Diário chileno (VII). Luz e nevoeiro

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1. Estou na Patagónia. Não os territórios magalhânicos, errando pelos páramos ventosos e rudes do fim do mundo, mas apenas num restaurante homónimo, na rua Lastratria, em Santiago, aonde me trouxeram os meus passos incertos de detectve salvaje em busca do aleph santiaguino que por aqui deve estar escondido. E nesta Patagónia que já foi mercearia, ainda ali se encontram os velhos armários de madeira, o primitivo balcão com grandes frascos de vidro em cima, velhas caixas de vinhos, uma garrafeira de vinhos austrais e, a um canto, um armário com livros que me são oferecidos enquanto espero pelos sabores longitudinais do sul profundo. Trazem-me um cordero magallánico com bagas silvestres patagónicas, um carmenére e, no final, o incontornável flan con manjarblanco que me recorda outras evasões por estas paragens. E eu julgo ter encontrado, finalmente, a rua artúrica para onde me conduziu, hoje, o meu destino incerto.

2. Caminho por ruas nervosas até à Estación Mapoche onde está a Feira do Livro de Santiago. Antes, atravesso os portões do velho Mercado Central e confronto-me com algumas das espécies esquisitas que nadavam ontem na paila marina que comi com Bolaño. E já na feira, desisto de comprar os Bolaños que me faltam. É que sei onde comprá-los por metade do preco. Sigo, depois, para Bellavista, ao lado da corrente do Mapoche que desce veloz da cordilheira sobre um leito de cimento. E desespero ao procurar o pequeno teatro La Memoria, onde passa Las brutas, que Daniel Barraco me desafiou a ver, mas quando finalmente o encontro, descubro que o espectáculo fora cancelado por impossibilidade de uma actriz. Propõem-me que veja, ali no mesmo bairro, Nadar como um perro. E enquanto faço tempo para o teatro, algo me puxa mais para o sul, nem que seja através de uma Austral, a cerveja patagónica que vou  bebendo, ao crepúsculo.

3. Outro dia. Vou de taxi a Villa Grimaldi que fica já na periferia de Santiago, em Peñalolen. Cruzo bairros pobres em direcção à cordilheira nevada e, de súbito, ali está o umbral tenebroso do tempo da ditatura militar. A Villa Grimaldi foi uma sinistra prisão clandestina especializada na tortura, por onde passaram, entre 1973 e 1978, 4.500 presos políticos, dos quais muitos desaparecerem sem rastro. Entro por uma porta lateral, porque o umbral do medo por onde entravam de olhos vendados os prisioneiros, encerrou-se para sempre. Conheço um sobrevivente que me guia na visita ao parque eregido sobre os alicerces dos pavilhões do mal. E regresso a Santiago, sem outra semântica que nao seja do silêncio diante da banalidade do mal. E pensar que, às vezes, num mesma cidade, a luz pode estar à distância de um taxi do nevoeiro mais cerrado.

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Diário chileno (VI). Jantando com Bolaño

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Segundo dia numa Santiago radiante apesar dos colegiais fardados, dos carabineros de olhar distante, da mesma matilha de cães vadios errando na Alameda. E as mulheres formosas de olhos de uva, essas ainda não as vi. Mas comecemos pelo princípio. Ontem, ao jantar, esbocei com Daniel um arrojado plano de evasão rumo ao sul, no rasto de Chatwin. Não ao sul profundo dos páramos gelados, mas aonde seria possível ir nos dois dias que destinaria para isso. Talvez Pucón ou Puerto Mont ou Coyhaique. Hoje descobri que todos os voos estavam esgotados. Os lagos, os vulcões, as florestas araucanianas terão de ficar para outra evasão.

Vou, por isso, a Bellavista, o bairro boémio de Santiago, dizem. Compro algumas jóias em lápislazuli. Visito a casa de Neruda, La Chascona. Depois, imitando um conto instantâneo de Bolaño que caminha ao meu lado, ao último atardecer en la tierra, atravesso uma Santiago provinciana, cruzo ruas de casas ajardinadas, evito umbrais de bares coloridos, ignoro esplanadas nervosas na calçada. E escolho o Galindo para jantar com este companheiro fortuito politicamente incorrecto que, à medida que o vou conhecendo, se revela mais mexicano e, sobretudo, mais latino-americano que chileno. Mas é sobre o nocturno chileno que ele abandonou em 1974, depois de sair de uma prisão de Pinochet, que falamos. Entretanto, trazem-me uma paila marina escaldante e é como se tivesse todo o Pacífico à minha mesa, com uma fauna de mariscos conhecidos  e outros cuja identidade nao ouso adivinhar. Através das janelas atravessa um segundo entardecer menos nervoso que o de ontem. Bolaño conta-me agora dos novos escritores chilenos que obstinadamente procuram escapar à sombra tutelar de Huidobro, de Neruda, de Gabriela Mistral, de Violeta Parra. E menos de Nicanor Parra que nao é um fantasma. E sobre Isabel Allende diz-me que “no es una escritora, sino na escribidora“; e Skármeta, “un personaje de televisión“. Espero não vir a ler, um destes dias, na revista catalã Ajoblanco, uma crítica desapiedada sobre este jantar, como retribuiu a Diamela Eltit que o convidara para jantar em sua casa. Julgo que o facto de ter viajado no avião para o Chile com os seus  detectives salvajes jogará a meu favor. E também o meu interesse súbito pela modernidade visceral do nocturno chileno e das ruas do exílio mexicano. Por isso, me conta, ainda, el secreto del mal, evocando o eterno diálogo com a literatura argentina, Arlt, Piglia, os fantasmas de Borges, as vanidades literárias. E também la canalla sentimental. Mas da vanidade do tempo não me apercebi eu. Saio, então, para rua e reparo que o personagem de Soldados de Salamina, de Javier Cercas, já não caminha ao meu lado, na noite infrarrealista de Bellavista. Apenas grupos de jovens escondidos atrás de enormes garrafas de cerveja Escudo como se estivessem numa estação do inferno. Uns riem-se como se soubessem que o mundo está para acabar e só eles suspeitam desse destino quebrado. Outros olham as mesas vermelhas, flutuando sobre abismos duvidosos. Não vejo ali nenhum dos rostos que conheci nas filas das cabines telefónicas de Estocolmo. E ficam felizes, indiferentes aos meus passos incertos, agora que Bolaño me deixou só nesta parcela do nocturno chileno.

  • O ESCREVENTE

    Um blogue de João Ventura® (joaobventura@yahoo.com) «fora das coisas civis e na mais pura região da arte» [Joseph Joubert]
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