Danças com Che

dancas-com-che.jpg 

No passado sábado enquanto lia o suplemento literário do El Pais na esplanada do Círculo de Artes, em plena Gran Via, em Madrid, alguém, que me pareceu de imediato muito familiar, se sentou na mesa ao lado e pediu que lhe trouxessem um Habana Club com gelo. Durante algum tempo procurei recordar de onde conheceria eu aquele rosto. Ainda pensei tratar-se de Gael García Bernal ou Benicio del Toro ou, embora menos, de Antonio Banderas. Como não achava forma de me lembrar, entre um gole de rum e outro, ganhei coragem e acabei por lhe perguntar: – «Perdone? No nos conocemos?»Seguro que sí. Yo soy el Che Guevara», respondeu.

Pensei tratar-se de uma piada e esqueci-o. Contudo, à noite, enquanto caminhava pela Plaza del Sol, lá estava ele, agora plantado sobre um  caixote de plástico, vestido com camuflado militar e com a bóina do Che Guevara na cabeça. Com um livro aberto na mão, recitava um inflamado discurso contra o imperialismo, enquanto se deixava fotografar por grupos de turistas japoneses que lhe concediam, depois, alguns euros que atiravam para uma pequena caixa colocada aos seus pés. Não havia dúvida, era mesmo o Che que ali estava, competindo com um homem de mala de viagem, gabardina e chapéu de chuva revirados pela ventania imaginária que de repente se levantara naquela praça de Madrid mas que, estranhamente, parecia não afectar o revolucionário argentino. Contudo, não obstante a paixão que Che imprimia ao seu discurso, o homem da mala e gabardine ao vento atraía mais público e arrecadava mais moedas, retardando, assim, o financiamento da revolução por vir.  

Na Calle de los Preciados, muito perto, portanto, do epicentro revolucionário da Plaza del Sol, na vitrina de uma loja de artigos de beleza de categoria duvidosa, expunha-se um kit completo de higiene revolucionária: um jogo de toalhas vermelhas com a efígie do Che e uma caixa de sabonetes, gel de banho e shampô, tudo com o selo do Che. E na vitrina da relojoaria, uns metros adiante, alguns relógios Swatch com a fotografia de Che no mostrador esperavam pulsos revolucionários. E na loja da FNAC havia um escaparate de novidades sobre o Che: Ernesto Guevara, también conocido como el Che, Paco Ignacio Taibo II, Booket; Os últimos dias de Che, Juan Ignacio Siles, Debate; Diarios de motocicleta, Ernesto Che Guevara, Ediciones B; El diablo cojuelo, Luis Veléz de Guevara, Cátedra; Che Guevara. Una vida revolucionaria, Jon Lee Anderson, Anagrama; El hombre que mató al Che Guevara, Magnus, Nuevas Fronteras del Arte. Perante tamanha profusão de comandantes, pensei que a revolução estaria iminente e que, talvez, fosse melhor deixar os sapatos Camper para outra ocasião, não fosse ser confundido com um simpatizante da globalização.

Regressei de Madrid sem que tenha notado qualquer mudança revolucionária. Talvez porque os turistas tivessem preferido o homem da mala e gabardina ao vento ao inflamado Che da Plaza del Sol. Mas hoje, por ocasião do quadragésimo aniversário da sua morte, ao procurá-lo no Google voltei a encontrá-lo nos lugares mais insólitos: tatuado no braço de Maradona, desenhado em t-shirts, impresso em posters para quartos de adolescentes, bordado em roupa interior feminina, pintado em bolas de futebol, gravado em caixas de chocolates, inscrito em notas de um dólar, difundido através de pins, de gadgets. Che para todos os gostos e idades, como estratégia de marketing, trabalhada a partir da velha fotografia de Alberto Korda como denuncia Trisha Ziff em Che: Market and Revolution: para estudantes e para a terceira idade, para enfermeiras e empresários, para intelectuais nihilistas e alienados consumistas. Adorado como um santo na Bolívia e odiado como um assassino em Miami.

Como explicar esta espécie síndrome guevariano?.Talvez porque Che morreu jovem, guapissimo, como me disse uma amiga argentina, mais ainda do que os seus duplos  actuais, Gael García Bernal ou Benicio del Toro. Talvez para nos fazer esquecer a imagem patética de Fidel calçando uns chinelos Adidas num hospital cubano. Ou os discursos bolivarianos de Chávez. Talvez porque vivemos num mundo sem redenção.

Talvez por isso, também, a única imagem que gostaria de evocar agora, não é a mítica fotografia de Alberto Korda, tirada em 1960, e que o Instituto Maryland de Arte viria considerar «a mais famosa fotografia no mundo e símbolo do século XX», mas aquela outra, muito menos conhecida, que mostra duas mulhers dançando por ocasião do seu aniversário, em Santa Coloma de Gramanet. Não porque haja ali qualquer pulsão revolucionária, e muito menos o sentimento nihilista contemporâneo que o transformou, nas décadas de sessenta e setenta num ícone de uma juventude rebelde com causa, depois na ténue bandeira de nostálgicos guerrilheiros urbanos, e mais recentemente num símbolo do movimento anti-globalização, mas porque essa é uma imagem sem rosto, a única que lhe pertence desde que lhe atribuiram uma biografia romântica, mitificando-o como um justiceiro solitário e um revolucionário generoso, abatido traiçoeiramente no final da história.

A questão a saber é se poderá ainda atribuir-se algum significado político à sobrevivência mercantilizada de Che. Em artigo publicado no El Pais [Che “versus” fetiche], Iván de la Nuez, um ensaísta cubano que vive em Barcelona, considerava a propósito que «para la izquierda radical, el fetiche del Che significa una victoria cultural después de una derrota política. Para la derecha radical, el fetiche del Che significa una derrota cultural después de una victoria política». Será? E será que «a sua auréola de idealista e de herói, a capacidade de sedução de alguns dos valores que orientaram a sua intervenção, a própria noção da violência revolucionária como necessidade», ligadas à utopia guevarista ainda fazem sentido, como questiona Rui Bebiano em O capitão Wiesler e o doutor Guevara?

[Obrigatório passar por www.personalche.com e ver o trailer de dois jovens cineastas Douglas Duarte (Brasil) e Adriana Mariño (Colômbia) também em: www.youtube.com/watch?v=1nyBxg32Wd0

Anúncios

3 comentários

  1. A “Veja”, do Brasil, colocou-o em sua capa com a intenção de “destruir o mito”. Fazem todo tipo de ataque a algumas práticas éticas suas, acreditando que isso desviará a fascinação dos jovens (sobretudo eles). Revela, a meu ver, como a redação da revista vive dentro de uma redoma e não compreende nada do mundo à volta. Há muito, Che deixou de ser, para os jovens, um paradigma de práxis revolucionária. Há muito, tornou-se apenas um rosto, um ícone que nada mais faz do que sustentar um determinado padrão de comportamento, como o ícone de Hendrix determina outro (quantos o conhecem de fato como guitarrista?), e até ícones religiosos como Jesus (quantos desses jovens tão fervorosos compreendem a religião que seguem?). É a manifestação crua do espetáculo, diria Debord, e eu concordo.

  2. Um fetiche ( isso explica tudo … )

  3. […] Babelia. Tenho por hábito ler o suplemento do El Pais todos os sábados. Sento-me por isso na esplanada do Círculo de Artes, na Gran Via, e empreendo uma viagem através da literatura catalã que constitui o tema desta Babélia, transformando momentaneamente a Gran Via no Passeig de Gràcia. Um inquérito junto de mais de cem especialistas elege as 50 melhores obras catalães de sempre: Ramon Lull [1232-1316] («Implacável defensor de la lógica cristiana. Escribió en latin, catalán y árabe. Consciente de que existiria un Pierre Ménard reescribió de memoria algunos de sus libros perdidos en un naufragio»); Josep Pla [1897-1981] («incómodo y bellíssimo. Desconfiado, viajero, diletante, comodón, trabajador… es el paradigma de la literatura catalana»; Salvador Espriu [1914-1945] («Le compararon a Pablo Neruda, Rafael Alberti o Valle-Inclán. No se les parece en nada. Autor precoz, le tocó vivir con estoicismonlo peor de la história del siglo XX». Dos cinquenta títulos citados não li nenhum! Mas recordo o fundo cabalístico de Lull perseguido por Luisa Costa Gomes, em Vida de Ramón [Dom Quixote, 1991]. E li outros mais recentes, como Juan Marsé, Eduardo Mendoza, Javier Cercas, Carlos Ruiz Zafón e, claro, Enrique Vila-Matas. Nesta Babélia há ainda páginas sobre agentes literários, editores e livreiros de Barcelona que já não tive tempo de ler, pois alguém muito parecido com Che Guevara sentou-se na mesa ao lado. Pouso o jornal e regresso à Gran Via. Mais tarde, na Plaza del Sol, confirmaria tratar-se, efectivamente, de Che. […]


Comments RSS TrackBack Identifier URI

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s