Anotações nas margens

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Quando escrevo sobre um livro não pretendo escavar na terra das palavras procurando significados ocultos sob uma pretensa imanência textual que fez, faz escola nas universidades e em alguma crítica profissional iluminista que na sua «mania interpretativa» – que já Pessoa denunciava – visa tornar transparentes os significados escondidos através de uma axiomática explicativa. Contra isto já respondeu James Joyce escrevendo um livro ilegível que, segundo ele, «manteria ocupados os professores durante séculos com os enigmas de Ulisses». Esse não é o caminho, o método que tenho perseguido aqui, sobretudo nos retratos de momento que vou traçando, embora, às vezes, reconheço, quando o que escrevo se confunde com a recensão crítica, me deixe levar também por alguma tentação interpretativa. Mas o que procuro é, isso sim, um estilo, uma retórica, subjectiva claro, de anotações nas margens, que mais do que uma hermenêutica, se assume como uma tentativa de aproximação do texto à vida, exaurindo, sem escapatória, tanto os seus sentidos como inventando outros.