Amor sólido

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Poderá o pensamento continuar a pensar até ao fim da vida? Ou, à medida que um pensador original avança na idade, mais não faz do que produzir variações do seu tema fundador? Proust dizia que há apenas um único grande livro que cada escritor escreve ao longo da sua vida. Talvez isso se aplique ao grande livro do amor escrito por André Gorz e sua mulher Corinne. Talvez o suicídio que ambos, ontem, cometeram seja a variação final e esmagadora do grande livro do amor que escreveram durante os cinquenta e oito anos que estiveram juntos, coisa rara num tempo em que a instantaneidade das coisas se tornou no novo modo de vida de uma sociedade onde até o «amor [é] líquido» [Zygmunt Bauman]. Não o amor de André e D. :«Tu vas avoir vingt-quatre-deux ans. […] et tu es toujours belle, gracieuse et désirable. Cela fait cinquante-huit ans que nous vivons ensemble et je t’aime plus que jamais. Je porte de nouveau au creux de ma poitrine un vide dévorant que seule comble la chaleur de ton corps contre le mien», escreveu André Gorz no seu último livro dedicado a Dorine [Lettre à D. Galilée, 2006], cuja presença «fut décisive dans la construction d´une oeuvre dont la visibilité ne porte qu´un nom alors qu´elle fut celle d´un couple, le fruit d´un long dialogue

Mas uma obra que, ao contrário da ideia proustiana do livro único, sempre perseguiu a inovação epistemológica, adaptando um pensamento com raízes na Escola de Frankfurt à experiência da actualidade, como mostra o seu derradeiro livro filosófico [L´Immatériel, Galilée, 2003], onde explora o potencial de liberdade, de subversão e de emancipação que existe na «economia do imaterial», a despeito das desesperadas tentativas de controlo do novo mundo virtual. Deixa, implícita, uma interrogação. Poderá, ainda, a sociedade recuperar o domínio sobre a economia? Como tentativa de resposta antecipa o surgimento de uma «dissidência numérica» no seio do «capitalismo cognitivo» emergente a partir da crise de um capitalismo que já não pode sobreviver sem a linkagem interactiva entre pessoas, empresas, serviços, consagrando a irredutibilidade das ligações, das conexões. 

Daí a possibilidade potencial da crise que provém sempre do acidente, da desligação. É que – permitam-me o pensamento – se o desligar constituiu a marca da modernidade, nomeadamente na ruptura com a tradição medieval, o carácter compulsivo do ligar/desligar parece encerrar, hoje, todo o «poder constituinte» da experiência «pós-moderna». E, logo, toda a possibilidade de gerar tensionalmente a dissidência, mesmo que o visível seja, ainda, a requisição da experiência pelo continum controlador da técnica [Martin Heidegger, «Construir, Habitar, Pensar», in Conferências y Artículos, Barcelona, Serbal, 1994].

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