Fogo lento

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Se olharmos para os escaparates das livrarias de hoje, veremos que o que abunda é a redundância na qual se afunda o campo literário actual indelevelmente rasurado pelas regras do mercado e pela desejo de uma nova «raça de escritores, imitadores do já feito», em permanecer na «eternidade preguiçosa dos ídolos», como escreveu Blanchot. Por isso, nestes «tempos de redundância», a reedição da «súmula» de Herberto Helder, acrescida de um conjunto de poemas inéditos (A Faca Não Corta o Fogo, Assírio & Alvim), constitui, por si só, um questionamento «intempestivo» – como sublinhou António Guerreiro em artigo publicado na semana passada na revista Actual – do próprio lugar da poesia ante a constelação de vazios que preenche um espaço literário cuja legitimidade não é mais outorgada pela palavra poética mas sim pelas regras do mercado editorial ditadas pelos tais «trapezistas do marketing» de que fala Vila-Matas em O mal de Montano.

É que Herberto Helder pertence, ainda, a outro tempo. A um tempo em que os poetas ambicionavam constituir-se exclusivamente através da sua obra, fugindo por vontade própria da vida mundana e da vacuidade dos prémios e honrarias. Porque já Séneca dizia que a fama é horrível pois depende do juízo de muitos. E Flaubert: «as honrarias desonram». E Herberto Helder, numa remota entrevista: «O prestígio é uma armadilha dos nossos semelhantes. Um artista consciente saberá que o êxito é prejuízo». E, depois, noutra rara entrevista: «Há quem se ponha no centro de câmaras ecoantes: e os ecos chegam de todos os lados: as respostas caóticas, o êxito, o erro, a morte da alma». Por isso, nas últimas décadas Herberto Helder vem cegando todo o espaço mediático à sua volta: nem entrevistas, nem aparições públicas, nem conversas com leitores, nem prémios. Apenas um intransigente silêncio em que se dissolve não apenas a sua biografia mas também qualquer tentativa de aproximação hermenêutica à sua obra através da sua autoridade autoral.  

Daí a decisão radical de ter como única morada a poesia, fazendo do auto-apagamento, da dissolução biográfica, da recusa da interpretação da sua obra, o trabalho de toda uma vida. «Não moramos autenticamente senão aí onde a poesia tem lugar e dá lugar», escreve Blanchot em O livro por vir. E, antes dele, Hölderlin: «… é poeticamente que o homem permanece». E noutro verso ainda: «Mas o que permanece, os poetas o fundam». Insondável morada esta habitada pelo «idioma bárbaro» de Herberto Helder que sustenta o bruxulear de uma luz, abre a vacilação de um caminho em direcção ao «poema absoluto» através do qual o poeta busca a superação do mito com uma violência nietzschiana: «Até que Deus [seja] destruído pelo extremo exercício da beleza».

E o que funda Herberto Helder através da radical redução da Poesia Toda (1981) operada, primeiro, em Ou o Poema Contínuo (2001) e, agora, em A Faca Não Corta o Fogo – como se a sua obra fosse um «poema contínuo» crepitando num fogo lento donde se soltam «as notas impreteríveis para que da pauta se erga a música, uma decerto não muito hínica, não muito larga nem límpida música, mas este som de quem sopra os instrumentos na escuridão», como ele próprio já advertia na súmula primeira? Talvez, sempre, os mesmos «punti luminosi poundianos, ou núcleos de energia assegurando uma continuidade do sensível» que antes dele já Pessoa perseguira, deixando aberta a ideia da literatura como utopia ou, se se preferir,  arriscando uma concepção mallermaneana do livro por vir que encontramos no livro homónimo de Blanchot.

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12 comentários

  1. Quando nos “cai dos dias” artigos como este, vale a pena pensar (a sério) na literatura! Obrigado!

  2. Não posso estar mais de acordo. Com 12 e 13 anos tive a sorte de ter à mão de semear Sartre, Steinbeck, Camus, Amado, Lorca e tantos outros. A pobreza do que hoje é proposto a crianças e adultos é confrangedora. As editoras desse tempo eram quase militantes da literatura, hoje são comerciantes de livros (muitas delas). Obrigada pelo que cai dos livros, uma paragem obrigatória no campo da escrita.

  3. «as honrarias desonram». E Herberto Helder, numa remota entrevista: «O prestígio é uma armadilha dos nossos semelhantes. Um artista consciente saberá que o êxito é prejuízo»

    Prazer, João Ventura.

    Abraço ” o que cai doa dias “, letra a letra …

    iv*

  4. que regresso em grande. falo do seu, agora. eu bem passava por cá e nada…

  5. Cheguei cá porque o seu blog está no site do Vila Matas, sabia? ( http://www.enriquevilamatas.com/blogs.html ) só li dois posts, mas os três nomes que se repetem säo muito importantes para mim. Vila Matas, com certeza o melhor dos nossos escritores, Blanchot, o pensamento importante, muito importante mesmo e Herberto Helder, que ainda näo li em profundidade, mas foi o poeta português mais interessante que já conheci. é curioso que fales, também de Pessoa, uma vez li num livro de José Gil que os dois únicos poetas portugueses sem medo ao vazio eram estes dois. eu näo levo o tempo suficiente em Portugal como para acabar de perceber este comentário, achas certo isto? realmente, falta, na poesia portuguesa um tradiçäo do vazio, uma poesia do silêncio? é significativo a falta de livros do Blanchot nas livrarias portuguesas?

    Um grande abraço

    (Desculpa o meu português)

  6. Uma poesia roçando o vazio, sim, mas o vazio do abismo onde habita o espírito do fogo hölderiano em que crepita o «idioma bárbaro» de Herberto Helder. E sim, meu caro “R”, talvez com mais Blanchot e alguns outros, fosse possível encontrar mais silêncio nas livrarias portuguesas.

  7. É verdade Ana Cristina, nos últimos meses, não por qualquer efeito bartlebyano, mas porque tenho andado mergulhado no caos do meu trabalho – um teatro para inaugurar em Dezembro – dê-me como desaparecido destas paragens. Regressei há dias atingido pelo relâmpago das palavras de HH.

  8. Cara Isabel Victor, depois do nosso mais do que fugaz encontro no final do almoço do Museu de Portimão não me foi possível procurá-la como tinha prometido. Assim, vamo-nos encontrando por aqui longe das armadilhas do tempo que passa.

  9. Cara Popelina, falta, portanto, silêncio nas livrarias.

  10. Caro JRL, …dias iluminados, às vezes, por rastos de fogo ou apenas de cinzas da combustão das palavras de outros.

  11. Caro João,

    É com redobrado prazer que o vejo de volta ao blogue. Nesse vazio a que nos entregamos, chegamos sempre a encontrar, aqui ou além, a sombra de que precisamos para a caminhada solitária do nosso ser. Não como paradigma substancial, mas como um paradigma relacional feitos de pontos de escuro. Herberto é capaz de ser mais um desses pontos escuros. Pynchon é-o certamente, embora revestido de um escuro que não é o mesmo negro que cai dos nossos dias. Nunca, como hoje, me pareceu tão evidente vivermos na Idade das Trevas.

    Paulo Pinto

  12. Caro João Ventura

    Belíssimo relâmpago HH ! Punti luminosi …

    ´
    Abraço

    iv


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