Outros abismos mexicanos

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E neste exercício de economato literário, como lhe poderia chamar Enrique Vila-Matas, à medida que vou sublinhando no livro de Lowry os nomes das setenta e sete bebidas consumidas debaixo do vulcão, imagino-me de novo em Cuernavaca, agora no Dia dos Mortos, ao crepúsculo, sentado de frente para os vulcões gémeos replandescentes de neve, na esplanada de Las Mañanitas, bebendo uma coronita gelada – essa clara cerveja mexicana que vem numa garrafa transparente e que, às vezes, no Verão, também ao crepúsculo, gosto de beber sentado no meu terraço sob um céu que se vai quebrando num esplendor vermelho.

E ali – isto é, aqui, agora, não na esplanada de solitários atravessada por um cortejo de máscaras e disparos mentais que vislumbro na dobra de uma página – imagino um país que, escreve Juan Villoro, é uma «indecifrável realidade que por convenção chamamos México». Um país cujo imaginário transforma os escritores que ousam cruzar os seus admiráveis abismos de festa, alucinação e morte em exploradores de um território literário vertiginoso donde, nem sempre, regressam incólumes. Como Lowry, o «cônsul da embriaguez e dos vulcões» [José Agostinho Baptista] engolido nos abismos do mezcal.

Abandono, entretanto, o cenário de ruínas e amargura de Cuernavaca e, na minha biblioteca, vou procurando outras bifurcações desse país onde toda a ficção é possível. Primeiro, os mexicanos. Juan Rulfo, claro. E Carlos Monsivais e Sergio Pitol e Juan Villoro. E os estrangeiros. Talvez aqueles que melhor visionaram o México. Escreve Roberto Bolaño – o escritor chileno prematuramente desaparecido – que «dos muitos romances que já se escreveram sobre o México, os melhores provavelmente serão os ingleses e um ou outro americano. D. H. Lawrence [A serpente emplumada] desata a novela agonista, Graham Green o romance moral [O poder e a glória] e Malcolm Lowry a novela total» (Entre paréntesis, Anagrama, 2004). E, acrescentaria eu, Enrique Vila-Matas que em Longe de Vera Cruz desata uma exaltada mitografia do México.

E que desata o próprio Roberto Bolaño que nos legou dois extravagantes romances «mexicanos» que guardo numa prateleira muito especial da minha biblioteca? Los detectives salvajes [Anagrama], «o melhor romance mexicano desde A região mais transparente [Carlos Fuentes, 1958], ou o melhor romance sobre o México desde Debaixo do vulcão, segundo Jorge Herralde; um delírio de labirintos crepusculares derramando-se sobre arredores estranhos de uma cidade, México D. F., território de sobrevivência de uma geração encarcerada à beira do precipício. E 2666 (Anagrama) espécie de romance pulp fiction, buraco negro do crime múltiplo sem solução cuja cratera se situa em Ciudad Juárez, lugar de todas as vertigens, de todos os pesadelos? Desata, sobretudo, uma nova ordem literária  – a do realismo visceral – que corta com o chamado realismo mágico latino-americano dos galos da Amazónia e das virgens em levitação e com as visões estrangeiras de uma Cuernavaca que só sobrevive no romance de Lowry.

[Ao alto, reprodução de mural de Diego Rivera sobre o Dia dos Mortos]

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5 comentários

  1. É bom ver mencionado aqui um escritor como Roberto Bolano. Um dos escritores contemporâneos mais extraordinários que li nos últimos anos.

  2. Que excelente texto, muchas gracias por él.

    Sino me equivoco, la pintura es de Diego Rivera ¿verdad?

    Ojalá pronto puedas estar por acá y beber esa coronita bien fria, con sal y limón 😉

  3. Magda, é efectivamente uma pintura de Rivera, agora devidamente identificada no final do post.
    Quanto a essa coronita bem fresquinha, e com sal e limão como mandam as regras, anseio por regressar ao México para sentir de novo o seu sabor cortante.
    Talvez, também, para apresentar o número 6 da revista Atlantica que vou fazendo por aqui com cumplicidades daí, desse lado do mar. E, por que não aproveitar agora para pedir a tua cumplicidade para colaborares no dossier sobre a cidade do México que gostaria de publicar? Escrever-te-ei para o teu endereço de email.

  4. ¡Excelente! que bien que tengas la posibilidad de venir 🙂

    ¿Un dossier sobre la ciudad de México? ¡qué bien! ¿en castellano?

  5. Sim, um dossier sobre a cidade do México para a secção «Cidades invisiveis» que poderás visitar no site da Atlantica em http://www.revista-atlantica.com/revista.php .
    Para esse dossier penso publicar o texto «El cielo artificial», de Juan Villoro que conheci, recentemente, em Madrid. Necessitaria de mais dois textos. Em castelhano, sem problemas, porque traduzi-los-ei.


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