A página assinalada

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Na corrente proposta pela Maria do Rosário/Divas & Contrabaixos, poderia ser outro livro qualquer e outra página qualquer a assinalar, mas o acaso surpreendeu-me regressando do mapa obscuro onde Canetti acharia que me perderia enquanto expedicionário, tantas são as bifurcações que irrompem nesse abismo que ousei explorar em noites recentes sem outra orientação que não o desejo de habitar momentaneamente esse território onde a realidade supera a ficção acolhida na escrita luminosa e equívoca de Enrique Vila-Matas. O livro, já se percebeu, é Exploradores del Abismo [Anagrama, 2007] que comprei há dias em Madrid e que li sofregamente como sempre leio os livros desafiantes, as entrevistas espasmódicas, as crónicas gombrowiczianas em forma de retratos de momento do escritor catalão que habita a minha «biblioteca do quarto escuro», juntamente com outros que com ele atravessam a região shandy da literatura.

E a página 161 proposta como brecha de entrada no abismo é última página conto “El día señalado”, assim como a quinta frase completa dessa página não é outra senão a última frase de um relato muito vilamatiasiano sobre o acaso objectivo que comanda as nossas vidas, do qual, muitas vezes, só conseguimos escapar no derradeiro instante enquanto «el mundo [parece] seguir su curso habitual, del mismo modo que, incluso en los casos extremos en los que todo está en juego, se sigue viviendo como si no pasar nada» [esta a frase assinalada na pág. 161].

Não sou muito dado a correntes, mas reconheço que não devemos pará-las para não interferirmos no curso habitual das coisas, por isso e também por voyeurismo que nõ escondo relativamente à página 161 de outros livros, passo o convite a cinco outros expedicionários cujos caminhos muitas vezes se bifurcam no meu próprio caminho. Ao Rui Bebiano/A Terceira Noite, ao Luís Jorge/Vida Breve, ao Sérgio Lavos/Auto-retrato, à Isabel Victor/Caderno de Campo e à Sandra Costa/ Tubo de Ensaio para nos revelarem uma passagem dos seus mapas literários.

[E lembrem-se: escolher o livro mais próximo, literalmente; assinalar a página 161; transcrever a 5ª frase completa] e continuar a corrente].

Retrato breve

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Conheço pouco da obra de Doris Lessing, a laureada deste ano, mas gosto do seu olhar tranquilo, luminoso e, simultaneamente, distante. E mais do que a sua obra, desperta-me curiosidade a sua biografia. Uma mulher que nasce em Kermanshah, na Pérsia, e vai viver para África aos seis anos, que trabalha como telefonista em Salisbury, que é capaz de andar de país em país, deixando marido e filhos, escolhendo ser escritora, alguém sem formação académica e que mesmo assim constrói uma obra com a amplitude da sua, é com certeza mais interessante do que o cortejo de escreventes que publicam livros só porque ganharam um nome fora da escrita. Dela sei, ainda, que é uma escritora comprometida. Uma testemunha do seu tempo. «Uma contadora épica da experiência feminina [que] perscruta uma civilização dividida», como ouvi dizer a Lídia Jorge. Sei ainda que na sua autobiografia incompleta, a propósito de um saco que um dia uma portuguesa lhe ofereceu, escreveu que Portugal era «uma dessas regiões do mundo onde reina a graça do coração». E, há instantes, quando a vi noticiário, não pude deixar de pensar que também Agustina Bessa Luis merecia um prémio assim. 

Espião casual

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Diz António Trabucchi que todos os escritores são um pouco voyeurs, todos olham para lá das portas que abrem para os abismos de todos os dias, procurando roubar a experiência de outras vidas. Enrique Vila-Matas confessa esse pecado dizendo que tem por hábito fazer de espião casual no autocarro nº 24 que percorre «la calle Mayor de Gracia», em Barcelona, retirando dessa observação disfarçada a matéria impura dos seus livros: «Tenho em casa um arquivo de gestos, frases e conversas escutadas através do tempo nesse trajecto de autocarro, e até creio que poderia escrever um romance tão infinito como aquele que queria fazer Joe Gould sobre Nova Iorque, pois roubei e registei todo o tipo de frases soltas, conversas estranhas, disparatadas situações». Ficamos, então, a saber que o conto La Modestia [in Exploradores del abismo, Anagrama, 2007] é um produto de uma espionagem literária da realidade de todos os dias, feita de mundos ficcionais paralelos que às vezes se confundem, sem que os seus protagonistas o saibam, como aconteceu com «aquela mulher toda vestida de cinzento como a mãe de Nerval», saída, talvez, de um quadro de Fragonard para entrar no autocarro da carreira nº 24. É que numa carreira diária de um qualquer autocarro, se observarmos bem à nossa volta, talvez encontremos a porta que se abre para o abismo da dura realidade daqueles que, incógnitos, viajam connosco. O problema é que, depois, como diria Canetti, quando a porta se fecha já não sabemos como regressar desse mapa onde, entre uma paragem e outra, nos perdemos.

À beira do abismo

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«O que escreves?, perguntaram-me há um ano. Depois do Doctor Pasavento, vivia numa permanente sensação de caminho enclausurado, pois sentia que havia chegado ao final de um certo percurso e que diante mim se abria um abismo. Escrevo o título de um livro, respondi. O título era Exploradores do Abismo. Nos dias que se seguiram, começaram a surgir uma série de relatos relacionados com o que sugeria esse título. O livro inteiro é a exploração desse abismo. E, como o mesmo título indica, ocupa-se de histórias protagonizadas por seres à beira do precipício, seres que se entretêm com essa fronteira, estudando-a, investigando-a, analisando-a. Os exploradores são, obviamente, uma metáfora da condição humana. São optimistas e as suas histórias, no geral, são as das pessoas comuns que, ao ver-se à beira do precipício, adoptam o estatuto de expedicionário e sondam no plausível horizonte, indagando o que pode haver fora daqui, ou no mais além dos nossos limites». Caídos na imanência, entregues ao mundo sem remissão, é aí, contudo, que terão de encontrar as novas forças para explorar abismos e retraçar a realidade naquelas zonas obscuras onde a ficção não entra. Este o propósito denunciado por Enrique Vila-Matas que parece querer assim suspender, pelo menos por agora, a temática metaliterária (Bartleby, Montano e Pasavento), e obsessiva, dos seus últimos livros, para concentrar-se em torno de assuntos mundanos. Exploradores del abismo [Anagrama]o seu «livro más vilamatiano, justamente porque no está a la sombra de nadie» – como disse o próprio Vila-Matas -, sai esta semana em Espanha, assinalando o regresso do autor ao conto, género breve dos seus primeiros livros. Trata-se de uma travessia fragmentária através dos territórios de um quotidiano vazio habitado por personagens aparentemente derrotadas da vida mas que as circunstâncias transformam em solitários expedicionários à procura da fórmula para exconjurar a realidade.  Regressados da verdadeira vida que é a ficção precipitam-se no abismo que é, muitas vezes, a realidade. Daí a atracção kafkiana pelo abismo experimentada por seres que, vivendo na mais absoluta rotina quotidiana, são inesperadamente obsequiados com epifanias que os transformam em expedicionários de mundos, de vivências nunca experimentadas. «Fuera de aquí, tal es mi meta», eis a radical auto-consciência que alimenta o propósito vertiginoso deste livro, talvez o único movimento possível para quem explora os abismos da vida através de uma «escrita hóstil e mesquinha com a exuberância», como a classificou o crítico mexicano Álvaro Enrigue, mas cedendo a uma certa lógica surrealista convocada agora sob os auspícios do seu admirado Raymond Roussel, como confessou Vila-Matas em entrevista recente.

Preparados para roçar o abismo? A edição portuguesa está prometida para breve, na Teorema. Entretanto, aqui fica La Modestia:

«Llevo muchos años ejerciendo de espía casual en el autobús de la línea 24 que sube por la calle Mayor de Gracia, en Barcelona. Tengo en casa un archivo de gestos, frases y conversaciones escuchadas a través del tiempo en ese trayecto de autobús, y hasta creo que podría escribir una novela tan infinita como aquella que quería hacer Joe Gould sobre Nueva York, pues he robado y registrado todo tipo de frases sueltas, conversaciones extrañas, disparatadas situaciones. Un modesto delincuente, por cierto, parece haberse enamorado últimamente de esta línea de autobús. Le llaman –ya es muy conocido entre algunos pasajeros– el ladrón del 24. En cuanto sube al autobús, aquellos pasajeros que le conocen advierten a gritos a los incautos: “¡Cuidado, cuidado, que entró el ladrón del 24!” La escena es siempre conmovedora y tiene grandeza y hasta algo de épica popular, y a mí me recuerda, salvando todas las diferencias, una película que vi de niño en la que la gente de los barrios bajos se movilizaba para estrechar el cerco de un asesino de niñas. Al ladrón del 24 le han detenido unas quinientas veces ya, pero siempre queda en libertad y regresa al autobús, donde es muy famoso. No parece interesarle una línea distinta, ni otro autobús. Le debe de encantar –como a mí me pasa– sentirse un habitual de esa línea, o tal vez le apasiona simplemente repetirse… Se parece en algo a mí: los dos robamos en esa línea de autobús. Claro que él roba carteras y yo me limito a capturar frases, rostros, gestos… Tengo reunidas en mi archivo frases de todo tipo oídas, a través del tiempo, en este autobús que me conduce desde hace años del trabajo a casa, y viceversa. Obviamente, hay algunas frases que son mejores trofeos de caza que otras. Una de ellas es la que le oí decir en cierta ocasión a una mujer que iba sentada detrás de mí en la parte trasera del autobús: “Del inglés y del francés me acuerdo, pero el swahili lo he olvidado por completo”. Me pareció una frase muy sofisticada para decirla en la línea 24. Al volverme, vi que eran dos monjas las que viajaban detrás de mí. Las dos habrían vivido en Africa y eso seguramente lo explicaba todo, pero la frase sigue pareciéndome bastante sofisticada. En otra ocasión, también memorable, un joven le dijo de pronto a otro, cuando ya iban a bajar, en voz muy alta, muy enfadado, y todo el autobús se enteró: “Que sea la última vez que te lo digo: mi madre es mi madre. Y tu madre es tu madre. ¿Queda claro? ¿Me has entendido?” Parecía muy grave el problema entre los dos. Me quedaron ganas de bajarme con ellos y averiguar cuál era el drama. Recuerdo muy especialmente, entre otras muchas frases oídas y anotadas: “Le regalé unas magnolias y no me lo perdonó nunca”. Y esta otra: “La felicidad está en el martirio”. Y ésta “Si ganas dinero antes de los cuarenta años, estás perdido”. Todas están anotadas, con la correspondiente fecha. Tengo un dossier que tumba de espaldas, una información grandiosa sobre el mundo del autobús de la línea 24. Un día escuché a una mujer contarle a su marido que la luna no es lo que pensamos: “No es un satélite natural de la tierra, sino un inmenso planetoide hueco, diseñado por alguna civilización técnicamente muy avanzada, y colocado en órbita alrededor de la tierra hace muchos siglos”. Anoté cuidadosamente todo esto y también lo que le dijo el marido, que tenía cara de idiota (y también esto lo anoté, me refiero a lo de la cara de imbécil): “La luna es la luna y basta”. Bonita frase la del idiota, algunas veces la digo, me gusta decirla: –La luna es la luna y basta. Nadie sabe por qué digo eso, nadie sabe que procede de mis escuchas de autobús. La vida en el 24 forma parte de mi archivo más íntimo. Hasta el día de hoy siempre tuve la impresión de que todo lo que ocurría en esa línea me concernía directamente. El archivo –como mi vida– se ha ido haciendo grande y complejo. Y no es extraño, porque hubo siempre, en ambos campos –autobús y vida–, una gran cantidad de cosas para anotar. Hubo tantos gestos, personas, tantas frases… Sin embargo, hace una semana iba concentrado en mis pensamientos y no espiaba nada. Hay muchos días, sobre todo últimamente, en los que, no sé por qué, pero descanso de todo esto. Me olvido de que soy un ladrón de frases de autobús. El lunes pasado era uno de esos días. Pero de pronto pasó algo bien imprevisto. Me encontraba de pie en el asfixiante autobús repleto, iba apoyado distraídamente en una de las barras de la plataforma central, cuando una mujer que hablaba por su móvil dijo detrás de mí: –Voy a bajarme ahora, en la estación de Fontana. Tengo treinta años, pero no sé si los aparento. No soy ni guapa ni fea. Llevo un abrigo gris. Bueno, nos vemos. Hasta ahora. Viajaba de espaldas a mí, de modo que no le podía ver la cara, a menos que diera dos pasos (imposibles) para ponerme delante de ella, o hiciera un gesto muy forzado con la cabeza pero que, con tanta gente alrededor, habría quedado poco natural. Aquel “no soy ni guapa ni fea” me llegó al alma. Era una frase que había oído mil veces, pero que ahora escuchaba con intensidad diferente. Me dejó completamente preocupado. ¿Se puede realmente ser algo intermedio? ¿Qué podía haber ocurrido en la vida de aquella mujer para que se valorara ella tan poco a sí misma y no tuviera problemas en formularlo en voz alta? ¿Le gustaba ser modesta? ¿Lo era simplemente y no había que darle más vueltas a todo aquello? ¿O tal vez no era nadie y ni siquiera llegaba a modesta? Me pareció desazonante que alguien se resignara a tanta grisura. Vista de espaldas, era bajita, vestía totalmente de gris y hasta la negra cabellera parecía que se le estuviera volviendo gris, llevaba una bolsa de Zara que habría resultado un dato para identificarse más útil que aquel “no soy ni guapa ni fea”. Me planteé seguirla cuando se bajara en Fontana y ver con quién se encontraba, entrar de lleno en el comienzo de una novela real. Pero estaba yo llegando demasiado tarde a casa y no tenía tiempo para seguirla por ahí. Por otra parte, jamás en mi vida había seguido a alguien por la calle y no me veía para nada haciéndolo. Tu espacio es el del autobús, pensé. Y eso me ayudó a reprimir mi idea de bajarme. Pensé también en el libro sobre Gérard de Nerval que estaba leyendo y me vino a la memoria una cita conmovedora: “Yo no he visto jamás a mi madre. Sus retratos se perdieron o fueron robados. Sé solamente que se parecía a un grabado de la época, un grabado de la escuela de Prud’hon o de Fragonard y que podía titularse La Modestia”. ¿Era aquella mujer, toda vestida de gris, como la madre de Nerval? Pero, ¿podía yo saber cómo era la madre de Nerval si ni siquiera éste lo sabía? Po-día, en cualquier caso, tratar de ver cómo era la mujer que había hablado por el móvil. Sentía mucha curiosidad por ver si realmente no era ni guapa ni fea. Espere pacientemente para al menos verle la cara. Cuando el autobús se detuvo en Fontana, la mujer se volvió bruscamente hacia mí y comenzó a abrirse paso hacia la salida. La vi en un perfecto primer plano. Un rostro de ojos rasgados y verdes, muy bello, castigado por la tristeza y la modestia, y diría que por la desesperación. De pronto, nuevamente me llegó la tentación de descender del autobús e ir tras ella, averiguar con quién había quedado. Descendió del autobús allí en Fontana y me quedé temiendo que en la calle Mayor de Gracia su belleza se actualizara a cada instante, según el aspecto del rostro de los otros. Me di entonces cuenta de que hasta me sentía algo celoso de ella. Era una mujer gris, de una modestia cautivadora. Me quedé allí como un imbécil, dentro del autobús, viendo cómo, ya en la calle, se perdía entre la multitud que caminaba Mayor de Gracia arriba. Aún me quedó tiempo, mientras el autobús arrancaba, para ver cómo se iba cruzando con todo tipo de transeúntes y posiblemente les ofrecía a cada uno su mejor.» [in Enrique Vila-Matas, Exploradores del Abismo, Anagrama, 2007]  

… gestos, pessoas, frases, anotações do que cai da insubstancialidade vazia dos dias. E, no entanto, mesmo num autocarro qualquer, e sob qualquer máscara, às vezes, há epifanias. 

No Bairro portátil do senhor Tavares (IV): periferias

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Por analogia com o seu homónimo que procurava o desaparecimento, o eclipse, este Walser [O Senhor Walser, Gonçalo M. Tavares, Caminho, 2006] é mais dado ao recato que os primeiros povoadores do Bairro. Por isso, manda construir a sua casa «a uns bons quilómetros do bairro mais próximo», no que se assemelha ao Walser-outro, também ele instalado numa casa nos arredores de Herisau, durante vinte e oito anos, apenas saindo, aos domingos, para dar longos passeios no bosque circundante, com o seu amigo e editor Carl Seeling. Eis, agora, então, o Senhor Walser, na sua nova casa: «Mal se abre a porta de sua casa — sente ele — entra-se noutro mundo. Como se não fosse apenas um movimento físico no espaço — dois passos que se dão — mas também uma deslocação — bem mais intensa — no tempo. […] Quando fechava a porta atrás de si, Walser sentia virar as costas à inumana bestialidade (de que saíra, é certo, há biliões de anos atrás, um ser dotado de uma inteligência invulgar — esse construtor solitário que era o Homem) e entrar em cheio nos efeitos que essa ruptura entre a humanidade e a restante natureza provocara; uma casa no meio da floresta, eis uma conquista da racionalidade absoluta” (p. 13). Todo o seu mundo está agora ali dentro daquela casa, fora do mundo, onde a «racionalidade absoluta» tudo incorpora. Por isso, Walser, ao contrário dos outros senhores, não se enreda em pensamentos, em raciocínios que desembocam quase sempre no absurdo. E a sua ingenuidade não o leva a agir, mesmo quando o mundo exterior invade a sua casa contra a «racionalidade absoluta» ou por causa dela. Mesmo nessa situação, limita-se a esperar e a ter expectativas. «Não estou aqui para escrever, mas para enlouquecer», escreveu Robert Walser no mais curto micrograma de sempre. «Não estou aqui para agir, mas para ter expectativas», escreveria o Senhor Walser se fosse dado à escrita.

No Bairro portátil do senhor Tavares (III): licores fortes

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Agora a taberna. O Senhor Henri [Gonçalo M. Tavares, Caminho, 2003]. O absinto. O álcool como estímulo, fonte de inspiração literária. Pessoa bebendo um copo de aguardente no Abel Pereira da Fonseca. O vinho de Goethe. A tequilla de Malcolm Lowry. O whisky de José Cardoso Pires. «É preciso estar absolutamente bêbado», declarou Baudelaire. E Rimbaud que dizia «sobretudo, beber licores fortes como metal fundido». E Kafka que escreveu um Colóquio do Bêbado. Mas, hoje, parece, os escritores já não bebem. Já não se embriagam. Passam ao lado dos paraísos artificiais. E disso, ressente-se a literatura. Vai um copo de absinto? «Énivrez-vous!»

No Bairro portátil do senhor Tavares (II): contra a filosofia

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As historietas protagonizadas pelos inquilinos do Bairro parecem apropriadas para crianças. E são. Para as crianças que ocultamos em nós. Mas são mais do que isso se acreditarmos, como Paul Valéry, que o «infinito é bem pouca coisa; é uma questão de escrita [e que] o universo só existe no papel». Em O Senhor Valéry [Gonçalo M. Tavares, Caminho, 2002], talvez seja possível descortinar uma genealogia de escritores e filósofos lidos pelo Valéry homónimo. Talvez Diderot. Seguramente Wittgenstein (que virá ainda, segundo desvenda o autor, habitar o bairro) também lido pelo nosso Bernardo Soares de quem se aproxima através da «estética do movimento». E, no outro lado do espelho, isto é, colorindo as entrelinhas do texto, o mundo fantasioso de Lewis Carrol (também, consta, com contrato-promessa já assinado para vir morar no bairro). Ao mesmo tempo convoca o cinegrafismo de Buster Keaton e a esperteza saloia de Jacques Tati. E, claro, retraça Paul Valéry ele-mesmo que se interrogava: «como não arredondar, colorir, procurar tornar [tudo] mais nítido, mais perturbador, mais íntimo? […] Em literatura o verdadeiro não é concebível». Não é isso que também persegue o Senhor Valéry?

Em comum, estes senhores, duais na aparência e volúveis nos comportamentos, que vão sendo reagrupados no Bairro por Gonçalo M. Tavares, nutrem todos uma certa desconfiança pela filosofia e praticam a exaltação das expressões literárias expeditas. O que me faz pensar existir aqui uma conjura portátil vagamente shandiana.

Projecto para uma roda de leitura perigosa

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Intrometo-me no book crossing que anda por aí e atrevo-me a propor alguns livros para serem postos a  girar, este Verão, numa Roda da Leitura como a que a imagem acima reproduz [cf. Agostino Ramelli: projecto para uma roda de leitura. Paris, 1588]. Basta colocá-los na roda, carregar no pedal e, depois, ir lendo ou relendo os cinco livros que aqui recomendo contra a rasura das novidades. Cinco livros que fazem uma pequena biblioteca giratória, intensiva e transportável, escolhida para levar para férias, com o mar do sul ao fundo, procurando novos caminhos bifurcados em páginas talvez já lidas mas sempre à espera de serem de novo abertas, manipuladas, perseguidas por gente que acredita que nelas se espelham mundos. Que cumplicidades tecem, então, estes livros entre si? Desde logo, o facto de partilharem, na minha biblioteca pessoal, a mesma prateleira. E também a circunstância dos seus autores pertencerem a uma certa geografia, a da Mitteleurope que mais do que uma condição espacial corresponde, sobretudo, a uma certa ideia de literatura. Depois, porque são autores que ocultam a sua biografia para melhor poderem afirmar a sua obra. E, ainda, porque todos  habitaram de uma forma ou de outra «as regiões do destino onde reina a solidão». 

Finalmente, porque talvez encaixem na categoria de livros a que Robert Walser se referia quando escreveu n´O Salteador (Relógio d´Água, 2003): «Às pessoas saudáveis faço o seguinte apelo: não teimem em ler apenas esses livros saudáveis, travem um conhecimento mais estreito, também, com a literatura dita doentia, que vos transmitirá, decerto, uma cultura edificante. As pessoas saudáveis deviam sempre expor-se um pouco ao perigo. Senão, com mil raios, para que serve ser saudável?»

Talvez a vida destes escritores tenha sido «doentia», mas não os seus livros que parecem substituir a vida que não tiveram por uma espécie de duplicação do mundo. E não será, afinal, esta a vocação de toda a literatura?

1. Robert Musil, As perturbações do  Jovem Törless [1906] (Dom Quixote, 2006), uma quase autobiografia da juventude do autor, uma espécie de Werther pessoal e uma «necrologia profética»;

2. Robert Walser, Jacob von Gunten [1909] (Assírio & Alvim, 2005), o extravagante escritor suíço que escrevia lápis para melhor poder ausentar-se; 

3. Kafka, O desaparecido [1927] (Relógio d´Água, 2004), onde se persegue o sonho de um emigrante preso numa engrenagem donde cada vez mais é impossível escapar;

4. Bruno Schulz, As Lojas de Canela [1933] (Assírio & Alvim, 1987), cujos contos transfiguram a pequena cidade de Drohobycz numa espécie de Macondo polaca onde se respira o ardor intenso da fantasia e das metamorfoses  contra a colmeia de nevroses e de loucura onde o autor se encontra encerrado;

 5. Joseph Roth, A Lenda do Santo Bebedor [1939] (Assírio & Alvim, 1997), outro polaco, da Galitzia, que aqui narra a vida e a «morte suave e bela» do seu Santo Bebedor, tão contrária à sua própria morte.

[Deixo o desafio a todos os que por aqui passarem para pôrem a andar nos comentários a sua Roda de Leitura]

Jonathan Safran Foer

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«Todos os livros são sobre a perda», diz Jonathan Safran Foer, um dos mais promissores escritores norte-americanos, segundo a revista Granta, tal como Nicole Krauss, sua mulher, autora de A história do amor [Dom Quixote] que evoquei num post anterior. Pelo menos os livros que escreveu W. G. Sebald são sobre a perda. Livros sobre a consternação do mundo, sobre as ruínas que o nosso tempo vai amontoando. Tijolos sobre tijolos. E ninguém na paisagem desolada do tempo que passa. Apenas a literatura para gravar no papel o desvanecimento da História. Meditação sobre a perda colectiva. Que Jonathan Safran Foer também procura empreender adentrando-se no mundo que,  literalmente, desaba à sua volta, como acontece em Extremamente alto & incrivelmente perto [Quetzal, 2007] que temos agora a oportunidade de ler, depois do seu primeiro romance Está tudo iluminado [Temas & Debates].

Em Tudo se Ilumina, através de dois tempos e duas instâncias narrativas, contam-se duas histórias: a do escritor americano que viaja à Ucrânia em busca das suas raízes; e da própria povoação de origem que mais parece uma Macondo judia e europeia. Em Extremamente alto… , Oskar é um órfão do «dia mais triste de todos os tempos»: o seu pai desabou com as torres do WTC e com elas também os arquétipos de uma criança que não consegue parar de inventar mundos paralelos; noutra história, contada através das cartas escritas pelos avós, é a paisagem de destruição de Dresden durante a Segunda Guerra Mundial que surge carregada de fantasmas do passado. O que me lembra outra vez Sebald evocando as marcas da destruição de Berlim. Depois, há ainda a retórica da fotografia, da rasura, das mãos do avô, inscrevendo Jonathan Safran Foer num pós-modernismo compósito que alguns acusam de pouco original. 

Mas outra maneira de abordar a questão é considerar Foer como um jovem escritor que pega no lastro de uma certa literatura, retraçando a partir daí o que antes já fora traçado de outra forma. De resto, Foer não recusa a influência de Sebald, cuja escrita compara a «um machado afiado»; ou a aproximação à agudeza judaica de Philip Roth do período de O complexo de Portnov (não esquecer que Foer é judeu e a sua ainda curta obra persegue o lastro dessa herança, reinterpretando-a à luz da contemporaneidade); ou a integração de um sopro surrealista que não destoaria de algumas páginas de Kurt Vonnegut; ou, talvez, antes de tudo, a auto-referenciação a um certa arquitectura narrativa que evoca Laurence Stern.

 

A moeda do tempo

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O poeta derrama o corpo e as emoções na praia do poema onde se espraiam «as coisas contemporâneas» e se escuta o «som do mundo» que ecoa nos versos que escreve e na recordação dos versos de outros poetas. A infância, a memória, os amigos, a perda, a eternidade da morte. A experiência do tempo como experiência do mundo e da linguagem sujeita a um tratamento reflexivo que reconstrói «o passado no presente». O mar, os barcos, as aves como fulgurações de instantes do passado irrompendo no presente, «coisas contemporâneas de uma vida que excede a minha vida» e se confronta com as ameaças de um mundo que «um dia irá apagar [os versos] e a incerta esperança que o próprio mundo original» seja a casa da escrita e «dos poetas que emudecem». Um livro de ondulações verbais onde se renovam as sonoridades do correr da água «anterior à água das palavras» [A moeda do tempo, Assírio & Alvim].

 

Urbano Tavares Rodrigues, o anti-bartleby

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É, talvez, o mais profícuo dos escritores portugueses. O mais anti-bartlebyano de todos, contra exemplo do escrevente Bartleby, aquele empregado de escritório de um conto de Herman Melville, que inspirou Enrique Vila-Matas a escrever Bartleby & Companhia, espécie de diário-ensaio sobre os escritores que renunciaram à escrita para melhor poderem se afirmar. A ele se deve, ainda, a recuperação de Manuel Teixeira Gomes, esse escritor do sul, que foi também Presidente da República, hoje injustamente pouco conhecido, que se deu, ele também, como desaparecido em Bejaia, Argélia. A ele se deve uma obra ficcional de enorme folgo – com mais de quarenta títulos publicados desde 1952, e que agora a Dom Quixote está a reeditar -, indispensável para se compreender um certo universo social do Portugal contemporâneo. Em Ao contrário das ondas tudo se passa numa Lisboa, entre a Lapa e as Avenidas Novas, num quadro mental que convoca referências culturais de uma burguesia de esquerda aí retratada com a agilidade e o desembaraço narrativo que se conhece em Urbano Tavares Rodrigues. Um olhar lúcido sobre as representações urbanas do país, com um misto de perplexidade e desilusão face ao paradigma político actual. Uma crónica realista do tempo que passa.

  

Realismo mágico alentejano

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No post anterior, a propósito de Mértola e da sua excentricidade, evoquei de passagem o romance O perfumista, de Joaquim Mestre [Oficina do Livro]. Na 6ª feira, em conversa com a Lídia Jorge, falou-se do seu primeiro livro O dia dos prodígios, do seu ambiente onírico, telúrico, e não pude deixar de pensar que o livro de Joaquim Mestre pertencia ao mesmo universo. Por isso, embora os meus universos romanescos, por agora, sejam outros, aqui deixo uma breve nota. Romance atravessado por uma espécie de realismo mágico alentejano, cuja acção decorre no primeiro quartel do século XX, num território particularmente pobre das margens do Guadiana, conta-nos a história de Manuel Gasparim, um perfumista apaixonado que cria aromas, faz misturas, inventa olores que levam as mulheres à perdição, chegando mesmo, nas últimas páginas, a soltar-se um sopro de loucura inebriante quando o intenso cheiro a benjoim percorre a vila inteira perante a perplexidade de todos. É um Alentejo profundo, atravessado pelas várias dimensões da vida, aquele que se derrama na planície e no silêncio deste livro, que retoma a melhor tradição dos escritores alentejanos, de que Manuel da Fonseca é o expoente máximo. Excentricidades.

A nova serialidade televisiva

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Hoje, um post num registo diferente dos que têm caído aqui. Atrevo-me a dizer que sobre outro tipo de literatura, a literatura audio-visual «pós-moderna» da qual não sou propriamente um aficcionado, até porque as minhas horas diante do pequeno ecrã, tenho-as ocupado ultimamente a rever em DVD os clássicos de cinema que vão chegando. E não só, revi em dois fins de semana consecutivos a filmografia de David Lynch. E a série Twin Peaks, onde se repete até à exaustão a pergunta «quem matou Laura Palmer». 

A pergunta da série de culto de David Lynch que inspirou a maioria dos actuais criadores de séries de televisão é,  hoje, reescrita para «o que se passa naquela ilha?, onde sobrevivem os náufragos de Perdidos, o novo ícone da pop culture que milhões de jovens vêem, compram, pirateiam, discutem em todo o mundo. Uma espécie de «suspension of disbelief», suspensão do real, eis o que nos acontece, às vezes, quando durante horas a fio nos encontramos Perdidos numa ilha deserta; ou quando durante 24 horas somos parceiros de Jack Bauer em contra o terrorismo (ainda que muitas vezes os métodos utilizados escondam interesses propagandísticos inconfessáveis e repudiáveis); ou quando amamos e odiamos Gregory House, o médico mais politicamente incorrecto da televisão; ou quando estremecemos de emoção quase bergmaniana diante de mais um episódio de Os Sopranos; ou quando nos confrontamos com as neuroses americanas em Sete Palmos de Terra; ou quando descobrimos os mais podres e ardilosos segredos da vida dos subúrbios de uma cidade americana em Donas de Casa Desesperadas; ou quando penetramos no mundo virtual que nos evoca Matrix em Heroes; ou quando apanhamos um crimionoso em CSI. Trata-se de histórias com sequências narrativas  desdobradas até ao limite, percorridas por personagens onde projectamos umm certo inconsciente, novas cosmogonias de um mundo ficcional que julgávamos irremediavelmente perdido numa televisão afundada em telenovelas e na vulgaridade de um quotidiano maculado transferido para o ecrã. Será esta a resposta contra a alienação dos públicos, contra os reality shows, contra a encenação bacoca de episódios triviais do quotidiano de indivíduos anónimos temporariamente promovidos ao estrelato de ficção? Desde 2006 temos vindo a assistir à emergência de um novo conceito de serialidade televisiva com uma estrutura narrativa idêntica às dos romances do século XIX que também eram publicados em fascículos semanais antes de sair o livro completo; hoje, a caixa de DVD. Estará o futuro a trazer do passado aquilo que tem potencial para criar audiências, mas sem iludir a realidade? Isto é, a televisão como entretenimento inteligente? O paradigma de Perdidos não é o mesmo da Ilha do Tesouro, de Stevenson, agora acrescido da inquietação moderna da ausência do herói? E os múltiplos enredos e intrigas secundárias, os infindáveis elencos, a construção das personagens não era algo que até agora estava apenas reservado ao cinema e à literatura? É verdade que antes já o DVD tinha revolucionado a nossa forma de ver cinema, transferindo os clássicos da tela ampla para a televisão. Agora são as séries com as suas possibilidades de horas infinitas, com desvios, retrocessos e avanços narrativos que criam a ilusão da suspensão da realidade, e não o seu simulacro. Talvez se esteja a assistir, então, à emergência de uma nova forma de literatura audiovisual de massas com capacidade de propor algo diferente da ilusão trivial da realidade, mas antes, talvez, a sua suspensão ficcional, pelo menos enquanto durar o episódio da série ou a caixa de DVD que visionamos.

No bairro de Gonçalo M. Tavares

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O Senhor Walser é o mais recente inquilino do Bairro que Gonçalves M. Tavares vem povoando, correspondendo a um programa de «alojamento» ficcional de contornos lúdicos com avatares filosóficos de escritores famosos. Trata-se agora da saga doméstica do Senhor Walser, numa clara evocação do escritor suiço Roberto Walser que cultivou um estilo de vida e uma escrita que visava a ocultação. Tal como Robert Walser, que passou os últimos vinte e oito anos da sua vida no manicómio de Herisau, junto à floresta de Appenzel, também o senhor desta história procura ocultar-se numa casa no meio da floresta, onde espera criar um espaço de «conquista da racionalidade absoluta» contra o caos circundante. Contudo, ironicamente, o caos acabará por se inflitrar no interior da habitação levado pelos trabalhaores que no dia da inauguração da casa, supostamente, viriam pôr tudo em ordem.

Entretanto, há dois outros senhores, Calvino e Kraus, que vão estar por estes dias (de 16 a 19 de Maio) no Teatro das Trindade, com dramaturgia e encenação de Sandro William Teixeira, numa «espécie de inteligência filosófica feita acção». Quem puder que passe por lá. Deixo-vos o cartaz.

 

Cemitérios de pianos

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No ventre de uma oficina de carpintaria há um cemitério de pianos cujo mecanismo, à semelhança dos seres que procuram esse refúgio, não está morto, mas apenas suspenso no tempo. Lugar recatado de iniciação sexual, gritos de amor e esconderijo de adúlteros; exílio voluntário de leituras clandestinas onde se soltam pensamentos; confessionário de mortos; pátio de brincadeiras infantis. Espaço de passagem de testemunho entre gerações onde passado e presente se confundem através de um processo narrativo fragmentário que ludibria o leitor que procura acompanhar as passadas de dois narradores cuja voz, às vezes, lhe escapa. O mesmo fundo negro de sempre dos livros de José Luis Peixoto,  mas agora com fulgurações de claridade irrompendo na sombra. Uma escrita intercalada de sombras e luz, de silêncio e riso, de medo e de esperança, de culpa e perdão. A morte de novo convocada, não para indicar o fim, mas a renovação, o elo entre gerações, a continuidade.

  • O ESCREVENTE

    Um blogue de João Ventura® (joaobventura@yahoo.com) «fora das coisas civis e na mais pura região da arte» [Joseph Joubert]
  • Abril 2021
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