O cinema outra vez

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Não vou muito ao cinema. Sobretudo porque a maioria dos filmes que passam por aí, nas salas periféricas da minha cidade, pouco ou nada me dizem. Prefiro, por isso, ficar em casa vendo os clássicos possíveis da minha colecção pessoal de DVDs. Porque o cinema, lá fora, mais do que a chamada sétima arte, tornou-se um negócio nas mãos de produtores altivos, de distribuidores analfabetos e de exibidores coincidentes que vão perfilando nos ecrãs do mundo a mesma sucessão de imagens cujo sedução reside já não naquilo que seria suposto retratarem mas no aluvião de efeitos passageiros que essas imagens provocam em nós, espectadores passivos, até ao próximo sucesso de bilheteira.

Reconheço que nesse aluvião de imagens passam, umas quantas vezes por ano, uns tantos filmes que, embora sujeitos à mesma engrenagem mercantil de todos os outros, não participam da mesma esterilidade estética e da conjura holywoodesca contra o cinema. Esses filmes, quando passam (e em 2007, para mim, apenas passaram Paranoid Park, de Gus van Sant, Falkenberg Farväl, de Jasper Ganslandt, Letters from Iwo Jima, de Clint Eastwood, Death Proof, de Quentin Tarantino e, sobretudo Empire Inland, de David Lynch), desafiam-me a sair de casa abandonando a geografia interior dos meus livros – e a acender, por uma noite, a luz esquecida de um tempo em que ir às soirées de sábado e às matinées de domingo no antigo Cine-Teatro de Portimão, há muito demolido, era um acontecimento esperado durante toda a semana – e a adentrar-me na realidade distinta criada no ecrã a partir da realidade empobrecida do mundo de hoje.

Do tempo em que entrevia o mundo a partir do alto dos bancos corridos do segundo balcão de um cinema de província, ficou-me uma colecção de cromos que reproduzia as mesmas fotografias dos actores de momento -Alain Delon, Romy Schneider, Sophia Loren, David Niven, Ingrid Bergman… -, emolduradas junto ao bar do Cine-Esplanada, onde numa noite de Verão vi a Ponte do Rio Kwai enquanto o céu era riscado por uma chuva de metoritos que se confundiam com o fogo das baterias japonesas sobre os intrépidos prisioneiros de guerra britânicos. Ficou-me, sobretudo, a memória de um tempo em que ir ao cinema era um acontecimento preparado com uma semana de antecedência: primeiro, tratava-se de ir num grupo de amigos ver os cartazes afixados nas vitrinas, na expectativa de haver um filme para maiores de doze anos; chegavam depois as tardes domingo com os seus filmes para maiores de doze: o Ben-Hur, de William Wyler, O Tesouro da Sierra Madre e outros filmes de cowboys, Sangue no deserto, de Anthony Mann, A pousada da sexta felicidade, de Mark Robson, uns policiais alemães com o Peter van Eyck, as comédias da série Com jeito vai e tantos outros filmes que me fizeram rir, chorar, revoltar. Mas o que era bom mesmo era ir ao cinema: comprar o bilhete com as economias da semana, receber o programa, ouvir o going e ali ficar na penumbra, entre amigos, vivendo as aventuras daqueles heróis tão próximos de mim que até os guardava numa caderneta de cromos na gaveta da minha mesa-de-cabeceira.

Ia muito ao cinema nesse tempo. E continuei a ir quando vi alargadas as minhas possibilidade de escolha aos filmes para maiores de dezassete. Veio, a seguir, a actividade cine-clubista, na Sala do Boa-Esperança, e com ela o cinema de autor cujas reposições me deram outra consciência de mim e do mundo: Orson Welles, Billy Wilder, Elia Kasan, Jean Luc-Godard, Michelangelo Antonioni, Ingmar Bergman…

Depois, apesar das novas salas que entretanto abriram na cidade, a matéria das suas telas foi ficando puída. Mas há dias, depois de me ter decidido ir ver A vida dos outros, de Florian Henckel von Donnersmarck, no âmbito de um curto ciclo de novo cinema alemão promovido pela Art&fictio, uma recém criada associação  cultural da minha cidade, enquanto esperava o going que anunciava o apagar das luzes e o início do filme, não pude deixar de pensar que, afinal, um certo cinema cintilante ainda é possível nas mesmas telas puídas e que, entrevistas as coisas com o optimismo necessário para afrontarmos o mundo que aí está, talvez possamos ainda ver passar alguns filmes que vão dando conta da consternação do mundo e que, além disso, bom mesmo, outra vez, é ir ao cinema assim e ficar por ali rodeado de cumplices à espera que o filme comece. É que, embora a sala de cinema fosse outra, no meio daqueles jovens voluntariosos que ali estavam passando filmes para pôr o pensamento a pensar, estava também eu como se não tivesse saído nunca do alto do segundo balcão donde há muito tempo comecei a entrever o mundo.

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8 comentários

  1. a magia do cinema, muito para lá dos filmes, continua a estar nesse momento em que se apagam as luzes

  2. Deduzo que a sua cidade é Portimão, também allgures cada vez mais longe do reino do Al-Gharb…

  3. … e não é que já depois de ter escrito este post leio no Babelia de sábado a crónica semanal de Antonio Munõz Molina onde, a dado momento, este diz: «comecei a ver “Quatro meses, tres semanas, dois dias” [o filme romeno que também vai passando por aqui], e recuperei imediatamente a experiência íntegra e quase perdida do cinema: o estremecimento da novidade era mais poderoso porque me fazia regressar a uma emoção muito antiga». Há acasos que só acontecem a quem os procura!

  4. Deduz e deduz bem, já que escrevo a partir de algures no Algarve, onde, às vezes, aqui e acolá, algo cintila ainda (ou de novo) no reino.

  5. Então estamos em boa vizinhança, sem que – a agora intransitável – velha ponte pelo meio, nos impeça de saborear as vistas do reino na colina do Monte Alto ;).

  6. A velha ponte de ferro sobre o Arade conheço eu bem, pois, já faz muito tempo, tantas vezes a atravessei a pé, peregrinando até um cinema operário que existia no Parchal. Agora a única ponte que vou atravessando é «A ponte sobre o Drina» do livro de Ivo Andric que vou lendo por estes dias.

  7. A ponte sobre o Drina» do livro de Ivo Andric que vou lendo por estes dias.

    ainda não acabou?

  8. Não, não acabei. É que a «ponte sobre o Drina» costumo atravessá-la acompanhado ora por Musil ora por Joseph Roth, cujos livros vou lendo ao mesmo tempo que o de Ivo Andric.


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