errância, a felicidade de novas aquisições, como aquele Enfer de la Bibliothèque National, organizado por Guillaume Apollinaire que encontrou num alfarrabista, em Paris? Que destino para os seus livros guardados por amigos, em Svendborg, e enviados, em 1938,  para Paris, onde viriam, em 1940, a ser confiscados pela Gestapo e enviados para a Alemanha, onde, em 1945, seriam encontrados pelo Exército Vermelho que os enviaria para Moscovo, donde seriam, depois, transferidos, para a RDA? O que se terá perdido desta biblioteca que, sabe-se, pesava «469 quilos», mas cujo peso subjectivo atribuído pelo coleccionador ficará para sempre indeterminado?

Mas onde, até aqui neste post, essa coincidência de que falava no início cuja lei nos escapa? É que, sem o saber, trouxe comigo de Paris,  na minha mala de viagem, Je déballe ma bibliothèque – esse o título da tradução francesa do artigo de Walter Benjamin sobre o desencaixotar de livros e a arte de coleccionar -,  sem, contudo, saber que o trazia, pois, alguém, na circunstância a minha mulher, o arrumou junto dos outros que, esses sim, comprara nas minhas deambulações pelas livrarias parisienses, em busca de outro livro de Benjamin, o das Passages, que acabaria por comprar na Arbre à Livres, da rue Moufettard. Tal como Benjamin, e como tantos de nós, enfermos do mal de Montano, também eu errara por Paris em busca de livros não editados por cá para preencher vazio na minha biblioteca e, no final, me encontrara diante do balcão de check-in temendo que a pesada mala ultrapassasse os vinte quilos permitidos para a bagagem de porão, não contando com o que já levava na bagagem de mão. É que – como desabafou Margarete Steffin, em 1934,  em casa de Brecht, em Svendborg, na Dinamarca, quando recebeu, cinco ou seis caixas de livros postas em trânsito por Benjamin que pesavam «469 quilos», –  «os livros são terrivelmente pesados». Os meus nem tanto, embora só tenha ficado descansado quando o mostrador da balança assinalou 17 quilos e 50, sendo que mais ou menos dois quilos seriam para atribuir às duas garrafas de Château Pavie, colheita de 1989,  o excelente Saint-Émilion que me fora dado beber na dobra do ano, o que me colocaria perante um dilema de difícil solução caso tivesse de optar entre levar, por exemplo, os volumes de L´homme sans qualités, de Robert Musil que, finalmente, comprara, cansado de esperar pela anunciada edição portuguesa, que começo a duvidar se algum dia sairá face às novas qualidades, mais mercantilistas, da editora que se propôs editar a obra completa do escritor austríaco.

Este, então, um post, sugerido por um livro que pesa não mais do que umas duzentas gramas – trata-se de uma edição de bolso -, mas cujo peso subjectivo já é imenso, pois trouxe-me a esta divagação sobre um Benjamin bibliófilo menos conhecido. Daí, porque não, a pertinência desta espécie de metrologia da leitura que venho esboçando aqui, cujo alcance só nos apercebemos diante no derradeiro momento quando diante balcão de check-in somos confrontados com o peso a mais na mala cheia de livros. É que para além do peso subjectivo que atribuímos a cada livro e que determina as nossas escolhas, há, ainda, outro peso, o peso físico, que influencia a quantidade de livros a transportar na mala de viagem e, logo, as nossas opções de compra no estrangeiro. Ajudaria aqui, talvez, a existência de uma espécie de crítica quântica para enfrentar os livros a comprar para levar na mala de viagem, «no sentido de uma endossocio-metrologia, associada à economia (porque o peso a mais no momento do check-in traduz-se no aumento do custo efectivo livros adquiridos), capaz de influenciar as nossas decisões no momento da compra.  A mesma crítica teria ainda de ser capaz de,  no caso de extravio da mala cheia de livros, determinar qual o valor da indemnização a conceder ao viajante-leitor,  juntando elementos de cálculo que tivessem em conta a perturbação causada por tal perda. Disparatado. Claro. Mas que dizer, então, também, da crítica económico-literária, surgida na Universidade de Bolonha, na Cátedra de Semiótica, dirigida por Umberto Eco, que visa enfrentar, por exemplo,  um livro,  através do cálculo dos custos associados à sua escrita, o que nos levaria a avaliar, por exemplo, o romance Debaixo do vulcão, de Malcolm Lowry, pela quantidade bebidas alcoólicas – setenta e sete bebidas diferentes – consumidas ao longo da alucinante narrativa. De acordo com uma equivalente lógica metrológica quanto me teria custado L´homme sans qualités, se tivesse que deixar o Château Pavie, o que não aconteceria porque pagaria o excesso de peso das duas garrafas,  ficando-me, assim,  a bom preço quer o romance quer o vinho.

Posto este post, trata-se, agora, então, de começar a arrumar os livros nas prateleiras, sem constrangimentos metrológicos porque a madeira de que é feita a estante aguenta qualquer peso e medida física; veremos se, também, a restante substância de que são feitos os livros.

Próxima estação

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«As estações de comboios deixam-me entrever um mundo que não conheço. A atmosfera que as envolve é mais subtil. (…) Gosto de estações de comboios porque elas vivem dia e noite», confessa Emmanuel Bove em Les Amis, o romance que comecei a ler, não numa estação de comboios, porque já não se viaja de comboio para Paris, mas num aeroporto que pouco tem a ver com as estações de comboios que povoaram o mapa inter-rail da minha adolescência. Santa Apolónia, Atocha, Austerlitz, Termini… Por isso, também eu gosto de estações de comboios; e, por isso, ainda hoje, quando visito uma qualquer grande cidade, gosto de entrar nelas, olhar os painéis das partidas e chegadas, deambular nos cais, observar os que chegam e os que partem.

Há uns anos viajei de avião para Leipzig onde devia apanhar um combóio para Weimar. Mas como cheguei à estação já noite alta, quase madrugada, e só havia comboios para dali a algumas horas, deixei-me ficar por ali naquela estação onde todos os comboios já tinham partido, mas onde, misteriosamente, permanecia ainda o cheiro do último comboio a vapor que, por certo, já tinha partido há muitos anos, pois as linhas há muito que eram electrificadas. Esse o segredo mineral das estações de comboios que me lembram o pequeno mundo organizado de partidas e chegadas da minha infância que misturava a mecânica das velhas locomotivas com a do diesel das novas automotoras manobrando com um rumor metálico sob o olhar ocioso dos Boves que, entre passageiros apressados e grandes sacos de correio, erravam na pequena estação de província para onde me esgueirava depois da escola. 

Lembram-me ainda que muitos anos depois encontraria a mesma estação de comboios rigorosamente vigiados da minha infância no romance de noventa páginas Bohumil Hrabal, cuja acção se passa na Checoslováquia, no final da Segunda Guerra Mundial, e que repete o mesmo pequeno mundo de chefes-de-estação, factores, agulheiros, maquinistas, carregadores, cobradores de bilhetes e passageiros de segunda classe onde cresci. A mesma estação de comboios que voltaria a encontrar naquele romance de Italo Calvino, Se numa noite de Inverno um viajante, onde, numa noite de chuva, um passageiro desembarca numa estação ferroviária que me deu «a impressão de recuar no tempo, de uma reocupação dos tempos e dos lugares perdidos, ou então um faiscar de luzes e de sons» que eu julgava perdidos na estação embaciada da minha infância onde já não há comboios a manobrar pelos carris brilhantes a perder de vista. Por isso, como Bove, gosto da atmosfera subtil das estações ferroviárias, talvez, agora, à espera de um breve encontro como no filme de David Lean que revi há dias.

Despedir-se à francesa

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Passei uma semana em Paris aproveitando o privilégio supremo que me foi oferecido enquanto forasteiro, que foi o de participar da banalidade quotidiana desta cidade que nunca se acaba sem lhe sentir o peso, e muito menos sem remorsos por me ter ausentado da outra banalidade quotidiana que vou habitando – essa sim, muitas vezes pesada – e que deixei suspensa na dobra do ano.

Gosto de Paris. Gosto de, ao entardecer, sob o zinco da esplanada do Café de Flore, enquanto vou observando a chuva oblíqua através das vitrines, folhear um livro acabado de comprar ali mesmo ao lado, na livraria La Hune; gosto de caminhar sem rumo preciso, por Germain-des Près, guiado apenas pela intuição do flâneur que me leva, depois, através da rue de Seine a cruzar o arco que dá para o Quai de Conti e para a Pont des Arts; gosto das bancas de livros ao longo dos cais; gosto da Île de Saint-Louis com as suas boutiques elegantes; gosto de deambular pelo Marais até à Place de Vosges, de tomar um chá na rue Vieille du Temple; gosto do mercado da rue Mouffetard e das suas bancas onde se vendem ostras com um forte sabor a mar, gosto do aroma forte dos queijos expostos naquela crémerie onde sempre entro, da livraria Arbre à Lettres onde, finalmente, encontrei o Livre des Passages, de Walter Benjamin; gosto, ainda, de errar por essas passages secretas, donde Benjamin via Paris como a cidade dos espelhos; gosto de me imaginar Le Paysan de Paris e, como Aragon, adentrar-me na cartografia de Paris e escutar a formidável ressonância das pequenas coisas que se mostram dissimuladas ao passeante.

Mas agora que estou de volta, reparo que, tal como confessava há dias Enrique Vila-Matas na sua crónica no El País, a propósito de lhe ocorrer, às vezes, despedir-se à francesa, também eu assim me despedi do ano findo, isto é, imitando o costume evocado pelo escritor catalão – costume considerado elegante, diga-se – da burguesia francesa do século XVIII que abandonava os salões sem saudar os anfitriões, o que seria uma maneira de afirmar que partiam a contra-gosto e que, por isso, tinham o propósito de regressar quanto antes a tão boa companhia. Fica esclarecido, então, que se me fui daqui sem avisar, não deixando os votos de Ano Novo àqueles que aqui costumam visitar-me, não foi por indiferença relativamente ao ano por vir, muito menos por má educação para com a companhia deste salão contemporâneo que é a blogosfera, mas sim uma maneira de dizer que também eu ia ali – na circunstância, a Paris – e já voltava e que não prescindia da boa companhia daqueles que aqui costumam vir ler o que me cai dos dias.

E, já agora, acrescente-se que esta escapadela à francesa evitou-me deixar aqui aqueles balanços de fim de ano a que sou avesso e que no caso deste blogue corresponderia a uma espécie de haver contabilístico dos livros lidos durante o ano ou, o que seria mais entediante, a um catálogo do tipo best of  dos livros publicados, aliás desnecessário, porque, entretanto, confeccionado até à exaustão em vários jornais, numa infrutífera tentativa de prolongar o ano mental para além das páginas dos calendários. É que esses catálogos de fim de ano recordam-me a passagem inexorável dos dias que não sabem que passam mas que passam sempre, com ou sem balanços, com ou sem celebrações, com ou sem despedidas de fim de ano.

Por mim, prefiro recordar os dias por vir, o mais além do tempo. O próximo encontro, portanto. E que melhor lugar para ter dobrado o ano, sem despedidas, mas com elegância, do que tê-lo feito nessa Paris que nunca se acaba, divagando sobre a luminosidade do champagne, não seguramente para me despedir do ano findo ou festejar o novo com abraços mais ou  menos efusivos, mas para ir entrando de mansinho nesse mais além do tempo como um expedicionário dos dias que aí vêm. Em Paris donde, dobrado o ano, regresso agora à vossa boa companhia, despedindo-me à francesa da boa companhia que também ali encontrei – com elegância portanto -, porque como escreveu Hemingway em Paris é uma festa, «Paris nunca se acaba, e a memória de cada pessoa que ali viveu é diferente da memória de qualquer outra».

Passeantes de Dezembro

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Herisau, dia de Natal de 1956. Entre faias e abetos, na ladeira que desce do Schochenberg, um homem jaz no chão, confundindo-se com o deserto branco que o rodeia. A neve é o mais perfeito esconderijo. Depois de ter almoçado no sanatório, errara durante horas até ao coração do bosque, perdido. Ao longe, talvez, o toque lamentoso de um sino. A cabeça está apoiada sobre a raiz de um abeto que emerge da neve. Não há tristeza no seu rosto. Apenas a réstia de um olhar eternamente extasiado perante a neve pura, com o espanto de quem descobre, finalmente, o mais secreto dos desejos. Daqui a pouco, um grupo de crianças encontrará um corpo num bosque gelado e saberemos tratar-se de Robert Walser, o «poeta mais escondido que alguma vez existiu», como escreveu Elias Canetti. E que num nos dos seus romances, Os irmãos Tanner, pusera premonitoriamente na boca de um personagem uma elegia a Sebastião, o poeta encontrado morto na neve: «Com que nobreza escolheu a sua tumba! Jaz no meio de esplêndidos abetos verdes, cobertos pela neve. Não quero avisar ninguém. A natureza inclina-se a contemplar o seu morto, as estrelas cantam suavemente à volta da sua cabeça e as aves nocturnas grasnam: é a melhor música para alguém que não tem ouvido nem sensações».

No mesmo dia de Natal, em 1956, há cinquenta e um anos portanto, morria o avô de W. C. Sebald – o escritor passeante através de paisagens solitárias, que morreu como o seu avô e como Walser, também, num dia Dezembro de 2002 – que tinha saído de sua casa para dar um passeio pela neve e tombou sobre ela quase à mesma hora em que o outro passeante, Robert Walser, caía também fulminado sobre a neve, numa paisagem de faias e abetos.

Neste Natal de 2007, recordo não os silêncios dos passeantes mortos em Dezembro, mas as palavras que nos legaram entre ruínas de um passado que remete para a totalidade do mundo. E olhando à minha volta, enquanto se fazem os preparativos para o fogo de artifício que há-de incendiar a noite da passagem do novo ano que aí vem com os seus relâmpagos e fulgores luminosos efémeros, retenho da leitura daqueles passeantes de Dezembro que partiram quando eu cheguei, a sua esterilidade sentimental em relação às festividades natalícias.

Em Portimão não neva, por isso não haverá o perigo de me perder na neve no dia de Natal. Tão pouco sou um passeante através de paisagens solitárias. Já o escrevi aqui, sou antes um flâneur urbano que não se deixa bafejar pela secura do coração daqueles passeantes em relação ao Natal. Até porque, embora seja avesso a toda a retórica que transforma a época natalícia numa época do mais seco mercantilismo envolto em falsas roupagens de fraternidade e solidariedade, conforta-me a reunião da família, a exposição da minha pequena colecção presépios do mundo, a estética do fogo da lareira, os sabores, os cheiros, o aflorar do passado trazido sempre pelos mais velhos. Por isso, neste Natal continuarei a criar com os amigos e a família uma realidade distinta a partir da realidade inquietante, empobrecida, envolta em papéis cintilantes que serão rasgados no momento da troca de presentes. Porque se ainda é possível um verdadeiro espírito de Natal, ele só poderá ser encontrado se formos capazes de ver os outros no meio da bruma que anda por aí.

Aproveitar, então, o Natal, não para desaparecer na neve como Walser, muito menos para nos perdermos nos labirintos do mercantilismo desalmado que neste tempo anda por aí, mas para no meio de uma estética de ciprestes, pinheiros, zimbro e coloridas velas trémulas com cheiros que compoêm a paisagem doméstica destes dias, continuarmos a explorar, como passeantes de Dezembro, outras possibilidades para o mundo.

Danças com Che

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No passado sábado enquanto lia o suplemento literário do El Pais na esplanada do Círculo de Artes, em plena Gran Via, em Madrid, alguém, que me pareceu de imediato muito familiar, se sentou na mesa ao lado e pediu que lhe trouxessem um Habana Club com gelo. Durante algum tempo procurei recordar de onde conheceria eu aquele rosto. Ainda pensei tratar-se de Gael García Bernal ou Benicio del Toro ou, embora menos, de Antonio Banderas. Como não achava forma de me lembrar, entre um gole de rum e outro, ganhei coragem e acabei por lhe perguntar: – «Perdone? No nos conocemos?»Seguro que sí. Yo soy el Che Guevara», respondeu.

Pensei tratar-se de uma piada e esqueci-o. Contudo, à noite, enquanto caminhava pela Plaza del Sol, lá estava ele, agora plantado sobre um  caixote de plástico, vestido com camuflado militar e com a bóina do Che Guevara na cabeça. Com um livro aberto na mão, recitava um inflamado discurso contra o imperialismo, enquanto se deixava fotografar por grupos de turistas japoneses que lhe concediam, depois, alguns euros que atiravam para uma pequena caixa colocada aos seus pés. Não havia dúvida, era mesmo o Che que ali estava, competindo com um homem de mala de viagem, gabardina e chapéu de chuva revirados pela ventania imaginária que de repente se levantara naquela praça de Madrid mas que, estranhamente, parecia não afectar o revolucionário argentino. Contudo, não obstante a paixão que Che imprimia ao seu discurso, o homem da mala e gabardine ao vento atraía mais público e arrecadava mais moedas, retardando, assim, o financiamento da revolução por vir.  

Na Calle de los Preciados, muito perto, portanto, do epicentro revolucionário da Plaza del Sol, na vitrina de uma loja de artigos de beleza de categoria duvidosa, expunha-se um kit completo de higiene revolucionária: um jogo de toalhas vermelhas com a efígie do Che e uma caixa de sabonetes, gel de banho e shampô, tudo com o selo do Che. E na vitrina da relojoaria, uns metros adiante, alguns relógios Swatch com a fotografia de Che no mostrador esperavam pulsos revolucionários. E na loja da FNAC havia um escaparate de novidades sobre o Che: Ernesto Guevara, también conocido como el Che, Paco Ignacio Taibo II, Booket; Os últimos dias de Che, Juan Ignacio Siles, Debate; Diarios de motocicleta, Ernesto Che Guevara, Ediciones B; El diablo cojuelo, Luis Veléz de Guevara, Cátedra; Che Guevara. Una vida revolucionaria, Jon Lee Anderson, Anagrama; El hombre que mató al Che Guevara, Magnus, Nuevas Fronteras del Arte. Perante tamanha profusão de comandantes, pensei que a revolução estaria iminente e que, talvez, fosse melhor deixar os sapatos Camper para outra ocasião, não fosse ser confundido com um simpatizante da globalização.

Regressei de Madrid sem que tenha notado qualquer mudança revolucionária. Talvez porque os turistas tivessem preferido o homem da mala e gabardina ao vento ao inflamado Che da Plaza del Sol. Mas hoje, por ocasião do quadragésimo aniversário da sua morte, ao procurá-lo no Google voltei a encontrá-lo nos lugares mais insólitos: tatuado no braço de Maradona, desenhado em t-shirts, impresso em posters para quartos de adolescentes, bordado em roupa interior feminina, pintado em bolas de futebol, gravado em caixas de chocolates, inscrito em notas de um dólar, difundido através de pins, de gadgets. Che para todos os gostos e idades, como estratégia de marketing, trabalhada a partir da velha fotografia de Alberto Korda como denuncia Trisha Ziff em Che: Market and Revolution: para estudantes e para a terceira idade, para enfermeiras e empresários, para intelectuais nihilistas e alienados consumistas. Adorado como um santo na Bolívia e odiado como um assassino em Miami.

Como explicar esta espécie síndrome guevariano?.Talvez porque Che morreu jovem, guapissimo, como me disse uma amiga argentina, mais ainda do que os seus duplos  actuais, Gael García Bernal ou Benicio del Toro. Talvez para nos fazer esquecer a imagem patética de Fidel calçando uns chinelos Adidas num hospital cubano. Ou os discursos bolivarianos de Chávez. Talvez porque vivemos num mundo sem redenção.

Talvez por isso, também, a única imagem que gostaria de evocar agora, não é a mítica fotografia de Alberto Korda, tirada em 1960, e que o Instituto Maryland de Arte viria considerar «a mais famosa fotografia no mundo e símbolo do século XX», mas aquela outra, muito menos conhecida, que mostra duas mulhers dançando por ocasião do seu aniversário, em Santa Coloma de Gramanet. Não porque haja ali qualquer pulsão revolucionária, e muito menos o sentimento nihilista contemporâneo que o transformou, nas décadas de sessenta e setenta num ícone de uma juventude rebelde com causa, depois na ténue bandeira de nostálgicos guerrilheiros urbanos, e mais recentemente num símbolo do movimento anti-globalização, mas porque essa é uma imagem sem rosto, a única que lhe pertence desde que lhe atribuiram uma biografia romântica, mitificando-o como um justiceiro solitário e um revolucionário generoso, abatido traiçoeiramente no final da história.

A questão a saber é se poderá ainda atribuir-se algum significado político à sobrevivência mercantilizada de Che. Em artigo publicado no El Pais [Che “versus” fetiche], Iván de la Nuez, um ensaísta cubano que vive em Barcelona, considerava a propósito que «para la izquierda radical, el fetiche del Che significa una victoria cultural después de una derrota política. Para la derecha radical, el fetiche del Che significa una derrota cultural después de una victoria política». Será? E será que «a sua auréola de idealista e de herói, a capacidade de sedução de alguns dos valores que orientaram a sua intervenção, a própria noção da violência revolucionária como necessidade», ligadas à utopia guevarista ainda fazem sentido, como questiona Rui Bebiano em O capitão Wiesler e o doutor Guevara?

[Obrigatório passar por www.personalche.com e ver o trailer de dois jovens cineastas Douglas Duarte (Brasil) e Adriana Mariño (Colômbia) também em: www.youtube.com/watch?v=1nyBxg32Wd0

  • O ESCREVENTE

    Um blogue de João Ventura® (joaobventura@yahoo.com) «fora das coisas civis e na mais pura região da arte» [Joseph Joubert]
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