Anotações nas margens

sebald.jpg 

Quando escrevo sobre um livro não pretendo escavar na terra das palavras procurando significados ocultos sob uma pretensa imanência textual que fez, faz escola nas universidades e em alguma crítica profissional iluminista que na sua «mania interpretativa» – que já Pessoa denunciava – visa tornar transparentes os significados escondidos através de uma axiomática explicativa. Contra isto já respondeu James Joyce escrevendo um livro ilegível que, segundo ele, «manteria ocupados os professores durante séculos com os enigmas de Ulisses». Esse não é o caminho, o método que tenho perseguido aqui, sobretudo nos retratos de momento que vou traçando, embora, às vezes, reconheço, quando o que escrevo se confunde com a recensão crítica, me deixe levar também por alguma tentação interpretativa. Mas o que procuro é, isso sim, um estilo, uma retórica, subjectiva claro, de anotações nas margens, que mais do que uma hermenêutica, se assume como uma tentativa de aproximação do texto à vida, exaurindo, sem escapatória, tanto os seus sentidos como inventando outros.

Anúncios

2 comentários

  1. E é por isso mesmo, asseguro-lhe, que as leituras que aqui faço são um prazer.

  2. E, mesmo assim, não será esta tentativa de aproximação do texto à vida uma «tarefa infinita» e, logo, refém das axiomáticas que procuram tornar visível o invisível? Muitas vezes sê-lo-á. Noutras, porém, como uma epifania, habitamos momentaneamente as margens do texto deixando correr o sentido que está lá.


Comments RSS TrackBack Identifier URI

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s