No Bairro portátil do senhor Tavares (IV): periferias

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Por analogia com o seu homónimo que procurava o desaparecimento, o eclipse, este Walser [O Senhor Walser, Gonçalo M. Tavares, Caminho, 2006] é mais dado ao recato que os primeiros povoadores do Bairro. Por isso, manda construir a sua casa «a uns bons quilómetros do bairro mais próximo», no que se assemelha ao Walser-outro, também ele instalado numa casa nos arredores de Herisau, durante vinte e oito anos, apenas saindo, aos domingos, para dar longos passeios no bosque circundante, com o seu amigo e editor Carl Seeling. Eis, agora, então, o Senhor Walser, na sua nova casa: «Mal se abre a porta de sua casa — sente ele — entra-se noutro mundo. Como se não fosse apenas um movimento físico no espaço — dois passos que se dão — mas também uma deslocação — bem mais intensa — no tempo. […] Quando fechava a porta atrás de si, Walser sentia virar as costas à inumana bestialidade (de que saíra, é certo, há biliões de anos atrás, um ser dotado de uma inteligência invulgar — esse construtor solitário que era o Homem) e entrar em cheio nos efeitos que essa ruptura entre a humanidade e a restante natureza provocara; uma casa no meio da floresta, eis uma conquista da racionalidade absoluta” (p. 13). Todo o seu mundo está agora ali dentro daquela casa, fora do mundo, onde a «racionalidade absoluta» tudo incorpora. Por isso, Walser, ao contrário dos outros senhores, não se enreda em pensamentos, em raciocínios que desembocam quase sempre no absurdo. E a sua ingenuidade não o leva a agir, mesmo quando o mundo exterior invade a sua casa contra a «racionalidade absoluta» ou por causa dela. Mesmo nessa situação, limita-se a esperar e a ter expectativas. «Não estou aqui para escrever, mas para enlouquecer», escreveu Robert Walser no mais curto micrograma de sempre. «Não estou aqui para agir, mas para ter expectativas», escreveria o Senhor Walser se fosse dado à escrita.

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