Debaixo do vulcão

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Lembro-me de há uns anos ir a caminho de Taxco pela estrada que sobe desde a cidade do México e, depois, se inclina para Cuernavaca, a cidade que em Debaixo do vulcão dá pelo nome de Quauhnahuac e onde nos habituámos a ver desesperar Malcolm Lowry. Lembro-me de errar através de um emaranhado de ruas ensolaradas; de atravessar um jardim decadente sob um céu em chamas; e de – respondendo ao chamamento dolente de uma canção de Jorge Negrete vinda de uma máquina de discos – ter cruzado o umbral sombrio de uma cantina anónima que acabara de abrir as suas portas e de ali, depois, ter experimentado o meu primeiro tequila destilado do mais puro agave mexicano. Herradura vinha escrito no rótulo da garrafa depositada sobre o balcão. 

E a cantina, tão real como a do romance, talvez fosse El Farolito, cuja fotografia descobri há dias no blogue da Fundação [onde entrei a convite d´O bibliotecário de Babel] criada em Cuernavaca para recordar o inglês perseguido pelos demónios do mezcal. E é o próprio Lowry que, agora, mo confirma: «que beleza se poderá comparar à de uma cantina, de manhã, cedinho? (…) pensa em todos os terríveis estabelecimentos, em frente dos quais as pessoas desesperam, impacientes por que se levantem os taipais! Nem as portas do céu, que para mim se abrissem de par em par, me proporcionariam uma alegria tão celestial, tão complexa e tão desesperada como aporta ondulada que se ergue com estrondo, como as gelosias que sobem, admitindo essas almas que vibram com as bebidas, levadas aos lábios com mãos vacilantes. Todo o mistério, toda a esperança, todo o desapontamento, sim, todas as misérias aqui se encontram, para lá dessas portas que se balançam num vaivém». (Debaixo do vulcão, Relógio de Água).

E agora que volto a ler o seu livro e a incandescência permanece, lembro-me de, naquele homem debruçado sobre o tampo de pedra encardida do balcão ao fundo, «afogando a dor no melhor mezcal do México», parecer-me ter visto – não sei se por ter bebido aquele álcool até ao fundo, se embriagado pela atmosfera mescalianiana de El Farolito – o próprio Malcolm Lowry. E que outra visão poderia eu ter tido ali, naquela cantina debaixo do vulcão, com a garganta incendiada pelo fogo do mesmo agave que nesta dobra da noite volto a beber enquanto vou sublinhando o nome das setenta e sete bebidas alcoólicas diferentes emborcadas pelo cônsul e seus acólitos ao longo das trezentas e quarenta e seis páginas do alucinante romance de Lowry?

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9 comentários

  1. Onde é que arranjou o «Herradura»? Estou compradora

  2. Comprei-o no México, é claro, duas garrafas de reposado 100% agave.

  3. Em cada post uma aula, um desprendimento semiótico com a leveza do bom humor. Adoro seu blog, seus posts e já tinha dito isso anteriormente. Boa sorte pela vida, João. Numa hora dessas, nos esbarramos numa esquina. Bj

  4. ora, no méxico é fácil comprá-lo

  5. El mezcal, el tequila, no sabía que conocías tanto de bebidas mexicanas ¡qué bien!
    🙂

  6. … e também algumas cervejas: a omnipresente Corona na sua inconfundível garrafa transparente e, sobretudo, a Negra Modelo, de abundante espuma, que acompanhou as minhas refeições no México.

  7. ando amantada com esse livro há mais de duas semanas. Vou contando e listando os bichos.

  8. … e depois, que fazer com tanta bebida? Montar um bar?

  9. Já depois de ter escrito este post leio em Babelia um texto de Antonio Muñoz Molina para quem «a prosa de Lowry é tão aditiva como o mezcal era para o Cônsul» e descubro que Granada foi para Lowry o nome de um paraíso breve e perdido, o que explica as reverberações toponímicas da cidade da Sierra de Nevada nas páginas sombrias do romance. É que – escreve Muñoz Molina – o cônsul e Yvonne transportam a memória de Malcolm Lowry e Jan Gabrial passeando juntos nos jardins de Generalife. Um motivo adicional para ir num destes dias a Granada.
    Para ler em:
    http://www.elpais.com/articulo/semana/adiccion/elpepuculbab/20080223elpbabese_6/Tes?print=1


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