Do céu caiu uma estrela

film_itsawonderfullife.jpg

«A felicidade não só existe como abunda nesta vida e só é necessário que nos fixemos nos pormenores menos visíveis, como o demonstra aquele que tão facilmente soube encontrá-la em noite de lua cheia em Los Portales de Vera Cruz», afirma o narrador do romance de Enrique Vila-Matas, Longe de Vera Cruz ao recordar a lua de prata e as praias longínquas cantadas por Agustín Lara que num verso nostálgico dizia: «um dia terei de voltar». E como demonstração suplementar desta «nota sem texto», não é que instantes depois de a ler reencontro Georges Bailey que descobre, também ele, que a felicidade está muitas vezes perto de nós, embora nem sempre sejamos capazes de a ver. Este o fio invisível que liga o livro ao filme que revi há dias, como se todas as coisas, afinal, estivessem ligadas, mesmo que imperceptivelmente. O livro fala de desassossego e paixão, do que nos resta quando estamos longe do vulcão das nossas paixões antigas. Longe da vida? O filme, pelo contrário, conta a história de um homem, Georges Bailey, que na noite de Natal recupera a família e a alegria de viver, porque descobre que afinal era feliz e fazia os outros felizes. Momentos antes quisera fugir da vida. E no entanto, a felicidade era possível em Bedford Falls, a pequena cidade onde acontece a história do filme de Frank Capra, Do céu caiu uma estrela/It´s a wonderful life (1946).

E mais nada liga o livro ao filme, a não ser esta ideia da felicidade e a intertextualidade que procuro naquilo que me cai dos dias. A não ser, ainda, que foi a frase do livro que me fez escrever sobre o filme. Um filme cheio de coisas bonitas a fazer a felicidade de quem o vê: Gloria Grahame a parar o trânsito; o baile onde Bailey/Stewart conhece Donna Reed, «a rapariga mais bonita da cidade» com quem viria a casar; a cena sensual entre ambos junto aos arbustos quando o roupão dela cai; o belíssimo plano do primeiro beijo…, depois, a noite da inexistência de Bailey/Stewart em que um anjo descido à terra para o salvar lhe mostra como a cidade teria sido sem ele – um amontoado de vidas perdidas, pobreza, violência -, a solidariedade na noite de Natal, enfim, tudo pormenores que fazem deste filme o filme da felicidade. Nada disto é a vida, dir-se-á. Pois não, é cinema, onde se dá outra trama à vida, porque às vezes é preciso ser feliz, nem que seja enquanto durar um filme, ao qual poderemos voltar sempre que o desejarmos. Nem que seja por do céu, às vezes, cair uma estrela para nos ajudar. Já me aconteceu.

Marilyn, a Madame Bovary de Hollywood

marilyn2.jpg 

Há um livro novo sobre Marilyn Monroe – um romance, não uma biografia – escrito por um autor-psicanalista, Michel Schneider, que persegue os seus últimos anos de vida com uma nostalgia proustiana em relação à actriz. «Não me interessa a verdade histórica, mas a verdade ficcional. Não me interessa saber como Marilyn morreu, interessa-me saber como viveu. […] Por isso o romance pareceu-me a escolha mais justificada. Poder dar às personagens emoções». Marilyn, as últimas sessões [Difel] evoca a relação, no ambiente de Hollywood – onde se fundem os mundos do cinema e da psicanálise, – entre Marilyn e Ralph Greenson, o psiquiatra freudiano que a analisou de Janeiro de 1960 a Agosto de 1962. O livro chega depois de muitas biografias, depois da ficção voluptuosa de Norman Mailer que a descreve como «sweet angel of sex, and the sugar of sex came up from her like a ressonance of sound in the clearest grain of a violin»,  depois de Blonde [Círculo de Leitores], o pesadelo fantasmagórico de Joyce Carol Oates que num registo ora factual ora ficcional persegue um fio de solidão e fragilidade. 

Schneider leu tudo isso e muito mais, como se constata na bibliografia que apresenta, mas o seu livro não se deixa engolir pelos outros porque o que ele procura não é uma nova versão ou explicação da morte de Marilyn, mas a revelação de alguém que se foi dando como desaparecida enquanto a morte anunciada não chegava. Alguém que quis desaparecer do corpo, se ausentar da tela, para procurar a salvação nas palavras, mas  roçando sempre o abismo para onde seria atraída «uma noite ao deitar-se quando se sentiu sozinha/ou suspeitou que tinha errado a vida», como diz Rui Belo no belíssimo poema A morte de Marilyn. Schneider deita Marilyn no divâ e fá-la, finalmente, escrever o livro que nunca escreveu: «A literatura, aliás, sempre esteve na sua vida, de uma forma caótica», escreve Schneider. E Marilyn foi casada com Arthur Miller, um dos mais famosos dramaturgos americanos; conheceu o escritor Vladimir Nabokov e, depois desse encontro, interpretou My heart belongs to daddy (em Let´s make love/Vamo-nos amar, de George Cukor), onde diz: «My name is… Lolita»; e pediu a Wilder que a deixasse representar a Grushenka dos Irmãos Karamazov. «Nos últimos tempos, ela própria colocou o corpo de lado. Para se dedicar às palavras. Por isso fiz este livro: para lhe poder dar a palavra», confessa Schneider. As palavras que já não pôde dizer quando na noite de 5 de Agosto de 1962 «a mão da solidão [caiu como] pedra [no seu] peito». Uma morte prematura nunca verdadeiramente explicada, mas que para Norman Mailer foi urdida pela CIA e pelo FBI; a primeira vítima de uma série de assassinatos políticos: Kennedy, Malcolm X, Martin Luther King.

Recentemente, revi Marilyn em The seven years itch/ O pecado mora ao lado, de Billy Wilder], e não pude deixar de recordar o poema de Ruy Belo : «a mais bela mulher do mundo/ tão bela que não só era assim bela/como mais que chamar-lhe marilyn/devíamos mas era reservar apenas para ela/ o seco sóbrio simples nome de mulher/ em vez de marilyn dizer mulher». E a sua imagem de inocente do próprio desejo que a sua imagem acendia em Tom Ewell. E dentro dessa imagem quem lá estava não era a Norma Rae (nascida na periferia de Los Angeles, em 1926, orfã de pai, abandonada depois pela mãe num orfanato, antes de entrar na espiral do medo que seria a vida de Marilyn desencontrada de Norma Rae). Essa há muito que havia partido. Nem era já a personagem que ela representava, mas a própria Marilyn (a máscara): «Quem é que tu tens aí escondida? Marilyn Monroe?» O mito dela própria. Uma espécie de Madame Bovary holywoodesca, cuja aura nem Mailer nem Wahrol (no seu famoso retrato) nem ninguém foram capazes de captar.

Janela indiscreta

hitchrearwindow03.jpg 

Há filmes que eu veria dia sim dia não se tivesse tempo: Fellini, “Oito e Meio”, a “Lolita” de Kubrick, “O Crepúsculo dos Deuses”, “A Hora do Lobo”, de Bergman, “Janela Indiscreta”, de Hitchcock, “As Férias do Senhor Hulot” ou “O Meu Tio” de Jacques Tati, ou “O Padrinho”…, confessa David Lynch, e eu que tenho andado muito “lynchiano” nas últimas noites, revisitando quase toda a sua filmografia – O homem elefante [1980], Dune [1984], Veludo azul [1986], Um coração selvagem[1990] , Estrada perdida [1997], Uma história simples [1999] e Mulholland Drive [2001], enquanto a minha condição periférica não me permite ver Inland Empire, acabado de chegar- (como poderei rever Os últimos sete dias de Laura Palmer e Eraserhead que nunca vi e não encontro nos meus videoclubes?) – disponho-me a rever os filmes da vida de Lynch.

Ontem à noite vi Janela indiscreta que Lynch considera a obra-prima de Hitchcock.  O cinema na sua perfeição, despojado, muito próximo do “cinema puro” – recorrendo a um único movimento da câmara, ao desenrolar de toda a história a partir de um só lugar (o quarto de Jeff/James Stewart que é, afinal, a sala onde nós próprios vemos o filme), à projecção simultânea de vários écrans (as outras janelas) dentro daquele único que está em nossa casa (hoje, quase só é possível ver o filme em DVD). O voyeurismo como natureza humana, ou uma extraordinária lição de arte, e não apenas de cinema. Os dois travellings de abertura mostram toda a dialéctica do filme: num, com uma virtuosidade surpreendente, é-nos mostrado tudo o que relacionou com o acidente de Jeff, um fotógrafo “errático”, a câmara fotográfica, as fotografias de corridas de automóvel, o gesso na perna, a personagem imobilizada, dormindo numa cadeira de rodas; no outro, observamos o mesmo que Jeff pode ver através da sua janela traseira, um casal feliz, uma jovem bailarina, um pianista sem inspiração, uma senhora solitária, um casal que discute muito… O elemento que vai ligar Jeff ao outro prédio é Lisa Fremont (Grace Kelly), uma estilista “sedentária” da classe alta que deseja casar com o desajeitado fotógrafo, que prefere ir ficando solteiro, namorando com Lisa e fazendo fotografias pelo mundo. Contraditoriamente, o que Jeff observa através da sua janela é o casamento dos outros que não quer para si, revelando a fobia social hitchcockiana. Mas como noutros filmes, o realizador segue aqui o seu procedimento habitual, passando da observação estática à acção, através de Lisa que actua como um operador simbólico – ao agir para desvendar um crime que constitui apenas o pretexto necessário para o realizador desenvolver o tema – entre os dois prédios, e entre a quase infantilidade da atitude inicial de Jeff e a sua maturidadade final. Hitchcock não só nos faz ver tudo isso como mostra ainda o que parece não estar lá, dando um prazer total ao espectador – que tal como Jeff e Lisa também deseja o crime. Finalmente, através de Lisa é, afinal, Jeff quem se introduz no universo do outro, numa dialéctica do desejo que não é mais sedentário e que sucumbe à intuição feminina na última cena do filme: a  revista de moda trocada pela dos Himalaias.

  • O ESCREVENTE

    Um blogue de João Ventura® (joaobventura@yahoo.com) «fora das coisas civis e na mais pura região da arte» [Joseph Joubert]
  • Setembro 2022
    S T Q Q S S D
     1234
    567891011
    12131415161718
    19202122232425
    2627282930