Desemalando uma biblioteca

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Vou, então, desemalando os livros que trouxe comigo de Paris e arrumando-os nas prateleiras da minha biblioteca, isto é, subtraindo-os à desordem da mala escancarada para lhes ir dando uma ordem próxima da do coleccionador que é a do catálogo de leituras que carrego comigo e que, daqui a pouco, quando já estiverem os livros recém-chegados dispostos na prateleira, será também a do sentido que cada um deles irá convocar na sua relação de vizinhança com os que já ali se encontram, como se a pequena biblioteconomia das minhas estantes fosse, ela também, geradora de novos sentidos.

Ponho de lado o livro de bolso de Walter Benjamin sobre o desembrulhar de livros e sobre a arte de coleccionar  Je déballe ma bibliothèque – que me deu matéria para o post anterior e que poderei, ainda, ter de consultar caso necessite de aconselhamento autorizado nesta tarefa, ligeiramente aborrecida, de disposição de livros na estante, a qual, se agora alguém de fora aqui chegasse, julgaria tratar-se mais de uma tarefa de arrumação doméstica do que um procedimento biblioteconómico. E, como Benjamin, à medida que vou retirando os livros da mala, recordo não só as livrarias onde os comprei, La Hune et L´Arbre à Livres, como também as circunstâncias da sua compra, a flânerie que página a página, rua a rua, me conduziu até eles, como se «Paris [fosse uma] grande sala de leitura de uma biblioteca que atravessa o Sena», evocação que, agora, vai também alimentando este fetichismo bibliotecário que, seguramente, já descortinaram nesta auto-ficção.

É, então, sob o signo benjaminiano que retiro da mala, primeiro, a tradução francesa desse iluminante e inacabado projecto que é o Livro das Passagens e não posso deixar de pensar que esse livro fulgurante resulta do trabalho de um autor espoliado não só da sua biblioteca, mas também da sua assinatura, pois o seu nome consta nas listas de autores cujas obras foram queimadas na noite de 10 de Maio de 1933, na Praça da Ópera, em Berlim. E para melhor conhecer Benjamin retiro, em seguida, da mala, a biografia que Hannah Arendt escreveu sobre este escritor saturnino como o proprio se julgava: «Vim ao mundo sob o signo de Saturno: o astro da revolução mais lenta, o planeta dos desvios e demoras…» E depois, os dois livros iluminantes dos labirintos parisienses de Benjamin, Nadja, de André Breton e Le paysan de Paris, de Aragon que li e depois perdi nos meus tempos de faculdade.

Como se marcado pelo signo melancólico de Benjamin tudo o que vai tomando, depois, o seu lugar nas prateleiras, parece participar da mesma «amargura saturnina». Mais do que qualquer outro, Robert Walser que nas palavras de Benjamin tinha «horror ao triunfo da vida» e cujo livro dos microgramas, a que deram o mais walseriano dos títulos, Territoire du crayon, vem, finalmente, habitar a minha biblioteca. São 77 textos escolhidos entre os cerca de dois mil microgramas escritos a lápis com uma caligrafia minúscula sobre 526 folhas de papel de todo o tipo: envelopes, margens de jornais, formulários oficiais, etc. e, como se não me chegasse, ainda, um «romance», Le brigand, encontrado no meio desses manuscritos. Arrumo os livros de Walser junto das traduções portuguesas que já se encontram por ali e não posso deixar de pensar que o escritor suíço era, mais do que Benjamin – que era, sobretudo, um flâneur contemplativo, intelectual -, um «amigo declarado de vagabundear e percorrer léguas e léguas durante dias inteiros» e, por isso, não obstante a sua longa passagem por Herisau, menos saturnino que o autor das Passages. E que dizer do extravagante Raymond Roussel que vivia apartado de si próprio numa roulotte com as persianas descidas, e de quem André Breton disse ser «conjuntamente com Lautréamont, o maior magnetizador dos tempos modernos»? Arrumo, por isso, o seu Locus Solus ao lado dos meus  escritores franceses obscuros, onde também vai parar Armand, escrito por aquele Walser de Paris que é Emmanuel Bove, o escritor crespuscular que me foi apresentado por Enrique Vila-Matas. Talvez, então, também, arrumar por ali as Lettres choisies: 1911-1939, de Joseph Roth, enviadas desde o seu exílio de Paris, sobretudo, para Stefan Zweig, enquanto, à semelhança do seu santo bebedor, se ia «afundando no álcool como num abismo, um abismo macio forrado a algodão». E, logo ao lado – porque também como Roth era oriundo desse mundo de fronteira que era a Galícia polaca -, talvez colocar Le sanatorium au croque-mort, o livro que me faltava de Bruno Schulz , esse «escorraçado da vida (…) que desliza, furtivo, pelas margens», como o retratou Witold Gombrowicz que, também, ficará por ali, com Ferdidurke e, sobretudo, com os dois volumes do seu Journal – escrito durante os vinte e quatro anos que passou na Argentina -, onde o escritor polaco nos oferece aqueles instantes de deslumbramento que ele próprio designou por retratos de momento. Reparo, entretanto, que neste dispor de livros nas prateleiras venho caminhando desde Paris, sempre cada vez mais para leste, até à terrível realidade de Odessa descrita por Isaac Babel nestas Chroniques de l´an 18 – que arrumo junto aos meus escritores russos -, atravessando antes uma Mitteleuropa em desagregação que Robert Musil – esse escritor a quem a escrita usurpou a biografia – nos dá a conhecer nas duas mil páginas de L´homme sans qualités que trouxe comigo de Paris por duvidar que a anunciada tradução portuguesa esteja para breve. Resta Le métier de vivre, o diário desesperado de Cesare Pavese, diário perigoso porque, segundo Italo Calvino, um dos primeiros a lê-lo, capaz de contagiar o desespero a quem o leia. Onde arrumá-lo se não na minha colecção de diários que me vem sendo proposta por Enrique Vila-Matas desde O mal de montano?

Qual a medida e o peso desta biblioteca transportada numa mala desde Paris? Seguramente que nenhuma metrologia será capaz de o dizer. Porque só o último leitor conhece quanto valem os seus livros, agora, ali, na estante, olhando lá do alto, desafiando o abismo que os separa do chão, à espera, talvez, que eu, como um expedicionário deste território de papéis embebidos em tinta, subitamente, me decida e vá por ali acima, de lombada em lombada, à procura, por exemplo, de Musil e o encontre a conversar com Walser numa clareira do bosque de Herisau antes daquele Natal de 1956.

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3 comentários

  1. creio que há uma tradução de o homem sem qualidades na livros do brasil

  2. Sei da existência dessa tradução, mas nunca a encontrei. Também ouvi dizer algures que não era boa. Daí a expectativa em torno da anunciada, e atrasada, tradução de João Barrento, na Dom Quixote. Na minha mala de Paris trouxe também umas «Proses éparses», de Musil, que vou lendo.

  3. julgo que são três volumes, nessa edição da livros do brasil, mas um dos volumes está esgotado… eu tive em tempos um dos volumes na mão, mas não o comprei… o que até nem teria sido um erro… comprava uma obra incompleta em qualquer dos casos…


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