Sob suspeita (III)

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Será que, no caso Madeleine, a aproximação mediática à verdade está condenada a formas de processamento do acontecimento acomodadas a uma tipologia narrativa à maneira de um thriller melodramático servido diariamente a espectadores frívolos, contempladores obscenos de um drama alheio em cena num teatro da crueldade? E poderiam as duas hipóteses de investigação perseguidas ter tido outra abordagem mediática, que a não a da sua serialização narrativa assente na incerteza e na fragmentação da notícia, de forma a manter o público sitiado face ao desenrolar deste thriller melodramático? Mais do que responder ao acontecimento representando-o nas suas várias possibilidades, visando a formação de uma opinião pública informada, os media vêm respondendo a este caso através da construção de uma espécie de micro-narrativas fragmentárias e, muitas vezes, contraditórias, de um acontecimento encoberto tanto pelo segredo de justiça como pelo ruído mediático que foi crescendo à sua volta.

Escutámos, primeiro, uma narrativa que visava a deslocalização do acontecimento, afastando-o da Praia da Luz, no rasto da tese de rapto promovida por uma campanha mediática sem precedentes. E, depois, escutámos a narrativa da morte de Madeleine às mãos dos McCann, ainda que acidentalmente. Mas ambas as narrativas, nos seus múltiplos segmentos processados mediaticamente como um thriller melodramático, respondem ao acontecimento de forma semelhante, isto é, promovendo a incerteza, o improviso, a imprevisibilidade, a expectativa que é preciso alimentar diariamente.

Mas, e poderia o jornalismo responder de forma diferente a este acontecimento. É que faltando informação, o thriller só poderá ser alimentado através do tentativo, do improviso, do provisório, sob pena dos media ficarem silenciados. E isso é contrário à sua vocação. Daí o arriscar agora na tese da morte de Madeleine, cuja coreografia da crueldade, venham os pais a revelar-se responsáveis ou vítimas, não nos deixará indiferentes.