A região mais tenebrosa

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Olho o auto-retrato de Bruno Schulz e o que vejo é uma figura kafkiana, simultaneamente assustada e feliz , fugindo à claridade do dia para se refugiar nas «regiões do destino onde reina a solidão». Witold Gombrowicz descreveu-o como um «gnomo, minúsculo, com uma cabeça enorme, quase demasiado apavorado para ter coragem de existir, era um ser escorraçado da vida, um daqueles que desliza, furtivo, pelas margens». Alguém que se escondia nas sombras, fechado na prisão de loucos que era a sua casa, na «Praça do Mercado, «uma destas casas sombrias com fachada cega e vazia», em Drohobycz, nos confins da Galícia que ele descreve como uma «cidade dada a mergulhar na cinza crónica do crepúsculo, a enfeitar os seus contornos com uma lepra escura, um bolor felpudo, um musgo cor de ferro»

Aí nasceu, em 1892, e viveu, num estado de depressão profunda, entre «polacos ucranianos e judeus [como ele], lado a lado ou misturados, ou talvez nem uma coisa nem outra», até ser assassinado com uma bala na nuca pelos nazis, numa manhã fria de Novembro, em 1942. Mas nos seus contos, perturbadores e hipnóticos, reunidos em As Lojas de Canela [Assírio & Alvim, (1933), 1987] e em O Sanatório Debaixo da Clépsidra [1937], este território das trevas desaparece dando lugar ao fogo intenso da fantasia, a metamorfoses absolutas, a emanações coloridas por detrás das lojas nocturnas: «Nunca me há-de esquecer esta corrida luminosa na mais clara noite de um Inverno. O mapa colorido do firmamento transformara-se numa cúpula enorme onde se acumulavam continentes e oceanos fantásticos cortados pelas linhas dos turbilhões e das correntes estelares, riscos brilhantes da geografia celeste» [As Lojas de Canela, Assírio & Alvim, (1933), 1987, pág. 72]  

Mas havia, há outro Schulz, o da pintura, uma vocação anterior à escrita, habitante do um país mais tenebroso que aquele que atravessamos nos contos. «Ocupava os ócios a desenhar: numa paisagem de província, para lá da praça vazia do Município, um fiacre a trote levava mulheres nuas com meias e chapéus de palha; machos franzinos de cabeça imensa e olhos febris arrastavam-se aos pés de raparigas sentadas com indolência numa poltrona», conta um amigo, Arthur Sandauer, que uma vez lhe apareceu em casa. Eis o que pude ver na exposição do Círculo de Bellas Artes, em Madrid, onde se mostram meia centena de trabalhos dos duzentos que escaparam à devastação nazi. Uma sequência que abre com dois auto-retratos, espécie de umbral da sua paixão pela própria efígie que aflora em múltiplas composições. E que percorre toda a trajectória do artista desde a gestação das ilustrações de O Livro Idólatra, num ritual fetichista que sobreviverá nos seus contos. E, sempre, as «cortesãs apocalípticas», colegiais perversas, mulheres maduras, indiferentes e dominantes, nuas ou semi-nuas, de chicote, anões e velhos rastejando, gatinhando, fetichistas idolatrando-se, lambendo o próprio corpo, eis a tribo de párias que, em procissão ou solitariamente, habita a região obscura reflectida na sua obra plástica. Particularmente interessante é, ainda, o Encontro [numa ruela da sua cidade natal, um judeu cumprimentando cerimoniosamente duas tentadoras, provocadoras prostitutas], óleo sobre cartão, de 1920, único exemplo sobrevivente da sua pintura, exceptuando os dois fragmentários e deteriorados vestígios recuperados daquilo que foi o seu testamento plástico, o mural com cenas de contos que realizou para o quarto do filho do Hauptscharführer Félix Landau, membro da Gestapo e seu protector durante o aziago tempo emprestado que precedeu o seu assassinato.  Significativo é, também, o núcleo documental da exposição com as edições originais dos dois conjuntos de contos e das colaborações em revistas, assim como uma selecção da correspondência – donde se destaca uma carta trocada com Gombrowicz , fotografias de família e postais de Drohobycz. Num exemplar do Hebdomadário Ilustrado, de Varsóvia, que escapou à voragem destruidora do seu espólio literário  [sabe-se da existência de um romance, O Messias, que estaria quase pronto e que desapareceu], e numa carta dirida a Witkiewicz, outro escritor-pintor, Schulz explica a génese da sua obra plástica: «Ainda eu não sabia falar e já enchia quantos papéis encontrava, e as margens dos jornais, com garatujas que despertavam a atenção de quem vivia comigo. Comecei por fazer sempre carros atrelados. O percurso de uma viagem de fiacre parecia-me cheio de importância e simbologia oculta. Com seis, sete anos, nos meus desenhos aparecia sempre a imagem de um fiacre de capota abaixada e lanternas acesas, a sair de uma floresta nocturna».

E donde emana a filiação artística de Schulz? Para Mónica Poliwka, comissária da exposição, há dois círculos concêntricos na sua obra. Um que estabelece a confluência com a pintura polaca da época: Wojtkiewicz e Weiss e, logo, a coincidência geracional com Witkiewicz. E outro, mais amplo que remonta essa filiação até uma bem precisa deriva negra da arte europeia, onde encontramos a presença seminal de Goya e de Klinger e Grosz, como sombras tutelares.

[ao alto, reprodução de Dedykacja, auto-retrato de Schulz]

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