Sob suspeita (III)

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Será que, no caso Madeleine, a aproximação mediática à verdade está condenada a formas de processamento do acontecimento acomodadas a uma tipologia narrativa à maneira de um thriller melodramático servido diariamente a espectadores frívolos, contempladores obscenos de um drama alheio em cena num teatro da crueldade? E poderiam as duas hipóteses de investigação perseguidas ter tido outra abordagem mediática, que a não a da sua serialização narrativa assente na incerteza e na fragmentação da notícia, de forma a manter o público sitiado face ao desenrolar deste thriller melodramático? Mais do que responder ao acontecimento representando-o nas suas várias possibilidades, visando a formação de uma opinião pública informada, os media vêm respondendo a este caso através da construção de uma espécie de micro-narrativas fragmentárias e, muitas vezes, contraditórias, de um acontecimento encoberto tanto pelo segredo de justiça como pelo ruído mediático que foi crescendo à sua volta.

Escutámos, primeiro, uma narrativa que visava a deslocalização do acontecimento, afastando-o da Praia da Luz, no rasto da tese de rapto promovida por uma campanha mediática sem precedentes. E, depois, escutámos a narrativa da morte de Madeleine às mãos dos McCann, ainda que acidentalmente. Mas ambas as narrativas, nos seus múltiplos segmentos processados mediaticamente como um thriller melodramático, respondem ao acontecimento de forma semelhante, isto é, promovendo a incerteza, o improviso, a imprevisibilidade, a expectativa que é preciso alimentar diariamente.

Mas, e poderia o jornalismo responder de forma diferente a este acontecimento. É que faltando informação, o thriller só poderá ser alimentado através do tentativo, do improviso, do provisório, sob pena dos media ficarem silenciados. E isso é contrário à sua vocação. Daí o arriscar agora na tese da morte de Madeleine, cuja coreografia da crueldade, venham os pais a revelar-se responsáveis ou vítimas, não nos deixará indiferentes.

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2 comentários

  1. A propósito de tudo isto, tenho pensado muito em Wilde, nestes últimos dias, em “a vida emita a arte”.
    Decerto que já ouviu ou leu que Ben Affeck, muito antes de Maio passado, rodou – numa adaptação de um romance de Dennis Lehane (que não conheço) – “Gone Baby Gone”, um filme que tem muitos pontos de ligação com o « thriler» que aqui comenta. De tal modo que a distribuidora decidiu adiar a estreia britânica.

    De todo o modo, e sobre a imprensa, parece-me que tenho ouvido e lido alguns jornalistas mas, também, muitos guionistas. E o mais interessante é que, de repente, uma quantidade de gente se descobre ficcionista. Não me admiraria nada se este caso viesse dar à luz alguns Moita Flores. Escritores.

  2. Ouvi falar desse filme. Uma extraordinária coincidência. E claro, Wilde. Mas também um livro de Enrique Vila-Matas que está chegando, «Exploradores del abismo».
    Talvez porque o jornalismo é cada vez menos pensante, o lugar é dos guionistas, ficcionistas de uma realidade cruel onde vivemos sitiados, incitados e excitados no lugar que nos destinaram. E, no entanto, quero acreditar, ainda há jornalistas capazes de apanhar pelos cornos o acontecimento. Mas o que conheço melhor, ainda, são alguns escritores capazes de se adentrarem pela experiência como cronistas do seu tempo. «Sou uma cronista alucinada do meu tempo», confessava Lídia Jorge num belíssimo documentário sobre ela própria que passou no Domingo à noite no canal Biography.


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