Sob suspeita (II)

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Porque hoje julgo saber mais do que quando escrevi o post anterior sob o caso Madeleine, não tanto sobre a investigação mas sobretudo sobre o discurso dos media neste, cumpre-me actualizar a reflexão e esclarecer alguns contornos do meu próprio posicionamento face à forma como os media têm vindo a responder a este acontecimento. Isto porque da leitura do post anterior talvez tenha ficado a impressão de que toda a abordagem mediática do caso estaria a ser feita em termos da sua banalização lúdica, visando manter sitiadas as audiências. E se verdade que houve uma tabloidização do acontecimento, importa reconhecer, por outro lado, que houve media que procuraram responder de modo expedito ao acontecimento, dando cobertura mediática a outras possibilidades de investigação, mesmo que politicamente incorrectas, como a tese da morte da criança.

E esta relativização do meu discurso metajornalístico a propósito deste caso não é contraditória com aquilo que me atrevi antes ensaiar sobre esta matéria. Antes clarificador. Não é claro no post anterior a distinção entre a causa e os efeitos deste torvelinho mediático para cujo vórtice fomos empurrados ao longo dos quatro meses que vai durando este vendaval, incitando e excitando o nosso voyeurismo. Ora, a causa primeira que levou a que o circo mediático se instalasse no triângulo Praia da Luz/Portimão/(e agora) Rothley, foi a «convocatória» da Sky News pelos McCann mesmo antes de terem chamado a polícia, respondendo a uma estratégia que, como viria depois a constatar-se, visava promover até à exaustão a tese única do rapto de Madeleine, silenciando outras hipóteses que, sabe-se agora, a investigação sempre colocou. E era fácil de pegar na tese do rapto. Era a que mais nos confortava apesar de tudo. E para os media que embarcaram na tese também era a que naquele momento respondia melhor a objectivos de audiências. O que já era na altura pouco claro, e agora ainda menos, era a que interesses inconfessados [ler a este propósito artigo em El Pais de ontem]  respondiam alguns media britânicos que não se desviavam da tese única de rapto, mesmo  quando começaram a surgir indícios que obrigariam ao questionamento do que até então era dado como adquirido. E, sobretudo, porque razão o governo britânico contrariou a neutralidade que agora afirma adoptar. Daí a pergunta: e se houve aqui um monumental logro orquestrado pelos McCann, manipulando consciências, e contas bancárias, quem foram os cúmplices? A que interesses respondiam?

Ora, cúmplices não foram seguramente os media portugueses que, num primeiro momento, como todos nós, afinal, embarcaram na versão do rapto. E ainda menos aqueles que, a partir de certa altura, começaram a processar outras hipóteses, não se vergando ao politicamente correcto, mesmo que para isso tivessem de se adentrar por territórios movediços, arriscando participar numa coreografia da crueldade contra os McCann; mesmo sitiando o espectador dentro de uma ficção serial fabricada e processada através de uma encenação mediática sempre em busca do inesperado que nos foi transformando em espectadores frívolos, contempladores obscenos num teatro da crueldade. E dessa tentação poucos escaparam, correspondendo, afinal, aos modos instalados de mediatização da realidade segundo a tipologia serial televisiva onde cada capítulo acaba sem resolução, remetendo a continuação para o dia seguinte.

Mas seria, ironicamente, esta voracidade jornalística que não consentiria o silenciamento dos novos rumos da investigação. Afinal, não obstante a rasura dos media a que vimos assistindo, neste caso, por coincidência ou não entre os interesses economicistas das administrações e a procura da verdade, parece ter existido algum jornalismo que, embora com alguma perversidade, conseguiu apanhar o acontecimento de modo expedito. E se me encontro agora mais desconfortado relativamente aos novos contornos deste caso que parecem sugerir a morte da criança – desfecho que será altamente perturbador -, isso deve-se à acção desse jornalismo que não calou as novas possibilidades de uma investigação judicial politicamente incorrecta mas em busca da verdade, mesmo que essa verdade venha a revelar-se de uma enorme crueldade e demasiado incómoda para os tais interesses inconfessados.  Apesar das construções ficcionais arriscadas e, às vezes, condenáveis deste caso, parece ter havido, então, jornalistas que arriscaram apanhar o acontecimento de modo expedito. Esses, seguramente, não estão sob suspeita.