Sob suspeita (I)

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A constituição da experiência contemporânea é cada vez mais determinada pelas máquinas mediáticas que nos dão a ilusão de estar em todo o lado ao mesmo tempo. Quer queiramos quer não, estamos imersos na actualidade «fabricada» pelos media contemporâneos que tendem a produzir uma espécie de delírio colectivo universal em torno de acontecimentos processados mediaticamente em função de inconfessados interesses que já pouco têm a ver com uma noção ética do jornalismo, como se a comunicabilidade mediática se tivesse tornado insustentável. A experiência contemporânea mediatizada constitui-se já não em função do acontecimento em si, mas através da construção de uma ficção jornalística que visa a identificação gratuita do público com o acontecimento despolitizado e abordado em função das convulsões dos seus protagonistas. Vistas assim as coisas, o jornalismo hoje responde ao acontecimento não para para lhe dar tonalidade expressiva e retraçá-lo racionalmente, mas para nos introduzir nele como espectadores obscenos cujo ponto de vista é sempre incitado, e excitado, por formas mediáticas demagógicas e manipuladoras da opinião pública, que originam as várias e contraditórias patologias de posição que somos coagidos a adoptar, marcadas por uma ilusão paranóica de poder sobre os protagonistas do acontecimento. Lemos e vemos as notícias que nos são oferecidas com a ilusão de penetrar na intimidade do outro como se momentaneamente nos fosse concedido o direito de tudo julgar sem que para isso tenhamos de ser confrontados com a nossa responsabilidade moral. Por isso, a banalização lúdica da violência, da crueldade, a exposição da intimidade, a reivindicação divertida da futilidade diariamente servida nas televisões.

Ora se há acontecimento que, mais do que qualquer outro, corresponde a esta questão metamediática, sobretudo pelo que contém de banalização lúdica de um acontecimento trágico, é o caso Madeleine McCann, a criança inglesa desaparecida na Praia da Luz. O acontecimento tem vindo a ser apresentado como uma ficção continuada que é preciso alimentar diariamente através de um voyeurismo incitado e excitado por uma retórica que não visa tanto o esclarecimento público, mas tão só a comunicação inconsistente de fragmentos de uma ficção «fabricada» para encher noticiários sem qualquer respeito pelos protagonistas reais. O objectivo é sitiar o espectador dentro de uma ficção pueril fabricada e processada através de uma encenação mediática sempre em busca do inesperado – porque o imprevisível, o insólito, o macabro é mais informativo -, que visa a comunicação pela comunicação e exclui a racionalidade argumentativa, apesar das sucessivas convocatórias de «especialistas» – criminalistas, psiquiatras,  psicólogos «faciais» – que ajudam a «encher» os noticiários perorando sobre isto e aquilo que desconhecem, perante a mente curto-circuitada de alguns pivots. Na tentativa descontrolada de chegar primeiro ao acontecimento, de revelar aquilo que mesmo a polícia ainda não sabe (?), alguns jornais e televisões vão fabricando a sua ficção, intuindo culpados em cada inquirição, surprendendo evidências onde não existem provas, confundindo jornalismo com investigação judicial (na semana do interrogatório aos McCann houve um jornal que adiantou na primeira página três causas diferentes de morte da criança). «Supostamente» e «alegadamente», escudam-se – como se nesta retórica coubesse toda a sua responsabilidade ética. «Jornalismo de causas», disfarçou o director de um semanário de referência num debate televisivo na tentativa de se esgueirar à acusação de cumplicidade num ainda hipotético logro. E porquê apenas esta «causa» quando, de acordo com um relatório recente da Amnistia Internacional, anualmente são traficadas  no mundo 1,2 milhões de crianças? E já agora, porquê, também, o tratamento de excepção concedido aos McCann? E todo o dinheiro que há por aí para pagar custos milionários a advogados? Que outros interesses inconfessados?

Duas hipóteses de desfecho se colocam agora. A primeira é a de termos sido todos vítimas de um monumental embuste com a cumplicidade dos media, caso venha a provar-se a responsabilidade do casal McCann no desaparecimento da criança. Um embuste, diga-se, friamente orquestrado por duas pessoas que após a tragédia teriam promovido a mais mediática «coreografia da crueldade» de que todos nos tornámos espectadores, primeiro, respondendo com a nossa solidariedade e, depois, com uma incitada contemplação obscena do acontecimento. 

E, no entanto, durante meses, os media alimentaram até à exaustão a tese do rapto e da angelização dos pais – apesar de irresponsavelmente terem deixadas sós três crianças num apartamento de férias. Agora agitam as águas num sentido contrário, apostando na demonização dos progenitores, criando um irredutível vazio em seu redor. Mas – segunda hipótese -, e se forem inocentes? E se assim for, quem responderá por esta outra coreografia da crueldade?

Entretanto, nós espectadores frívolos, incitados, excitados por um zapping generalizado sobre os acontecimentos, levados por um jornalismo que parece ter enlouquecido, já sem espaço nem tempo para pensar, porque agora, para os media,trata-se apenas de responder à urgência da actualidade, sob pena de falhar as audiências.