De um outro uso do nihilismo

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Numa carta enviada a Louise Collet, em 1850, Flaubert escrevia: «O mundo vai tornar-se tremendamente imbecil. Nos próximos anos, a coisa vai ficar muito aborrecida. É uma sorte vivermos agora e não mais tarde» [Gallimard, 1998]. Flaubert antecipava, então, o apogeu da banalidade num mundo em que a gente dita ilustrada começava já a mover-se sem ética nem estética, prenunciando «um tempo – acrescentava ainda – em que toda a gente se terá convertido em homens de negócios ». Flaubert que se dava como desaparecido nos distintos cenários da sua obra narrativa elegia a sua correspondência privada para comentar com contundência a vida cultural, política e social do seu tempo. 

Ora, mais de um século e meio depois, a sua visão de um tempo marcado, não tanto pelo tédio mas sobretudo, agora, pelo vazio e pela mundaneidade frívola, em que quase todos parecem ter-se convertido em homens de negócios, a contundente opinião de Flaubert adquire uma particular actualidade quando o que mais encontramos por aí são analfabetos altivos desprovidos de ética e estética, mas não de ambição económica, fetichistas gulosos dos bons lugares na sociedade, hedonistas indiferentes aos males do mundo, despudorados trapezistas do marketing. E uma massa de gente vivendo com a implacável consciência de uma quotidianeidade penitenciária sem outros sobressaltos que não os das notícias sobre a violência urbana, sobre os acidentes de trânsito, as explosões domésticas de gás, os fumos de corrupção e prevaricação e a crescente insegurança do emprego que nos transmitem uma profunda sensação de tédio que se vai derramando horizontalmente, homogeneizando tudo à sua volta, devorando as possibilidades alternativas de vida, reais ou imaginárias, como se nada mais houvesse fora da experiência de vida asséptica e anódina que aí está.

A banalidade quotidiana é-nos cada vez mais imposta – escreve Bruce Bégout em Lieu commun- Le motel américain [Allia] – como uma «fatalidade absoluta» em que a vida deixou de ser aquela experiência singular tão exaltada no advento da primeira modernidade para se tornar num processo de «produção seriada» ou, utilizando uma imagem mais contemporânea, no produto de implacáveis máquinas de marketing que visam distribuir por todos milagrosas doses de divertimento. Eis onde Flaubert não acertou. É que, se bem antecipou o triunfo do aborrecimento no apogeu do primeira modernidade, não poderia imaginar que o hedonismo indiferente que se vai espalhando por aí é determinado pela natureza pulverizadora do nihilismo pós-moderno, incoincidente com a noção de tédio geradora de opções transgressoras de vida ou de revolta social que marcou a experiência de vida no século passado. E neste torvelinho do divertimento – mas não da festa -, entregues sem remissão a licenciados em economia e a trapezistas do marketing, vai-se diluindo também a vontade de escaparmos à «colonização do quotidiano» e de nos concedermos outras possibilidades que não sejam as das qualidades homogeneizadas que nos são incitadas e excitadas. Entretanto, marcados pelas novas patologias do nihilismo, vamos caminhando para a uma espécie «apocalipse alegre» [Hermann Broch], como que procurando divertirmo-nos até à morte [Neil Postman, Amusing ourselves to death, Penguin].

«Homens de negócios», portanto, como antecipou Flaubert, aparentemente sem atributos, mas que na realidade possuem todos os atributos. Ou na formulação de Jean-François Peyret dizer, então, que vamos vivendo num «mundo de qualidades sem homem» [«Musil ou les contradictions de la modernité», in Critique, 1975]. O que ilumina o sentido da enigmática frase de Musil sobre «as experiências vividas sem que ninguém as viva». É que as qualidades em nós incitadas, e excitadas, vão-se cristalizando nas figuras aborrecidas que vamos habitando ou nas ideias de todo o género que adoptamos sem nos apercebermos do que a vida pode ter de dissonante, de criativo e de espontâneo.

Talvez, então, pensar, ainda, como Musil, esse homem sem qualidades, que em Die Schwärmer (Trad. francesa Les Éxaltés, Seuil,] dizia que se entre os homens há um sentido da realidade, deve haver também um sentido da possibilidade. E é nessa possibilidade que, embora vagamente nihilista à maneira da primeira modernidade, me reconheço.

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24 comentários

  1. Nossa. Fiz um texto muito parecido em se tratando da idéia principal há poucos dias. Intitulei ”Filosofia Pop e Nihil”, se interessar: postei no meu blog.

    Vou passar mais vezes aqui. Afinal, há ”possibilidade” de mentes que pensam parecido (?) ganharem com isso.

    Saudações!

  2. […] Outro texto parecido, mas com termos mais técnicos encontra-se aqui. […]

  3. O mundo vai tornar-se tremendamente imbecil. Nos próximos anos, a coisa vai ficar muito aborrecida. É uma sorte vivermos agora e não mais tarde

    sorte a do flaubert, a nós resta-nos ler bouvard e pécuchet como terapia

  4. Magnífic!

  5. Excelente! Já ganhei o dia.

  6. Sempre as coincidências! É que «há episódios na vida ditados por uma discreta lei que nos escapa». Lerei, claro, o seu texto sobre «filosofia pop & nihil». Entretanto, pergunto-lhe se conhece o livro de um autor brasileiro, Teixeira Coelho, intitulado «As fúrias da mente», cuja tese é a de que as culturas ocidentais dos sécs. XIX e XX se diferenciam por a primeira ser uma cultura da exaltação e a segunda do tédio; uma e outra, acrescento eu foram geradoras de transgressões e de revoluções. E a cultura do século XXI? Segundo Neil Postman trata-se, agora, da cultura do «divertimento até à morte», mesmo que, contraditoriamente, ou talvez não, o que encontremos mais por aí seja «infelicidade»

  7. Talvez não, Ana. Porque a crise é sempre produtiva. E esta cultura da imbecilidade não terá que ser uma inevitabilidade.

  8. E ganhamos o dia, Joana, sempre que formos capazes de o apanharmos de forma expedita. Às vezes, num qualquer post.

  9. «Magnífic» é também levar estas patalogias do nihilismo até à Catalunha. E, depois, atrever-me a ler o seu blogue em catalão.

  10. Não estamos tan afastados.

    Eu fez una traduçao de Pessoa a catalão (2003): A “Educaçao do Estoico”
    http://www.quadernscrema.com/qreslln2.php?var=87239&idioma=cat

    E a minha primeira novela narrava o romace entre Frenando e Ofelia: http://www.freewebs.com/tonibanez/critiquesllibres.htm

    Sou muito pessoano…

    Saúde i posts!

  11. Se Jesus já na altura era muito crítico em relação ao estado de coisas do seu tempo… E que dizer de um meteco ou de um escravo na velha Atenas, e dos agricultores na Idade média, ou dos proletários no séc.XIX em Inglaterra. Dizia há uns tempos um escritor negro brasileiro que a sua filha podia agora ter dilemas e angustias existenciais, que ele, que crescera na favela, não tivera a possibilidade de tais luxos. As coisas são mais complexas, com mais lados que o post faz querer. Não esquecer que a modernidade está intimamente ligada aos homens de negócio e ao capitalismo. Diria é que a profanação que a mercantilização do mundo levou a todos os domínios, da religião à politica, atingiu severamernte, como não podia deixar de ser, a alta cultura. Talvez nos reste profanar o improfanável, o próprio tecnocapitalismo.

  12. A sua devoção pessoana leva-me a trazer para aqui, para esta conversa a várias vozes, a memória recente da peça de teatro – «Turismo infinito», numa encenação de Ricardo Pais – que vi há dias, sobre o universo de Pessoa. É que, entre outros heterónimos, andava por ali, naquela «infinita» rua dos Douradores, um guarda-livros que dava pelo nome de Bernardo Soares, inconformado com a vida mas receando ousar a mudança. Bernardo, então, um Pessoa por defeito, um devaneio nihilista que não arrisca as outras possibilidades.

  13. Concordo consigo, J.Urbano, quando diz que há mais lados que não cabem no meu post. Mais patalogias do nihilismo moderno (ou pós-moderno, se fizermos questão na definição), diria eu. Por exemplo, aquela a que se refere, a da tecnologização da experiência que, no meu entender, constitui a mais aguda consequência do nihilismo moderno. Razão tinha Heidegger.

  14. Não conheço o livro, mas vou buscar. Sim, também concordo quando você fala da infelicidade presente de uma forma ou de outra. Admiro autores que conseguem captar a essência de sua época, não só problematizar, mas atribuir a algo específico um problema. Não como psicologia, mas como bom conhecedor da cultura de seu tempo. Poucos foram assim, geralmente conhecem mais de tempos distantes.

    Até mais.

  15. Regressemos, então, à literatura, já que foi com Flaubert que abrimos esta conversa. Até porque foram alguns escritores quem melhor soube expressar a consternação do mundo. W. G. Sebald fala disso em «Os Anéis de Saturno». E eu acrescento que é com essa literatura, muitas vezes de origem melancólica, que podemos entrever outras possibilidades para o mundo. Pena é que os autores dessa literatura sejam cada vez mais escassos. Disso, dessa exaltação produtiva que nasce da melancolia, dá conta, ainda, Teixeira Coelho em «As fúrias da mente». E se bem soube ler esse livro, então, direi que, não obstante as várias patalogias do nihilismo ao longo dos tempo, é sempre possível retraçar o mundo, perseguir outras possibilidades. mesmo que tenhamos que as procurar na imanência do mundo que aí está.

  16. Hoje, quantos blogs tendria Pessoa au mesmo tempo? Cada heteronimo seria un blogger distinto…

  17. Sobre a questão da heteronímia computacional deixo aqui uma frase cintilante de A. Bragança de Miranda, que diz ser o seu computador «uma selva de heterónimos, um drama em máquinas». Lembro que o drama de Pessoa era «um drama em gente», mas nesse tempo não havia computadores.

  18. “vamos vivendo num «mundo de qualidades sem homem» [«Musil ou les contradictions de la modernité», in Critique, 1975]. O que ilumina o sentido da enigmática frase de Musil sobre «as experiências vividas sem que ninguém as viva». É que as qualidades em nós incitadas, e excitadas, vão-se cristalizando nas figuras aborrecidas que vamos habitando ou nas ideias de todo o género que adoptamos sem nos apercebermos do que a vida pode ter de dissonante, de criativo e de espontâneo.”

    ______________________

    Re.cito.o
    Re.afirmo

    Este é o cerne da questão …

    ________________________________

    Passageira assídua

    iv*

  19. … ou dito de outro modo por Blanchot. «O que é que leva a que haja em nós e fora de nós algo de anónimo que não cessa de se revelar ao mesmo tempo que se dissimula?» [O livro por vir]

  20. E esta cultura da imbecilidade não terá que ser uma inevitabilidade.

    oh, sim, claro, mas como os medíocres ocupam espaço… ao contrário do deus do flaubert que por aqueles dias encolhia

  21. Encolhia o deus de Flaubert até morrer, depois, com Nietzsche. Mas não foi, afinal, nesse espaço de superação do nihilismo que Musil entreviu outras possibilidades para o mundo. E não tem sido, quase sempre, a tragédia produtiva? Bem sei que a nossa tragédia é diferente, não melancólica. Mas, ainda assim, neste «apocalipse alegre», talvez possamos rejeitar as figuras que nos são fixadas e encontrar na imanência, do mundo que está aí, as «passagens» para o possível.

  22. A Ana Cristina Leonardo considera esta uma cultura da imbecilidade e queixa-se de os mediocres ocuparem muito espaço, mas que eu saiba a emancipação das mulheres ocorreu nesta mesma cultura de imbecis e mediocres. Foram esses imbecis e mediocres que lá arranjaram um bocadinho de espaço para elas espevitarem e se verem livres de um jugo anscestral. Essa arrogância elitista fica-lhe mal, até porque esse tipo de acusações pesou demasiado tempo sobre as mulheres. Mil vezes o niilismo e o vazio contemporâneo a todos os delírios religiosos e ideológicos em vista de algo absolutamente outro ou a um povo a vir que nunca vem ou que sempre vem cheio de vileza, baixo, reles.

  23. Mas, J. Urbano, é uma cultura da imbecilidade – disse-o, desde logo, Flaubert na carta citada com que se abriu este post. E nós homens com as «qualidades» que nos vão sendo fixadas, forçando a aquisição de novas patologias de posição que vão afectando a nossa experiência quotidiana cada vez mais empobrecida pela «hybris» nihilista pós-moderna. Mas entre o «vazio contemporâneo» e os «delírios» a que se refere, porque não pensar, ainda, o mundo com outras possibilidades?

  24. É interessante notar que Flaubert já era um produto da cultura burguesa e dos negócios, que o Romance é o género literário por excelência da Burguesia. De Baudelaire a Nietzsche, muitos temiam a grande média, a sociedade massificada, a redução de tudo à mediania, ao vulgar, etc. E isso continua em Pessoa, Paund.
    Não pense que eu recuso essas outras possibilidades, elas porém geram sempre não tanto o almejado mas outra coisa. Os anos 60 são exemplares nisso, e lá por não terem gerado uma nova sociedade, não foi por isso que a partir daí o mundo não foi mais o mesmo. Agora parece-me dificil uma alternativa real ao tecnocapitalismo, apenas porque essa alternativa teria que se mostrar mais poderosa que o dispositivo tecnocapitalista. Também aqui entra um certo darwinismo. Quantas linguas e culturas ou restos de culturas ainda hoje são eliminadas da face da terra… Não foi por acaso que desde os diversos fascismos aos diversos regimes comunistas todos foram engolidos pelo capitalismo liberal. A cultura é cruel. Não é a Gréssia Clássica também produto da tecnologia esclavagista. Sem desigualdade, sem uma classe ociosa não teria existido Heraclito ou Platão. Isto é, o nosso saber ocidental não é inocente. Portanto a nosso modo de vida de hoje pode ser um tanto imbecilizado mas nunca uma outra ciovilização produziu tanto saber e foi detentora de tanto poder quanto a nossa. De algum modo a nossa merdiocridade é deveras sofisticada. Mais, a mediocridade e a imbecilidade contemporânea parecem-me deveras estimulantes, uma espécie de matéria poética. A própria indiferença parece-me prenhe, grávida de acontecimentos outros, de singularidades, e não se reduz apenas ao uso habitual dado a essa palavra. Agora quanto a mim essas outras possibilidades somos nós que as abrimos, não podemos estar à espera da revolução ou de uma mudança geral qualquer, não essas possibilidades estão aí, fazem parte de um forçamento coitideano. Mais: essas outras possibilidades já não escapam a ter que compreender não apenas o mundo dos humanos, como também dos não-humanos. Veja a dimensão da tarefa. Deixamos a velha ordo da manipulação da natureza, que vinha de Bacon e Descartes, para agora termos que cuidar dela, também ela faz parte dos recursos a administrar e cuidar. Como vê, vivemos tempos delirantes. Domesticámos a própria biosfera, a tecniociência atngiu desenvolvimentos colossais, gerir isto tudo, integrar estes milhões de problemas numa nova possibilidade de teor existencial não me parece fácil. E claro, esta domesticação da paisagem, do planeta terra é ela mesma incontrolável, um tanto selvagem, acentrada, rizomática.


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