Borges nocturno

 

Borges adorava caminhar, sobretudo de noite. Dos meus retratos de momento sobre o poeta argentino recupero duas notas sobre esse passeante nocturno.

A primeira, roubei-a às memórias do fotógrafo Horácio Coppola que conta que, numa noite chuvosa de 1936, caminhando juntos pelas ruas de Buenos Aires pararam diante de uma poça. Coppola ajustou a câmara e disparou. No espelho de água, estava reflectida a silhueta de uma casa do bairro de Palermo. Quando viu revelada a fotografia do amigo, Borges exclamou: «Isto é Buenos Aires».

A segunda nota reenvia-nos para um outro passeio nocturno, muitos anos depois, na companhia de Maria Kodama e do seu tradutor para inglês, Willis Barnstone. Conta Barnstone, em With Borges on na ordinary evening in Buenos Aires, que na noite de passagem de ano de 1975, depois de um bom jantar regado, com abundante vinho, depararam-se com uma greve de transportes e decidiram acompanhar Kodama a casa. Barnstone recordaria depois esse episódio: «Na semi-obscuridade e através do vento, atravessámos lentamente Buenos Aires. […] As horas passavam e Borges parecia cada vez mais encantado com os ruídos da rua». […] «De repente passou um inesperado carro eleéctrico e Kodama saltou para o seu interior deixando-nos a ambos à deriva». […] «Como regressar a casa se um era cego e o outro um estrangeiro que desconhecia as ruas da cidade?» […] Misteriosamente Borges começou a caminhar, parando de dez em dez passos. Pensei que o fazia porque se julgava perdido. Mas não, toda aquela exaltação era porque me queria falar da sua irmã Norah, da sua infância, dos seus antepassados».

Isto era Borges, um passeante nocturno que jamais se perderia na sua Buenos Aires inventada.

Paris pelos passos de Cortázar

Como se terá percebido pelos dois posts anteriores, tenho andado por estes dias deambulando ao jeito de Michel Butor (L´emploi du temps) entre el lado de allá e el lado de acá da Rayuela, de Cortázar. Ou, dito de outro modo, entre Paris e Buenos Aires, cidades metafóricas que no livro vou encontrando bifurcadas uma na outra como se «en Paris todo le [fuera] Buenos Aires y viceversa», o que a mim próprio, transformado em flâneur acidental, já me foi dado confirmar, vezes sem conta, em Paris e, por uma vez, na capital porteña, levado pelos passos de Borges através da Avenida de Maio, de inspiração haussmaniana, ou vagueando pelas suas ruas no mais buenairense dos livros de Cortázar, El examen, que, sem que o autor o soubesse ao tempo em que o escreveu (1950-51), viria a ser considerado como uma espécie de embrião desta Rayuela parisiense que começa na Pont des Arts, em Paris – onde Horacio vai em busca de Maga, não para se encontrar com uma mulher, mas em busca de uma cidade que ele confunde com uma mulher: «Yo digo que Paris es una mujer; y un poco la mujer de mi vida» – e, depois, se transfigura, a meio do romance, na ponte da Avenida San Martin, em Buenos Aires, onde o mesmo Horacio imagina Maga na figura daquela Talita noctívona que joga à rayuela no manicómio.
Mas longe de Buenos Aires é a Paris que vou regressando agora, primeiro pulando a pé coxinho através das casas deste livro labiríntico e logo, amanhã, uma vez mais, percorrendo as suas ruas como se fossem páginas escritas de um capítulo que começa na rue de Seine, passando sob o arco que dá para o Quai de Conti e dali atravessando, depois, a Pont des Arts onde, quem sabe, o acaso me conduzirá até Maga – porque «un encuentro casual es lo menos casual en nuestras vidas» – e, depois, talvez, ir por ali caminhando junto ao Sena, de bouquiniste em bouquiniste, forçando uma vez mais a casualidade, essa situação de graça tantas vezes experimentada por Cortázar e, antes dele, pelos surrealistas franceses.
Quem sabe, então, se não encontrarei Nadja, a personagem que André Breton persegue através das passages benjaminianas, «tão porteñas também» – Galerie Vivienne, Passage des Panoramas, de Jouffroy, du Caire, Galerie Sainte-Foi, de Choiseul – que anunciam uma experiência distinta da do mundo exterior. 
E, depois, que poderei encontrar nas ruas e praças sentimentais cujas casas verosímeis vou agora saltando no labirinto de papel da Rayuela, as mesmas que amanhã percorrerei como quem percorre as suas ruas e praças artúricas que dão para um tempo perdido em que, também para mim, Paris era, ainda, uma mulher? Rue des Lombards, Verneuil, Vaugirard, Mouffetard, Saint-Germain-des-Près, Saint-Sulpice, Contrescarpe. Ou nas comportas solitárias, alheias à depradação turística, do Canal Saint-Martin; ou no Parc de Montsouris, de conatações mágicas; ou nas ruelas do quartier de Lautréamont, a fragância amarela da Place Vendôme sob a vagarosa chuva de Maio que amanhã – diz-me a meteorologia – cairá em Paris e me levará a refugiar-me naquela taberna que já ali não está, mas que estava naquela tarde em que Cortázar e Maga se refugiaram nela pisando a serradura espalhada no chão e aspirando o odor acre do vinho.
Fechar, então, agora, o livro e fazer a mala, porque como disse Cortázar «Mi mito de París actuó en mi favor. Me hizo escribir um libro, Rayuela, que es un poco la puesta en acción de una ciudad vista de una manera mítica […] Uno cree conocer París, pero no hay tal; hay rincones, calles que uno podría explorar el día entero, y más aún de noche».           

Cidade adormecida

Li já não sei onde que quando tinha dez anos Cortázar viveu a inesquecível experiência de subir ao décimo andar de um edifício em Buenos Aires e dali observar a cidade adormecida. Era, então, uma criança sensível, sem graça e estranha. A primeira metade da sua vida tinha-a passado com a sua família na Suíça, nas margens de uma guerra cujo alcance tardaria algum tempo a conhecer. No final da guerra, a sua família regressou à Argentina. Pouco tempo depois, tinha, então, seis anos, o seu pai sairia de casa para não mais voltar, ficando, assim, a viver com a sua mãe, tias e a avó alemã, intuindo que a vida era algo mais do que as lições de piano e os livros de Julio Verne. Era o único homem num território povoado de jasmins, pessegueiros e pianos, perto da estação del Ferrocarril Sud, no «metasuburbio» de Banfield, nos limites da zona portuária. Por essa altura, preferia os livros de Verne aos jogos do clube local, o Atlético Bánfield, um dos pioneiros do futebol argentino, o que lhe causou alguns problemas de relacionamento com os seus colegas de escola, logo ultrapassados quando estes descobriram a sua assombrosa facilidade para escrever, com estilos apropriados, as composições escolares passadas pelos professores.

Dou, agora, com uma fotografia nocturna de Buenos Aires, tirada por Horacio Coppola, não sei se na mesma noite em que o pequeno Julio subiu ao décimo andar. Mas sei, porque leio nuns seus versos precoces, que a sua impressão foi tão intensa que desencadeou nele um tal estado de excitação donde só regressaria depois de escrever que «Ya la ciudad parece así, dormida/ una pradera noctural, florida/ por un millar de blancas margaritas».

Bifurcações.

Lembro-me de numa manhã de Verão declinante, sob um sol de areia, ter apanhado um taxi à porta do número 1660 da rua Anchorena que acabara de visitar, em Palermo, onde Borges viveu entre 1938 e 1946, e que naquela manhã foi, também para mim, uma espécie de casa de Asterión, como a do conto homónimo, onde «todas as partes […] existem muitas vezes [e] qualquer lugar é outro lugar. A casa é do tamanho do mundo; ou melhor é do mundo». Dali, da casa de Asterión, que me fora revelada na sua perfeita ubiquidade, fui, ainda, no rastro de Borges até ao outro lado da cidade, ao café Tortoni, na avenida de Mayo, que o escritor frequentava, às vezes, a caminho da Biblioteca Nacional. Num dos espelhos que ali se encontram para multiplicar o número daqueles que ali vão nos passos de Borges pareceu-me vê-lo passar com O livro de areia debaixo do braço. Recordei-me dos enigmas e maldições dos espelhos e seus duplos evocados a Bioy Casares no conto Tlon, Uqbar, Orbis Tertius  onde «declarara que os espelhos e as cópulas são abomináveis porque multiplicam o número de homens». E de me ter perguntado se aquele homem cuja imagem fantasmal via reflectida no espelho fosse realmente Borges para onde iria ele naquela manhã de verão declinante? A resposta encontrei-a, depois, inscrita no livro: «Declinava o verão, e compreendi que o livro era monstruoso. De nada me serviu considerar que não menos monstruoso era eu, que o percebia com olhos e o apalpava com dez dedos com unhas. Senti que era um objeto de pesadelo, uma coisa obscena que infamava e corrompia a realidade. Pensei no fogo, mas temi que a combustão de um livro infinito fosse igualmente infinita e sufocasse com fumaça o planeta. Lembrei haver lido que o melhor lugar para ocultar uma folha é um bosque. Antes de me aposentar, trabalhava na Biblioteca Nacional, que guarda novecentos mil livros; sei que à direita do vestíbulo uma escada curva se afunda no porão, onde estão os periódicos e os mapas. Aproveitei um descuido dos funcionários para perder o Livro de Areia  numa das húmidas prateleiras».

Lembro-me de, depois, ter saído do Tortoni, pensando que Buenos Aires era um jardim de caminhos que se bifurcam, como confirmaria, na mesma manhã, também ela já declinante, na confeitaria London City, na esquina com a rua Peru, para onde me conduziu o acaso. É que, sem que o soubesse, sentara-me mesmo ao lado da mesa onde Julio Cortazar escreveu, em 1960, o seu primeiro romance, Los premios. Um empregado fardado a rigor contou-me que fora ali, naquela mesa protegida por uma corda de veludo, que se dera início à concentração dos premiados; uma placa de metal, um caderno e uma caneta completavam a mais do que despojada instalação cortazariana. Um pequeno painel reproduzia algumas passagens do romance que tem como cenário o café onde me imagininei conversando com o cronópio: «La marquesa salió a las cinco – pensó Carlos López – “Dónde diablos he leído eso?” Era em el London de Peru y Avenida; eran las cinco y diez. La Marquesa salió a las cinco?». Naquele momento não sabia ainda que, nessa mesma tarde, ao deambular pela cidade dos livros, uma outra bifurcação, no número 429 da rua Rodrigues Peña, me faria entrar num alfarrabista com o apropriado nome de Brujas para comprar a primeira edição de Rayuela, da Editorial Sudamerica cuja cartografia labiríntica vou por estes dias explorando através de bifurcações narrativas ao jeito de Michel Butor (L´emploi du temps) entre el lado de allá e el lado de acá, que o mesmo é dizer entre Paris e Buenos Aires. Ou não dissesse Horacio Oliveira, o alter ego de Cortázar em Rayuela, que «En Paris todo le era Buenos Aires y viceversa». Bifurcação absoluta que eu próprio confirmei quando me detive em dois cafés cortazarianos confidenciais, o Old Navy do Boulevard Saint Germain e o London da esquina avenida de Mayo com a rua Peru, duas casas casuais do meu jogo do mundo pessoal.            

Buenos Aires pelos passos de Borges

Numa noite chuvosa de 1936, o fotógrafo Horacio Coppola e o escritor Jorge Luis Borges faziam um de seus habituais passeios pelas ruas de Buenos Aires. Coppola parou diante de uma poça. Ajustou a câmera e disparou. No espelho de água, estava refletida a silhueta de uma casa do bairro de Palermo. Quando viu revelada a foto do amigo, Borges exclamou: «Isso é Buenos Aires». A mesma cidade que encontro agora reflectida na exposição do fotógrafo argentino, em Madrid. Uma metrópole fervilhante.  Gente elegante cruzando amplas avenidas da moda, descendo e subindo de eléctricos ou parada à porta dos teatros ou apenas entrevista através das vitrinas dos cafés.  E, ainda, subúrbios desertos, esquinas silenciosas, barcos ancorados na Boca. As visões de Buenos Aires de Coppola entrevistas, agora, em Madrid, trazem-me à memória a minha flânerie pessoal através da capital portenha que deixei reflectida num texto publicado na Atlântica. Lembro-me de na altura ter ido pelos passos de Borges. Diria ele que «isto é Buenos Aires»?

1. A Buenos Aires inventada por Borges nos seus livros já não existe, embora, aqui e ali, se nos deixarmos perder pelos caminhos que o autor gostava de percorrer nos fins de tarde luminosos do Verão porteño, a possamos ainda imaginar. Para Borges, Buenos Aires foi muito mais que o cenário da sua obra, inspirada em personagens e histórias dos subúrbios porteños do princípio do século passado. A Buenos Aires de Borges é também a cidade recriada nas suas ficções, a cidade poética, mítica, revelada em muitas das suas histórias e poemas. Vem daí, dos textos de Borges, o meu primeiro conhecimento de uma Buenos Aires desaparecida, onde biografia e ficção convergem num espaço simultaneamente cartográfico e imaginário.

2. Como Borges, procuro, agora, as ruas do centro numa manhã de sexta-feira, com a sua «prepotência de azul» (Inquisiciones). Primeiro, a casa onde nasceu: «Nasci aqui, no coração da cidade, na Rua Tucumán, entre as ruas Suipacha e Esmeralda, numa casa (como todas as desse tempo) pequena e sem pretensões, que pertencia aos meus avós maternos» (Autobiografia). Porque a casa já não existe, escolho um prédio ali perto, na Rua Maipú (n.º 944), que foi a última e a mais duradoura residência de Borges, e onde escreveu a maior parte da sua obra. Do terraço do apartamento, Borges podia ver as árvores da Praça San Martín, sobretudo o esplendor azul-violeta, às vezes com tonalidades lilases, dos enormes jacarandás em flor, nos fins de tarde de Verão austral: «Todo o sentir se acalma/ na absolvição das árvores/ jacarandás, acácias …» (Fervor de Buenos Aires).

3. Eis agora a Rua Florida cujos dezasseis quarteirões Borges percorreu a pé, durante anos, a caminho da Biblioteca Nacional, na Rua México. Aquela que foi a primeira rua pedonal de Buenos Aires é, hoje, o epicentro comercial da cidade, com lojas das melhores marcas, e onde se podem comprar artigos de couro a preços convidativos, depois da desvalorização do peso argentino. Ao fim da manhã, uma multidão de turistas enche a rua. A paixão pelo futebol é visível nas dezenas de lojas de artigos desportivos que dão colorido à rua expondo as camisolas das principais equipas argentinas e da selecção nacional. À porta das Galerias Pacífico, onde se encontram instalados o Centro Cultural Jorge Luís Borges e a Escola de Dança de Julio Boca, um par de tango ensaia algumas figuras de dança ao som de La Cumparsita. Atravesso depois a rua Lavalle que cruza com a Florida e lhe serve de extensão comercial. Esta artéria foi outro lugar de deambulação de Borges que frequentava as suas salas de cinema nos anos cinquenta. Mais adiante, a livraria El Ateneo, que foi nos anos sessenta um dos lugares mais concorridos pela geração de intelectuais e escritores, e onde Borges costumava deter-se no seu percurso diário para a Biblioteca Nacional onde era director, convida a entrar. Borges não gostava do centro. E embora durante anos tivesse que caminhar pelas suas ruas e frequentasse os cafés, – como o Tortoni, na avenida de Maio -, as tertúlias – como a do café Royal Keller, na Rua Corrientes – e os jornais da zona – como La Prensa, na Avenida de Maio -, pouco mudou a sua opinião formada na juventude sobre o centro como «um lugar pitoresco e desenraizado» (O tamanho da minha esperança). Muito mais tarde, já na velhice, afirmaria que «a Rua Corrientes é uma superstição» (Borges, el memorioso), procurando destruir o mito da mais central das ruas de Buenos Aires.

4. E é a extensa Corrientes que percorro ao crepúsculo, quando o néon dos anúncios dos teatros e dos cinemas começa já derramar a ilusão sobre a avenida que já foi uma espécie de Broadway porteña, cantada nas letras de tangos. E no interior das muitas livrarias – onde se compram edições desaparecidas de Borges, de Casares, de Cortázar – e dos incontornáveis cafés que ainda povoam a rua, acendem-se as luzes, iluminando histórias escritas e conversadas. Em Corrientes, desde a Avenida Callao até à Rua San Martín sempre existiram cafés com sabor a tango, a política e a todo o tipo de discussões, a movidas artísticas, a conquistas e enganos, ao rescaldo do último derby entre o Boca Juniors e o River Plate. A boémia porteña tinha o seu encontro privilegiado ao longo desta avenida que nunca dormia, carregada de sonhos e ilusões. Nos distintos cafés se pronunciaram panegíricos manifestos acerca da liberdade e os intelectuais da época evocaram com grande lirismo a autenticidade da alma artística. Borges frequentou tertúlias no Royal Keller. Carlos Gardel e José Razzano, que actuavam no Teatro Esmeralda, hoje conhecido por Maipo, tinham todas as noites uma mesa reservada no Guarani. Horacio Quiroga frequentou La Richmond. A lista de cafés era infindável. E embora hoje muitos já tenham desaparecido ou se tenham tornado irreconhecíveis pelas transformações sofridas, ainda se respira em Corrientes um pouco do tempo em que aquela rua nunca dormia. Talvez Borges tenha, também, numa tarde qualquer, entrado no Giralda que, na esquina da Corrientes com a Uruguai, permanece inalterado, com as suas paredes de azulejos, mesas de mármore, as suas luzes de néon e os empregados vestidos de branco. E, quem sabe, saboreando o mesmo chocolate com churros que bebi enquanto ouvia histórias de cafés «tangueiros» contadas por um companheiro porteño.

5. Persigo Borges pela Corrientes, cruzando, depois, a mais larga avenida do mundo, a 9 de Julho, hoje desocupada dos piqueteros – a mais recente criação do populismo sindical argentino – que na véspera a tinham cortado exigindo compensações. E depois, pela Avenida de Maio – a mesma avenida que mitificou Eva Perón – com os seus belíssimos edifícios como o do antigo jornal La Prensa, de fachada art déco, que acolhe agora a Casa da Cultura. Imperdível a visita ao café Tortoni que parece esperar por Borges regressando do jornal Crítica. E, no reverso do mito, os edifícios ainda tingidos com as cores da revolta contra «los ladrones», como na porta principal do Banco de Boston, escolhido como símbolo da corrupção, do clientelismo e de uma desastrosa política económica assente na  paridade artificial com o dólar, que ia levando a Argentina à ruína. À porta de um esplendoroso edifício, dois sem-abrigo acomodam-se para passar a noite, desmentindo o luxo do cenário. Na Praça de Maio, as mães já não choram pelos desaparecidos, mas anuncia-se uma grande manifestação, para o próximo sábado, por ocasião do aniversário do golpe que instaurou a ditadura. No palanque estarão filhos de desaparecidos ao lado do presidente Kirchner. Porque é preciso não esquecer. Puerto Madero, na «Doca Sul, de onde outrora zarpavam o Saturno e o Cosmos» (Elogio da Sombra) levando Borges e a sua família até ao outro lado do Rio da Prata, a Montevideu, já não é um território de ruas picantes onde «convivem o cosmorama e a leitaria, o bordel e os vendedores de Bíblias» (Ficções). Resultado de uma profunda intervenção de restauro e revalorização, o velho Puerto Madero, exemplo da arquitectura industrial inglesa do início do século 20, com os seus armazéns nas margens dos diques, concentra hoje numerosos restaurantes e áreas de lazer, constituindo uma nova centralidade onde Buenos Aires se debruça sobre a corrente morna e pardacenta do Rio da Prata.

6. É em Palermo Viejo, no passado um subúrbio perdido nas margens da pampa, que Borges encontra o cenário privilegiado para criar os mitos e dar corpo aos fantasmas das suas histórias. A dois quarteirões da praceta Julio Cortázar, numa esquina, pode ler-se, agora, o seu testemunho: «Um quarteirão inteiro, mas cuja metade/ ficava exposta a chuvas, auroras, rajadas./ O mesmo quarteirão que há hoje no meu bairro:/ Guatemala, Serrano, Paraguai, Gurruchaga» (A fundação mítica de Buenos Aires). Por isso, escolho Palermo Viejo para continuar este itinerário porteño e, numa manhã de um sábado que se anuncia luminoso, perco-me pelas ruas e pracetas de Palermo Viejo e, pelos caminhos de Borges, entre silêncios e milongas, deixo que o bairro se me revele. Em Palemo Viejo, onde Borges viveu, primeiro em criança e, depois, na juventude (na Rua Serrano, 2100, hoje chamada Jorge Luis Borges em sua memória), já não se pode ver, como Borges viu, «pares de homens dançando tangos, quando passava um acordeão, porque as mulheres não queriam dançar». Mas o espírito do lugar permanece por ali e, às vezes, é possível assistir-se na Praceta Serrano aos ensaios da murga Los Herederos de Palermo que nos transporta ao tempo de Borges. A praceta Serrano (que na realidade se chama Cortázar, em memória do autor de Rayuela), a que os moradores e frequentadores chamam carinhosamente la placita, tornou-se, nos últimos anos, o epicentro da movida jovem porteña e um lugar onde acontecem numerosas actividades culturais e comunitárias. Ou não fosse esta placita o lugar onde a toponímia junta Borges e Córtazar na esquina onde a Rua Serrano (que agora tem o nome do autor das Ficções) se cruza com a praça rebaptizada com o apelido do escritor de Rayuela.

7. Adentro-me numa Buenos Aires de geografia labiríntica, errando ao longo de ruas arborizadas, como a Guatemala que ainda mantém um certo ambiente tranquilo de bairro, acedendo a ruelas com calçadas irregulares, curvando esquinas onde florescem buganvílias, esgueirando-me por estreitas travessas e íntimos saguões – Cabrer, Soria, Santa Rosa, Russel – onde as fachadas de um casario baixo e os muros que foram cenário em muitos livros de Borges se revelam agora, renovadas, nas suas «cores de aventura» (Lua defronte). E através de metáforas, afortunadamente irreais, sob «a clara plenitude de um poente» (Fervor de Buenos Aires), é todo um catálogo da «mitologia bairrista» de compadritos, brigões e marginais de faca ligeira que se pode imaginar. Deste Palermo onde «vivia gente de fraca qualidade juntamente com gente muito pouco agradável, como os rufiões e os compadritos, que se caracterizavam pelas suas lutas à facada» (Autobiografia) pouco ficou e, hoje, pode passear-se com relativa segurança por aquele que é considerado uma espécie de Soho porteño. Curiosamente, a vocação cosmopolita de Palermo já Borges a descobrira muito tempo antes, ao afirmar sentir-se «mais porteño que argentino e mais do bairro de Palermo do que de outros bairros. E até essa pátria interessante – que foi a de Evaristo Carriego – se estava a tornar em centro…» (Carta publicada na revista Nosotros, 1925).  Embora não esqueça o seu passado rufião, Palermo Viejo é hoje um bairro seguro, habitado por gente com um forte sentido de pertença ao lugar e com uma notável consciência cívica, expressa nas mais variadas dinâmicas comunitárias de que mesmo um turista acidental facilmente se apercebe. Gente sensível, ecológica, reciclável, apesar do snobismo congénito que os faz saltar de um desfile de moda para uma galeria de arte e daí para a loja de agricultura biológica mais próxima. 

8. As grandes caminhadas de Borges levavam-no desde Palermo até Belgrano, um bairro com alma própria, onde velhos casarões se misturam, hoje, com edifícios modernos. Manhã cedo de domingo, deixo o «carinho das árvores em Belgrano» (O tamanho da minha esperança) em direcção aos bairros do sul, a San Telmo, onde reside «a essência original de que Buenos Aires é feita, a (sua) forma universal ou ideia platónica» (Buenos Aires en tinta china). Antes, impossível não passar pela Rua Garay, perto da esquina com a Rua Bernardo de Irigoyen, no bairro da Constitución, onde se encontrava o Aleph, «o lugar onde estão, sem se confundirem, todos os lugares do mundo, vistos de todos os ângulos» (O Aleph). Através de ruas empedradas, chego, depois, à Praça Dorrego, no coração de San Telmo, bem a tempo da feira de antiguidades que aí funciona há mais de trinta anos. O bairro, as ruas e a praça conservam ainda a sua imagem antiga, com as casas coloniais que Borges evocou: «Onde San Juan e Chabuco se cruzam/ vi as casas azuis/ vi as casas que têm as cores da aventura» (Lua Defronte). Sob as tendas que se amontoam no exíguo espaço da praça, velhos discos de tango de 78 rotações, livros e revistas esgotadas, mapas e cartazes antigos acomodam-se ao lado de garrafas, taças, ferragens e brinquedos de outras épocas, enquanto à sombra das árvores começa uma aula de tango.

9. De San Telmo chega-se facilmente a La Boca, um bairro que Borges evitava, como nos conta Adolfo Bioy Casares: «Não sei porquê, mas Borges tinha um desprezo por La Boca. Durante anos eu não fui a esse bairro por causa de Borges. E uma vez fui e achei que era lindíssimo» (Adolfo Bioy Casares, em entrevista com Carlos Aberto Zito). Ao início da tarde, o azul e amarelo da hinchada do Boca Juniors invadem o bairro que já foi de marinheiros e artesãos genoveses, pois é dia de jogo contra o Racing, mesmo ali ao lado no mais mítico estádio de Buenos Aires, a Bombonera, onde Maradona nasceu para o futebol. Na Rua Caminito, por onde passava um antigo ramal ferroviário, as velhas casas feitas com chapas de zinco onde viviam os imigrantes italianos exibem fachadas de cores garridas junto das quais, pintores, malabaristas, músicos e dançarinos de tango se exibem para grupos de turistas confundidos com o crescente rufar de bombos e gaitas, vindos de escondidos subúrbios pobres, a caminho da cancha do Boca.

[Ao alto, Buenos Aires, por Horacio Coppola] 
[Também Gonzalo Barr escreve aqui sobre cidades literárias desaparecidas] 

 

 

Uma cena vienense

«Como todas as cidades, [Viena] era feita de irregularidade, mudança, precipitações, intermitências, choques de coisas e interesses, tudo intervalado de silêncios abissais, de caminhos abertos e territórios por abrir, de uma grande pulsação rítmica e da eterna dissonância, da crónica deslocação mútua desses ritmos. No seu conjunto, era como uma bolha em ebulição num cadinho feito da substância duradoura de casas, leis, regulamentos e tradições históricas». Tudo parecia ali, ainda, reger-se pela calculabilidade, pela exactidão e pela extensividade da vida metropolitana que exclui os impulsos humanos e instintivos que, a existirem, determinariam outras formas de vida. Contudo, «momentos antes já qualquer coisa tinha descarrilado, com um movimento lateral brusco», vindo perturbar aquele deslizar ostensivo da chusma humana, aparentemente composta por gente metropolitana com qualidades, que ia subindo uma avenida larga e animada, desenhando a um ritmo regular fluxos apressados por entre outros mais tranquilos. Um camião despistado acabara de atropelar um homem que jazia no chão sob os olhares curiosos dos transeuntes não sem provocar um aperto no estômago em quem por ali ia ficando. «Estes camiões pesados que circulam no nosso país têm uma distância de travagem demasiado longa», alguém comentou, integrando, assim, para alívio de todos, «aquele terrível acidente numa qualquer ordem, transformando-o num problema técnico». Entretanto, já se ouvia o silvo estridente de uma ambulância que não tardaria em chegar e, para satisfação dos presentes, recolher no seu interior asséptico o homem sinistrado. «Admiráveis estas instituições sociais!». Posto isto, «as pessoas foram-se afastando quase com a impressão, justificada, de que tinham presenciado um acontecimento em que tudo fora legal e regulamentar» e que, uma vez regressada a ordem aparente das coisas, poderiam, de novo, mergulhar nos simulacros de sentido das suas vidas em perda vertiginosa de sentido.

Este o primeiro capítulo, aqui resumido, de O homem sem qualidades (Dom Quixote), em que Musil com a sua ironia fria e metódica nos introduz numa Viena neo-decadente, passeando-se, ainda, num «belo dia de Agosto de 1913» sob um céu de benignas ilusões mas que, em breve, se cobrirá com o manto negro da Primeira Guerra. Uma cidade já aprisionada pela essência da modernidade, marcada pelo cepticismo e pela indiferença social, onde cada um reage aos estímulos metropolitanos desenvolvendo defesas protectoras que os fazem atravessar impunemente as situações mais dramáticas sem nelas derraparem, mas onde tudo, parece, começou já a descarrilar sem que os homens com qualidades aglomerados em torno daquele acidente ou contemplativos nos cafés da moda – como o Herenhof, o Central, o Museum ou o Griensteidl – onde, contraditoriamente, floresce a intelectualidade vienense ou fetichistas nos gabinetes imperiais se tenham apercebido. Talvez por não terem lido a peça aparentemente escatológica de Karl Kraus Os últimos dias da humanidade ignorem ser já aquele um tempo terminal que os vienenses vão vivendo, desconfiados e cépticos mas sem nunca perder o estilo, numa espécie de «apocalipse alegre» segundo a fórmula encontrada por Broch para descrever a forma particular da experiência nihilista austríaca.

Eis a Viena cacaniana cujo nihilismo tanto afectará Musil como a sua obra, levando-o a empreender a tarefa expedicionária de afrontar a vertigem do vazio da era moderna, sem nele se despenhar, nem que para isso tivesse de prescindir da sua biografia, isto é, desprender-se de todas as qualidades e atributos, abandonar a carreira de matemático e toda a pretensão à genealidade, ser estrangeiro – no sentido simmeliano – em todos os lugares, abrir-se à contingência de uma obra escrita num tempo em que «tudo [deixou] de ser narrável» e, por isso, vir a revelar-se não apenas inacabada, mas também inacabável – como escreveu Blanchot -, aberta, portanto, a todas as possibilidades. É que, como se afirma no livro, numa frase que é ela própria um programa de acção política – nunca perseguida, no entanto, por Musil -, «é a realidade que desperta a possibilidade, e nada seria mais errado do que negar isso».

[Viena, Café Griensteidl, 1990]

Flâneries

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Paris, 1857. Um homem caminha de olhos baixos por «uma nova avenida, ainda inacabada, ainda cheia de entulho […] exibindo os seus inacabados esplendores». Ao lado, as ruínas dos velhos bairros – escuros, densos, assustadores – amontoadas no chão. Uma família andrajosa emerge do entulho à procura da nova luz da cidade moderna. No dobrar de uma esquina, o homem cruza um umbral que dá para um labirinto de ruas, arcadas, passages, onde se exibem os despojos do tempo que passa. Sobre as metamorfoses de Paris escrevera num livro que acaba de publicar: «Paris change! Mais rien dans ma mélancolie/ N’a bougé ! Palais neufs, échafaudages, blocs,/ Vieux faubourgs, tout pour moi devient allégorie,/ Et mes chers souvenirs sont plus lourds que des rocs» [«Le Cygne»]. O homem que caminha à deriva soberbamente consciente da sua melancolia chama-se Charles Baudelaire, ensaísta e jornalista, tradutor de Edgar Allan Poe. E o livro onde escreveu estes versos chama-se Les fleurs du mal.

Com esse livro fundaria, também, a lírica urbana, maldita e anti-sentimental capaz de expressar um mundo em descida vertiginosa, cada vez mais para baixo, em direcção ao seu vórtice. E sobre esta visão desafiadora, fantasmagórica, insuperável e premonitória da vida nas grandes metrópoles, escreveria Walter Benjamin, outra alma saturnina que também se erraria, anos depois, pelas ruas de Paris: «C’est là le regard d’un flâneur, dont le genre de vie dissimule derrière un mirage bienfaisant la détresse des habitants futurs de nos métropoles»  [Walter Benjamin. Paris, capitale du XIXème siècle. 1955, Schriften I, pp. 406-422]. 

Mas mais do que os cento e cinquenta anos que agora lembro aqui, estas flores malditas têm uma outra idade, a de «l’horloge, dieu sinistre, effrayant impassible, dont le doigt nous menace et nous dit: Souviens-toi!» [«L´horloge»]. A aguda consciência da industrialização galopante que tudo arrastava no seu vórtice, uma amargura saturnina e, depois, o convite à viagem, a fugacidade… tudo aí se encontra plasmado de forma violentamente prosaica, estilhaçando os códigos de um tempo à deriva: «Je suis comme le roi d’un pays pluvieux, riche, mais impuissant, jeune et pourtant très-vieux…». E, ainda, «le poète est semblable au prince des nuées qui hante la tempête et se rit de l’archer; exilé sur le sol au milieu des huées, ses ailes de géant l’empêchent de marcher» [«L´albatroz»]. Baudelaire, o albatroz urbano, sobrevoou o seu tempo deixando-nos «rares fleurs mêlant leurs odeurs aux vagues senteurs de l’ambre» cujo perfume inebriante, radicalmente moderno, não cessa de nos dar a volta à cabeça.

Seria o mundo do seu tempo um jardim de flores do mal, conforme se interrogava Baudelaire num miserável quarto de hotel, em Bruxelas, onde, doente de sífilis, esperava a morte? Talvez seja o spleen, essa consciência distópica dos labirintos do flâneur melancólico que marca, ainda, a actualidade do seu livro fundacional, ligando o vazio do seu tempo à artificialidade deste nosso tempo, em que nós, transeuntes motorizados e alienados, nos vamos também perdendo através dos labirintos feéricos de uma pós-modernidade glamorosa, desalmada e sem redenção, fantasmagoricamente antecipada no seu livro sobre Baudelaire, por Walter Benjamin, talvez o mais saturnino dos flâneurs das grandes metrópoles da modernidade e aquele que melhor se deixou levar pelo inebriante perfume  das flores do mal.

E é através dessa pós-modernidade glamorosa e desalmada, ostentada nas vitrinas dos grands magasins do Boulevard Haussmann que, também eu, neste último entardecer do ano de 2007 – cento e cinquenta anos depois da sua construção, portanto, – vou caminhando sem rumo. E se fosse dado ao spleen, como um passeante solitário, talvez me detivesse agora no passeio onde uma chusma de transeuntes anónimos vai passando apressada com sacos que transportam os vinhos espumantes que à meia-noite afogarão o tédio. Mas não, não sou dado ao spleen, por isso aproveito, acompanhado, o privilégio supremo que me é oferecido enquanto forasteiro, que é o de participar da banalidade quotidiana desta cidade que nunca se acaba sem lhe sentir o peso, que é como quem diz, sem se deixar levar pelo aroma inebriante das flores do mal.

Hotéis de passagem

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Todos hotéis são por natureza lugares transitórios. Alguns são hotéis de passe para amantes ocasionais. Outros são hotéis passagem para transeuntes nocturnos roçando abismos por cruzar. E outros há, ainda, que são protagonistas de histórias em que a realidade supera a ficção, como um tal hotel Cervantes, situado numa rua do centro de Montevideu que aparece em dois contos de Julio Cortázar e Adolfo Bioy Casares, e que serve de pretexto para a crónica que Vila-Matas me envia para publicação no próximo número da Atlântica.

Lembro-me de há cerca de três anos me ter escapado por um dia desde Colónia do Sacramento, onde acompanhava a minha mulher num seminário de história, até Montevideu, e de ter errado pelo centro à procura de um velho cinema que por ali havia numa rua arruinada nas imediações da despovoada Plaza Independencia – a Soriano, entre Convención e Andes – e de ter ladeado a fachada espectral, sombria, discreta, banal de um hotel perdido no meio de edifícios feios e de despojos depositados na calçada pela vizinhança, que ostentava um grande letreiro onde se podia ler o nome de Hotel Cervantes. Ignorava ainda o desejo de Vila-Matas de, transitoriamente, aí se hospedar um dia quando for a Montevideu e, sobretudo, o mistério de la puerta condenada do quarto 205, protagonista do conto homónimo de Cortázar e do outro escrito por Adolfo Bioy Casares, Un viaje ou El mago inmortal, que me chegam agora ligados pela misteriosa porta. Ou não fosse, afinal, para isso que servem as portas dos quartos de hotéis transitórios.

Se minimamente suspeitasse dos mistérios que se escondiam naquele segundo andar onde, parece, também Jorge Luís Borges se hospedou, uma noite, com a sua mãe, teria certamente cruzado o balcão da recepção e, quem sabe, subido ao quarto 205 e, noite adentro, escutado as vozes dos passageiros da noite que pernoitavam no quarto ao lado. Mas não. Distraído dos abismos que uma qualquer rua banal pode oferecer ao transeunte ocasional, passei pelo umbral do hotel sem entrar.

Procuro no google e confirmo que o hotel Cervantes ainda lá está e que, por isso, é de admitir que um dia possamos ler ainda um conto vilamatisiano em que se escutarão, seguramente, os gemidos de amantes ocasionais vindos do outro lado do misteriosa porta, ou não fosse Vila-Matas um coleccionador nato das existências alheias, sobretudo quando essas existências roçam um qualquer abismo que se abre numa noite de insónias no outro lado de um umbral obscuro, ao mesmo tempo que no piso de baixo ressoa uma milonga de Gardel, também ele, tantas vezes, um passageiro da noite montevidiana.

Nas minhas andanças através de uma cartografia pessoal onde se bifurcam livros, filmes e discos, tenho cruzado outros hotéis de passagem onde numa qualquer dobra da página, de faixa ou de fibra digital ousei subir a um qualquer quarto 205 e aí pernoitar, escutando, depois, noite adentro, o murmúrio de personagens desaparecidas por horas do mundo lá fora, talvez à procura, também elas, de uma qualquer porta de passagem camuflada atrás de um velho armário com espelho que dê para outras vidas. Lembro-me de alguns dos 342 motéis de estrada onde Nabokov (e depois Kubrick) faz pernoitar Lolita e o seu velho amante Humbert, cenários transitórios de cerimónias secretas e rituais privados oferecidos ao voyeurismo do leitor. E no armário onde guardo os velhos LPs e os recentes CDs e DVDs lá está ainda o Hotel California, dos Eagles, onde o viajante se deita sob «mirrors in the ceiling, pink champagne on ice»; e o Desert Song Hotel, onde Nicholas Cage se encerra para se embebedar até à morte, em Adeus Las Vegas; e o quarto de banho do Bates Motel, onde Hitchcock engendra o assassinato brutal de uma jovem secretária, em Psico. E em dobras de páginas, que de repente me vêm à memória, aquele hotel de Michigan que surge no conto de Borges, As metamorfoses de Shakespeare, onde um homem sem rosto oferece ao escritor argentino a memória de Shakespeare. E o Costa Verde Motel Tulán, de A noite da iguana, de Tennessee Williams, cenário de amores depressivos; o obscuro quarto de Los adioses, de Juan Carlos Onetti, onde tuberculosos se encontram para desdenhar da morte; a «pensão de má morte», em Budapeste, onde se hospedou o protagonista de O Mal de Montano, de Vila Matas; e os hotéis baratos de Ciudad Juárez, cenários dos crimes horrendos de 2666, de Roberto Bolaño.

E como a realidade supera quase sempre a ficção, também o hotel El Molino, em Buenos Aires, evocado por Laura Restrepo, numa recente edição de Babelia, onde a escritora colombiana recorda as noites clandestinas de sexta-feira ou sábado que aí passou, depois de esperar numa longa fila de casais muito jovens, de estudantes sem dinheiro, abraçados ou de mão dada, conversando em voz baixa como se estivessem numa bicha para o cinema, à espera de um quarto para desaparecer do mundo lá fora, por horas, suspendendo o tempo num território transitório no meio da obscuridade da ditadura. Conta Laura Restrepo que quis saber desse hotel transitório, se ainda lá estava na rua Salguero, e por isso, pediu a uma amiga que lá fosse. E resultou que sim, que ainda lá estva, embora também tenha sido vítima de um daqueles upgrades desconcertantes que procuram modernizar-nos as recordações.

E do lado de cá do mar, hotéis de passagem de escritores desesperados, atravessando como sombras os abismos deste mundo. O hotel Suède, na rue Vaneau, em Paris, e o hotel Troisi, em Nápoles, onde Pasavento procura dar-se como desaparecido, no romance de Vila-Matas. E outros hotéis parisienses já desaparecidos, vítimas de upgrades, de reconversões ou de demolições, como os hotéis habitados por Joseph Roth, cuja obra ando a ler: o Foyot, na rue Tournon, junto ao Jardin du Luxembourg, onde já tinha morado Rainer Maria Rilke, e que Roth abandonou quando os escombros da demolição já se amontoavam por detrás da porta condenada do seu quarto; o tétrico hotel Florida, no Boulevard Malesherbes; e o miserável hotel de la Poste. E o albergue Principautés Unies onde morou Hannah Arendt. E em Zurique, o hotel onde às vezes Robert Walser se ocultava num quarto a que chamava a Câmara de Escrita para Desocupados e aí, sob a luz crepuscular de um candeeiro de petróleo, deixava que a sua mão indecisa o conduzisse pelos territórios do lápis, cujo traço o empurrava lentamente para o desaparecimento, para o eclipse, mimetizando-se para não ser descoberto.

Mas talvez o mais absoluto hotel de passagem de que ouvi falar seja aquele em Port Bou, onde se abrigou Walter Benjamin em fuga para Lisboa, onde não chegaria nunca porque as suas asas incertas de borboleta nocturna falhariam no último momento, incapazes de o levarem para fora do pequeno quarto onde se hospedara na última etapa da sua fuga para Lisboa. Também aí havia uma porta condenada por cujas frestas adivinhava a lenta irrupção da manhã, que já não chegaria a tempo de iluminar a sua solidão irredutível de ter sido sempre estrangeiro em todos os hotéis de passagem da sua vida e de não ter tido nunca nada, a não ser a pasta preta pousada em cima da mesa de cabeceira, onde guardava os últimos «labirintos de tinta embebidos nos seus cadernos». E também aquele quarto, não de um hotel mas de um edifício de dois andares, em Kierling, Viena – outrora um sanatório –  derradeira passagem de Kafka.

E já agora o meu hotel pessoal de passagem, o Excelsior, na rua de Cujas, em Paris, onde havia também um quarto misteriosamente parecido com o do conto de Cortázar, com uma porta condenada tapada por um armário que deixava ouvir não os gemidos de amantes de passagem, mas o murmúrio de um casal de exilados chilenos que ali estavam também de passagem. Quando vou a Paris, subo sempre a rue de Cujas que liga o Boulevard Saint Michel à rue d´Ulm e, ao passar em frente da porta de entrada, espreito dissimuladamente para o hall onde se encontra o balcão da recepção, agora modernizado, depois de um upgrade remodelador que o dotou de um pequeno salão com amplas vitrinas que dão para a rua. Contudo, não se modernizam as recordações cegas da minha vida suspensa naquele pequeno hotel de abrigo para transeuntes sem pátria nem dinheiro. E recordo, então, o quarto, pequeno, no terceiro andar, com uma pequena janela de guilhotina que dava à esquerda para uma açoteia e para mais nada, porque se abria para um muro sobre o qual espreitava um inútil pedaço de céu quase sempre cinzento; havia uma pequena estante de madeira onde coleccionava livros que falavam de revoluções por fazer, um armário onde guardava parcos haveres, uma colcha escura de textura áspera sobre uma cama estreita onde deitava em noites de vigília a saudade, uma lâmpada florescente no tecto, uma cortina azul escura no cubículo de banho, uma chávena onde derramava água apenas tépida colorida pelas saquetas de chá verde. Com um golpe de google fico a saber que também o quarto foi vítima de um upgrade e a porta condenada substituída por uma parede de alvenaria que já não deixa escutar os murmúrios do quarto vizinho. E concluo, então, que aquele Excelsior que ali está já não é o mesmo onde transitoriamente me encerrei nas minhas paredes interiores, mas que nem por isso deixarei de continuar a olhar dissimuladamente através da sua porta sempre que suba a rue de Cujas.

Diário chileno (X). Voo nocturno

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1. Viagem ao fim da noite. Junto à porta de embarque número 60 do aeroporto Toribio Merino, em Santiago do Chile, vejo passar em formação cerrada a tripulação do voo Suiss 97 que daqui a pouco se fará aos céus por cima da cordilheira branca. Com passada rápida e decidida, cruzam o umbral que leva ao grande pássaro metálico que descansa na pista, ignorando os passageiros, quietos e silenciosos, que esperam o embarque. E neste derradeiro território a roçar os abismos duvidosos por vir, inspecciono à minha volta aqueles que comigo sobrevoarão, a doze mil metros de altura, montanhas crepusculares, cidades invisíveis, mares nocturnos. Alguns conversam em alemão, outros em castelhano, muitos em português do Brasil, porque o avião fará escala em São Paulo. Ninguém ousa falar do tributo inconfessável que, às vezes, é pedido a quem ousa desafiar os céus. Nem ninguém estaria disposto a pagá-lo. Eu não. Por isso, entre os passageiros suspensos no espelho deste aeroporto austral, procuro aquela criança que viaja sempre comigo em todos os aviões que cruzam os altos mapas em que me adentro e quando a encontro sei, então, que o avião que me aguarda do outro lado do espelho não cairá.

Subo para aquela espécie de cápsula intercontinental que, veloz, roncando, atravessa obliquamente as nuvens até estabilizar nos céus deixando para trás a cidade nervosa. Comunicam que devemos manter os cintos apertados. Turbulências nos Andes. Estremecimentos. Voamos. Não sei como fazem para manter toda esta massa no ar. Seguramente é aquela criança que no seu sonho colorido vai sustendo as enormes asas metálicas que nem precisam de bater para avançar na insustentável leveza do caminho que o avião vai desenhando atrás de si. Regresso do Chile, de outro continente, de outro hemisfério sobrevoando a cordilheira branca ao segundo entardecer. Nos corredores laterais passam hospedeiras suíças empurrando carrinhos com refeições empacotadas, perguntando o que desejamos beber com reiterados sorrisos plásticos. A noite real, lá fora, envolve o avião. E cá dentro apagam-se as luzes. Há passageiros que lêem e se eu fosse Vila-Matas, levantar-me-ia e, dissimuladamente, como um voyeur aéreo, atravessaria, agora, de ponta a ponta, a penumbra do corredor e, sob a luz oblíqua que desce do tecto nalguns assentos, num acto do mais puro voyeurismo, procuraria saber o que lêem estes passageiros da noite. 

Mas não me atrevo a tanto e abro Los detectives salvajes, de Bolaño. Vou na página duzentas e noventa, faltam, portanto, trezentas e dezasseis páginas que devem chegar aguentar as três horas de viagem até São Paulo, mais as doze, depois, até Zurique, mais quase três até Lisboa. Vou no rasto de Cesárea Tinajero, a misteriosa escritora desaparecida no México após a Revolución, e as dezoito horas de voo correspondem ao tempo canónico da busca errante que retomo nesta cápsula voadora que vai rasgando a penumbra rumo ao norte. Leio furiosamente este tremendo romance infra-realista na companhia dos poetas desesperados e traficantes ocasionais que Bolaño me vai apresentando, bifurcando-me através das ruas selvagens do México DF, do «espacio oscuro que es la ciudad de Managua […], una ciudad que sólo conocen sus carteros», das ramblas nervosas de Barcelona, mendigando em Tel-Aviv, escapulindo-se da morte em Monróvia…

Há passageiros adormecidos, alguns com pesadelos recorrentes a preto e branco. Eu não. Iluminado pela minha lâmpada pessoal, numa dobra da página, adormeço por momentos e tenho «sueños, no pesadillas, sueños musicales, sueños de preguntas transparentes, sueños de aviones esbeltos y seguros que cruzaban Latinoamerica de punta a punta por brillante y frío cielo azul». Indiferente aos sonhos e aos pesadelos alheios dos restantes passageiros e ao meu thriller bolañiano, a jovem engenheira chilena sentada ao meu lado que vai para Barcelona à procura de trabalho prefere o zapping pelos programas oferecidos pelo vídeo do avião. Lá fora, as turbinas ferem já um céu de muitos azuis verticais sobre o primeiro amanhecer de uma Lisboa que o avião ignora. Antes, ainda, a montanha mágica, bifurcação estranha antes experimentada por Montano, a personagem que Vila-Matas encontrou no Chile e que «después, directamente desde la orilla del batallador Pacífico, viajó con él a la cumbre de una montaña suiza». Este também o destino incerto para onde me vão conduzindo as asas metálicas deste avião, agora menos perdido, menos adormecido, atento já ao lento mover de asas do outro avião que, daqui a pouco, me há-de levar para Lisboa.

2. Cidades invisíveis. Regresso de Santiago do Chile aonde fui convidado para participar no Encuentro Internacional de Escritores. Foi a primeira vez que fui ao Chile. Antes já tinha estado noutros países da América Latina. Nunca no Chile. Queria ir ao sul profundo, mas os dias não chegaram. Fiquei-me por Santiago, confusa, nervosa, híbrida, às vezes secreta, invisível. E escapei-me para Valparaíso, luminosa, nostálgica, arruinada, caótica. Santiago estava igual à cidade anterior que Bolaño deixou para trás – disse-me -apesar de «los nuevos edificios, las nuevas avenidas que no significan nada», […] aún se comen empanadas chilenas y uno puede ir a saborear al Nacional o al Rápido. Aún se comen barros-luco o barros-jarpa o charcareros». Mas Bolaño, que se foi tornando num mexicano salvaje, já cá não está e se estivesse, depois do que vi e ouvi na Villa Grimaldi, dir-lhe-ia que se equivocara, pois o mal já não anda à solta em Santiago, o umbral do medo foi encerrado e a chave atirada para o fundo de um abismo. E isso significa tudo. Ou quase tudo.

3. Chilenos que pareciam chilenos. Mas onde viu Carlos Fuentes «as mulheres formosas de olhar cor de uva» que eu não as encontrei nem em Ahumada, nem em Lastarria, nem em Bellavista? Nem nos cerros porteños, ao entardecer? Apenas vi rostos de chilenos que pareciam chilenos cruzando as ruas nervosas de Santiago, chilenos entrando e saindo das lojas da moda nas ruas Moneda, Huerfanos, Merced, chilenos deambulando na Plaza de Armas, chilenos bebendo  pacificamente pisco sour na Plaza Mulato Gil de Castro, chilenos em amplexos amorosos cerro de Santa Lucia acima, chilenos rindo nas esplanadas de Bellavista, chilenos observando os livros caros na Feria del Libro, chilenos subindo o funicular do cerro San Cristóbal num domingo à tarde azul, chilenos perdendo-se nos labirintos subterrâneos do metro de Santiago, chilenos quietos e silenciosos em salas de espera de estações rodoviárias, chilenos partindo em autocarros lotados para viagens longitudinais, chilenos circulando em automóveis japoneses na Avenida O´Higgins, chilenos fardados de carabineros, de colegiais, de bombeiros, chilenos apregoando mariscos e peixes estranhos nos mercados, chilenos com feições tristes de índios mapuche, chilenos festejando a vitória do Universidad de Santiago no último jogo do campeonato nacional, chilenos nem demasiadamente tristes nem demasiadamente alegres, chilenos, às vezes, melancólicos, outras vezes arrogantes, chilenos que querem ser europeus e não latino-americanos, chilenos demasiadamente parecidos com portugueses. Chilenos num país passillo, «al este limitado con la cordillera de los Andes, al norte con el desierto de Atacama, al sur con la Antártida y al oeste con el oceáno Pacífico […] chilenos mirando perplexos hacia los cuatro puntos cardinales».

4. Escritores chilenos. Não digo que não fossem escritores toda a chusma que se reuniu no dia da inauguração do Encuentro Internacional de Escritores, no Museu de Bellas Artes. Mas que não estavam ali para transgredir, isso soube-o logo mal começaram a dedicar-se mutuamente os seus livros, porque, talvez para eles – leio em Bolaño – o «ejercicio más usual de la escritura es una forma de escalar posiciones en la pirámide social […] y no reniegan de lo que se puede renegar y se cuidan mucho de no crearse enemigos o de escoger a éstos entre los más inermes. No se suicidan por una idea sino por locura o rabia».

E o mesmo observo na Feria del Libro de Santiago, na Estación Mapoche. Deambulo pela feira, vasculhando nos expositores as novidades chilenas, buscando entre a rasura existencial ali amontoada, algum rasgo capaz de dar conta, ainda, da consternação do mundo. E constato que também no Chile, há um efeito Bolaño. Ali, na Anagrama, encontram-se preferencialmente expostos todos os bolaños que os leitores vão folheando, como se, postumamente, também para ele, las puertas, implacablemente, se le [abrieran] de par en par.

5. «E outra vez te revejo – Lisboa e Tejo e tudo / cidade pavorosamente perdida, outra vez te sonho aqui», diria Álvaro de Campos se agora se fizesse comigo a terra neste avião que não cobrou tributo. Não a Lisboa obscura, «con gente vestida de negro, con casas hechas de caoba o de mármol negro o de piedra negra», imaginada num sonho febril por Bolaño, mas a Lisboa que acrescenta «azul de muitas cores / ao outro azul que os vossos olhos vêem», como viu Pedro Tamen.

Diário chileno (IX). Crónica porteña

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É no porto onde acostam embarcações adormecidas, sobrevoadas por bandos esfomeados de gaivotas e pelicanos, que se deve procurar o carácter porteño de Valparaíso onde marinheiros de todas as épocas viram a sua imagem abandonada no espelho quebrado da baía que reflecte o anfiteatro de casario colorido descendo num dédalo de ruelas, becos e escadarias ziguezagueantes os quarenta e dois cerros «secretos, sinuosos, recoderos», sobranceiros ao Pacífico. Mas é nos cerros, sob o azul-lavanda de um céu cristalino, ou encobertos nas sombras do segundo crepúsculo, que sobrevive, ainda, a sua verdadeira alma. Talvez, por isso, aquilo que melhor define ainda hoje Valparaíso é a convivência entre a luminosidade diurna que cobre o casario desalinhado e a obscuridade nocturna dos seus becos de pesadelo onde marinheiros de passos incertos, às vezes, ainda se perdem.

Como um funâmbulo, persigo os passos desses marinheiros que, desertando por uma noite dos navios baleeiros, depois de terem sobrevivido à travessia do Cabo Horn, aqui vinham naufragar, escadarias acima, nos cerros, em tempestuosos leitos. E dos outros que, rumando à Califórnia em busca de ouro, aqui ficariam para sempre, paralizados pelo canto das sereias numa qualquer pista de tango perdida na dobra secreta das suas ruas e praças irrigadas pelo sopro salgado do mar.  No Paseo Veintiuno de Mayo, donde antes habia grandes carnavales, subo ao assalto das colinas por um dos quinze funiculares ainda em actividade, o Artilleria, de 1893, verdadeira peça de museu habitado pela nostalgia de um tempo em que Valparaíso conheceu a prosperidade, antes de se transformar, primeiro, num porto fantasma, arruinado pelas novas rotas de navegação após a construção do canal do Panamá e, depois, na selva de contentores nervosos que observarei desde o mirador Diego Portales. Primero, cruzo um obscuro corredor e passo pelo torno de bronze que contabiliza os passageiros que sobem; entro num velho carro de madeira que depois de um súbito solavanco começa a subir guinchando, deslizando sobre carris oleados, puxado por roldanas e correntes; e, uma vez em cima,  recebe-me «un hombre palido, um misterioso angel de sombra». E no mirador Diego Portales é a cidade inteira que resplandece debruçada sobre o Pacífico através de um labirinto de ruelas com velhas casas desequilibradas, imbricadas umas nas outras, amparando-se mutuamente, enlouquecidas. E a mesma baía que viu Gabriela Mistral: «Bahia mayor de Valparaiso! Anda en novelas y poemas ingleses y noruegos. Quien navega la conoce y la cuenta al contar sus mares».

Desço pela Escalera de la Muerte até à rua Prat, onde Jorge Luis Borges se assomou, em 1977, depois da apresentação de um livro de Maria Luisa Bombal, e sigo, depois, pela rua Esmeralda, onde ainda sobrevive o velho letreiro do Café Vienés já desaparecido, frequentado nos tempos luminosos de Valparaíso pelas senhoras do cerro Alegre que ali vinham ouvir valsas interpretadas por uma orquestra vivo. Por breves instantes, consigo imaginar o esplendor perdido de um tempo efémero em que, a seguir a São Francisco, Valparaíso era a principal cidade do Pacífico, quando as suas lojas exibiam as novidades europeias e os seus teatros as mesmas peças da moda que faziam o gáudio dos espectadores em Paris e Londres. E já na Plaza Anibal Pinto, em frente da fonte de Neptuno, entro no Café Riquet para comer o famoso manjar con nueces, servido por velhos empregados que parecem saídos de um tempo que já não existe.

E novamente um funicular, o mesmo em que o alfandegário Rubén Darío subiu, em 1888, para no cerro Concepción contemplar «ondeantes cortinas de enredadera» e assomar por janelas de guilhotina, como escreveu em Azul, e perder-se depois por escadarias que não conduzem a parte nenhuma. E ao entardecer, perco-me em  deambulações pelo cerro Alegre: Pasaje Cambridge, subida Templeton, paseo Atkinson e, sobretudo, paseo Loti, território mágico que evoca o escritor francês que por aqui também errou. E depois de um carmenere crepuscular fico na pensão Carrasco, em Concepción, sonhando breves sonhos a preto e branco que antecipam o dia por vir. 

Sigo os passos de Neruda que no cerro Bellavista mandou erigir uma das suas residências na terra, vou depois por Florida e por Mariposa, cruzo recantos surgidos do nada, casas penduradas no vazio, umbrais escuros cujo limiar não ouso atravessar, descendo «escaleras [que] parten […] de arriba y se retuercen trepando. Se adelgazan como cabellos, dan un ligero reposo, se tornan verticales. Se marean. Se precipitan. Se alargan. Retroceden. No terminan jamás», povoadas de bares, onde ao som de uma milonga qualquer se servem bebidas centenárias a bebedores sonolentos».

E, de novo na baixa ruidosa, confusa, caótica, agora como um detective salvaje – única maneira de avançar incólume na manhã apocalíptica que se estende ao longo da nervosa avenida Pedro Montt, enxameada por um povo de vendedores ambulantes e cães errando nos passeios – apanho o último trolley que me levará ao terminal de autocarros para Santiago.

Diário chileno (VIII). A cultura na cidade

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1. A julgar pelo que não se lê no metro de Santiago, pode inferir-se que por aqui se lê pouco. E que os livros são caros, porque na maioria importados – Anagrama, Alfaguara, Ediciones B, Seix Barral. Resta, então, a quem precisa de livros para viver, comprá-los em livrarias de saldos ou de usados que encontro no centro. O que não encontro é a minha livraria artúrica, pois todas me parecem indistintas, e as da rede Feria Chilena de Libro ainda mais. Talvez uma pequena livraria, Metales Pesados, quase no final da rua Merced, perto do Museu de Bellas Artes, onde finalmente compro a Rayuela de Cortázar, sem ser em edição de bolso, e converso com o livreiro sobre o efeito Bolaño.

2. Vou à inauguração do Encuentro Internacional de Escritores que me trouxe aqui e deparo-me com muita vanidade e presunção. A literatura, ali, não como ficção mas como falsa sociabilidade. Escritores chilenos dedicando-se mutuamente os seus livros, trocando laudatórias palavras de circunstância. E evoco Ulisses Lima, o detective selvaje de Bolaño que se evaporou da comitiva de escritores mexicanos de visita à Nicarágua para se perder no «espacio oscuro que era a cidade de Manágua […] que sólo conocen sus carteros». Mas Santiago não é Manágua e não corro o risco de me perder. Por isso, logo que posso, escapo-me dali, fugindo daquela chusma de escritores que se desejam comentados, premiados, homenageados, becados. E recordo as palavras de Nicanor Parra a propósito dos escritores chilenos: “tal vez sería conveniente leer un poco más. E vou pela noite santiaguina jantar tranquilamente na rua Lastarria.

3. Passou-se melhor o debate em que participei, no Encuentro, sobretudo porque a chusma estava noutro local, talvez dando entrevistas a jornais da moda. Falei da literatura rasurada que, sob a hegemonia do mercado, se vende por aí. Mas também das linhas de fuga possíveis para uma outra literatura que pode ainda expressar a consternação do mundo.

4. Como costumo sentar-me só nos restaurantes santiaguinos – Bolaño nem sempre está comigo –  gosto de observar as mesas à minha volta e, às vezes, escutar as conversas. Há um grupo de brasileiros pretensiosos que falam de compras, um casal colombiano que fala, depois, com os brasileiros de auto-estrada que uma empresa brasileira está construindo na Colômbia, chilenos que se referem a uma seita maradoniana que faz casamentos. Mas, na mesa mesmo ao lado, há um chileno distinto que, a pretexto do suplemento literário do El País que vou folheando para me alhear daquela América que ali está, me incita a ler o livro de Jonathan Littel, Las Benevolas, que faz a capa de Babelia. Trata-se de Camilo Marks que tem uma coluna de crítica de livros no suplemento cultural do El Mercurio, e que me diz que “en Chile, hoy, no hay narradores, solo poetas y que nadie lee.

5. No Centro Cultural Matucana 100, visito a exposição El Manifiesto de Santiago que propõe «una mensaje desde la periferia hasta el centro». Saio sem perceber qual era a mensagem. No Museu de Bellas Artes elejo a exposição de Gracia Barros sobre el dolor y la perdida. Figurações de mulheres desaparecidas em Villa Grimaldi: se llas llevaran vivas y llevavan vida. Da colecção permanente do museu, retenho Roberto Matta. Vejo, depois, La Remolienda, numa encenação do Teatro Nacional Chileno, dirigido por Raul Osorio e antes por Victor Jara. Um gozo iluminado.

Diário chileno (VII). Luz e nevoeiro

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1. Estou na Patagónia. Não os territórios magalhânicos, errando pelos páramos ventosos e rudes do fim do mundo, mas apenas num restaurante homónimo, na rua Lastratria, em Santiago, aonde me trouxeram os meus passos incertos de detectve salvaje em busca do aleph santiaguino que por aqui deve estar escondido. E nesta Patagónia que já foi mercearia, ainda ali se encontram os velhos armários de madeira, o primitivo balcão com grandes frascos de vidro em cima, velhas caixas de vinhos, uma garrafeira de vinhos austrais e, a um canto, um armário com livros que me são oferecidos enquanto espero pelos sabores longitudinais do sul profundo. Trazem-me um cordero magallánico com bagas silvestres patagónicas, um carmenére e, no final, o incontornável flan con manjarblanco que me recorda outras evasões por estas paragens. E eu julgo ter encontrado, finalmente, a rua artúrica para onde me conduziu, hoje, o meu destino incerto.

2. Caminho por ruas nervosas até à Estación Mapoche onde está a Feira do Livro de Santiago. Antes, atravesso os portões do velho Mercado Central e confronto-me com algumas das espécies esquisitas que nadavam ontem na paila marina que comi com Bolaño. E já na feira, desisto de comprar os Bolaños que me faltam. É que sei onde comprá-los por metade do preco. Sigo, depois, para Bellavista, ao lado da corrente do Mapoche que desce veloz da cordilheira sobre um leito de cimento. E desespero ao procurar o pequeno teatro La Memoria, onde passa Las brutas, que Daniel Barraco me desafiou a ver, mas quando finalmente o encontro, descubro que o espectáculo fora cancelado por impossibilidade de uma actriz. Propõem-me que veja, ali no mesmo bairro, Nadar como um perro. E enquanto faço tempo para o teatro, algo me puxa mais para o sul, nem que seja através de uma Austral, a cerveja patagónica que vou  bebendo, ao crepúsculo.

3. Outro dia. Vou de taxi a Villa Grimaldi que fica já na periferia de Santiago, em Peñalolen. Cruzo bairros pobres em direcção à cordilheira nevada e, de súbito, ali está o umbral tenebroso do tempo da ditatura militar. A Villa Grimaldi foi uma sinistra prisão clandestina especializada na tortura, por onde passaram, entre 1973 e 1978, 4.500 presos políticos, dos quais muitos desaparecerem sem rastro. Entro por uma porta lateral, porque o umbral do medo por onde entravam de olhos vendados os prisioneiros, encerrou-se para sempre. Conheço um sobrevivente que me guia na visita ao parque eregido sobre os alicerces dos pavilhões do mal. E regresso a Santiago, sem outra semântica que nao seja do silêncio diante da banalidade do mal. E pensar que, às vezes, num mesma cidade, a luz pode estar à distância de um taxi do nevoeiro mais cerrado.

Diário chileno (VI). Jantando com Bolaño

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Segundo dia numa Santiago radiante apesar dos colegiais fardados, dos carabineros de olhar distante, da mesma matilha de cães vadios errando na Alameda. E as mulheres formosas de olhos de uva, essas ainda não as vi. Mas comecemos pelo princípio. Ontem, ao jantar, esbocei com Daniel um arrojado plano de evasão rumo ao sul, no rasto de Chatwin. Não ao sul profundo dos páramos gelados, mas aonde seria possível ir nos dois dias que destinaria para isso. Talvez Pucón ou Puerto Mont ou Coyhaique. Hoje descobri que todos os voos estavam esgotados. Os lagos, os vulcões, as florestas araucanianas terão de ficar para outra evasão.

Vou, por isso, a Bellavista, o bairro boémio de Santiago, dizem. Compro algumas jóias em lápislazuli. Visito a casa de Neruda, La Chascona. Depois, imitando um conto instantâneo de Bolaño que caminha ao meu lado, ao último atardecer en la tierra, atravesso uma Santiago provinciana, cruzo ruas de casas ajardinadas, evito umbrais de bares coloridos, ignoro esplanadas nervosas na calçada. E escolho o Galindo para jantar com este companheiro fortuito politicamente incorrecto que, à medida que o vou conhecendo, se revela mais mexicano e, sobretudo, mais latino-americano que chileno. Mas é sobre o nocturno chileno que ele abandonou em 1974, depois de sair de uma prisão de Pinochet, que falamos. Entretanto, trazem-me uma paila marina escaldante e é como se tivesse todo o Pacífico à minha mesa, com uma fauna de mariscos conhecidos  e outros cuja identidade nao ouso adivinhar. Através das janelas atravessa um segundo entardecer menos nervoso que o de ontem. Bolaño conta-me agora dos novos escritores chilenos que obstinadamente procuram escapar à sombra tutelar de Huidobro, de Neruda, de Gabriela Mistral, de Violeta Parra. E menos de Nicanor Parra que nao é um fantasma. E sobre Isabel Allende diz-me que “no es una escritora, sino na escribidora“; e Skármeta, “un personaje de televisión“. Espero não vir a ler, um destes dias, na revista catalã Ajoblanco, uma crítica desapiedada sobre este jantar, como retribuiu a Diamela Eltit que o convidara para jantar em sua casa. Julgo que o facto de ter viajado no avião para o Chile com os seus  detectives salvajes jogará a meu favor. E também o meu interesse súbito pela modernidade visceral do nocturno chileno e das ruas do exílio mexicano. Por isso, me conta, ainda, el secreto del mal, evocando o eterno diálogo com a literatura argentina, Arlt, Piglia, os fantasmas de Borges, as vanidades literárias. E também la canalla sentimental. Mas da vanidade do tempo não me apercebi eu. Saio, então, para rua e reparo que o personagem de Soldados de Salamina, de Javier Cercas, já não caminha ao meu lado, na noite infrarrealista de Bellavista. Apenas grupos de jovens escondidos atrás de enormes garrafas de cerveja Escudo como se estivessem numa estação do inferno. Uns riem-se como se soubessem que o mundo está para acabar e só eles suspeitam desse destino quebrado. Outros olham as mesas vermelhas, flutuando sobre abismos duvidosos. Não vejo ali nenhum dos rostos que conheci nas filas das cabines telefónicas de Estocolmo. E ficam felizes, indiferentes aos meus passos incertos, agora que Bolaño me deixou só nesta parcela do nocturno chileno.

Diário chileno (V). Entardecer nervoso

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Todas as cidades têm o seu aleph, isto é, um lugar secreto capaz de albergar todas as representações que fomos construindo sobre cada uma delas. Em Santiago, procuro-o ao entardecer nervoso, desde a Plaza de Armas, ocupada por pintores que reivindincam aquele espaço para expor o seu trabalho, jogadores de xadrez e damas, desempregados e passeantes fortuitos como eu. Sigo por Ahumada onde, encostados a anónimos edifícios novos, sobrevivem restos da velha cidade fundada por Pedro de Valdivia, em 1541. Atravesso várias ruas pedonais, Huerfanos, Monjitas, Santo Domingo, depois pelo barrio Paris-Londres, espécie de mosaico sereno de estilos variados, neo-clássico, gótico e mourisco, povoado de pequenos hotéis elegantes para amantes secretos, e depois pela Merced até à livraria Metales Pesados onde compro um Bolaño, Entre parénteses, que me acompanha agora pela rua Lastarria. Ali está, ainda, o Biógrafo, célebre cinema e cafetaria de culto para onde confluem jovens cineastas, actrizes da moda, punks, yuppies, numa invulgar justaposição de estilos de vida nem sempre coincidentes.  E já naPlaza Mulato Gil de Castro, enquadrada por antiquários, alfarrabistas e galerias de arte, cafés e esplanadas, onde, dizem-me, nasceu em boa medida a nova literatura chilena, entre rodadas de pisco sour bebido aqui com um rigor profissional, disponho a escrever este diário. Adentro-me a seguir por um labirinto de ruelas secretas, ladeadas de pequenas habitações de cores vivas a que o crespúsculo confere múltiplas tonalidades. Estou em Santiago e ainda não encontrei o seu aleph.

Diário chileno (IV). Santiago do Chile

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Chego a Santiago do Chile 26 horas depois de ter saído de casa. A combi que me transporta desde o aeroporto Toribio Merino acompanhando a corrente poluída do rio Mapoche, atravessa agora uma cidade radiante, com incandescentes torres de vidro pós-modernas e gigantescos centros comerciais coabitando com veneráveis habitações coloniais, alguns edifícios Art Deco e outros sem estilo nenhum, numa acumulação espalhafatosa de formas que compoem o mixt arquitectónico de Santiago do Chile. A interminável Alameda Bernardo O’Higgins, enquadrada pela cordilheira nevada, abre-se diante dos meus olhos como uma corrente de luz, vinda da histórica Estação Central, construída pelo mesmo Gustavo Eiffel que fez a torre de Paris. Na calçada, burocratas apressados de fato e gravata, grupos de jovens estudantes uniformizados, carabineros, compoem um quadro aparentemente conservador, militarizado, que parece constituir a imagem de Santiago. À direita, ergue-se o Cerro de Santa Lúcia, “tão culpado de noite, tão inocente de dia”, como escreveu o poeta Nicolás Guillén e onde o fundador de Santiago, Pedro de Valdivia, sediou em 1541, o seu acampamento. Na esquina Ahumada vislumbro uma cidade mercantil, confusa, uma corrente humana cruzando-se indiferente. E de repente, surge o Palácio de La Moneda, e recordo Salvador Allende, ali assassinado em 11 de Setembro de 1973 pelos militares golpistas, seguindo-se 16 anos de chumbo. Depois de deixar por ali os últimos passageiros que comigo vieram do aeroporto, retornamos ainda pela Alameda, e já na Providência, adentrando-nos numa Santiago de casas térreas, rectilínea, arborizada, provinciana, até ao bairro de Ñuñoa onde Daniel Barraco me espera.

  • O ESCREVENTE

    Um blogue de João Ventura® (joaobventura@yahoo.com) «fora das coisas civis e na mais pura região da arte» [Joseph Joubert]
  • Abril 2021
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