Diário chileno (VIII). A cultura na cidade

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1. A julgar pelo que não se lê no metro de Santiago, pode inferir-se que por aqui se lê pouco. E que os livros são caros, porque na maioria importados – Anagrama, Alfaguara, Ediciones B, Seix Barral. Resta, então, a quem precisa de livros para viver, comprá-los em livrarias de saldos ou de usados que encontro no centro. O que não encontro é a minha livraria artúrica, pois todas me parecem indistintas, e as da rede Feria Chilena de Libro ainda mais. Talvez uma pequena livraria, Metales Pesados, quase no final da rua Merced, perto do Museu de Bellas Artes, onde finalmente compro a Rayuela de Cortázar, sem ser em edição de bolso, e converso com o livreiro sobre o efeito Bolaño.

2. Vou à inauguração do Encuentro Internacional de Escritores que me trouxe aqui e deparo-me com muita vanidade e presunção. A literatura, ali, não como ficção mas como falsa sociabilidade. Escritores chilenos dedicando-se mutuamente os seus livros, trocando laudatórias palavras de circunstância. E evoco Ulisses Lima, o detective selvaje de Bolaño que se evaporou da comitiva de escritores mexicanos de visita à Nicarágua para se perder no «espacio oscuro que era a cidade de Manágua […] que sólo conocen sus carteros». Mas Santiago não é Manágua e não corro o risco de me perder. Por isso, logo que posso, escapo-me dali, fugindo daquela chusma de escritores que se desejam comentados, premiados, homenageados, becados. E recordo as palavras de Nicanor Parra a propósito dos escritores chilenos: “tal vez sería conveniente leer un poco más. E vou pela noite santiaguina jantar tranquilamente na rua Lastarria.

3. Passou-se melhor o debate em que participei, no Encuentro, sobretudo porque a chusma estava noutro local, talvez dando entrevistas a jornais da moda. Falei da literatura rasurada que, sob a hegemonia do mercado, se vende por aí. Mas também das linhas de fuga possíveis para uma outra literatura que pode ainda expressar a consternação do mundo.

4. Como costumo sentar-me só nos restaurantes santiaguinos – Bolaño nem sempre está comigo –  gosto de observar as mesas à minha volta e, às vezes, escutar as conversas. Há um grupo de brasileiros pretensiosos que falam de compras, um casal colombiano que fala, depois, com os brasileiros de auto-estrada que uma empresa brasileira está construindo na Colômbia, chilenos que se referem a uma seita maradoniana que faz casamentos. Mas, na mesa mesmo ao lado, há um chileno distinto que, a pretexto do suplemento literário do El País que vou folheando para me alhear daquela América que ali está, me incita a ler o livro de Jonathan Littel, Las Benevolas, que faz a capa de Babelia. Trata-se de Camilo Marks que tem uma coluna de crítica de livros no suplemento cultural do El Mercurio, e que me diz que “en Chile, hoy, no hay narradores, solo poetas y que nadie lee.

5. No Centro Cultural Matucana 100, visito a exposição El Manifiesto de Santiago que propõe «una mensaje desde la periferia hasta el centro». Saio sem perceber qual era a mensagem. No Museu de Bellas Artes elejo a exposição de Gracia Barros sobre el dolor y la perdida. Figurações de mulheres desaparecidas em Villa Grimaldi: se llas llevaran vivas y llevavan vida. Da colecção permanente do museu, retenho Roberto Matta. Vejo, depois, La Remolienda, numa encenação do Teatro Nacional Chileno, dirigido por Raul Osorio e antes por Victor Jara. Um gozo iluminado.

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