Lisboa entre o azul e o negro

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«Outra vez te revejo – Lisboa e Tejo e tudo», escreveu Álvaro de Campos, que dizia viver em Lisboa como um fósforo sem chama enquanto pelas paredes das casas escorriam lágrimas amargas que humedeciam o seu sonho. «Outra vez te revejo, / cidade da minha infância pavorosamente perdida / cidade triste e alegre, outra vez te sonho aqui». Eis Lisboa, ainda, apesar de tudo, apesar das avenidas transfiguradas e do vazio da baixa, à noite; apesar do Tejo estar agora mais distante no Cais das Colunas e de Bernardo Soares, se ali regressasse, já não poder passar «horas, às vezes, no Terreiro do Paço, na margem do rio, meditando em vão». Eis Lisboa onde no fim de semana passado tracei uma certa cartografia da felicidade, adentrando-me colinas adentro, subindo ao Alto da Graça, olhando o Tejo lá em baixo com os seus grandes navios atravessando a paisagem; descendo depois à bolina até ao Rossio, para logo voltar a subir ao Bairro Alto, perseguindo a rota dos alfarrabistas. E, a seguir, rumar até ao Museu de Arte Antiga onde se mostram uns proféticos painéis de Nuno Gonçalves que anteciparam a gesta dos descobrimentos. Lisboa tão diferente de Madrid, por onde deambulei no fim de semana passado, imersa umas vezes na mais profunda tristeza, outras na mais radical felicidade.

E felicidade que pode ser encontrada naquela pequena livraria de novos e usados, na Calçada do Combro – Letra Livre – onde finalmente consegui encontrar o Fogo Pálido, a obra mais engenhosa de Nabokov. Ou um pouco mais à frente, num alfarrabista que tinha na montra a versão brasileira de O Homem sem Qualidades, de Musil. E também na FNAC, do Chiado, onde comprei o livro da Alexandra Lucas Coelho, Oriente próximo [Relógio d´Água, 2007], uma cartografia estremecedora dos territórios palestinianos ocupados, um jornalismo que não devora, antes alimenta o pensamento;  e, ainda outro livro que ali encontrei, Debaixo do Vulcão, de Malcolm Lowry [Relógio d´Água, 2007], que nos devolve uma espécie de insurrecta nostalgia de um México que já não existe, mas cuja alma profunda José Agostinho Baptista captou num pequeno livro que generosamente me ofereceu há dias, intitulado Debaixo do Azul Sobre o Vulcão [E.A., 1995] e que, definitivamente, colocou o México na rota da próxima Atlântica. Lugar de felicidade, embora mais prosaica, também o pequeno restaurante da rua Rua da Atalaia, onde o empregado, respeituoso, me pergunta num português que cada vez menos gente usa: «Ides beber um vinho? E, no final da refeição: «Haveis terminado?».

E depois, felicidade nalguns lugares da modernidade lisboeta por onde errei, guiado pela  Time Out Lisboa que já cá fazia falta. Desde logo, a exposição um Atlas de Acontecimentos [Gulbenkian, 07 Out a 30 de Dez], onde vários artistas oriundos de diferentes lugares do mundo, mas com uma mesma visão nihilista dos acontecimentos – «no nevoeiro da guerra, nada podia estar a salvo», lê-se na legenda de uma réplica em papel de um artefacto pilhado do Museu Nacional Iraquiano -, perseguem uma resposta oblíqua ao estado do mundo actual, enquanto esperamos a catarse libertadora. Também as duas exposições, na Culturgest, Atlas Group (1984-2004) que pode ser lida como um enfoque particular da exposição Gulbenkian, uma investigação de Walid Raad sobre a história contemporânea do Líbano -, e Jean-Luc Moulène, sobretudo aqueles trinta e nove objectos de greve de um tempo onde a greve ainda não fazia greve. Três exposições que, dentro do nihilismo cinzento circundante, constituem outras tantas brechas contra «o súbito aparecer do informe», contra o apagamento da História, contra, enfim, a desmobilização geral num mundo moldado pela impotência. E o mesmo se poderá dizer da tela gigante contra a «banalidade do mal», do pintor surrealista chileno Roberto Matta que integra a Colecção Berardo, no CCB. E de reacção contra a impotência foi também a proposta de Les Ballets C. de la B. / Koen Augustijnen, com a Import Export [Culturgest, 12 e 13 de Outubro]. E o belíssimo espectáculo A Trilogia dos Dragões, de Robert Lepage, uma saga de uma China imaginada por imigrantes dos bairros chineses de Quebeque, Toronto e Vancôver numa viagem que passa ainda por Hong Kong, Tóquio, Hiroxima e pela China maoísta, entre 1910 e 1985.

Lisboa, às vezes, tem destas coisas. As suas calçadas conduzem-nos a lugares de felicidade, que acrescentam «azul de muitas cores / ao outro azul que os vossos olhos vêem» [Pedro Tamen], mesmo quando nesse azul se espelha a negro a devastação do mundo, como é o caso das exposições visitadas. E que melhor lugar para encontrar o negro no azul e o azul no negro que Lisboa, a «cidade […] pavorosamente perdida / [a] cidade triste e alegre» de Pessoa?

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