No Bairro portátil do senhor Tavares (I): povoamento

 

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Enrique Vila-Matas diz que se trata de «um bairro portátil, uma espécie de Chiado literário que jamais arderá». Por isso, ao entardecer, decido-me passear, sem mapa, a partir da Baixa em direcção ao Chiado, observando a geométrica distribuição das ruas, os letreiros das lojas, o vendedor de castanhas, alheio à certeza de Pessoa já não andar por ali. «Amanhã» – escreveu – «também eu desaparecerei da Rua da Prata, da Rua dos Douradores, da Rua dos Fanqueiros, sim, também eu amanhã serei aquele que deixou de passar por estas ruas, aquele que outros vagamente evocaram com um que terá sido feito dele. E tudo quanto faço, tudo quanto sinto, tudo quanto vivo, não será mais que um transeunte menos no quotidiano das ruas de uma qualquer cidade». 

Mas se Pessoa já não anda por ali, anda agora Gonçalo M. Tavares, o escritor-povoador que vai desfiando nas intricadas ruas e pracetas bairro uma conjura portátil de escritores duplicados, volúveis e insolentes que formam, talvez, a sua genealogia literária. «E se um dia um viajante» – como diria  Calvino – se perdesse na geometria caótica destas ruas que se bifurcam levando a um bairro onde se encontra a multiplicidade de possíveis que subtraem o bairro a qualquer tentativa de controlo racional e normalizador da matéria literária? É o que me disponho a fazer neste segundo entardecer lisboeta em que vou no encalço desta genealogia gráfico-literária que elogia a expressão breve e expedito da linguagem.

E em que  geneologia se funda o povoamento do Bairro? Até porque o propósito do seu escritor-povoador será, talvez, declinar essa genealogia em personagens de estorietas que não escreveram, tornando-se pela sua própria natureza de «personagens de papel», sem biografia, portanto, que não seja a que é atribuída à sua nova condição ficcional, quem melhor poderá escapar a qualquer tentativa de explicação hermenêutica. Este,então, o bairro portátil [O Senhor Valéry (2002); O Senhor Henri (2003); O Senhor Brecht (2004); O Senhor Juaroz (2004); O Senhor Kraus (2005); O Senhor Calvino (2005); O Senhor Walser (2006) (Caminho)] que Gonçalo M. Tavares vem projectando, construindo e povoando como um empreendimento literário-imobiliário que visa a dessacralização da figura do autor, declinada na condição duplicada dos sete primeiros condóminos. E numa arquitectura literária que recorre a um subtil mimetismo temático-estilístico capaz de retraçar fugazmente figuras da sua genealogia literária, reinventando a possibilidade de multiplicação dos possíveis que escapam à coacção da figura do autor, perseguindo, assim, uma história pessoal ficcionada e abreviada da literatura portátil.

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