A cancela do tempo

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«… justamente naquela noite principiava para ele a irremediável fuga do tempo. […] E assim se prossegue caminho numa esfera confiante, e os dias são longos e tranquilos, o Sol brilha alto no céu e parece nunca ter vontade de chegar ao ocaso. Mas a certa altura, quase instintivamente, voltamo-nos para trás e vemos que uma cancela se fechou nas nossas costas, obstuindo-nos a via do regresso. Então sentimos que algo mudou, o Sol já não aparece imóvel, desloca-se rapidamente, ai de nós, nem temos tempo de o fixar pois já se precipita no confim do horizonte; apercebemo-nos de que as nuvens já não ficam estagnadas nos golfos azuis do céu, foram encavalitando-se umas nas outras, tal é a sua urgência; percebemos que o tempo passa e que também a estrada um dia deverá terminar.»

Por isso, qualquer gesto será inútil. A inutildade da fortaleza, a própria existência de Drogo… Esta a paisagem mental e simbólica que, como uma névoa ameaçadora vinda de longe, do deserto, nos envolve num delírio de imortalidade. Sem remissão, na visão pessimista de Dino Buzzati [1906-1972] em O Deserto dos Tártaros [Cavalo de Ferro, 2005], espécie de metáfora da nossa contemplação nihilista de um mundo carregado de uma solidão irredutível que só pela «inocência do agir» (Goethe) poderíamos, poderemos, estilhaçar. Mas não Giovanni Drogo que desistiu de agir, de perscrutar saídas na decadente fortaleza de Bastiani em que se foi encerrando, preferindo a espera angustiante do confronto com o inimigo tártaro que poderá, enfim, dar um significado à sua vida. Mas nem isso Drogo consegue, pois no último momento, quando finalmente o inimigo surge do deserto, ele falha a ocasião, vindo a morrer na rectaguarda da batalha que não chegou a travar, como se a inutilidade da sua vida estivesse traçada desde o momento em que olhando para trás viu a cancela do tempo fechada. Um livro sombrio, portanto, a cuja génese não foi certamente indiferente o ano em que foi escrito por Dino Buzzati – 1939 – que via as sombras que alastravam pela Europa perante a imobilidade do mundo. Para ser lido apenas – como apelaria Robert Walser – pelas «pessoas saudáveis [que possam e desejem] expor-se um pouco ao perigo [da] literatura dita doentia. […] Senão, com mil raios para que serve ser saudável?» Assim o li, embora sem a urgência deste tempo achatado, de um só folgo, sem olhar para trás, não fosse a cancela do tempo fechar-se nas minhas costas. Por isso, posso agora, e sempre, regressar a outros livros que até podem ser os de Buzatti que só tardiamente descobri. Talvez O Segredo do Bosque Velho ou Os Sete Mensageiros, ambos editados pela Cavalo de Ferro.

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