A cada um o seu lugar?

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Argumentando ainda a favor da criação de uma chinatown, em Lisboa, Maria José Nogueira Pinto demarcava-se, na semana passada, no Diário de Notícias  daqueles que acham que o mercado tudo regulará, mesmo que isso conduza ao desaparecimento do comércio tradicional. Escrevia, então, que «na sua lógica pura, um defensor acérrimo do mercado apostará na progressiva substituição de todo este comércio por simpáticas e prestáveis lojas chinesas»; e que, obviamente, não era isso que defendia. Mas e a criação de uma chinatown, «opção, relativamente à imigração chinesa de forte vocação para o comércio, em várias cidades do mundo, cidades dignas desse nome, todas com a sua chinatown»? Que pensar desta proposta, aparentemente, segregacionista, da qual o próprio António Costa parece desconfiar? Representará isto o desejo de pôr cada um no seu lugar, conforme a um multiculturalismo que atribui a cada homem, a cada grupo, um posicionamento fixo em função dos seus atributos? Ou estaremos perante uma tentativa enviezada de recentramentro de actividades comerciais, marcada apenas pela necessidade de salvaguardar a identidade cultural de uma zona histórica? É que, não sejamos hipócritas, o problema da «lojas chinesas» não está na nacionalidade dos proprietários, tão pouco na sua actividade comercial, mas sim na qualidade dessa actividade, e na própria qualidade dessas lojas que praticam um tipo de comércio anacrónico, feito para cidades feias, sujas e degradadas. Ora, se queremos revalorizar e revitalizar a Baixa, é óbvio que essas lojas terão de ir para outro lado. Tratar-se-á, então, de um problema que deve ser pensado no âmbito de uma política de valorização do património cultural e do seu uso social numa zona histórica, onde não cabem, parece-me, as «lojas chinesas» ou quaisquer outros enxertos estranhos e desqualificados. Tratar-se-á de aplicar os mesmos princípios que deveriam excluir da Baixa as esplanadas de plástico e outras manifestações de mau gosto comercial. Nunca, porém, como tentativa de descentramento artificial, em nome de um falso multiculturalismo, de uma comunidade e de uma actividade exercida por essa comunidade, como forma de criar um novo bairro etnográfico visitável por turistas, como parece defender a responsável pelo gabinete Baixa-Chiado. Tanto mais que a criação de uma chinatown pode ser perigosa porque susceptível da sua guettização. Não será difícil imaginar que as mesmas  famílias que já trabalham sem horários nem direitos sociais, e vendendo a preços baixíssimos produtos fabricados na China em regime de «dumping social», logo se mudariam para esse bairro, fragilizando as relações entre os de dentro e os de fora. Lembra o socióliogo polaco Zygmunt Bauman [em Confiança e Medo na Cidade, Relógio d´Água, 2006] que homogeneizar «os bairros, e reduzir depois ao mínimo inevitável todo o comércio e comunicação entre eles, é uma receita infalível para avivar e intensificar o desejo de segregar e de excluir» (p. 46), originando novas patalogias de posição provocadas por recentramentos artificiais que podem fazer deslizar para a guettização. Daí, a necessidade desta questão ser pensada sem a hipocrisia do politicamente correcto, exercendo a autarquia de Lisboa o seu dever de regulação política, requalificando a Baixa sem cedências a interesses instalados, chineses ou outros, mas sem que daí resulte uma qualquer deriva segregacionista.

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