Isto é um homem

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Contrariando o pedido que lhe fora endereçado por um grupo pró-palestiano para não ir a Israel receber o Jerusalem Prize, o escritor japonês Haruki Murakami decidiu ir porque queria ver «com os seus próprios olhos». E foi e viu um muro alto e grande serpenteando na paisagem bíblica, dividindo, espartilhando ruas e estradas, quintais, hortas, vizinhanças, incendiando ódios na «terra prometida». E, então, disse que «se há um muro alto e grande e um ovo que se parte contra ele, não interessa o quão certo está o muro ou quão errado está o ovo, eu ficarei do lado do ovo. Porquê? Porque cada um de nós é um ovo, uma alma única, encerrada num ovo frágil. Cada um de nós confronta-se com um grande muro. O grande muro é o sistema. (…) Somos todos seres humanos, indivíduos, ovos frágeis».

Os palestinianos, menos que isso, diz-me Fuad, um amigo palestiniano que conheci um dia em Aman: «Em Israel, os palestinianos agora são vistos como menos que humanos». Almas quebradas contra um muro «demasiado grande, demasiado escuro, demasiado frio», erguido por israelitas com idade para se lembrarem do que significou na história enlouquecida do século XX a palavra «undermenchen». Foi esta expressão – menos que humano – que antecipou os campos de extermínio nazis, a chave que abriu as câmaras de gás para milhões de judeus e que, agora, estes, que mais do que qualquer outro povo a deviam calar, pronunciam, indiferentes ao sofrimento, à dor que infligem aos seus vizinhos.

A muralha de ódio que vai rasgando a paisagem bíblica da Palestina, contra a qual Murakami viu partirem-se os ovos frágeis dos palestinianos, é justificada por uma retórica de auto-defesa israelita; a mesma retórica que justifica os bombardeamentos indiscriminados de populações indefesas do outro lado do muro. Ou será que os israelitas acreditam que ali, todos, mulheres e crianças inclusive, se encontram armados? É que se assim não for, então, já só os pensam como menos que humanos. E é por aí, pela insensibilidade, que começa o extermínio. Primeiro, «um muro demasiado grande, demasiado escuro, demasiado frio». E depois, no lado de lá do muro, uma paisagem de ruínas sem fim, paredes calcinadas, sedimentos de morte e dor espalhados sobre aquele pedaço de deserto abandonado por Deus. 

Por isso, como Murakami, esquivo-me às codificações racionais de uma guerra assimétrica e envolvo-me emocionalmente no sofrimento palestiniano. Por isso, esquivo-me ao juízo sobre se o que está certo ou errado é o muro ou os ovos que se quebram contra ele. É que, conhecendo Fuad e escutando as suas palavras, umas vezes gritadas outras vezes apenas balbuciadas, só poderei dizer, evocando Primo Levi, também ele «uma alma única, encerrada num ovo frágil», isto é um homem.

Da natureza do jornalismo

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Longe vão os dias em que Karl Kraus, confrontado com um jornalismo que tendia a abafar tudo o que de novo ia surgindo, escreveu Os últimos dias da humanidade onde leva aos limites a representação do mal absoluto da guerra, apresentando-a como fantasmagoria tecnológica e discursiva e, ao mesmo tempo, denuncia as condições de inteligibilidade do presente produzidas pela imprensa como fazendo parte da ordem da morte que alegadamente descreviam. Ao tornar visível essa ignóbil função de tornar invisível o sofrimento dos seres humanos, Kraus encenava, então, o moderno mercado da violência que tornou a humanidade cúmplice dos paradoxdos terminais da modernidade. Por esses mesmos dias, o mesmo Kraus, reportando-se ao jornalismo, dizia ironicamente: «Eu quero piorá-lo, quero colocar barreiras às suas infames intenções sob capa de pretensões espirituais e considerar mais perigosa a imprensa estilisticamente melhor».

Tinha razão Kraus em criticar um jornalismo sem tonalidade política, logo incapaz de afrontar o turbilhão da história e sonhar com outro jornalismo que acabaria submergido historicamente. Um jornalismo que se revelaria incapaz de exercer um escrutínio cerrado sobre a velha ordem económico-financeiro e que foi, depois, incapaz de prever a chegada, a velocidade e a verdadeira dimensão da actual crise financeira que, segundo a catastrofista previsão de Jacques Attali, estará a arrastar o mundo para uma espécie Weimar global. Uma assustadora previsão, se nos recordarmos que o nazismo resultou, precisamente, do colapso da República de Weimar. E tanto mais assustadora, porque convergente com a opinião de prestigiados economistas que, nos últimos dias, reforçaram a percepção de que não está a ser feito tudo o que devia ser feito: Martin Wolf prevê, taxativamente, no Financial Times, que Obama «não conseguirá salvar os bancos»; e Nouriel Roubini, o único economista que previu com antecedência a crise, partindo da constatação de que «o sistema bancário norte-americano está à beira da insolvência», propõe a nacionalização temporária de todos os bancos, à semelhança do que fez a Suécia em 1992.

Antecipar, escrutinar e exibir – como fazia o jornalista Karl Kraus na revista Die Fackel – tudo o que é mau e podre nesta velha ordem financeira, eis o que se deve também exigir ao jornalismo dos dias que correm. Um jornalismo que na sua essência recorra a procedimentos de actualidade para não se confundir com a mera imanência do quotidiano.

Disso me vou dando conta, à medida em que me vou adentrando nas páginas alucinantes da trilogia Millenium (Os homens que odeiam as louras, Oceanos; A rapariga que sonhava com uma lata de gasolina e um fósforo, Oceanos; e A rainha no palácio das correntes de ar, ainda não publicado em Portugal), do malogrado escritor sueco Stieg Larsson (1954-2004) – ex-director da Expo, uma revista especializada em reportagens sobre grupúsculos de extrema direita, na denúncia do racismo escandinavo e na investigação à corrupção e traficância no mundo empresarial – e vou caminhando pela noite gelada de Estocolmo com a dupla Mikael Blomkvist e Lisbeth Salander – ele um jornalista de investigação e ela uma hacker com o dom da ubiquidade cibernética, tatuada e perfurada com piercings e atravessada por paranóias, uma criatura entre Lara Croft e a Pipi das Meias Altas -, que vai no encalço de banqueiros e empresários que especulam impunemente e que, por isso, devem  ser escrutinados com o mesmo empenho e ausência de misericórdia com que os jornalistas políticos vigiam o menor passo em falso de ministros e autarcas. Também aqui, neste thriller nórdico, a realidade parece ter imitado a ficção, como comprova a actualidade noticiosa sobre bancos e banqueiros portugueses.

O senhor Kraus ortónimo

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Não podendo Kraus, o verdadeiro, ser declarado shandiano  seja porque as insuportáveis 525 gramas de peso de Os últimos dias da humanidade não passariam, por certo, no teste da máquina de pesar livros de Walter Benjamin, seja porque as 209 cenas dessa peça de teatro são de uma densidade absoluta, seja, ainda, por ser um homem de grande severidade e por praticar uma disciplina absoluta, seja, finalmente, porque nesse grosso volume terminal nada é excêntrico, antes tudo participa num propósito de exibição e denúncia dos estados inaceitáveis do mundo -, ainda assim, talvez, por se ter cruzado nas ruas de Viena com algum dos 27 membros da sociedade secreta que por volta do mês de Março de 1925 ali acorreram  para uma festa shandy, também este Kraus ortónimo, embora de maneira distinta da sociedade shandiana, foi um homem sem qualidades, um estranho de passagem entre duas guerras, um escritor secreto que enfrentou os paradoxos terminais da modernidade e que, às vezes, servindo-se de uma ácida ironia shandiana dizia que «o jornalismo come o pensamento» e que «os jornais têm mais ou menos a mesma relação com a vida que a cartomante com a metafísica».

Se tudo resto afasta o crítico apocalíptico Karl Kraus daqueles escritores shandys guiados por princípios fúteis e vagos, mas ao mesmo tempo em permanente conspiração, pelo menos com eles partilha o estranhamento do mundo. Talvez, por isso, o seu duplo, se tenha retirado, sem mala, para o Bairro portátil de Gonçalo M. Tavares, onde, agora, travestido de Senhor Kraus heterónimo reaparece rejuvenescido, volúvel, praticando um jornalismo de um humor delirante, desconcertante, shandiano, sem outro propósito que não seja o de apanhar o dia de modo expedito.

Metapolítica da avaliação

 

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O meu post anterior sobre a natureza instrumental da avaliação dos professores suscita-me, entretanto, outra breve reflexão, ainda decorrente das posições postas em confronto no aludido debate televisivo. É que através desse sofisticado sistema de medições, regras e tabelas que querem impor aos professores e à escola, utilizadas não tanto como processo mas como caução científica visando a denegação da dimensão ideológica da avaliação, o que se verifica mais não é do que a denegação da política, entendida, como defende Jacques Rancière, como o embate entre aqueles que querem ser ouvidos e reconhecidos como uma parte legítima na discussão e as nomenklaturas do governo, dos tecnocratas da educação e dos sindicatos. 

E de que embate se trata, então, aqui? Desde logo, do embate entre a visão instrumental e manipuladora partilhada pelo governo e tecnocratas da educação e os sindicatos, cujas ressonâncias retóricas se fizeram escutar agudamente no início do referido debate televisivo. Uns procurando neutralizar a dimensão política da revolta da classe inteira dos professores. E os outros procurando apropriar-se dessa revolta, apresentando-a – como autorizaria o filósofo esloveno Slavoj Zizek (Elogio da intolerância, Relógio d´Água) – como uma «condensação metafórica da oposição global contra aqueles que detêm o poder», de tal maneira que o processo reivindicativo em desenvolvimento já não se refere simplesmente à reclamação de um outro modelo de avaliação, mas envolve a dimensão da exigência da demissão dos responsáveis pela política educativa do governo e a revogação de todo o quadro legal que enquadra a avaliação. Daí que os sindicatos, para não perderem o controle dos professores – que, talvez, comecem a partir de agora a sentir-se um tanto ou quanto desenganados, porque, entretanto, o governo satisfez algumas das suas reclamações na tentativa de os privar dos objectivos do seu protesto – avancem, agora, com novas reivindicações que não estavam na agenda que conduziu à revolta.

E, depois, o outro embate, menos ressonante em termos mediáticos mas mais sentido no interior das escolas, entre o aparelho dos especialistas educacionais do governo cujo objectivo último é a transformação da administração da educação centrada nas pessoas numa administração das coisas da educação no interior de uma ordem racional apoiada num modelo procedimental instrumental economicista e os professores desalinhados que reclamam que as suas vozes sejam reconhecidas como fazendo parte de uma esfera pública aberta a outras narrativas – que não as mesmas de sempre, isto é, as dos governantes versus partidos da oposição e sindicatos – onde se faça ouvir o discurso dos professores excluídos e se possa, finalmente, processar a negociação e o compromisso estratégico entre as partes. 

De que falamos quando falamos de avaliação

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O debate televisivo sobre a avaliação dos professores a que assistimos ontem no programa Prós e Contras suscita-me a seguinte reflexão. Do lado dos Prós, na circunstância, o representante do Estado e a uma dita especialista, a defesa da avaliação é sustentada do ponto de vista da necessidade de estabelecer a diferenciação entre os avaliados, premiando o mérito e, em consequência, conduzir à melhoria dos níveis de sucesso educativo nas escolas portuguesas. Aparentemente, trata-se de um objectivo meritório.

Contudo, aquilo que realmente ali se tratou foi de um embate entre aqueles que procuram impôr um modelo de avaliação que convoca um sofisticado sistema de medições, regras e tabelas visando a caução científica para fins mais ou inconfessados, mas que procuram denegar a sua dimensão ideológica e aqueles que, embora movidos por diferentes motivações, recusam expôr-se a um novo «dispositivo de vigilância» que mais não é do que o resultado da expansão do paradigma da medição nas sociedades modernas.

E o que é, então, denegado sob a roupagem pseudo-científica da avaliação? A emergência daquilo a que Giles Deleuze designou, apropropriando-se do conceito de  William Burroughs, como «sociedade de controle» e que Michel Foucault aponta como substituto das «sociedades disciplinares». E cuja formulação através da avaliação, mais não é, do ponto de vista técnico (objecto, método, resultados), do que uma consequência da expansão do paradigma da medição, corroborando o uso social da matemática nas sociedades modernas; e do ponto de vista do poder, um modo de funcionamento do Estado que institui uma maneira de governar que se exerce através da matematização da experiência. 

O que é, então, a avaliação? E quem são os avaliadores? Conforme escreve o filósofo e psicanalista francês Jean-Claude Milner em Voulez-vous être évalué?, «a avaliação é essencialmente uma retórica. Os avaliadores são os sofistas de hoje». Sendo que a sofística da avaliação procura resolver sumariamente a questão dos critérios e da legitimidade dos próprios avaliadores, evitando, acima de tudo, que se coloque a incómoda questão: quem avalia os avaliadores, isto é, aqueles especialistas hiperactivos, fetichistas das medições, das classificações, dos escalonamentos, das comparações em cujos paradoxos inextrincáveis procuram enredar os avaliados? 

Dar outras possibilidades ao mundo

 

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No rescaldo da vitória de Barack Obama, ponho-me a pensar se, talvez, amanhã, tudo não será, outra vez, a mesma baixa política – que legitimou gente como Bush e Berlusconi ou continua a entronizar gente como Tony Blair, cada um à sua maneira, aspirantes a Maquiavel -, e que este homem sem qualidades (Musil) que veio do futuro para dar outras possibilidades ao mundo se deixe, também ele, contaminar pela infâmia dos interesses inconfessados, pela interiorização do cinismo e pela amoralidade e demais patologias da experiência política contemporânea que fizeram deslizar o mundo, não apenas para a crise económica profunda de que todos falam, mas, sobretudo, parece ter instalado uma crise sem precedentes da experiência, colocando a humanidade – na expressão de Zygmunt Bauman – «frente ao inafrontável», isto é, sem pontos de referência que nos tranquilizem e nos guiem pelas estradas perdidas que nós próprios vamos fazendo.

Mas hoje ainda não é amanhã, e o que vi na madrugada das eleições – e continuo a ver em vídeos noYouTube  – é, entretanto, a imagem de um homem sereno e determinado a ajudar a encontrar o mapa que o mundo precisa para atravessar este deserto do mundo em que se tornou a modernidade fracassada, trazendo a uma parte da humanidade a esperança para enfrentar a crise – a económica e a existencial – e à outra parte da humanidade a esperança de vencer o terrível desafio da sobrevivência. Vi – vejo ainda – «um Presidente que tem uma cara em vez de um esgar e que usa a fala em lugar do balbucio», como escrevia José Manuel dos Santos, na sua crónica semanal na revista Actual . Alguém, talvez, ainda, capaz de usar o mandato político que lhe foi oferecido nas urnas para desenterrar do pântano a ética para ali atirada pela iniquidade que transformou a América dos pobres num deserto sem mapa. Talvez – quem sabe? – capaz, ainda, de evitar a catástrofe de «as coisas continuarem como antes», tanto na América como no resto do mundo.

Por isso, recuso o pensamento mesquinho que me assaltou por instantes. E o desconforto nihilista de pensar que à arrebatadora ilusão deste triunfo que anuncia outras possibilidades para mundo, poderá suceder a rápida e melancólica desilusão da sua impotência diante da política de bastidores e de alianças de conveniência. Escolho, então, definitivamente, a audácia de pensar que, mesmo que as contradições do tempo por vir venham a arrefecer o fogo sereno das palavras que cobriram o mundo na noite da vitória, uma coisa que Obama deu à América e que, nos tempos mais próximos, ninguém poderá retirar, foi a de pôr o pensamento a pensar, isto é, de ter incitado, e excitado, o pensamento de que, talvez, possa haver, ainda, outras possibilidades para o mundo.

E a melhor prova disso, dessa rebelião contra a vertigem do vazio da política pós-moderna – mais ainda do que a sua oratória, simultaneamente, emotiva e serena, arrebatadora e racional, disciplinada e inteligente – foi a possibilidade consumada de um militante afro-americano, um advogado dos destituídos, um agitador social e político ter decidido ser Presidente da América para dar outras possibilidades ao mundo, fazendo do seu próprio itinerário vital, da sua vida transformada em narrativa, o seu principal trunfo.

Posto isto, o que poderá «um mundo de qualidades sem homem» (Jean-François Peyret) pedir ao homem sem qualidades musilianas que é Obama? Talvez não aquilo que nem ele nem ninguém jamais poderá devolver ao mundo, isto é, a remissão da nossa vida fragmentada, e muito menos qualquer «promesse de bonheur» (Stendhal). Talvez exigir-lhe, apenas, não falhar a ocasião de nos salvar da catástorphe (Walter Benjamin). E isso já será um programa absoluto contra a inabitabilidade do mundo e o desesperante nihilismo reinante.

De um outro uso do nihilismo

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Numa carta enviada a Louise Collet, em 1850, Flaubert escrevia: «O mundo vai tornar-se tremendamente imbecil. Nos próximos anos, a coisa vai ficar muito aborrecida. É uma sorte vivermos agora e não mais tarde» [Gallimard, 1998]. Flaubert antecipava, então, o apogeu da banalidade num mundo em que a gente dita ilustrada começava já a mover-se sem ética nem estética, prenunciando «um tempo – acrescentava ainda – em que toda a gente se terá convertido em homens de negócios ». Flaubert que se dava como desaparecido nos distintos cenários da sua obra narrativa elegia a sua correspondência privada para comentar com contundência a vida cultural, política e social do seu tempo. 

Ora, mais de um século e meio depois, a sua visão de um tempo marcado, não tanto pelo tédio mas sobretudo, agora, pelo vazio e pela mundaneidade frívola, em que quase todos parecem ter-se convertido em homens de negócios, a contundente opinião de Flaubert adquire uma particular actualidade quando o que mais encontramos por aí são analfabetos altivos desprovidos de ética e estética, mas não de ambição económica, fetichistas gulosos dos bons lugares na sociedade, hedonistas indiferentes aos males do mundo, despudorados trapezistas do marketing. E uma massa de gente vivendo com a implacável consciência de uma quotidianeidade penitenciária sem outros sobressaltos que não os das notícias sobre a violência urbana, sobre os acidentes de trânsito, as explosões domésticas de gás, os fumos de corrupção e prevaricação e a crescente insegurança do emprego que nos transmitem uma profunda sensação de tédio que se vai derramando horizontalmente, homogeneizando tudo à sua volta, devorando as possibilidades alternativas de vida, reais ou imaginárias, como se nada mais houvesse fora da experiência de vida asséptica e anódina que aí está.

A banalidade quotidiana é-nos cada vez mais imposta – escreve Bruce Bégout em Lieu commun- Le motel américain [Allia] – como uma «fatalidade absoluta» em que a vida deixou de ser aquela experiência singular tão exaltada no advento da primeira modernidade para se tornar num processo de «produção seriada» ou, utilizando uma imagem mais contemporânea, no produto de implacáveis máquinas de marketing que visam distribuir por todos milagrosas doses de divertimento. Eis onde Flaubert não acertou. É que, se bem antecipou o triunfo do aborrecimento no apogeu do primeira modernidade, não poderia imaginar que o hedonismo indiferente que se vai espalhando por aí é determinado pela natureza pulverizadora do nihilismo pós-moderno, incoincidente com a noção de tédio geradora de opções transgressoras de vida ou de revolta social que marcou a experiência de vida no século passado. E neste torvelinho do divertimento – mas não da festa -, entregues sem remissão a licenciados em economia e a trapezistas do marketing, vai-se diluindo também a vontade de escaparmos à «colonização do quotidiano» e de nos concedermos outras possibilidades que não sejam as das qualidades homogeneizadas que nos são incitadas e excitadas. Entretanto, marcados pelas novas patologias do nihilismo, vamos caminhando para a uma espécie «apocalipse alegre» [Hermann Broch], como que procurando divertirmo-nos até à morte [Neil Postman, Amusing ourselves to death, Penguin].

«Homens de negócios», portanto, como antecipou Flaubert, aparentemente sem atributos, mas que na realidade possuem todos os atributos. Ou na formulação de Jean-François Peyret dizer, então, que vamos vivendo num «mundo de qualidades sem homem» [«Musil ou les contradictions de la modernité», in Critique, 1975]. O que ilumina o sentido da enigmática frase de Musil sobre «as experiências vividas sem que ninguém as viva». É que as qualidades em nós incitadas, e excitadas, vão-se cristalizando nas figuras aborrecidas que vamos habitando ou nas ideias de todo o género que adoptamos sem nos apercebermos do que a vida pode ter de dissonante, de criativo e de espontâneo.

Talvez, então, pensar, ainda, como Musil, esse homem sem qualidades, que em Die Schwärmer (Trad. francesa Les Éxaltés, Seuil,] dizia que se entre os homens há um sentido da realidade, deve haver também um sentido da possibilidade. E é nessa possibilidade que, embora vagamente nihilista à maneira da primeira modernidade, me reconheço.

  • O ESCREVENTE

    Um blogue de João Ventura® (joaobventura@yahoo.com) «fora das coisas civis e na mais pura região da arte» [Joseph Joubert]
  • Agosto 2017
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