Falemos de Deus

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Raramente falamos de Deus.  E quando a ele nos referimos preferimos a metáfora, como se tudo o resto se descolasse do seu nome.  E ainda menos falamos dessa questão «menor» de acreditar ou não acreditar em Deus, preferindo cruzar os braços contra a crença profunda em que nascemos.  A verdade é que herdámos Deus mesmo antes de termos conhecido  «as suas casas profundas». Na infância, Deus é, como escreveu Soares dos Passos, «aquele que povoa a imensidade».  Depois, à medida que nos vamos adentrando no mundo, verificamos que caminhamos mais sós do que desejávamos. Por isso transformamos as perguntas nas respostas que procuramos, enquanto aguardamos pelo teorema da existência de Deus.  E deixamo-nos arrastar pelo medo que cobre um mundo onde se apagaram as imagens que o paraíso já não devolve depois da «morte do criador», anunciada por Nietzsche. E desde aí,  vivemos no medo de termos ficado para sempre órfãos, como se escrevêssemos um novo e desesperado Livro de Job.Há quem explique esta angústia como um «erro genético» que a todos afecta. Porque todos, crentes e agnósticos, estamos inelutavelmente comprometidos com a dúvida original, oscilando entre um ascetismo puro e uma transcendência luminosa. Talvez, por isso, uns e outros,  em qualquer momento das nossas vidas, já tenhamos sentido a falta de Deus. E outras vezes escutado os seus passos, os restos da sua voz no nevoeiro que cobre o mundo. E isso apazigua o medo. E, depois,  estranhos de passagem, continuamos o caminho,  cépticos ainda, mas com menos frio no coração. Mas será essa estranheza algo que devemos ocultar?  Ou, como diz Henry James, «é preciso acreditar na dúvida, porque é isso que faz a grandeza do homem». Como explicar que até mesmo aqueles que melhor sabem apregoar a crença, às vezes sejam assaltados pela incerteza perante o «silêncio de Deus»? Ainda há semanas, a publicação das cartas de Teresa de Calcutá instalava a perplexidade, sobretudo no seio daqueles tão cheios sempre de certezas face à existência de Deus e que gerem com eficácia a «economia da salvação». É que para Teresa de Calcutá, que tão certeiramente sabia utilizar a palavra para abrigar o rebanho dos desprotegidos, não bastava os argumentos da fé, a racionalidade teológica. Precisava também do amparo de um Deus maior que andava desaparecido perante a catástrofe do mundo. E seria menos «santa» por isso? Ou não residiria na sua dúvida interior, precisamente a sua grandeza espiritual e, afinal, uma contemporaneidade que ignorávamos?  

Diante da dúvida, que futuro, então, para Deus, num mundo que, ao mesmo tempo que vai perdendo o seu sentido ético, assiste à  «instrumentalização política da religião», traduzida nos múltiplos fundamentalismos religiosos que enlouquecem os homens. «Talvez [como escreveu Enrique Vila-Matas] as ideias casuais de tanta gente incerta […], as inquietações de cada um, dos vivos e dos mortos. Talvez algum dia com fluido abstracto e impossível substancia, formem um Deus ou um tecido novo e com a luz de outra vida ocupem o mundo». Entretanto, «nas suas casas profundas Deus aguarda que se demonstre/ o teorema perfeito/ e terrível» [Herberto Helder, Última Ciência].  

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