Longe de Coyoacán

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«A nostalgia de um lugar enriquece-se sempre desde que se guarde como nostalgia», escreve Enrique Vila-Matas no seu desassossegante romance, Longe de Veracruz, que volto a folhear à procura de espirituosas anotações mexicanas para um post a haver. Assim permanece para mim, Coyoacán, aquele bairro de México DF que revisito agora nas fotografias que guardo no meu álbum mexicano.

Lembro-me que fui de metro a Coyoacán para visitar a casa de Frida Khalo. Fui como quem vai a Comala. E fui, ainda, porque tinha lido no livro de Enrique Vila-Matas que aí, na praça La Conchita, ficara a viver Sergio Pitol, o escritor mexicano e viajante impenitente que aos vinte e oito anos partira do porto de Veracruz numa viagem de alguns meses à Europa para só regressar vinte e oito anos depois, já não ao porto de partida metafísico, mas à paisagem degradada do DF que haveria de abandonar para se instalar, por fim, na chuvosa Xalapa, muito próximo da sua terra natal e de Potrero, o lugar onde passara a sua infância e fizera a sua educação literária.

E, ao primeiro entardecer, na praça central de Coyoacán, enquanto defrontava um grupo de crianças indígenas esquálidas e andrajosas propondo-me a compra de bonecas de pano pobremente executadas, pareceu-me tê-lo visto a passear entre canteiros de orquídeas levando pela trela o seu cão Sacho. Mas equivocava-me porque nessa altura eu ainda não tinha descoberto Pitol a quem cheguei tardiamente e, por isso, se o visse também não o reconheceria. E mesmo que já o tivesse descoberto, certamente não o encontraria ali, porque à data da minha ida a Coyoacán, já Pitol se tinha escapado do céu artificial do DF, «uma cidade […] desconhecida, uma paisagem degradada, um céu inexistente», dando-se como desaparecido em Xalapa para ler e escrever e, de vez em quando, «sonhar em caminhar outra vez por algumas ruelas de Lisboa, de Praga, de Marienbad, de Veneza…»

Não o encontrei, portanto, em Coyoacán, porque cheguei tarde aos seus livros e não poderia, então, imaginar que Pitol pudesse andar por ali, naquele parque de Coyoacán, disfarçado de passeante com um cão que não dava pelo nome de Sacho como pude comprovar quando o animal se soltou e o dono o chamou de volta, o que agora me parece a prova irrefutável do meu equívoco. Mas por estes dias em que vou lendo El Arte de la fuga (Anagrama), esse compêndio de viagens, encontros, efabulações, sonhos e ensaios que comprei numa escapadela a Madrid, vou desenhando a cartografia impossível da sua errância através de uma geografia desordenada, tornando-se a sua prosa andarilha tão aditiva para mim como para ele foram durante muito tempo as suas viagens à volta do mundo.

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2 comentários

  1. para quando a tradução de El Arte de la fuga?

  2. Talvez fazer essa pergunta a Manuel Rosa que já publicou uma das novelas do «Tríptico de Carnaval», «A vida conjugal» (as outras duas são «El desfile del amor» e «Domar la divina garza»). Entretanto, para fechar a trilogia autobiográfica começada com «El arte de la fuga» e continuada com «El viaje», irei um destes dias comprar «El mago de Viena» de que já li algumas passagens. Enquanto esperamos por todas essas traduções, deixo no post seguinte uma «autobiografia oblíqua» de Pitol.


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