Flâneries

baudelaire2.jpg 

Paris, 1857. Um homem caminha de olhos baixos por «uma nova avenida, ainda inacabada, ainda cheia de entulho […] exibindo os seus inacabados esplendores». Ao lado, as ruínas dos velhos bairros – escuros, densos, assustadores – amontoadas no chão. Uma família andrajosa emerge do entulho à procura da nova luz da cidade moderna. No dobrar de uma esquina, o homem cruza um umbral que dá para um labirinto de ruas, arcadas, passages, onde se exibem os despojos do tempo que passa. Sobre as metamorfoses de Paris escrevera num livro que acaba de publicar: «Paris change! Mais rien dans ma mélancolie/ N’a bougé ! Palais neufs, échafaudages, blocs,/ Vieux faubourgs, tout pour moi devient allégorie,/ Et mes chers souvenirs sont plus lourds que des rocs» [«Le Cygne»]. O homem que caminha à deriva soberbamente consciente da sua melancolia chama-se Charles Baudelaire, ensaísta e jornalista, tradutor de Edgar Allan Poe. E o livro onde escreveu estes versos chama-se Les fleurs du mal.

Com esse livro fundaria, também, a lírica urbana, maldita e anti-sentimental capaz de expressar um mundo em descida vertiginosa, cada vez mais para baixo, em direcção ao seu vórtice. E sobre esta visão desafiadora, fantasmagórica, insuperável e premonitória da vida nas grandes metrópoles, escreveria Walter Benjamin, outra alma saturnina que também se erraria, anos depois, pelas ruas de Paris: «C’est là le regard d’un flâneur, dont le genre de vie dissimule derrière un mirage bienfaisant la détresse des habitants futurs de nos métropoles»  [Walter Benjamin. Paris, capitale du XIXème siècle. 1955, Schriften I, pp. 406-422]. 

Mas mais do que os cento e cinquenta anos que agora lembro aqui, estas flores malditas têm uma outra idade, a de «l’horloge, dieu sinistre, effrayant impassible, dont le doigt nous menace et nous dit: Souviens-toi!» [«L´horloge»]. A aguda consciência da industrialização galopante que tudo arrastava no seu vórtice, uma amargura saturnina e, depois, o convite à viagem, a fugacidade… tudo aí se encontra plasmado de forma violentamente prosaica, estilhaçando os códigos de um tempo à deriva: «Je suis comme le roi d’un pays pluvieux, riche, mais impuissant, jeune et pourtant très-vieux…». E, ainda, «le poète est semblable au prince des nuées qui hante la tempête et se rit de l’archer; exilé sur le sol au milieu des huées, ses ailes de géant l’empêchent de marcher» [«L´albatroz»]. Baudelaire, o albatroz urbano, sobrevoou o seu tempo deixando-nos «rares fleurs mêlant leurs odeurs aux vagues senteurs de l’ambre» cujo perfume inebriante, radicalmente moderno, não cessa de nos dar a volta à cabeça.

Seria o mundo do seu tempo um jardim de flores do mal, conforme se interrogava Baudelaire num miserável quarto de hotel, em Bruxelas, onde, doente de sífilis, esperava a morte? Talvez seja o spleen, essa consciência distópica dos labirintos do flâneur melancólico que marca, ainda, a actualidade do seu livro fundacional, ligando o vazio do seu tempo à artificialidade deste nosso tempo, em que nós, transeuntes motorizados e alienados, nos vamos também perdendo através dos labirintos feéricos de uma pós-modernidade glamorosa, desalmada e sem redenção, fantasmagoricamente antecipada no seu livro sobre Baudelaire, por Walter Benjamin, talvez o mais saturnino dos flâneurs das grandes metrópoles da modernidade e aquele que melhor se deixou levar pelo inebriante perfume  das flores do mal.

E é através dessa pós-modernidade glamorosa e desalmada, ostentada nas vitrinas dos grands magasins do Boulevard Haussmann que, também eu, neste último entardecer do ano de 2007 – cento e cinquenta anos depois da sua construção, portanto, – vou caminhando sem rumo. E se fosse dado ao spleen, como um passeante solitário, talvez me detivesse agora no passeio onde uma chusma de transeuntes anónimos vai passando apressada com sacos que transportam os vinhos espumantes que à meia-noite afogarão o tédio. Mas não, não sou dado ao spleen, por isso aproveito, acompanhado, o privilégio supremo que me é oferecido enquanto forasteiro, que é o de participar da banalidade quotidiana desta cidade que nunca se acaba sem lhe sentir o peso, que é como quem diz, sem se deixar levar pelo aroma inebriante das flores do mal.

Anúncios

4 comentários

  1. Paris?sim,no tempo de Baudelaire,Renoir,Sartre.Não quero de forma alguma contrariar Baudelaire,mas o que ele sentiria se pudesse vaguear pelas mesmas ruas ou avenidas nos dias que correm?Assaltado,vigiado,sem poder fumar, vagarosamente,ou como lhe aprouvesse,o seu cigarro(…) a Luísa diz,a certa altura que”,-vou caminhando sem rumo”,(…”C.Baudelaire não caminharia sem rumo, caminharia ,perdido,ao verificar que Paris já não existe.A.L.

  2. Afeitos ao “poien” das percepções, a solidão apenas nos entorna, nunca nos submete. Sua sensibilidade é sua companhia, admirável, eu diria (a reconheço dessa forma porque também a compreendo em mim). Feliz Novo Ano, tenha ótimos momentos, João.

  3. Como já não existe Paris, se Paris nunca se acaba, como escreveu Hemingway? Claro que hoje as fantasmagorias pós-modernas antecipadas por Walter Benjamin, extravasaram as «passages» por onde errava o Aragon de «Le Paysan de Paris»; e a Nadja, de Breton já não anda por ali. Mas, ainda assim, Paris é sempre uma possibilidade de existência. É que, aconteceu-me no outro dia que, errando sem rumo mas não perdido através de uma certa geografia da qual só levemente suspeitava, dê por mim abrigado da chuva sob as arcadas rosadas da rue Nadja e, numa mulher saindo de um café, pareceu-me reconhecer a Nadja de André Breton. É que, mesmo já não existindo, Paris acaba por ser sempre uma possibilidade.

  4. Também eu, às vezes, gosto que a solidão me entorne, sobretudo quando erro pelas cidades onde já fui feliz. Como em Paris. Bom Ano, Carlota.


Comments RSS TrackBack Identifier URI

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

  • O ESCREVENTE

    Um blogue de João Ventura® (joaobventura@yahoo.com) «fora das coisas civis e na mais pura região da arte» [Joseph Joubert]
  • Dezembro 2007
    S T Q Q S S D
    « Nov   Jan »
     12
    3456789
    10111213141516
    17181920212223
    24252627282930
    31