Literatura comestível

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Se uma madalena «mergulhada na infusão de chá preto ou de tília» pôde desencadear em Proust «recordações tanto tempo abandonadas longe da memória» que o levaram a escrever Em busca do tempo perdido, como não poderá a minha visita ao novo mercado de Portimão servir de pretexto para esta crónica comestível  cuja matéria verbal se dispõe, primeiro, em bancas como as que me foram dadas ali observar? Até porque, como escreve Vásquez Montalbán, «o gourmet devora duas vezes ao mesmo tempo, aquilo que come e aquilo que comeu» [in Contra los gourmets]. Ao que eu acrescentaria uma terceira, aquilo que leu, consistindo esse terceiro momento, para nosso deleite e instrução, a sublimação pela literatura, cuja ilustração nos foi oferecida por Karen Blixen nesse delicioso romance Festa de Babette, levado depois ao cinema por Gabriel Axel, que celebra o aparecimento da grande cuisine da viragem pós-revolução francesa.

Visito, então, o novo mercado de Portimão acabado de inaugurar e dou-me conta da estranha presença das coisas ali dispostas. A geometria das bancas, a perfeita distribuição de áreas e produtos, a boa disposição dos vendedores, as pessoas conversando. Um acontecimento feliz. Caminho como um recém-chegado através das suas ruas interiores e constato a inteligência e a ficção das coisas desta nova realidade quotidiana posta ali em sossego ao meu dispor como um território ainda por explorar mas doravante habitual, donde recolherei a matéria ficcional com que, depois, elaborarei uma retórica pessoal dos sabores. Na perfeita distribuição dos produtos expostos, vou encontrando os peixes, as carnes, os frutos, os legumes e as ervas aromáticas que me hão-de proporcionar o devotado exercício gastronómico que vou mentalmente ensaiando em imaginários menus por fazer.

Na peixaria escolho um bom sargo do mar de Sagres que grelharei com ervas aromáticas como ensina Colette: «Prepare a vassoura, é assim que eu chamo ao ramo de cheiros com louro, hortelã, segurelha, tomilho, rosmaninho, salva… mergulhe-a num pote cheio de azeite misturado com vinagre de vinho […]. O alho […] esmagado, até ficar com uma consistência cremosa, realça a mistura, como convém. Um pouco de sal, bastante pimenta» [in Prisons et paradis]. No talho, peço que me cortem uns bifes tenros que cozinharei, para o jantar, na figideira, à lisboeta, com o molho a pedir aquele pão caseiro que comprarei em seguida e o ovo a cavalo, de preferência de galinhas do campo; e enquanto o talhante vai cortando o coração da carne, lembro-me do bife com batatas fritas de Roland Barthes [in Mitologias], que não é uma receita, antes uma espécie de leitura antropológica sobre o bifteck cujo «prestígio resulta, de toda a evidência, da sua natureza de carne quase crua». Para a sobremesa, se fosse época, escolheria uns figos que cortaria à maneira de D. H. Lawrence que embora não sendo algarvio conhecia «a maneira correcta de comer um figo à mesa», ou de Herbert Helder que lhe mudou o poema para português: «é parti-lo em quatro, pegando no pedúnculo,/ E abri-lo para dele fazer uma flor de mel, brilhante, rósea, húmida,/ desabrochada em quatro espessas pétalas.» [«Figos», in Poesia toda, Herberto Helder]. Levarei, então, laranjas de Silves para o almoço. E para o jantar, farei um arroz-doce «disposto» – como no poema de Háfiz Dimashki – «em longas tiras sobre o/ prato, a brancura do leite […]/O acúcar espalhado sobre os bordos/ cintila como um raio/ de luz solidificado.» [«Celebração do arroz-doce», Háfiz Dimashki  (1134-1176).

Eis, então, no final do seu primeiro dia, o novo mercado de Portimão, recuperado como matéria ficcional desta crónica em que se conclui que também se pode ir a um mercado como se vai a uma livraria.

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2 comentários

  1. Vinhamos, por este meio, convidar/desafiar a transformar as suas (bastante interessantes e neste caso, gastronómicas) postagens/mensagens/contos/escritos/LITERATURA em vídeo (basta um telemóvel) e concorrer ao Bibliofilmes: Livros, Bibliotecas, Acção!, um concurso de vídeos no YouTube para a promoção dos livros, bibliotecas e leitura utilizando as novas tecnologias, que é organizado por um grupo de professores e alunos.

    + info em http://www.BiblioFilmes.com

    Cumprimentos (literários e festivos),

    A Organização do BiblioFilmes

  2. E o cheiro, o cheiro de fruta fresca e legumes tenros, o cheiro que se respira nos mercados, combinado com o frio das manhãs de Inverno. Na realidade, pode-se de facto ir a um mercado como quem visita uma livraria. Apenas me falta a costela de gourmet que tanto invejo em Pepe Carvalho. Falta-me tudo, portanto.


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