Desolação

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No post anterior dizia que se tratava de encontrar passagens nesta paisagem de desolação que aí está povoada de luzes ofuscantes que os trapezistas do marketing não se cansam de, diariamente, nos ir acendendo. Mas hoje sinto-me na obrigação de abandonar a metáfora, ainda que apenas pelo tempo de escrita deste post, para repetir a mesma expressão de paisagem de desolação, só que, desta vez, atribuindo-lhe o mais sebaldiano dos sentidos. Porque outro sentido não seria possível face às imagens de habitações escancaradas diante do olhar de espectadores obscenos, móveis humildes amontoados sobre um espelho de lama, intransponíveis sedimentos de esperança perdida sob o demónio cinzento da desgraça. Paisagem de infelicidade, afinal, que vem perturbar, agora, a retórica antes aqui deixada a propósito das novas patologias do nihilismo. É que as imagens que, ontem e hoje, as televisões vão passando não são de divertimento, mas de estremecimento. É que, às vezes, as televisões também são capazes de dar conta da «consternação do mundo». E a consternação é, ainda, a mesma de sempre. Todos seguindo «o mesmo caminho de antemão traçado pela nossa origem e pelas nossas aspirações», diria o passeante melancólico W. G. Sebald, «impotente para afastar os fantasmas da repetição», se mergulhasse agora os passos naquela torrente adormecida de lama povoada de reminiscências de outras desolações. E nessa procissão entre ruínas húmidas, a dolorosa coincidência daquele jovem casal que tudo perdeu num torvelinho de lama e que já não reivindica felicidade, apenas a esperança perdida na vertigem do vazio. Resta-nos, então, encontrar passagens, fendas, na continuidade do mundo e procurar aí, depois, um sentido de possibilidade. Até porque, como disse Walter Benjamin «é apenas pelos sem esperança, os desesperados, que a esperança nos foi dada».

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4 comentários

  1. «trapezistas do marketing »… Onde é que eu já li isto traduzido?

  2. Caro Fallorca, leu, seguramente, n´«O Mal de Montano», de Enrique Vila-Matas, autor cujas citações, com aspas, assaltam, de vez em quando, o que me vai caindo dos dias. E, outras vezes, poucas, dissimuladamente, perseguindo «a arte [benjaminiana] de citar sem aspas» [Walter Benjamin, «Der Passagen-Werk»/trad. francesa «Le Livre des Passages», fragmento N1, 9, E, Éd du Cerf] que, como sabe melhor do que eu, também é um procedimento desse «amante de las citas» que é Vila-Matas, o que até vem expresso, à maneira de epígrafe, neste blogue.

    E, a propósito não de citações, mas de traduções, confirme-me se é o tradutor de Vila-Matas, como penso e se, encontrando-se «allgures no Argarve», talvez num monte sobranceiro à velha ponte sobre o Arade, não quereria sentar-se com alguns enfermos de Montano, aqui em Portimão, e conversar sobre «Doutor Pasavento» que vamos discutindo numa comunidade de leitores que há por aqui. E seria já na próxima semana, na segunda-feira à noite, creio.

  3. João Ventura, ora aí está uma excelente oportunidade para “jogarmos à cabra-cega”…
    Recorra ao meu e-mail, informando-me a hora e o local certo, e terei todo o prazer em conhecer essa tertúlia. Assim que o tempo estiver mais ameno, retribuirei convidando-os a apanharem uma “monumental bebedeira de estrelas” sentados debaixo do telheiro, aqui, no Monte Alto – Interior rural de Porches.
    Confirmo a autoria da tradução de “O Mal de Montano”, “Doutor Passavento” e “Exploradorores do Abismo”, do Vila-Matas, naturalmente.
    É então, até 2ª.

  4. Que seja, então, um «jogo de cabra-cega», e que, de olhos vendados, arrisquemos caminhar sobre as cordas que Vila-Matas nos vai estendendo sobre a desolação do mundo nesses livros que você vai traduzindo para esta seita de vilamatianos que anda por aí. Bem, os outros tertuliantes não serão exactamente vilamatianos, embora alguns comecem a revelar os primeiros sintomas do «mal de Montano». O que não deixa de ser animador face à desolação, não a das cheias, que essa é bem mais dura para as vítimas, mas à da paisagem rasurada das livrarias da moda tão cheias de novidades incitadas, e excitadas, pelos tais «trapezistas do marketing».


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