Retrato breve

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Conheço pouco da obra de Doris Lessing, a laureada deste ano, mas gosto do seu olhar tranquilo, luminoso e, simultaneamente, distante. E mais do que a sua obra, desperta-me curiosidade a sua biografia. Uma mulher que nasce em Kermanshah, na Pérsia, e vai viver para África aos seis anos, que trabalha como telefonista em Salisbury, que é capaz de andar de país em país, deixando marido e filhos, escolhendo ser escritora, alguém sem formação académica e que mesmo assim constrói uma obra com a amplitude da sua, é com certeza mais interessante do que o cortejo de escreventes que publicam livros só porque ganharam um nome fora da escrita. Dela sei, ainda, que é uma escritora comprometida. Uma testemunha do seu tempo. «Uma contadora épica da experiência feminina [que] perscruta uma civilização dividida», como ouvi dizer a Lídia Jorge. Sei ainda que na sua autobiografia incompleta, a propósito de um saco que um dia uma portuguesa lhe ofereceu, escreveu que Portugal era «uma dessas regiões do mundo onde reina a graça do coração». E, há instantes, quando a vi noticiário, não pude deixar de pensar que também Agustina Bessa Luis merecia um prémio assim. 

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4 comentários

  1. ” É uma escrita ciente da amargura da existência. Lessing sempre teve a suprema vaidade de ser modesta ”

    Li esta afirmação, no DN de ontem , proferida por Luísa Rodrigues Flora, numa entrevista concedida a Leonor Figueiredo em ” Alegações finais “.

    Fiquei com imenso interesse em ler Lessing …

    Luísa Rodrigues Flora, Professora Universitária, estudiosa da obra de Lessing, afirma na referida entrevista que, no início da década de setenta, leu ” The Golden Notebook ” (vou procurar …)

    BlogAbraço

  2. Como diz Fernando Pessoa, “a literatura , como toda a arte, é uma confissão de que a vida não basta. Como alunos de Literatura, agradecemos os voos que este blog nos proporciona. Os nossos próprios voos, reflexos do que somos, sentimos e sonhamos, estão em http://12reflexos.blogs.sapo.pt/

  3. Como conheço pouco de Doris Lessing, ignoro até que ponto será «uma escrita ciente da amargura da existência». Mas embora tenha a consciência de que nada terá a ver com Sebald que muito admiro, também Lessing tem a consciência aguda de que «tudo está a desintegrar-se», como confessava não há muito tempo ao Guardian.

  4. Diria talvez que uma só vida não basta e que, por isso, procuramos outras na literatura, ou não fosse a leitura, também, uma outra forma de povoamento do mundo.


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