Ou o poema sem poeta

Sabe-se que nasceu em 1930, no Funchal; que concluiu o 7º ano do Liceu na Escola Luís de Camões, em Lisboa; que frequentou Direito e, depois, Românicas, em Coimbra; que frequentou os cafés de Lisboa, com presença assídua no Café Gelo, onde conviveu com  Mário Cesariny, Luiz Pacheco e Hélder Macedo; que andou por fora, em França, na Bélgica, na Holanda, na Dinarmarca onde experimentou vários empregos: criado de mesa numa cervejaria, cortador de legumes numa loja de sopas, enfardador de aparas de papel, operário nas forjas de Clabeck, carregador de camiões, guia de marinheiros em bairros de prostituição de Antuérpia. E que foi durante estas andanças, entre 1958 e 1960, que escreveu grande parte dos textos de A Colher na Boca (1961) e Os Passos em Volta (1963). Vai-se apagando, depois, a sua vida civil: uma passagem pelas Bibliotecas Itinerantes da Gulbenkian; tradutor de literatura médica; jornalista, tendo nesta qualidade feito uma reportagem de um Benfica-Sporting, em 1972, intitulada Uma ida ao Campo; psicoterapias; um processo crime por causa da sua colaboração na publicação de Filosofia de Alcova, de Sade; um acidente de viação que o atira para o hospital durante três meses; algumas viagens ao estrangeiro… Este o photomathon biográfico possível quando Herberto não tinha ainda migrado para o interior da sua obra.

Depois, escreve em Photomaton & Vox (1979): «Tenho de inventar a minha vida verdadeira». E inventa-a de tal maneira que passa a viver apenas dentro dos seus livros. Torna-se num «escritor oculto»: nem aparições públicas, nem entrevistas, nem fotografias nos jornais, nem conversas com leitores. Nem prémios: em 1994 recusa o Prémio Pessoa com que fora distinguido. Ainda em Photomaton & Vox escreve: «Não me vou deixar apanhar por tentações biográficas, a memória, os mitos que as culturas, marginais ou não, parecem querer que eu adopte. Não sou um símbolo da imaginação alheia». Subtrai-se por vontade às «câmaras ecoantes: (…) as respostas caóticas, o êxito, o erro, a morte da alma». Apaga-se como figura civil, instaurando o silêncio biográfico sobre si mesmo. Sublinha Manuel Gusmão que «num gesto de predestinação furiosa e paciente, o nome de “Herberto Helder” migrou para o interior ou as margens do seu poema: [Herberto Helder] Ou o poema contínuo». Nome e título de obra passam a ser a mesma coisa, fluindo ambos na «torrente silenciosa» e alucinada que se expande até ao limite do verbo num «poema absoluto» que escapa, como autorizaria Blanchot, «a qualquer determinação essencial, a toda a afirmação que o estabilize».

Como ler esta ocultação do autor na obra? Talvez como um extremo exercício do poema para escapar à determinação hermenêutica da tutela autoral. É que, lê-se num trecho de Photomathon & Vox, «… uma noite começo a escrever. Tenho memória. Nada foi esquecido, vem adequado agora aos vindicativos sentidos da expressão e da representação. E assim caminho para o esgotamento, no centro da fecundidade. As pessoas perdem o nome, as coisas limpam-se, cessam a fuga do espaço e o movimento dispersivo do tempo. Fica um núcleo cerrado. Fico eu». Ora é este “eu” biográfico que Herberto recusa. Por isso, dissolve-se na obra passando a existir única e exclusivamente nela, o que explica a interposição de um “ou” entre o seu nome e o título da obra. Porque a sua voz de autor já só existe no interior ou nas margens da sua obra. Erradica-se o autor. E fica a «inóspita beleza» em forma de um «poema contínuo» ardendo em lenta combustão.